quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SOLITÁRIOS DISTRAÍDOS EM VARANDAS
>> Carla Dias >>


Fim de semana. Vizinho dela há anos, ele a observa quando a moça decide tomar sol na varanda, sentando-se em uma confortável poltrona para observar horizonte. Ela não sabe o que ele faz da vida, mas sim que o moço gosta de ler, porque sempre que o vê, ele está em companhia de um livro.

Nunca se falaram, trocaram olhares uma vez, a primeira em que foram até a varanda ao mesmo tempo. Depois disso, aprenderam a se ignorar, melhor remédio quando se deseja estar a sós, mas a varanda é colada à do vizinho.

Ela se acha uma pessoa de sorte, porque seu vizinho é silencioso, raramente tem companhia, não a importuna com problemas de seu apartamento. Ele acha que ganhou na loteria, porque sua vizinha gosta de música, mas o gosto deles é parecido, então ele não se incomoda quando ela extrapola. Até abre a porta que dá para a varanda, para escutar melhor a trilha sonora do dia.

Ela janta às sete, todos os dias, sem margem para atraso. Às nove já está na cama, porque acorda às cinco para se arrumar para o trabalho. Ele rumina comida de micro-ondas, depois que anoitece. A hora não importa. Vai para a cama quando sente vontade, às vezes dorme no sofá mesmo, mas às seis horas já está de pé, aprontando-se para o trabalho.

Nem mesmo essa narradora aqui sabe o que eles fazem da vida.

Mas ambos voltam aos seus apartamentos às seis, vinte minutos depois, no máximo, em dia em que o trânsito está complicado. Ela tira os sapatos, alonga-se e vai até a varanda. Observa a cidade, pensa no dia, no passado, no presente, no futuro, e depois, vai para debaixo do chuveiro. Após o banho, prepara o jantar, sempre algo simples, rápido e saudável. Ele arranca a gravata, como se estivesse se libertando de correntes. Praticamente salta na geladeira, em busca de uma cerveja gelada. Tira os sapatos, as meias, gosta de pisar no chão frio, depois de dia escaldante. Vai até a varanda, observa a cidade até o último gole.

Em determinado momento da noite, eles vão até a varanda ao mesmo tempo. Ela com sua taça de vinho e ele com o seu livro. Ela bebe, em silêncio, escutando ele folhear as páginas. Ele folheia as páginas, em silêncio, atento ao barulho da taça ao ser colada sobre mesinha. E durante essa sinfonia de sons que para eles já são cotidianos, eles se preparam para a solidão que os acompanha no interior de seus apartamentos.

Ela responde alguns e-mails de trabalho. Ele liga para a filha para desejar boa noite. Ela liga para a mãe para dizer que já está em casa. Ele escreve e-mails ao irmão falando sobre trocar de emprego. Às nove ela está na cama e ele no sofá, encarando o primeiro dos vários episódios, que assistirá durante a noite, dos seus seriados preferidos.

Ele nasceu no bairro onde vive e lá se casou e lá viveu e lá se separou e lá se refez da separação. Ela nasceu no bairro onde vive e lá fez seus planos, lá viveu, lá depositou as suas esperanças. Ambos acreditavam que, na idade que têm, suas vidas seriam bem diferentes.

Ela abre os olhos, sentindo que algo está diferente. Salta da cama e olha para o despertador: sete horas! O irmão cansou de dizer a ela que, além de todas as funções que ela conhece, o celular também é um ótimo despertador. Só que ela, apegada à lembrança do pai, não consegue se desfazer do presente que ganhou dele, há décadas, e o usa com exclusividade: um rádio relógio digital bege. Obviamente, ele falha quando falta energia.

Ele decidiu que ontem foi seu último dia de trabalho, que não voltaria ao lugar que o deixa, na melhor das hipóteses, deprimido. Acordou às seis, mesmo não tendo colocado o despertador do celular para trabalhar. Uma hora depois, seus pensamentos foram apontando para a pensão e os estudos da filha, o dinheiro que ainda deve para o pai, a televisão que está pagando parcelado.

Essa narradora continua sem saber o que eles fazem da vida, mas até que tem noção do que a vida pode fazer por eles. De tão distraídos que são, é ela que tem de resolver o desfecho.

Ela conversa rapidamente com o zelador, respondendo que não comparecerá à próxima reunião de condomínio, porque fará uma viagem de negócios. Ele sai do elevador e o zelador dá as coordenadas da reunião ao que ele responde com a resposta de sempre: “não vou à reunião de condomínio, minha irmã, a dona do apartamento é que vai”.

É a primeira vez que eles se encontram em outro ambiente que não o das suas varandas. Tudo soa muito estranho, como a maquiagem dela, que revela que a moça gosta dos tons ocres. E o tipo alinhado dele, que mostra que o moço sabe ser refinado. Eles botam reparo na versão hall de prédio residencial um do outro. Sorriem por cortesia, desviam olhares, enquanto escutam o zelador desfiar explicações sobre a reunião, informações que o síndico exigiu que ele espalhasse como se espalham – rápida e efetivamente – as fofocas. E apesar de ela querer perguntar o título do livro que ele está lendo e ele do vinho que ela gosta, eles voltam suas atenções ao zelador que, já sem palavras para dizer, os encara, esperando resposta. E eles sorriem um sorriso sem graça e vão embora, cada um para um lado, quando do lado de fora.
Como narradora, eu preciso me meter nessa história...

Eles não tiveram uma vida de novela com final feliz, como vocês devem ter idealizado, em algum momento. Não se esqueçam de que essa história é sobre solitários distraídos demais, que demoraram muito tempo para se reconhecerem, e que isso basicamente se aplica a todos os sentidos das vidas deles. Muita água passou por debaixo dessa ponte, antes do dia em que eles perceberam que a melhor coisa a fazer era juntar as varandas. Os dois apartamentos foram transformados em um com capacidade para abrigar a família que eles queriam constituir, com direito a três filhos desejados e a filha que ele tinha do primeiro casamento.

Os filhos não vieram, e um dos quatro quartos foi transformado em uma bela biblioteca, anos depois. A filha dele já era independente, então o quarto dela foi transformado em escritório. Pouco depois, eles decidiram que seria ótimo ter uma sala de estar maior, para receber os amigos e a família e disfarçar a decepção de estarem sós um na companhia do outro. E lá se foi outro quarto, agregado ao espaço comum da casa.

Eles não tiveram uma vida de novela com final feliz. Os altibaixos os fizeram suspeitar, e por mais de uma vez, de que melhor mesmo seria se nunca tivesse um entrado no universo do outro. Ela descobriu que ele era leitor assíduo da literatura que muito pouco a agradava. Ele descobriu que ela, moça que parecia tão descolada naquelas noites de varanda, era fã dos vinhos mais baratos do supermercado.

Mas não se apressem na conclusão do desfecho, porque eles foram felizes durante a vida que passaram juntos. Não do jeitinho que vocês ou o autor de novelas imaginaram. É que, como bons solitários e talentosos distraídos, sabiam que precisariam voltar ao passado, de vez em quando, para resgatar percepções.

As varandas, eles fizeram questão de manter separadas.

Às vezes, ele afrouxa a gravata, pega um livro e vai lê-lo na sua varanda. Às vezes, ela pega uma taça de vinho e se senta na sua varanda. E essa distância simbólica, essa encenação de quando eles se percebiam de forma muito mais atenciosa, distraindo-se um com a presença do outro, apesar de fazerem de conta que não se notavam, é que refresca a história que construíram juntos, que os permite revitalizar o sentimento.

Posso dizer, como narradora dessa trama sem tramoias, que distrair-se com o outro pode cultivar felicidade.

carladias.com



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terça-feira, 30 de outubro de 2012

VOCÊ NÃO VAI COM A MINHA CARA? >> Clara Braga

Sempre apreciei uma boa viagem, e para a minha idade, me considero até uma pessoa viajada. Já conheci belíssimos lugares, tanto dentro quanto fora do Brasil, mas sempre soube apreciar o momento de voltar para a minha linda cidade, que é Brasília.

Há um tempo, tinha medo de conhecer São Paulo. Tudo acontece em São Paulo, todos os shows vão para São Paulo, a maioria dos festivais de música acontecem lá, a bienal de arte está lá também, musicais que eu tenho vontade de assistir? Estão lá também! Enfim, é muita coisa que faz a grande cidade me parecer um tanto tentadora. Já fui a São Paulo umas duas ou três vezes, e essas vezes serviram para que eu não tivesse mais medo de nada. Adorei a cidade, e é bem provável que algum dia eu queira ir para lá ficar uma temporada, fazer um curso, quem sabe? Mas morar? Não, morar não dá, se as vezes eu já considero Brasília muito cheia e com um trânsito insuportável, imagine São Paulo! Não ia dar certo...

