sexta-feira, 31 de julho de 2009

NINA >> Leonardo Marona

Hoje não farei. Não direi por que vim até aqui. Não pedirei a seres irreconhecíveis que me dêem passagem ou justifiquem meu desprendimento. Hoje estou por um fio, e estou feliz. Hoje não quero mais a afirmação de que posso rir. Hoje falarei a sério. Não falarei num futuro composto. Não direi dessa vez: “Hoje vou falar a sério”. Mais importante seria dançar algum jazz verdadeiro. Falarei, de fato, pouco de mim. Certamente – não se engane, falo a mim mesmo – pensarei em Hemingway, Dylan Thomas, em como conseguiram, mesmo sem conseguir. Pensarei em Charles Bukowski, em como, sentado diante da máquina, criou espancamentos em frente às janelas do inverno. Pensarei, portanto, em meu pai. O Demônio da Harmônica cessou toda a música, os pulinhos e passes diante do inevitável tombo, ele está morto, com um baralho cigano dentro do paletó. Pensarei no quanto amo meu pai, no quanto dói não saber dizer simplesmente isso, saber que as coisas não são simplesmente isso. Mas mesmo assim quero quantificar. Quero quantificar tudo que amo demais, quero quantificar. Quero saber se é tudo, nada, força alguma. Quero saber o que me impede de saltar pela janela nu, ensaboado, fugindo da enfermeira, da novela das seis. Mas hoje, já disse, não farei. Hoje vim para ouvir os pequenos pianos. Hoje vim para fazer dos pequenos pianos meus pistões. Que me perdoem Hemingway, Dylan Thomas, Charles Bukowski. Terão de suportar sozinhos a gastrite cósmica. Hoje vim para dizer um amor baixinho. Como o anel que Nina Simone leva ao nariz ao fim da primeira estrofe, cheio de cocaína. Um amor decadente, pianíssimo, que não cabe nos altares e nas filas de sonhos rápidos, como lindas flores de plastificadas. É um amor que se arrasta na guerra para salvar o amputado que agoniza em ventosas vietnamitas. Mas, hoje, nada de tiros, membros amputados, nada será arranhado no olho da noite. Hoje mandarei as famosas leis do amor à merda. Não aquelas com as quais fazemos os votos falsos da nossa falta de tato. Farei as vezes do garoto perdido para apenas me deixar corromper com o ralo do mundo em que já não mais cabe. E onde está a força com que farei? O fôlego insensato de quem realmente começa imaginando terminar o que nem sabe? Onde acaba, Nina, esse estalo de dedos, onde acaba a energia que vem do anel?


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quinta-feira, 30 de julho de 2009

COMPRAS >> Kika Coutinho

Eu adoro comprar. Assim como adoro comer. Em ambos os casos, sempre exagero um pucadinho. E, ao chegar em casa cheia de sacolas, é inevitável que eu precise de uma estratégia mirabolante:

— Amor, que sacolas são essas?

— Hã?

— Querida, não acredito que você comprou mais roupa. Que sacolas são essas?

— Amor, você não vai acreditar!

— Ai, lá vem...

— Amorzão, escuta essa. É sério. Eu tava no shopping, andando. Imagine, eu sabia que não tava em tempo de gastar, claro.

— Mas gastou...

— Não, não, escuta, querido!

— Tá. Fala.

— Daí, entrei nessa loja, que você sabe que eu amo.

— Sei.

— E foi incrível, amor! Eu entrei, dei o primeiro passo e, de repente...

— Ai, o quê?

— Começou um barulho, tipo um alarme: pe-pe-pe-pe-pe-pe-pe, bem alto, sabe?, disparando!

— Alarme? — ele já estava interessado.

— É, era um alarme... Eu cheguei a pensar que era fogo, né, shopping, você sabe...

— E o que era?

— Vai ouvindo, amor, vai ouvindo...

— Ai, conta!

— Daí, junto com o alarme, umas luzes piscando, fortes, e, num instante, um letreiro, um luminoso, desceu e estava escrito "PARABÉNS", bem grande, "VOCÊ É A MILÉSIMA PESSOA A ENTRAR NA LOJA". Eu tomei um susto, amor!

— Ai, não acredito que eu tava quase caindo nessa piada...

— Não é piada, é sério! Eu fui a milésima pessoa a entrar na loja e tinha direito a um monte de roupas... Não que eu quisesse, querido, mas eles me deram, eu fui escolhida. Bem eu, hein, que nunca ganho nada.

