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VERSÕES >> Carla Dias >>


Vai empurrando o dia, mesmo a lida providenciando pequenos dramas burocráticos, do tipo que ele não gosta de prolongar, mas que sempre duram mais do que deveriam. Feito a insistência da senhora em defender que fora desrespeitada, porque o dia, sim, o dia, não rendeu a ela o que renderia, não tivesse caído tal pé-d'água. Ele sorri e diz que a previsão é de sol escaldante no amanhã. Ela dá de ombros, e como se o dia realmente lhe devesse satisfação. 

Era nada, de se construir janelas d’água, nas quais mergulhar para chegar no lado de lá o nada.

Vive dessa isenção de gentilezas há um bom tempo. Não sabe dizer se sobreviveria de outro jeito: contornando absurdos com pormenores e silêncios, resolvendo desleixos. Está ali para servir ao desamparo encenado, para catalogar as culpas alheias e emprestar aos seus sujeitos explicações ilusórias.

Era de evaporar a solidão das linhas de chegada. De ler o olhar da ciência de segurar as mãos da madrugada.

Gosta de caminhar sem destino. Perde-se por aí com orgulhosa coragem. Às vezes, corre o risco de esquecer-se nesses lugares que o recebem sem dele exigirem recatado no sentir. Enlouquece por um tempo contado, depois cai em si, porque hábito pode ser cômodo e extremamente cruel.

De ler letreiro engasgado pela falta de palavra. De encontrar significado naquele nada.

Preenche incômodos com café com leite, sem espuma. Essa coisa de nuvem anuvia suas esperas. Há uma vida espera pela mudança, aquela que lhe renderá rebeldias deleitosas, de fazer demônios aplaudirem os anjos.

Há tanto nada nesse provável tudo, criado para justificar absurdos. Que havia nada lá, nada havia, nem mesmo a luz de iluminar partida.

Construiu-se assim. Sabe da sua parte nesse contrato entre a sensatez e o desvairamento. Há quem acumule objetos. Ele acumula pequenas, ainda que gritantes covardias emocionais. Sente-se atraído por elas e seus infinitos. Teme perdê-las, sem querer, ao flertar com o que seria se ele se rendesse aos acontecimentos por sete segundos, uns minutos, hora ou mais. Teme descobrir que poderia ter sido feliz com menos do que acumulou sendo o filho, o pai, o avô de alguéns que nem desconfiam do que mora nele.

Esteve lá, lá fica onde? Esteve lá sem companhia. Para observar o mundo, de um outro ponto de vista.

Segue a contrabandear sensações desse dia, alimentando-se das emoções do outro, não importa se ingênuas ou escoladas em picardias e ressentimentos. Quer apenas pertencer ao mundo, mas sem se olhar no espelho.

Porque olhar para si é tarefa que lhe renderá alguns tormentos e se sente velho demais para melindres. Melhor mantê-los do outro lado da porta. Melhor enterrá-los.

Imagem: Voice I © George Tooker

carladias.com

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