Outro momento crítico foi quando eu fui passar 5 meses na Austrália, minha família jurava que eu ia conhecer um lindo Australiano e ficaria por lá mesmo. Não só passei os 5 meses sem se quer andar de mãos dadas com alguém, como também morri de saudade da minha família! Amei a Austrália, voltaria lá inúmeras vezes, passaria outros 5 meses, mas morar? Não sei bem explicar o porque, mas acho que não moraria... Talvez seja por causa da quantidade de baratas que tem lá... Vai saber? Mas confesso que sinto muita falta de poder ir a praia todo final de semana.

Enfim... já fiz algumas viagens, mas sempre apreciei o momento de voltar para casa, de estar nessa cidade onde a gente consegue ver o horizonte, onde o céu é mais bonito do que em qualquer outro lugar e, mais importante ainda, onde está a minha família! Mas nos últimos dias tem sido difícil lembrar o porque eu troquei a praia por essa terra sem umidade! Confessa Brasília, você não vai com a minha cara?

Há dias que o meu nariz sangra, que o meu olho coça, que minha garganta arde, que minha voz foi embora e nem se quer manda notícias! Há dias que eu tenho vontade de não fazer nada além de tomar banho, há dias que eu arrumo meu cabelo para ir trabalhar e em questão de minutos ele já está molhado de suor. Há dias que eu bebo garrafas e mais garrafas de água e continuo com sede, há dias que eu não durmo tossindo por ter exagerado do ar condicionado ou porque acordo no meio da noite com o rosto grudando na fronha do travesseiro!

Sério Brasília, isso por acaso é algum tipo de teste? Você quer me testar até o último minuto para ver se é aqui mesmo o lugar onde eu quero morar? Porque se for isso, Brasília, eu tenho um recado para você: pegue leve no seu teste, pois não sei se você se lembra, mas além de você não ter praia, eu ainda não conheci nem Nova York nem Paris!

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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CIFRÃO TATUADO NO BRAÇO >> André Ferrer

Tão logo apaguei o fogo e a fervura da água cessou na chaleira, eu reconheci a sobreposição de ruídos que, aprisionados entre os edifícios da orla, distraía-me particularmente naquelas madrugadas insones. Da cozinha, percebi a primeira camada de ruídos: alguém que batia uma porta, que acionava ou desligava um alarme, que fazia um motor funcionar. A outra camada de sons — delicada como uma renda — vinha do mar: era o barulho das ondas.
Em Balneário Camboriú, a arquitetura constitui uma verdadeira caixa de ressonância em alguns pontos. O lugar onde eu morava em 1998 tinha essa qualidade acústica.
Da minha sacada, eu podia ver outros insones. Homens e mulheres que ficavam lá fora, sentados em cadeiras de praia iguais à minha, inseguros e reticentes, por terem perdido o sono. Alguns cigarros depois, entravam. À distância, eu observava as suas decididas silhuetas e sentia inveja de tanta coragem enquanto aquelas pessoas, uma a uma, retornavam para um tipo de luta que eu já considerava inútil.
Era início de outubro e estava quente mesmo às três horas da madrugada. No último ano, consolidara-se a minha paixão pelo mate amargo. Nem o calor do verão seria capaz de impedir-me de ter a cuia e a garrafa térmica ao meu lado.
— Eu não sabia que mateavas!
Virei o rosto. Sorri para a namorada do estudante com o qual eu dividia o apartamento. Ela debruçou no alumínio da grade, sorriu e colocou o cigarro aceso entre os lábios.
O fato inusitado queimou-me a língua por isso eu demorei a responder.
— É melhor do que fumar.
— Pois eu mateio e fumo sem dor na consciência.
— O teu namorado não gosta.
Ela sabia que o garoto condenava o tabagismo e, apesar de lageano, também condenava o chimarrão.
— Ele é natureba.
— Põe natureba nisso! Toda manhã, ele come um sanduíche de couve, tomate, pepino, brócolis, pimentão — debochei. — E para beber?! O sujeito vira um copo de liquidificador carregado de leite, cereais e frutas batidas!
— Eu sei. Até parece o André de Biase nas cenas iniciais do Menino do Rio.
— É um filme antigo — eu disse. Queria recuperar o sossego e, instantaneamente, vislumbrei um caminho direto e bastante curto.
Ela tragou e soltou a fumaça. Tinha quase o dobro da idade do rapaz que, além de vegetariano, carregava um sono pontual e regular.
— Você já era grandinho nos anos 80.
— Não tanto quanto a senhora.
— De onde você me conhece?!
Em toda a minha vida, eu nunca tinha visto alguém transmitir tanta certeza de que estava num beco sem saída. A mulher ficou pálida. Jogou o cigarro. Entrou na sala, tropeçou na mesa de centro e voltou a sair. Colocou as mãos no meu braço e, ajoelhada, quis que eu sentisse o seu coração embaixo da camiseta.
— Ele é chato. Se o teu amigo fosse legal, eu já teria contado sobre o meu filho. Sim, ele sabe a minha idade. Sabe que fui casada. Não contei sobre o menino porque o rapaz é chato. Rico, mas chato. Eu só queria mais alguns dias com ele. Tem o feriadão do dia 15 de novembro em Floripa. Eu conto. Sim. Vou contar! Tudo bem?! Amanhã cedo, eu conto. De qualquer maneira, ele saberá por você ou por outro amigo da faculdade. Homem é tudo assim! Uma verdadeira máfia.
Eu não sabia de filho algum. Sabia da idade. Do ex-marido. Sabia, ainda, que era professora e bastante rodada entre a Praia do Canto e o Baturité; que vivia na companhia de surfistas; que, de vez em quando, ela estapeava a macaca atrás dos quiosques da praia; e nada mais. Era isso! Algumas garotas, minhas conhecidas, apenas comentavam sobre o desespero financeiro da mulher. Uma delas, a propósito, numa noite parecida com aquela — pouco antes de me despedir e deixa-la com filosofia de sobra na mente e um travesseiro a lhe separar os joelhos —, não se cansava de perguntar o porquê de alguns rapazes, como eu, serem tão inacreditavelmente espertos a ponto de não se apaixonar.
Coloquei a bomba na boca e senti o amargo agradável do chimarrão. Mais do que nunca, estava acordado. Será melhor para ele, pensei. Livrar-se o quanto antes da pistoleira. Há tempos, eu sabia, a coroa ostentava o status de nora de médico na frente das amigas da orla e o filho do médico recebia lições hedonistas de uma versão ambiciosa e desesperada da Sylvia Kristel. Não. Eu não sabia do menino, mas estava ciente daquele tipo de mulher que rondava a orla. Eu já tinha encontrado algumas variações sobre o mesmo tema no interior do continente — bem longe do mar. Em 98, eu conhecia bem o perigo que as facilidades trazem. Eu evitava o torpor das facilidades. Procurava o caminho mais irregular e cheio de obstáculos possível a fim de manter os olhos acordados e a mente bem lúcida.
Quando amanheceu, tomei um banho e fui vigiar os dois.
Nem o café preto e forte obrigou-me a entrar de uma vez na cozinha. Reinava um silêncio abismal que só foi quebrado pelo liquidificador na velocidade máxima. O herói empertigado. Levantava o copo do aparelho quando a mulher começou a falar. Congelei. O garotão do papai, forte como um badejo, cifrão tatuado no braço, estava no início do gole! Vai se afogar, eu pensei. A mulher, irritada, parou no meio da frase. Dois olhos em cima de mim. Ela pediu licença. Eu, desculpas.
Frustrado, resta-me até hoje imaginar o momento da revelação. Naquela manhã quente de outubro, eu fui tomar o meu desjejum na lanchonete da faculdade minutos antes da minha aula.

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sábado, 27 de outubro de 2012

DA LOUCURA - que nos espreita... [Debora Bottcher]

Minha mãe vive num condomínio em Campinas, aos pés de uma colina que abriga um Hospital Psiquiátrico. Eu morei por lá muitos anos - não no hospital, mas com meus pais, que fique claro.