Ele já estava rindo.

— Amor, é sério!

— Ok, essa foi boa...

— Quer ver o que veio de prêmio? Eu mesma nem vi direito. No calor da emoção, né?

— É.

— Olha, amor, vieram essas blusinhas, coincidentemente são a minha cara, não são?

— Nossa, é mesmo, que coincidência...

— Lindo, eu sou mesmo muito sortuda de ter ganho essa promoção, né?

— Ah, é. Isso é mesmo. Ô.

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

CODINOME >> Carla Dias >>

Adotei um codinome.

Ontem eu era isso, anteontem aquilo, mas hoje eu tenho um codinome que é para ele assumir minha existência e viver os segredos que não cabem no meu nome. E o meu codinome tem um heterônimo, porque está escrevendo um livro imaginário e não quer se assumir intelectual ou autor de diário.

Antes, bastava ter codinome, mas já às portas dos quarenta anos de idade e de toda modernidade que veio junto, tive de dar a ele abrigo. Então, além de heterônimo, meu codinome tem Twitter, Blog, Facebook, Orkut, Myspace, MSN, e-mail, até conta no Youtube!

Ele quer ganhar o mundo.

Meu codinome é metido a cineasta... Gosta de filmar pessoas que gargalham à toa, que choram à toa, que amam à toa, que odeiam à toa. Adora as expressões dos rostos delas quando o sentimento as tomam.

Esse codinome não pode ter nome no SPC, no address book do Outlook de ninguém, não frequenta lista de convidados de festas, não está em certidão de nascimento. É um codinome itinerante e que não deixa rastros.

Solitário, meu codinome vaga entre invenções pragmáticas, porque deu de ser rebento dos dramas. Atua como se vivesse a própria vida, alheio ao fato de que sua existência consiste em assinar a autoria dos meus desvarios.

Às vezes, invejo meu codinome e me ofereço para lhe fazer companhia. Escorpiano no âmago do signo solar, ele se nega a abandonar a melancolia que o sustenta para sorrir ao meu lado, esquecido de que basta eu apertar a tecla DEL e ele não existirá mais.

Mas quem disse que tenho essa intimidade toda com a tecla DEL?

Antes do meu codinome, codinomes assinavam cartas de amor, missivas sobre abandono e encontros fascinavam transeuntes do imaginário alheio. Alguns viviam à mercê dos casos e descasos, outros até conseguiam superar o nome do seu autor, vivendo a vida como se estivessem interpretando um personagem inesquecível, dos que espectadores desejam encontrar na rua e se sentirem próximos a ele.

Acho que meu codinome é ‘das antigas’, como já ouvi dizerem de algumas pessoas. Ele gosta de passar tempo olhando horizonte, os gestos das mãos dos que buscam liberdade, os cabelos dançarinos dos que correm em busca de si mesmos... e encontram outros tão parecidos com eles que soam diferentes.

Há dias em que pego emprestado meu codinome e, ao invés de responder mensagens, selecionar imagens, publicar frases, eu saio pelo mundo sendo.



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domingo, 26 de julho de 2009

TEM DIAS >> Eduardo Loureiro Jr.

lucas hoppus - flickr.com
Tem dias que a gente acorda com um engasgo no peito, na garganta, nos olhos. Tem dias que o sonho -- mesmo o quase amargo pesadelo -- parece mais leve que a vida, e os olhos resistem à luz do sol. Tem dias que é melhor deixar fechadas as janelas da alma mesmo com o quarto cheio de muriçocas. Mas até esses dias têm seus compromissos, seus afazeres, suas promessas a serem cumpridas de outros dias mais antigos e felizes.

Tem dias que a gente nem estranha quando liga o rádio do carro e o MPB-4 começa a cantar "tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu". Tem dias que a gente fala por falar, ouve por ouvir e faz tudo no piloto automático. Nesses dias, até a esperança desespera, os milagres parecem miragem e a crônica crônica não se permite ser escrita.

Vó Izolda e netosTem dias que a gente quer o escuro do quarto, o horizontal da cama, o silêncio da desconversa, mas se vê numa festa de família, na casa da amada tia, entre a avó de 87 anos e as grávidas barrigas da irmã e das primas. Tem dias que a gente tem que jogar crokinole com a sobrinha-filha, fazer gracinhas para o encantador filho da filha da prima, conversar sobre literatura com o primo querido, ver o vídeo emocionante da festa de 70 anos da mais velha tia, esperar a mãe e a irmã conferirem o enxoval do aguardado sobrinho, assistir à final da Liga Mundial de Vôlei com um bando animado de tios, primos e agregados...