Durante as tardes, nos finais de semana, os pacientes são liberados para um passeio livre e circulam pelas ruas de 'fronteira fechada'. Eles riem e brincam com as crianças e os animais; desenham na areia, conversam com as flores, sentam-se no gramado para admirar o por do sol, silenciosos e com indecifráveis fisionomias.

Muitas vezes, ao observá-los ocasionalmente, peguei-me questionando se os loucos são os que vivem internos ou os que caminham entre nós. Afinal, quem são os ensandecidos? Uma versão de pessoas como eu e você - talvez mais verdadeiras, corajosas, excêntricas e destemidas...

Vejamos: você se lembra daquela vez em que mentiu com prazer, de ter mudado uma situação, contando-a de outro jeito, sem arrepender-se? E de sentir seu coração transformando-se em gelo, magoando indiscriminada e intencionalmente, parecendo não se importar com a dor alheia?

E de quando desejou ser criança para sempre? Você se lembra de uma ocasião em que falaram com você e você fingiu não escutar? Lembra de quando, num gesto brusco e descontrolado, derrubou tudo o que tinha sobre a mesa e gritou, fazendo tremer um quarteirão?

Você se lembra de ter sentido vontade de perambular por aí - ou até ter feito isso! -, sem destino, sem rumo, sem pressa ou vontade de voltar? Lembra-se de querer apagar o seu passado? Você se lembra de ter desejado acabar com tudo, morrer, ainda que remotamente e só por um segundo? De ter olhado para um vidro de comprimido e a garrafa de vodka, ou sentado-se na beirada de uma varanda alta, de estar dirigindo e olhado um penhasco, e ter pensado, mesmo que só num susto: "E por que não?"...

Você se lembra de ter enterrado as unhas na palma das mãos até sangrar? Já quis atear fogo à sua volta? Já desejou matar alguém - ainda que em legítima defesa! -, sem sentir qualquer vestígio de culpa? Já deixou-se ficar na cama, trancada num quarto escuro por muitas horas, até dias, abandonada especialmente de si mesma? Já deitou-se no chão e ficou ali, chorando ou não, mas incapaz de levantar-se?

Você se lembra de já ter-se olhado no espelho e não saber quem te olhava de volta?

É... E, afinal, os loucos não somos nós...

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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

INCOERÊNCIAS >> Zoraya Cesar



Um dos grandes desafios a que se propõe um ser humano em busca de evolução espiritual é andar na estrada estreita da coerência. Afinar o discurso com a prática e não deixar que seus impulsos mais primitivos ditem o seu comportamento exigem certa dose de sacrifício e exercícios diários. Alguns anos de prática, vigilância constante e oração permanente acabam por demonstrar que, na verdade, é muito mais fácil você fazer as escolhas certas e viver de acordo com elas, mas o fato é que nem sempre, e nem todos nós, conseguimos nos manter firmes no caminhar da estrada reta do ser quem se é, sem máscaras.

E a inconstância da qual somos feitos todos acaba por alimentar o lado escuro da Força, e olha nós aí de novo caindo em tentação. Pensamos que nos conhecemos muito bem, ou àquela melhor amiga, colega de trabalho, vizinho, e de repente somos apresentados a comportamentos totalmente diversos daqueles que esperávamos. E, como o vento que sopra lá também sacode o coqueiro daqui, pode acontecer de presenciarmos aquele ogro, aquela megera assumidos que, do nada, tomam uma atitude inteiramente avessa ao que pensamos ser o seu caráter.

Tomemos como exemplo você, que está aí, lendo essa crônica. Sim, você. Uma pessoa correta, honesta, não rouba, não se locupleta, não recebe nem um centavo de troco a mais, e, no entanto não hesita em contratar um hacker para quebrar a senha do correio eletrônico do seu namorado, marido, esposa, ou o que seja. O pior é que nem é por ciúmes não. Mas ficou curioso, procurou a oportunidade e aí... caiu na tentação.

Você já deve ter ouvido falar de algum gerente de uma empresa qualquer, acostumado a demitir pessoas todos os meses, porque resolveu implantar a maldita da reengenharia e pronto. Sai cortando cabeças sem dó, passa a caneta e olha para o outro lado. Um desalmado, um insensível. Que, ao chegar em casa, trocando uns dedos de prosa (nossa, como isso é antigo) com o porteiro, descobre que ele não conseguiu matricular o filho na escola municipal por falta de vagas. Mais tarde, o desalmado dá uns telefonemas e consegue uma bolsa de estudos para o menino numa ótima escola no mesmo bairro onde moram. E ainda paga o uniforme e o material escolar. E pede para o porteiro não comentar com ninguém.

Rapaz, você é o sonho de toda sogra. Trabalhador, honesto, doador de sangue, faz trabalhos voluntários, gentil, não levanta a voz nem quando está com raiva, se é que você sabe o que é isso, tão tranqüilo é. Zen. Isso quase definiria você não fosse o hábito, totalmente desconhecido aos amigos, de humilhar os subalternos no ambiente de trabalho, às vezes aos berros, em decibéis que sua família nem sabia que sua voz poderia alcançar.

E quem não conhece um salafrário? Aquela pessoa capaz de insinuar ao namorado da melhor amiga que ela não é tão fiel quanto ele julga; que angaria os louros por uma idéia que não foi sua; que sabota um colega de trabalho só porque não gosta dele. Quadro completo? Pois bem, agora o outro lado dessa moeda. Ao passar na rua, esse safardana percebe um vulto escondido debaixo de um carro; curioso, nosso conhecido se agacha e vê um gatinho abandonado e assustado, que provavelmente morrerá em breve, esmagado pela roda do carro, de fome ou de maldade. Ele hesita, hesita, e acaba por pegar o gatinho e leva-o para casa. Não podia deixar o bichinho ali, daquele jeito.

Ainda bem que podemos ser tão incoerentes, por vezes, não?

E aí, terminamos com alguma lição de moral? Não. Tampouco lembraremos que nem todo mundo, ou melhor, quase ninguém é o que parece. Nem aconselharemos a tomar cuidado com as aparências, ou a não fazer julgamentos apressados, percepções que você, a essa altura da vida, já deve saber muito bem, não serei eu a ensinar Padre Nosso a vigário (e lá vamos desenterrar outra antiguidade).

Terminaremos com duas singelas e inocentes perguntas: o que você é capaz de fazer em segredo que os outros sequer desconfiam? Você consegue controlar o lado escuro da Força?


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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CASAR OU COMPRAR UMA BICICLETA? >> Fernanda Pinho




Indecisa de carteirinha, de berço, de pai e mãe, resolvi fazer logo os dois. Primeiro eu casei e o casamento me trouxe à Santiago. E Santiago é um convite a pedalar.  Uma grande planície protegida pelas montanhas e cordilheiras, onde os parques brotam a cada esquina. E há também as ciclovias. E o respeito pelo ciclista. Por isso eles estão em um número cada vez maior e meu desejo de me juntar a eles existia desde que eu cheguei.

Não um desejo novo, mas o resgate de uma paixão antiga. Quando criança, meu brinquedo preferido ela minha Caloi rosa. Quando adolescente, naquele natal em que todo mundo ganhou o patins roller, eu quis outra bicicleta. Dessa vez, uma mountain bike laranja.  Desaparecer pedalando sozinha pelas ruas do bairro – ainda que a geografia de Belo Horizonte não seja tão generosa com os ciclistas como a daqui – era minha maior diversão e talvez o único trabalho que eu tenha dado para minha mãe.

Voltar a andar de bicicleta era uma promessa antiga, uma dívida que eu tinha comigo mesma e que Santiago me deu a oportunidade de pagar. O marido se animou com minha ideia e começou a averiguar quais seriam as melhores bicicletas para dois pretensos atletas.  Mais indeciso que eu (existe!), fazia meses que ele andava às voltas com nomes de marcas, modelos, especificações e mais um monte de detalhe que eu nem sabia que existia. Decidi então passar o carro – ou a bicicleta -  na frente dos bois. Minha vontade de pedalar estava gritando. Aproveitei a ocasião do aniversário dele, fui à loja, escolhi duas bicicletas e pronto! Eu sabia que ele ia gostar. Ele é libriano como eu e eu conheço nossa lógica: quando estamos com muita dúvida, é ótimo que alguém decida por nós.

Desde então, somos o casal mais ciclista dos Andes. A princípio, adotamos a bicicleta pelo puro prazer de pedalar e se exercitar. Mas já é notório que, de fato, se trata do transporte do futuro. Outro dia, de carro, pegamos um engarrafamento ainda na nossa rua. Não pensamos duas vezes. Abandonamos o carro no acostamento e pegamos nossas esbeltas (não gosto de chamar de “magrela”, trauma de infância). Ultrapassar os carros que continuaram estagnados me deu uma sensação de liberdade tremenda. E andar de bicicleta é exatamente isso: liberdade! Bicicleta é um meio de transporte sem nenhum tipo de amarra. Não tem trânsito, não tem combustível, não tem contramão. Qualquer esquina que eu cismo de dobrar me serve. Estou descobrindo cada pracinha, cada ruazinha. Uma nova Santiago se apresenta. Para mim, a forasteira, e para ele, o nativo. Sem pressa, sem carro, ele também está descobrindo de novo sua cidade.

E estamos descobrindo um novo jeito de se comunicar. Bicicleta não é transporte individual como parece.  No carro, estamos sempre conversando, é verdade. Mas nas bikes também. Desenvolvemos códigos, olhares, aprendemos a conversar em silêncio.

Aprendemos a conversar em silêncio. Achei isso tão legal que pensei em finalizar a crônica assim. Mas houve uma atualização de última hora: mostrei o texto ao meu marido e ele me confessou que continua fazendo pesquisas sobre acessórios para bicicletas e pensa em comprar um sistema de comunicação via bluetooth para a gente poder se falar durante as pedaladas. Nasce um novo dilema: continuar conversando em silêncio ou me render à tecnologia? 

www.viveremportunhol.blogspot.com

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A IMPORTÂNCIA DESSE OLHAR >> Carla Dias >>


É isso: pessoas nascem, vivem e morrem, às vezes deixam um legado a ser apreciado pela humanidade, em outras passam pela vida ao toque da tranquilidade escolhida. E muitos também deixam marcas que se tornam cicatrizes não somente imputadas às pessoas que viveram a situação, mas também à história do seu povo.

Há quem insista que a vida é somente aquela que vive, criando muros que delimitam o alcance da sua existência. Essas pessoas chamam isso de segurança, como a que oferecem a porta do barraco ou as câmeras do condomínio. Frágil segurança, não?

Viver ligado somente ao que compreende e atende às necessidades, às pessoas que vivem no mesmo ambiente, fechar-se ao que acontece a nossa volta não é, e nunca foi, a melhor maneira de se escrever a própria história, quiçá a de um país. E não insinuo que devam abrir as portas de seus barracos ou desligar as câmeras de segurança do condomínio. Falo sobre abrir os olhos, apenas isso, porque o resultado pode ser gratificante para o indivíduo e definitivo para o coletivo.

Nós progredimos, e se mencionarmos sobre como as coisas caminhavam há algumas décadas, fazendo um paralelo com como elas são agora, só a tecnologia apontará para mudanças estratosféricas. Nós evoluímos porque somos curiosos de plantão, porque pensamos o impensável. Evoluímos como profissionais capazes de fazer progressos científicos, de pensar o planeta de uma forma muito mais confortável ao ser humano.

Há muito a ser celebrado. 

Há também muito a ser repensado.

É que, frequentemente, nos vemos presos nessas bolhas onde construímos a nossa realidade que é somente parecida com os sonhos que tivemos. E também à sensação de que basta ser alguém nesse meio escolhido. Nosso olhar fica embaçado, cuidamos bem dos nossos afetos e colocamos nossos planos em andamento, como se no mundo mais nada acontecesse. Como se os dramas fossem apenas os que encaramos diariamente, empapuçados na rotina da dinâmica que mantemos com os que compartilham do mesmo espaço no mundo, na existência.

Escutei de uma pessoa esclarecida, que considero inteligente e conhecedora das mazelas da vida, que o mundo anda tão ruim que é melhor mesmo continuar a levar a vidinha de sempre, sem receber notícias que em nada tenham a ver com ele. Sabe como? Desligar-se do que aflige aos outros, criar um texto pronto para justificar a falta de importância com a qual muitos são tratados. Tratar como “coisas da vida” o fato de que a miséria ronda os arredores, que há sim quem se alimentaria por dias do que você comeu no jantar. De que há corrupção na política, na saúde, há conivência que amplifica a violência. E desrespeito com aqueles que, privados da própria cultura, são agora tribos que recorrem ao impossível para não serem partidas ao meio. E isso tudo, a meu ver, não são coisas da vida... São coisas do homem que, tendo sucesso no progresso, esqueceu-se de evoluir como ser humano.

É claro que o meu universo me conforta. Eu tento mantê-lo de forma que isso aconteça, é o que todos buscamos: uma vida que seja boa de ser vivida. Mas não fechar os olhos tem me ajudado de um jeito que qualquer conquista, ainda que o prazer através de carnês oriundos da sessão de eletrônicos de uma loja, não seja a última. E, principalmente, que não sejam apenas as que enfeitam o cenário da minha realidade.

Não é preciso abrir as portas dos barracos ou desligar as câmeras de segurança dos condomínios. Não estou panfletando sobre você ser outro que não esse que escolheu ser. Abrir os olhos, observar o que acontece a sua volta, pode colocá-lo na posição de, algum dia, ser uma das pessoas das quais o conhecimento e a opinião possa se juntar a de outros, fazendo a diferença na vida daqueles que dependem desse olhar mais atento.

Não acredite na bobagem que corre solta por aí. Uma pessoa pode sim fazer toda a diferença. 




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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NÃO - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

(Conceição chegou da fábrica e contou pra mãe que uma colega estava sendo assediada pelo encarregado. A mãe desconfiou que não fosse uma colega, e contou a história de uma ancestral, Filisbina, que nasceu num navio negreiro, cresceu numa fazenda e despertou a cobiça do filho do patrão).

Os tempos estavam mudados. Padre se metia em tudo que acontecia na Fazenda, rezava missa na senzala e batizava negrinho que nascia. Os abolicionistas botavam as garras de fora, berrando contra castigo em cativo preguiçoso. Era preciso ir devagar, na conversa, sem escândalo. Por isso patrãozinho ofereceu dois metros de tecido e um papagaio. Prometeu ainda tirar o irmão de Filisbina do eito e botar pra cuidar dos cavalos, que era o sonho de qualquer escravo. Mas Filisbina disse não.

Não, primeiro porque tinha nojo daquele sinhozinho que fazia questão de açoitar pessoalmente, só de maldade, só pra ver a pessoa gritando. E não, porque andava de rabicho com um capoeirinha que vivia rondando a Casa Grande por causa dela.

Disse não, e sinhozinho recrudesceu:

- Além do pano e do papagaio, eu tenho também o relho e o tronco. E você, Filisbina, tem um irmão e uma pele lisinha que nunca viu chicote.

Filisbina herdara a teimosia da mãe, que venceu a morte no navio. Disse não, e ainda botou barriga do capoeira. Depois passou meses escondida na cozinha, sob a proteção de sinhá.

Mas Sinhô e Sinhá viajaram pra Corte porque era tempo de coroação do principezinho. E o demônio se espalhou.

O irmão de Filisbina morreu no tronco e o capoeira morreu de tiro. Ela também passou pelo tronco mas foi vendida, com a barriga lanhada de chicote, porque prenhe valia um bom dinheiro, e sinhozinho já tinha que explicar prejuízo de dois negros.

Filisbina deu cria assim que chegou a outra fazenda. E teve outros filhos, e ficou velha, e os filhos cresceram, e tiveram filhos. Filisbina chegou a ver o fim do cativeiro e foi morar na favela, onde morreu pouco depois com muitos anos. E a favela é a mesma onde conversavam Conceição e a mãe. Depois da história, as duas foram dormir com a angústia do hereditário sofrimento.

Conceição acordou na hora de sempre, foi para a fábrica e subiu direto para a administração. Uma a uma as meninas foram chamadas. Ainda estavam lá quando chegou a vez do encarregado. Ele foi rapidamente despachado e saiu com olhos que flamejavam na direção delas.

Voltaram todas ao trabalho, ouvindo da nova chefe, Conceição, a história do não da Vó Filisbina.



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domingo, 21 de outubro de 2012

ACABOU?! QUE PENA... >> Sílvia Tibo

É o que digo a mim mesma sempre que termino a leitura de um bom livro. Ou quando, ao final de um excelente filme, as luzes do cinema se acendem e sou obrigada a me despedir da trama e me retirar do recinto.

É que costumo me apaixonar perdidamente por alguns personagens e às vezes é difícil aceitar o fim do relacionamento (de horas ou dias) que estabeleço com eles.