Tem dias que a gente tem que deitar pra dormir com a namorada e percebe que ela foi uma boa companheira, que nos deu o merecido descanso, que esteve lá -- presença suave -- feito quem senta à beira de um poço seco e, ao invés de ficar batendo com o balde no fundo, se distrai com o céu, à moda de rezar pra chover.

Tem dias que têm noites em que a gente adormece agradecido pelo rádio, pela música, pela nossa gente, pela parentada toda. Tem dias que têm noites em que a gente sonha escrever, no dia seguinte, uma crônica pós-datada sobre um domingo que poderia ter sido o fundo do fundo do fundo, mas que foi a raiz da raiz da raiz, sugando o precioso alimento no escondido da terra.

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sábado, 25 de julho de 2009

DOS MEDOS DE AMAR [Débora Böttcher]

A boca que se esconde sob a barba levemente grisalha procura a dela para um beijo breve e delicado. No instante seguinte, um vulcão emerge do nada, dois seres se fundem, só os sentidos governam...

As mãos dele lhe seguram o rosto, vagarosamente tocam seu corpo, passeando por um caminho muitas vezes percorrido que é sempre como a primeira vez. Vai desenhando nos atalhos dela seu desejo, tatuando sua ansiedade, despejando seu cansaço recebendo algum tipo de paz que não é possível definir.

Seu cabelo escuro tem o tom do trigo; as mechas douradas dela tornam-se negras. A moça quase não percebe mais sua pele clara: ela se mistura à relva morena que a cobre e aquece, e ambos são revestidos de novas vestes, a nudez pura que salta do ar, lobo e águia se amando na superfície da névoa. Um só...

Seus olhos azuis são castanhos, castanhos azuis os dele, luz e sombra brincando com reflexos na penumbra da claridade opaca. Mais tarde, são de todas as cores, espelhos que fotografam a imagem serena e complexa da alegria.

O segundo que os acolhe se figura eterno. O momento se perde na imensidão incontida de um espaço sem dimensão, o mundo inteiro guardado entre quatro paredes, toda magia da abstração escondida nos cantos dos dois amantes.

Alguma música sempre os envolve, mansa e suave, embora ao longe se perceba um silêncio que reina: os rumores que moram na alma vão falando através da ausência de sons, derrubando os mistérios, todos os segredos desvendados sem que nada precise ser dito... Se conhecem...

Quando a loucura inocente se aquieta, estão banhados de suor e brilho, confundidos e perdidos um no outro, o riso dela ecoando dentro dele, seu carinho lhe roçando a face, incansável... Mil beijos... Assim são...

Muito tempo depois, ela ainda está aninhada em seu peito, o braço dele sobre seu ventre. Tranqüilo, derrama sobre ela o peso do seu descanso, o sono calmo. Ela se concentra em sua respiração pausada, o ruído baixinho de vida adormecida ao seu lado.

No meio da noite, num delírio momentâneo, sente-o à sua procura: ela está ali, e todo o universo sombrio da inquietação se desfaz - de volta ele se entrega ao país da inconsciência.

Às vezes, ouve que a chama. A voz embaraçada e distante, um murmúrio que lembraria um sonho... Um sorriso lhe aflora: sabe que agora é parte das brumas que o visitam quando ele está inerte e desprovido de defesas; um pedaço dele, metade que completa seus próprios vazios... A moça sabe que disso ele tem medo...

Ela adormece na madrugada alta, devagar deslizando para o estado tênue onde a escuridão é soberana e parece estancar tudo ao redor.

Quando o sol se levanta e pelas frestas da janela se instala, ainda se guardam um no outro. Todos os vestígios de si estão cravados nas arestas de seus poros, o perfume...

Novo dia começa. Contradição e dúvida os perseguem: de repente, descobrem que não podem fugir dos traços que o destino escreveu. Em ideogramas dourados, na folha em branco que os ventos carregam, seus nomes, lado a lado. A memória abarcou... Num relâmpago, a recordação se faz verdade...

Disso, têm medo os dois...