Vivo sempre esse duro dilema: ao mesmo tempo em que devoro a obra ou as cenas do filme, ansiosa por descobrir o final do enredo, temo pelo fim da existência daqueles personagens, com os quais, a essa altura, já guardo profunda intimidade. E torço para que eles retornem em breve ao meu cotidiano, num segundo volume da obra, quem sabe...

Por mais completo e sublime que seja o desfecho apresentado pelo autor, custo a me conformar com o fim da existência dos personagens mais queridos. Não raro me pego pensando neles, ainda por um bom tempo, imaginando que rumo tomaram suas vidas (reais ou fictícias).

Estranho?! Talvez. Mas tenho lá minhas esquisitices mesmo...

Houve um tempo em que, confesso, tentei me livrar de algumas delas. Mas já há alguns anos cheguei à conclusão de que, sem elas (as esquisitices), eu não seria eu mesma. Afinal, nunca tive a pretensão de ser normal. Ou, ao menos, nunca tive a pretensão de me enquadrar nos moldes daquilo que a sociedade impõe como normal.

Talvez por isso eu tenha me apaixonado tanto por Ester, a última personagem com a qual convivi, ao longo da semana passada, enquanto devorava a obra intitulada Por Linhas Tortas, de Cynthia França. Ao virar a última página do livro, sabia que sentiria falta do nosso envolvimento diário.

Após perder o pai de seu filho e seu grande amor, Miguel, durante um assalto na saída de uma agência bancária no Rio de Janeiro, quando se encontrava no terceiro mês de gravidez, Ester viu-se obrigada a trilhar novos caminhos, a descobrir novos rumos para a sua vida. E o fez, brilhantemente. Sem sucumbir aos obstáculos que a vida lhe apresentou, Ester se reergueu, admitindo para si mesma que era diferente e aprendendo a gostar disso.

Assumir aquilo que somos é, por vezes, um processo difícil e até doloroso. Sobretudo quando o que somos contraria aquilo que alguém, num belo dia, estabeleceu como certo. Ou aquilo que nos foi ensinado e imposto como sendo o melhor (ou o único) caminho a ser seguido.

Viver em conformidade com as próprias convicções, numa sociedade tão apegada a padrões de toda espécie, é no mínimo cansativo, porque nos obriga a conviver, constantemente, com o ar de espanto e a cara de estranheza daqueles que nos rodeiam. Difícil ser diferente sem se sujeitar ao olhar alheio. E o olhar alheio às vezes é cruel, porque se reveste de preconceito e rejeição. 

 - Você não gosta de pizza?! Como assim?

- Fez vinte e oito anos e não sabe dirigir?! Em que mundo você vive?

- Trouxe um romance pra ler em pleno carnaval?! Só você mesmo...

- Fazendo um curso de Design? O quê? Então abandonou de vez o Direito...

A despeito da total irrelevância de todos esses questionamentos, acreditem, todos eles já me foram feitos, milhões de vezes. Aliás, ainda o são, constantemente, com alto teor de estranheza e espanto.

Por um bom tempo, respondi a todos eles, educadamente, preocupada em demonstrar a razão pela qual eu preferia uma salada de frutas a um suculento pedaço de pizza. Ou em explicar que vivia bem usando o transporte público e que julgava mais importante e lógico tratar de ter um bom emprego e moradia própria antes de gastar meu tempo na autoescola e minhas economias na compra de um carro. Ou, ainda, em esclarecer que adorava carnaval, mas que não trocaria o final de um bom livro por qualquer balada. E, por fim, em explicar que fazer um curso do que quer que fosse não implicaria, necessariamente, em abandonar a profissão que escolhi.

Quanta energia despendida na inútil tentativa de explicar comportamentos que, no final das contas, em nada vão mudar o mundo! Mas, ainda assim, mil vezes o desgaste de ter que apontar, pela milésima vez (e sem qualquer esperança de ser compreendida), as razões pelas quais prefiro visitar a Índia a passar férias na Disney ou fazendo compras em Miami, em vez de optar por qualquer desses dois últimos destinos apenas para agradar a quem quer que seja, e ser incoerente comigo mesma. Afinal, não há traição pior do que aquela que praticamos contra nós mesmos.

Se é difícil ser diferente em aspectos tão bobos, fico imaginando quão árdua deve ser a rotina daqueles que rompem com padrões sociais realmente relevantes. Como os que assumem um relacionamento homoafetivo. Ou como aquelas que, por opção (ou por não terem alternativa mesmo), resolvem ter um filho sem passar pela (obrigatória) etapa do casamento.

Tiro o chapéu para aqueles que se aceitam e se mostram ao mundo exatamente como são, sem qualquer traço de hipocrisia e a despeito da crítica alheia. Bato palmas para aqueles que agem exatamente de acordo com aquilo que pensam e pregam, despidos de qualquer tipo de véu que lhes encubra a essência.

Não se trata de sair pelo mundo, num ato de rebeldia, expondo ideias desprovidas de qualquer fundamento simplesmente porque nos passam pela mente ou apenas para contrariar aqueles que se comportam de forma diferente.

Ser autêntico é ser coerente. É viver em consonância com aquilo em que se acredita. É ser leal e verdadeiro com seus próprios valores. É ser fiel a si mesmo. Trata-se de uma autenticidade positiva e construtiva, cujo exercício requer alto nível de desprendimento e autoconhecimento. 

Essa autenticidade talvez seja exercício para poucos, porque não são muitos os que estão dispostos a assumir suas convicções, rompendo com padrões e conceitos já estabelecidos. E, de fato, nem sempre é confortável a tarefa de se despir diante dos outros, arrancando máscaras, retirando vestes. Corre-se o risco da incompreensão ferrenha, da rejeição e do isolamento. Ou, ainda, da total e fria indiferença.

O fardo é grande, nos dois casos. Mas não é maior do que a frustração de se levar uma vida pautada em concepções alheias, que não guardam qualquer afinidade com aquilo que realmente somos.


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sábado, 20 de outubro de 2012

OS LIVROS DE MEU PAI [ANA GONZÁLEZ]

É possível ler pessoas através dos seus livros. Eles dizem quem é seu dono, quase falam em seu nome. Recentemente desmontei um apartamento de família lidando com várias camadas: os móveis, a infinidade de trecos de cozinha e de louças, as roupas e enfim, as últimas tranqueiras dentro dos armários.

Houve também a vez dos livros - que eram muitos. Meu pai formou uma imensa biblioteca que herdei em pedaços, o primeiro tendo sido aquele com assuntos jurídicos e espiritualistas, de ciências ocultas e de teosofia. Chegara a vez das estantes, grandes e cheias de cor e brilho, que tinham lugar perto da sala de visitas.

Destas estantes, uns quatrocentos livros foram levados pelo meu sobrinho.  Sobraram outros quatrocentos, quiçá quinhentos.  Encaixotá-los para trazer para minha casa foi trabalho de Hércules. Toquei em cada um, observando nome e assunto. Em meio ao pó, procurei adivinhar o que eles guardavam. Isso foi me abrindo um mundo imenso. Como se além dessa materialidade aparente, eu pudesse então desvendar mais da pessoa que habitou esses livros.

Empilhados em caixas maiores ou menores, eles ocuparam minha sala. Por onde eu olhasse, lá estavam eles. Em cima da mesa e do tapete, nos cantos - um horror! Mas, foi por causa disso que pude discriminar detalhes das páginas, algumas  amarelecidas, outras impecáveis e intocadas, tamanhos de letra, lisura do papel e tipos de capa. Mágicas páginas, cheias de personagens e histórias, significados e imagens.

Eram muitas enciclopédias, coleções de arte, filosofia, história, mitologia e literatura que, aos poucos fui recolocando em bibliotecas de faculdades, instituições e escolas. Em inglês, a enciclopédia Britânica e  uma outra de filósofos. Outra enciclopédia devia estar cansada de tanta velhice, pelos dorsos em letras douradas um tanto desbotadas, com pedaços faltosos e esquisitices de outros tempos como a grafia do ph. Numerosas coleções de história do mundo ocidental e oriental, livros de arte em francês e em espanhol, como a dos grandes museus do mundo.


Ele, que era emocional, com rompantes, rígido, introspectivo, sonhador e idealista, lá estava presente com sua parte mais bonita, com os desejos de toda sua alma. Ele tinha ambições enormes de conhecimento. Sabia da beleza da arte e da importância da visão histórica dos fatos. Gostava de mitologia, de filosofia, de literatura. Ele era um homem renascentista, procurando extrapolar os limites de sua pessoalidade. E talvez fosse muito solitário nessa busca humanista, sem ter com quem compartilhar tais desejos.

São aspectos de meu pai, um canto de sua natureza, entrevisto numa janela aberta que só a experiência de um tempo com seus livros pode me proporcionar.  E agora, insatisfeita, procuro por ele nestes livros que são potentes aberturas para o mundo imaginário.

Saio em busca dele, andando por um longo corredor, até que se abre uma sala à minha frente, um espaço com cores sóbrias. Vejo nela um homem sentado à frente de uma escrivaninha (a sua) com laterais entalhadas em madeira escura. Há quase uma neblina no cenário, talvez de meus olhos que querem chorar. 

Muitos livros em cima dessa mesa e outros ainda à sua volta pelo chão. De óculos, ele lê um livro aberto com um lápis na mão. Um abajur a seu lado ilumina sua mão, o livro e parte de seu rosto. Mal se percebe a janela e as cortinas desse espaço que não sei se é grande ou pequeno. O tapete tem cores vermelhas. As cortinas são pesadas.

Na saudade, quase acredito que ele me olha.

"Você está presente nesses livros não é mesmo, pai?", pergunto-lhe.

Não,  não tenho resposta.

Desse encontro impossível, sobram-me seus livros, somente seus livros conversando comigo.

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SOBRE MÚSICA E GAVETAS FECHADAS >> Mariana Scherma


De todos os poderes que a música tem, o meu preferido é o fato de ela nos transportar pra uma época pela qual já passamos e a que muito provavelmente deixamos pra trás por descuido, pressa ou esquecimento mesmo. É como se algumas canções em especial tivessem o poder de abrir gavetas de sentimentos que a gente mal lembrava que tinha fechado. Sim, este texto tem uma dose ou outra de melancolia. Mas é uma melancolia gostosinha.

Essa semana passei por algum carro que tocava Always do Bon Jovi, o que acordou em mim uma adolescente de 14 ou 15 anos que dormia em sono meio profundo. Explico: eu sou filhote dos anos 90. Foi nessa década que deixei de ser criança e virei adolescente. E, como não podia ser de outro jeito, sou filhote dos anos 90 musicalmente também. Bon Jovi embalou minhas primeiras paixões e as promessas de primeiras paixões. Alanis Morissette virou quase minha melhor amiga imaginária quando as primeiras paixões se provaram um barco furado nível Titanic, só ela entendia minhas frustrações. Aerosmith me fazia ficar sem piscar na frente da MTV esperando algum clipe começar pra eu apertar o rec do videocassete (caramba, foi no século passado!). Música funcionava como minha aula particular de sentimentos.

Meu vício nas emoções que essas canções me despertavam era tão gigante que eu passava as tardes de folga traduzindo as letras preferidas e foi graças a minha pureza dos 13 anos que perguntei ao primo mais velho de uma amiga o que a Alanis queria dizer quando cantava You took me out to wine dine 69 me em Right Through You ou como assim descer em você quando ela cantava Would she go down on you in a theater? em You Oughta Know. Lembro bem a cara de como-eu-saio-dessa do pobre menino ao responder “ah, um dia você vai entender. Ela usa muitas gírias e palavrões”. Ãham! Eis aí uma lembrança que me deixa com as bochechas coradas até hoje.

O fato é que eu ouvi um trecho mínimo de Always, mas foi suficiente pra me lembrar de como era bom carregar tantas esperanças... Sei lá por que a gente vai as perdendo no meio do caminho. E olha que sempre achei o romantismo de Always meio pedante, muito exagerado quando ele diz forever and a day e ainda mais ao cantar I’ll be there till the stars don’t shine. Caro Bon, quando as estrelas não brilharem mais, você não estará ao lado de ninguém, vai por mim! Eu sou mais a favor de um romantismo pé no chão, tipo em Born To Be My Baby, we both got jobs cause there's bills to pay. Enfim...

Quando cheguei em casa, quase pedi desculpas formais a minha coleção de CD dos anos 90, que ficaram esquecidos em função dos meus momentos quase cult e mais intelectuais. Sim, eu me forcei a ser uma fanática por Chico Buarque, não deu, só gosto. Também tentei viciar em Paulinho da Viola, quase funcionou: gosto mais que o Chico, mas menos que o rei Roberto e o Lulu Santos. Meu coração é meio pop, ué.

Mas o maior pedido de desculpa mesmo foi para a minha versão romântica e sonhadora dessa época. Agora que ela acordou, não vou mais deixá-la dormir: é só apertar o play vez ou outra de uma pérola dos anos 90, que, OK, pode não ser tão valiosa e cheia de poesia quanto um Chico, mas que desperta emoções tão bonitas quanto. Bom mesmo é saber que meus sentimentos têm uma pitada de samba, um porção de rock (um pouco farofa, eu sei), um punhado de pop quase rock. Vai ver, encontrar sua essência é se achar um pouco em cada letra, pouco importa o ritmo. Mas confesso que nunca me achei no axé e no sertanejo universitário, desculpa quem é fã.


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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O QUE EU QUERO >> Carla Dias >>

O que eu quero tem dias que é distante. É um mistério desvendado e outro adquirido, uma conspiração de desaforos do destino. Há quem diga que o que eu quero mora em outro mundo, e que às vezes até consigo transitar entre este e aquele universo, como se fosse um fantasma procurando abrigo.


Não se iluda... Haverá sempre alguém para lhe apontar o dedo e dizer que o que você quer é um despropósito, porque merecimento não é coisa para qualquer um feito você. Mesmo sem a menor noção do que você deseja, esse alguém desfiará um rosário de porquês para explicar que você não merece essa oferenda.

A oferenda do destino.

A oferenda doce e benevolente.

A oferenda que é o prazer de conseguir o que se quer, mesmo que em uma versão diferente do imaginado.

Sorte minha que não nasci com medo de dedos em riste e previsões que não agradam nem mesmo ao meu paladar criativo. E não me aborrece escutá-los dizendo as mesmas frases feitas de quem tem medo de querer. Porque o que eu quero é muito mais profundo que o medo que a maioria enfeita com uma sabedoria falseada.

O que eu quero tem cheiro de terra depois da chuva, gosto da lágrima transitando da face à boca, de uma naturalidade que não pode ser interpretada nem mesmo pelos atores dignos de um Oscar. Tem gosto das pequenas loucuras cometidas em nome dos afetos, como roubar do jardim alheio uma flor objeto de próprios delírios, para enfeitar os cabelos com essa contravenção.

O que eu quero roça dedos na pele dos segredos, provoca arrepios e o nascimento de versos, a poesia expatriada pelo pudor. Passa noite em claro, tentando encontrar solução para a saudade. E usa e abusa da felicidade, sempre que possível, porque diferente do pensam uns e outros, o que eu quero se deleita com o entusiasmo pela vida.

O que eu quero tem dias de amarrotado, roto, sonso, desbotado, debochado até. Às vezes penso que cheguei ao momento catártico de largar mão de vez dessa querença. Só que é curta a duração desse hiato, é um assopro, um susto, uma palavra escondida no silêncio, brincando de cabra-cega com as desilusões. Depois recomeço... Quero.

O que eu quero tem dias que é louco, um antes de um depois futurista. É urgência regida pelo maestro das certezas vencidas. Indelével e multifacetado querer. O que eu quero é quando, onde, é um quem que corresponde, iniludivelmente, ao que me falta aos berros em um coração pra lá de desacostumado a esquecer.

Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 16 de outubro de 2012

ESTRANHOS DIÁLOGOS >> Clara Braga

Na sala do médico fazendo exame para renovação da carteira de habilitação, esperando ele terminar de assinar toda a papelada necessária para liberar minha renovação. Então o médico começa aqueles diálogos estranhos, mas necessário, só para não ficar um silêncio incômodo.

- Então Clara, o que você faz da vida?
- Sou estudante, curso Artes Plásticas na UnB.
- Ah, bacana (com cara de quem não acha bacana)... Quem na globo fez Artes Plásticas?
- Oi?! (perguntei não porque eu não entendi o que ele perguntou, mas porque eu não entendi o que ele quis dizer com isso... será que ele estava dizendo que eu só tinha escolhido esse curso porque alguém na globo escolheu?)
- É, quem na globo fez Artes Plásticas como formação acadêmica?
- Não sei, acho que ninguém... (ainda sem entender)
- Como ninguém? Claro que alguém fez!
- É... alguém deve ter feito e eu não sei quem foi... (preferi responder assim para não alongar muito o assunto)
(... alguns minutos de silêncio depois...)
- Artes Plásticas não é aquele curso que mexe com coreografia e cena?
- Aaahh, (ele estava confundindo com artes cênicas) não, artes plásticas é aquele que mexe com pintura, escultura, fotografia...
- Então, é a mesma coisa!
- É, é a mesma coisa... (melhor não contrariar, afinal, ele pode negar meu pedido de renovação.