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sexta-feira, 24 de julho de 2009

A CHEGADA DOS VELHOS AMIGOS >> Leonardo Marona

Vocês estão para chegar, a essa altura já estão aqui, e me pergunto: Será que nos reconheceremos? Não mais de um ano se passou desde a última partida. Jogávamos um jogo intenso de olhares, mas havia algo a ser dito que se enterrou na garganta. Pergunta: São os engasgos do que deve ser dito que nos tornam mais velhos? De todo modo, espero por vocês, mas sei que essa frase é inviável. Não espero, porque estou em pedaços, e cada pedaço espera alguma coisa. Mas tenho uma única boca, então sou obrigado a generalizar: Espero por vocês. Mas, na verdade, o que são vocês, aquilo que espero? Talvez que a amizade venha dos códigos silenciosos, e agora é como se precisássemos dizer qualquer coisa – e faltam mais que palavras, falta o fôlego, o mesmo com que disputávamos irreais corridas pelas ruas onde o resto do povo se acotovelava rumo à doença, e nós éramos poetas franceses com nossos largos colarinhos. Mas agora me acotovelo junto a macas infectadas. Máscaras nos rostos, eles já não esperam por ninguém e estou na multidão. Não quero saber mais onde vocês estão, mas quero o sentimento dos pulmões ainda cor-de-rosa, das sílabas preciosas que, ingênuos, colhíamos a dedo, do desespero fácil da ressaca romântica. Onde nós os que colhíamos mendigos ensangüentados? Onde nós os que púnhamos as câmeras pelas janelas dos carros? Onde nós os que desafiávamos a natureza com silêncios desconfortáveis? Ficamos nalgum porto? Desbravamos guerras setentrionais? Seguimos as correntes apresentadas e puxamos nossos chapéus na direção de níqueis temporários. Minhas lágrimas são do tipo que afugenta o rosto na direção contrária ao vento. Queria agora a delicada situação de estarmos, uma vez mais, vendados diante do milagre. Espero por vocês nessa tarde fria de vento forte, ruim para as folhas amareladas, que se despencam, elas também, excluídas. Debruço-me à janela e algo em mim pressiona na direção inadequada. Queria o algo se diluindo em excêntricos passos de dança. Os passos sem volume de uma constelação permitida. Mas fui calçado com fogo a quatro patas por uma urgência padronizada. É exigido que progridamos. Arrematado com um tiro, cumprimento estranhos nas ruas, faço o meu melhor, morro aos pedacinhos e, acima de tudo, esqueço, a cada dia, um pouco mais. Contudo, o sangue escorrendo, espero por vocês. Espero por vocês como quem, amordaçado, espera pelo grito.


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quinta-feira, 23 de julho de 2009

REPOUSO >> Kika Coutinho

O médico me mandou ficar quatro dias em repouso. Quatro dias em casa.

Quando ele disse isso, excluindo-se as preocupações com o bebê e tal, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Uau! Que delícia, quatro dias inteirinhos só pra mim!" Imediatamente fiz uma lista de todos os livros que iria ler, dos filmes que iria ver, das receitas que poderia pegar na Ana Maria Braga, dos filmes da sessão da tarde, uma vida novela, enfim.

O médico disse, ainda, que não precisava ficar deitada o dia todo, mas para evitar ficar andando muito. Tudo bem, posso me locomover dentro da minha casa que é meu reino absoluto. Não havia mundo melhor.

Preparei uma espécie de QG na minha cama. É QG que se chamam esses escritórios policiais? Ali deixei uma pilha de livros, algumas revistas, meus óculos, os telefones, os controles remotos, um rolo de papel higiênico caso espirrasse e, claro, o computador.

O primeiro dia foi ótimo. Mandei alguns e-mails, assisti ao “Hoje em dia” e li um pedaço de um livro para grávidas. À noite, confesso, estava um pouco entediada. Mas sentia-me descansada e revigorada. É por isso que as madames das novelas são tão bonitas, claro. Vivem repousando, como uma garça...

Segundo dia, acordei cedo porque deve haver um espírito ignorante dentro de mim. Eram 8h da manhã e eu assistia à Ana Maria Braga. Ela iria ensinar a fazer cural de milho. Humm. Estava um pouco monótono, liguei o computador. Havia lido todos os blogs, visto meus emails, fuçado no orkut de gente que eu nem lembrava mais, e ainda eram 11 horas da manhã. No “Hoje em dia”, assisti ao concurso de beleza, aprendi como guardar as roupas nos armários, como fazer um escondidinho de carne seca, e ainda ouvi muitas, muitas vezes sobre a promoção da Maggi que vai levar o Edu Guedes pra cozinhar na sua casa. Cheguei mesmo a ir até a cozinha ver se eu tinha produtos Maggi pra participar. Posso ficar de repouso enquanto o Edu Guedes cozinha para mim, né? Não tinha os produtos, mas fuçar na despensa atrás deles foi a minha grande aventura do dia. Voltei para a cama, quase ofegante. Nossa, que stress que é ir até a cozinha!