Não sei o que ele quis dizer com “é tudo a mesma coisa”, mas admito que me ofendi um pouco, será mesmo que ele não vê diferença entre ir a uma exposição de arte e ir a um teatro? Bom, vou continuar não contrariando, vai que ele lê essa crônica e decide alterar meu exame, vou concordar, é tudo a mesma coisa, é tudo arte, até a ignorância pode ser uma grande arte!

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

UM POUCO ACIMA DAS CUMEEIRAS >> André Ferrer

A verdadeira evolução da espécie acontece quando aprendemos a fazer parte da multidão sem que percamos a individualidade. Ser só individualista é ruim. Mais uma ovelha no rebanho, péssimo. Encontrar o equilíbrio entre o coletivo e o individual, entretanto, não tem sido uma tarefa simples para o ser humano. A começar, é claro, pelo abandono do maniqueísmo que impossibilita este achado. Sem equilíbrio, como é ordinário acontecer, ou nos tornamos egoístas ou nos transformamos em gado.
A arte do meio-termo, infelizmente, não se acha nos manuais técnicos. Há manuais, decerto, e muitos datam de séculos. Alguns, aliás, desapareceram. Outros quase não chegaram às gerações futuras e, se ocorreu, estão distorcidos pela oralidade. Marcados na rocha e nos pergaminhos, apesar de sagrados - e da incontestável autoridade -, pouco trazem de pragmático no que se refere ao domínio humano do necessário equilíbrio entre o eu e os outros.
Para que servem tais instruções? Para dominar mediante a fascinação e o terror. A arte do meio-termo foi apagada ou, se menos do que isso, foi adaptada à hipocrisia dos poderosos.
Antes e depois da Revolução Francesa, existiram e existem reis e cleros. Depois, com a completa absorção do esclarecimento pelo despotismo, persistiram reis e cleros infinitamente reproduzidos em tipos móveis, em cores e via satélite. O rebanho na outra extremidade da fibra ótica. E as violas - belas violas - recheadas de bolores invisíveis embaixo de filigranas e arabescos feitos de ouro e nácar.
Penso nisto quando vejo excesso de transcendentalismo ou de religiosidade nas pessoas. Fico à espera daquela escorregada porque ninguém conserva a santidade por vinte e quatro horas. Nada mais falso. Nada mais vergonhoso. Nada mais abjeto! A melhor escolha é a sobriedade. Jamais levantar bandeiras insustentáveis. Relacionar-se discretamente com as crenças. Porque, sem demora, surge a contradição.
"Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento", diz a oralidade ancestral e, repentinamente, bloqueia-me a organização de técnicas.
Ora, quem sou eu para tais prescrições? Um punhado de átomos prestes a se dispersar? Um pastor de dúvidas. Um inocente receptáculo do nada sob o firmamento. É isso que sou, mas nem assim tenho direito de recomendar as regras do bem viver a quem quer que seja. E poderia?! Um naco diante dos séculos. O meu terror, apenas, é maior do que o mundo! Só porque sinto verdadeira gana de compensar o meu fim ordinário, teria o direito de usar esse conhecimento mágico e incerto acumulado em auxílio da espada e do cadafalso para ser alguém um pouco acima das cumeeiras?
Há perigo em supervalorizar o exterior quando não se dá conta de fazer com que o interior acompanhe. Não dá para competir! Melhor fugir aos vexames. Por que poucos, na história da humanidade, conseguiram se garantir externa e internamente.


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domingo, 14 de outubro de 2012

ÁRVORES EM EXTINÇÃO >> Whisner Fraga

É claro que eu tomava o cuidado de chamar o estabelecimento de “mercearia”, enquanto outros, sem a mesma sensibilidade, sustentavam que se tratava de um bar. Na verdade era um bar também, na medida em que ali se serviam bebidas alcoólicas e que era frequentado por bêbados e pedintes de toda espécie. O fato é que ficava numa esquina da rua 14 e tinha um banquinho do lado de fora, que usávamos para os encontros entre amigos.

Em frente havia um terreno vazio. Bom, afirmar que estava “vazio” era meio complicado. Só não havia nada construído nele, nenhuma casa, nenhum sobrado ou prédio. Outro dia passei em frente e, honestamente, não me lembro se vi uma construção ali. Minha memória é estranha, parece que existe só para me envergonhar. De qualquer maneira, naquela época, jogavam entulhos e outros lixos na propriedade. Os vizinhos, para não conviver com a possibilidade de alguma doença, retiravam periodicamente os objetos, limpando o local.

Um pé de tamarindo, enorme, sadio, chamava a atenção em meio ao descaso naqueles seiscentos ou setecentos metros quadrados de terra. Nós, adolescentes, adorávamos. Passávamos a tarde inteira nos deliciando com a fruta, até que saíamos dali com o céu da boca esfolado e a língua em carne viva. Não nos importávamos, pois dali a dois ou três dias estaríamos prontos para outra. É uma boa lembrança que carrego de Ituiutaba.

Hoje, posso me gabar de ter plantado seis tamarindeiros. Nenhum deles está crescido a ponto de oferecer o fruto, mas chegarão lá. O mais velho tem pouco mais de um ano e está fincado entre dois prédios, na instituição em que leciono. Mal consigo conter a ansiedade de ver a minha filha, daqui a alguns anos, tentando colher as vagens marrons dos galhos mais baixos. Plantar uma árvore é uma das sensações mais interessantes que um ser humano pode experimentar e por isso recomendo o vício.

Gostava também de jenipapo, uma baga difícil, aromática, um pouco rançosa. Tem um traço natural de álcool, como se o sol destilasse a polpa e enviasse aos de paladar pouco exigente. Vou ao varejão e não encontro jenipapo para comprar. Há dez ou mais anos não vejo as copas altas de um jenipapeiro. Encomendei uma dessas árvores numa flora perto de casa e nada. Não chegou, não conseguem encontrar a muda. Falo para as pessoas e parece que ninguém conhece, ninguém ouviu falar e eu tenho a sensação de ter descoberto algo em extinção, o que me deixa triste. Não aprecio coisas em fase de desaparecimento.

Jabuticaba, maçã, pera, uva, lichia, laranja, mexerica, mamão, quero que minha filha cresça comendo essas delícias. Ela já come, aliás. Aqui perto de casa abriram um sacolão que vende somente frutas orgânicas. Lá fazemos a festa. É mais caro sim, mas não podemos confiar nossa saúde aos agrotóxicos que infestam tudo que ingerimos. Em casa tenho uma jabuticabeira, uma figueira e uma pereira. Vou plantar muito mais, porque o mundo é mais bonito verde e as plantas nos ouvem com muito mais atenção.

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sábado, 13 de outubro de 2012

O PODEROSO E A MARMOTA
[Carla Cintia Conteiro]


Dizem por aí que se você realmente quiser conhecer um homem, é preciso dar-lhe poder e se você quiser saber quem é uma mulher, basta separar-se dela. Maldade! Há mulheres poderosíssimas sem noção e muitos homens mal-amados. De qualquer forma, como o que determina as ações e reações de um ser humano é a sua capacidade de resiliência e sua autoestima, aí estão as situações em que uma pessoa vai se mostrar integralmente.  Pois não é alguém com o auto-conceito bem avacalhado que sentirá prazer em pisar em outro ser humano? Do que é capaz quem carece dos instrumentos psicológicos para seguir em frente depois de uma rasteira amorosa?

Fair play e classe atestam o bom berço. Elegância quando se está ganhando ou perdendo também pode ser a parte visível de quem teve a sorte de encontrar algum bom mestre pelo caminho em algum momento na vida. Sobretudo, distinção e dignidade nos momentos de glória ou miséria fazem parte daquilo que temos de mais íntimo, aquilo que alguns chamam de caráter. É isso que pode dominar aquele instinto espírito de porco de humilhar um subalterno ou arranhar o carro novo do ex.