No final do dia, já tinha lido até o pós-parto desse livro que acompanha a gravidez mês a mês. Já liguei para todas as minhas amigas, já fiz xixi 254 vezes (porque é uma movimentação ir ao banheiro), já tinha perdido os óculos no edredom 5 vezes, já tinha visto a entrevista do padre Fábio de Melo na Marília Gabriela, a do Obama, que está no Chile, na GloboNews, além de muitas reportagens sobre a gripe H1N1. Dúvidas sobre como se prevenir da gripe? Me procure.

Quando meu marido ligou, perguntando as novidades, informei a ele que os pombos têm uma bússola dentro deles e são capazes de achar o caminho de volta mesmo tendo se distanciado mais de 200 km. Pena que eles são umas pragas. Vocês sabiam? Eles são ratos de asas! Meu marido não estava interessado. Mas eu também já tinha aprendido a fazer pilates com a Luiza Brunet, já percebi que o homem da pamonha também passa por aqui, bem como o sorveteiro, e notei que uma obra na rua aqui da frente é interrompida de hora em hora, exatamente. Quase desci pra perguntar por que eles cavam tanto.

Já arrumei toda a agenda do meu celular, organizei os textos antigos, e até torci para alguém me passar um trote que seja, pra passar um pouco mais o tempo. Ainda são 6 da tarde, e faltam 2 dias – séculos – de repouso.

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOMOS >> Carla Dias >>

Eu sou assim, desse jeito desdito, desengonçado, tenho meus momentos de presteza e desenvoltura, e em outros me sinto estacada no chão. Às vezes grito, mas com a mesma intensidade, eu me calo. Se me viro do avesso, nem pense que é por causa do conforto que não tem braços longos o suficiente para evitar a dolência provocada pela queda.

É que gosto mesmo de ver a mim de dentro pra fora.

Tem dias que não gosto de absolutamente nada que me dão para comer, nem mesmo do que escolho no menu do restaurante, assim como saborear aquela bolacha água e sal, na hora da fome louca que só, continua uma delícia, mesmo que tenha de dividi-la com quem está ao lado.

Dividir em momentos como este é desafiar o egoísmo que impregna o ser humano, que é eloquente. O egoísmo tem um quê de sabedoria soberba.

Para odiar é preciso técnicas revolucionárias, como aquela que nos ajuda a não nos importar com o outro. Mas não adianta querer transformar amor em ódio, depois que o amor morou tanto tempo na alma da gente que pode se transformar em ressentimento, mágoa, mas não em ódio. Para isso acontecer, efetivamente, o um teria de matar o afeto do outro de um jeito tão tirano que significaria que sua própria alma foi esvaziada de vez.

A indiferença é um bicho maluco. Ser indiferente é não se importar de um jeito enorme. Para se conquistar a indiferença é preciso alcançar essa enormidade toda. Parece fácil, mas não... Até para freqüentar o pólo negativo de si mesmo é preciso um refinado talento.

Às vezes, estamos todos assistindo ao mesmo filme, mas na hora de contar a história para aqueles que não foram ao cinema, bom, cada um tem uma versão, o que é realmente inspirador, contanto que deságue na mesma trama, que ela não se perca em abismos imaginários.

Acontece de uma pessoa estar sentada na primeira fila do teatro e a outra na última, em certos momentos de suas vidas, ainda que já tivessem dividido o mesmo lugar milhares de vezes, e até as mesmas angústias, a mesma vida, cada uma na sua, mas sintonizadas pela amizade que cultivaram. Pode acontecer de, neste espaço que as separa, estarem sentadas centenas de mal-entendidos, de mágoas, de pseudo-indiferenças, porque a indiferença crua – reacendendo a chama do assunto - é para os que jamais experimentaram o gostar, o se preocupar, o se aninhar no universo do outro até que o medo de viver passe.

E ele passa, ainda que por um tempo. E este intervalo provido de amansamento é necessário para alimentarmos as emoções capazes de desabonarem a força dos maus agouros.