Sabe aquele momento em que o chão se abre sob nossos pés? Bem quando alguém pensa que tem o outro na mão, num relacionamento sólido e inabalável e, sem aviso ou depois de ignorar todos eles, toma um pé na bunda ou não há qualquer outra opção senão por um ponto final em tudo? Esta é a hora em que a porca torce o rabo. Quem vai chorar abraçando o travesseiro por um tempo e depois levar a vida adiante, a renovar a alegria todos os dias? Quem vai traçar planos mirabolantes de vingança? Quem vai abandoná-los e até rir deles e quem vai tentar levá-los a cabo? Quem vai procurar todas as chances de infernizar a vida alheia, numa busca desesperada pela atenção irremediavelmente perdida, abrindo mão de todas as chances de buscar a própria felicidade em troca da ilusão de que poderá impedir a felicidade alheia? Quem vai ficar preso ao dia da marmota? Quem vai dar a volta por cima?

As medeias demonstram sua pouca evolução espiritual não apenas com sua dificuldade em perdoar, mas na incapacidade de escolher a luta mais adequada aos mentalmente saudáveis: a busca por seu contentamento, não pelo desgosto dos outros. Porque o sofrimento não é licença para a perversidade, nem a retirada do amor eterno prometido ou imaginado é crime punível com prisão perpétua a uma alma atormentada. Pelo contrário, até aqui no Brasil, cada vez mais a Justiça se sensibiliza com aqueles que são vitimas da ira dos recalcados e dos rejeitados. A Lei Maria da Penha não é só para mulheres. Homens também podem denunciar agressões sofridas. O stalking, cujo significado literal é “atacar à espreita”, também conhecido como síndrome do molestador, ainda é considerado apenas contravenção penal por essas bandas, mas isso vai mudar em breve, se tudo der certo. Essa odiosa prática de uma pessoa insistir em perseguir outra, mesmo sabendo que esta não o deseja por perto, segue a passos céleres para a criminalização.

Entretanto, ao contrário do que se pensa, não é apenas a dor que faz aflorar o lado sombrio das criaturas humanas. Um momento de fortuna, que irá empoderar o sujeito, pode colocá-lo diante de seu monstro interior. Pode ser que, secretamente, ele tenha imaginado a vida inteira ser merecedor de mais do que tinha e, agora, quando finalmente alguém lhe atribui valor e ele galga algumas posições hierárquicas ou sociais, não precisa mais disfarçar a vontade de vingar-se de todas as humilhações sofridas ou fantasiadas.

Aquele que espezinha quem pretende em posição inferior à sua pode pensar que engana alguém com seu nariz empinado, mas todo mundo sabe que ele é um coitado, cheio de traumas não curados, provavelmente mal dotado no físico - certamente no espírito.

Também o chefe mau tem que ficar mais atento, contudo. Assédio moral no ambiente de trabalho é passível de punição não apenas dentro da própria empresa, mas diante de um juiz. Tendo tudo documentado, com ajuda de testemunhas, é só buscar uma das Delegacias Regionais do Trabalho e lutar pelos seus direitos para acabar com os abusos.

Assim, os dois tipos, tanto o opressor quanto o perseguidor, padecerão no inferno do desamor e da mais profunda solidão existencial, enquanto não lançarem sobre si mesmos um olhar franco e misericordioso. Acompanhamento médico e psicoterapia são indicados. Algum auxílio espiritual também. Até porque, entre outras coisas, correm o risco de terem que cumprir uma etapa atrás das grades.


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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AS COISAS DO PAPA E OUTRAS VIAGENS
>> Zoraya Cesar


Cada pessoa tem seu modo particular de viajar. Há os que planejam minuciosamente cada detalhe, os que nada planejam e, das mil maneiras de viajar, a melhor é aquela que se adapta à sua personalidade.

Mas, de qualquer maneira, é aconselhável saber onde está e a importância do lugar visitado, se não pelo aspecto histórico e cultural, que seja para não desperdiçar tempo e dinheiro. E, se não for muito esforço, aprender algumas frases e palavras básicas, ou por cortesia, ou, ao menos, para evitar situações constrangedoras. E, pelo amor de Deus, exercitar algumas regras simples de respeito ao próximo (de onde tiramos nós, brasileiros, essa mania horrenda de falar tão alto que podem nos ouvir a mais de 20 metros de distância?).

No entanto, nem todos pensam assim e, como disse, cada um viaja à sua maneira. Querem ver?

Perdidas – Se é para ficar perdido, que seja no Forum Romano, que é mais elegante. Estávamos procurando no mapa o templo de Júpiter, quando duas brasileiras se aproximam e perguntam como sair daquele lugar esquisito, pois não estavam encontrando nada para ver! Como se não bastasse, ainda perguntaram o que, afinal, era esse tal de Forum Romano, e se despediram com essa (atenção, não é para estômagos fracos): “Então é isso? Que coisa sem graça”...

Nada a fazer em Paris – Um conhecido achou por bem nos aconselhar, do alto de sua vasta experiência, a passar apenas dois dias em Paris, suficiente para conhecer a cidade toda, bonita sim, mas sem muitas opções de lazer, garantiu. Ele, por exemplo, pegou o ônibus de turismo, passeou o dia inteiro e subiu na Torre Eiffel. Museu? Só o Louvre, para tirar umas fotos com a Mona Lisa (quadro bobo, disse, não sei o porque dessa coisa toda). O segundo dia passou andando e dormindo nos Jardins de Luxemburgo. Então, perguntava-nos, repleto de certezas, o que mais há para se fazer em Paris? Somente a caridade me impediu de responder.

Café preto – local: recepção do hotel; personagens: duas brasileiras (de novo, de novo) e um garçom francês; ação: elas apontam para a máquina de café. Essa é uma palavra de sonoridade parecida em várias línguas, mas, ainda assim, porque falar com o garçom, não é mesmo? Apontar basta. Elas reclamam que o café estava fraco e o devolvem. Agora, atenção à imagem: duas mulheres falando alto e ao mesmo tempo caféeeeeee, assim, com a última sílaba bem alongada, uma apontando para objetos escuros, gritando preto, caféeee preto, enquanto a outra apontava para o próprio bíceps contraído falando “forte, bem forteeee”. Sinceramente, eu prefiro não passar por esse tipo de situação.

Sorvete – Uma amiga voltou de viagem indignadíssima com a indelicadeza da gerente de uma livraria francesa, que não permitiu que ela circulasse entre os livros carregando uma casquinha enorme de sorvete. Um absurdo, falou, como assim, o que tinha de mais? Gente mais fresca, esses franceses. Mas me vinguei, disse, dei uma lambida enorme no sorvete, bem na cara da tal gerente e saí sem comprar nada (eu resolvi não me manifestar. Não quis perder a amiga, uma pessoa querida).

Pintura na parede – Essa é dolorosa, mas é rápida. Quem não acreditar pode ler de novo. Saindo do Convento Santa Maria delle Grazie, onde está exposta a Última Ceia, de Leonardo da Vinci, ouvi o seguinte comentário saído de dentro de um grupo de, adivinhem, brasileiros (e como não ouvir, se falam tão alto quanto uma sirene enlouquecida?): “ Ah, então é isso? Uma pintura meio apagada na parede? Paguei para isso?”.

Uma reles capela – Há vários motivos para se ir ao Vaticano: religiosidade, interesse artístico ou histórico e até simples curiosidade. Seja qual for o motivo, no entanto, presume-se a pessoa saiba onde está.

Então, caro Leitor, não presuma coisa alguma, é melhor. Assim, você não se espanta com a cena que presenciei: em plena Basílica do Vaticano, as pessoas em silêncio respeitoso ou falando em voz baixa, passa por nós um grupo de rapazes - brasileiros – conversando em voz altíssima, um deles ao celular: “E aí, cara, tô aqui numa capelinha”. A bem da verdade, um de seus colegas corrigiu-o, mas o tal, não se dando por achado, nem perdido, esclareceu “tô na capela Vaticano”...

Eu poderia dizer “pano rápido”, mas tem mais uma envolvendo o Vaticano: duas brasileiras (e precisava dizer?) se aproximaram e pediram ajuda para comprar o lanche - italiano não tem muita paciência para esperar que você se faça entender e a fila estava longa. Começamos a conversar, perguntamos se estavam gostando da viagem, e uma delas mandou essa: “Ah, é meio chato, né, a excursão levou a gente para ver as coisas do Papa...”. As ‘coisas do Papa’. Agora sim, pano rápido e esvaziem o proscênio, que o incêndio é grave.


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