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terça-feira, 21 de julho de 2009

AMIGO DISTANTE >> Albir José da Silva

Há uns amigos com quem estamos sempre quites. Ou, quando estamos devendo, é por pouco tempo. Logo pagamos uma visita, um telefonema, um presente de aniversário. Caminhamos em paralelo, nunca nos afastamos ou nos chocamos com eles. Para esses, ligamos no Dia do Amigo ou pedimos desculpas depois por não ter ligado. Com eles vamos às festas, aos bares, ao trabalho, à escola, ficamos tristes ou alegres conforme eles estejam.

Outros deixaram de ser amigos. Chocaram-se conosco. Desses dizemos que não eram realmente amigos, porque amigos não fazem isso. Que não mereciam nossa amizade. Que gastamos tempo e afeto com eles. Que não souberam honrar a amizade. A esses não procuramos e evitamos encontrar. Chegamos a prevenir outros amigos: -- cuidado com ele. Como somos boas pessoas, não lhes queremos mal, mas não nos interessam mais. Não há o que contabilizar da amizade, a não ser algumas mágoas. Viramos a página e estamos em paz.

Mas há um terceiro tipo de amigo, com quem nunca nos chocamos, que também não caminha conosco. Não houve qualquer conflito, mas os passos se distanciaram por imposição do terreno e até hoje não entendemos direito o que aconteceu. Quando vimos que estávamos nos afastando, ainda acenamos como se já fôssemos nos encontrar, retomar as paralelas e continuar a vida. Fomos ficando distantes mesmo com planos de reaproximação. Não sentíamos tanto a ausência porque voltaríamos a andar lado a lado como sempre.

Os dias viraram meses e os meses, anos. A distância e o tempo foram aumentando e a vida nos empurrando por caminhos divergentes. Começou a ficar incômodo pensar naquele amigo. Uma culpa por não ter vencido as distâncias e os silêncios e resgatado a amizade que com certeza permanece intacta. Amizade de irmão eleito, que dividia o lanche e a casa; que emprestava a roupa e os pais. Amizade de saber que teria se o outro tivesse, ou que a falta não doeria tanto porque seria compartilhada. A vida separou. Ficou a nostalgia que insufla ternura no peito em que ficou um espaço. Espaço que tem dono. Volte ou não volte o amigo, o lugar está lá.

É pra você, amigo distante, o meu abraço de hoje. Saiba que você está comigo, esteja onde estiver.

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domingo, 19 de julho de 2009

O JOGO >> Eduardo Loureiro Jr.

As regras eram as seguintes:

a) eu pediria insistentemente;
b) ela negaria até o fim.

E depois:

c) ela mudaria de ideia e me ofereceria o que eu havia pedido antes;
d) eu, por minha vez, recusaria a oferta.

Esfreguei os olhos com a lateral dos dedos indicadores. E lhe pedi o anel.
Ela negou.
Friccionei a manga direita da camisa sobre meu olho esquerdo. E lhe pedi novamente o anel.
Ela continuou negando.
Perguntei a ela se havia um cisco ou um cílio em meu olho.
Ela moveu suavemente seu polegar e o indicador direito sobre o meu rosto, abrindo delicadamente meu olho esquerdo.
"Não vejo nada", ela disse. Mas continuou passeando os dedos em meu rosto à procura da causa de meu incômodo.
Eu agradeci a tentativa. E renovei o pedido do anel.
Ela renovou a negação.
Eu argumentei. Depois supliquei.
Ela, "não". E "não".

"Pensando bem, vou lhe dar o anel".
"Não, obrigado".
"Mas você queria tanto".
"Nunca quis".
"Mas você pediu".
"Pedi o que você não me daria para que você me desse o que você me deu e que não adiantaria eu lhe pedir".
"Mas eu não lhe dei nada".
"O carinho no rosto, o carinho que eu tanto queria".





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sábado, 18 de julho de 2009

AMOR NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE [Cristiane Maria Magalhães]

Tinha uma música que tocava quando eu era criança e que nunca me saiu do pensamento. Ainda pequena, sem entender nada dos jogos da vida, esta canção me fazia chorar, pois aquilo que ela dizia eu conhecia muito bem. O amor dos pais é o sentimento que a gente experimenta primeiro. As mãos grandes e as vozes protetoras reconhecemos de longe. Ao ouvi-la ficava pensando: onde já se viu um filho fazer isto com um pai? E imaginava que aquilo só podia ser história inventada.

A letra da canção era assim: “Conheço um velho ditado, que é do tempo dos agais. / Diz que um pai trata dez filhos, dez filhos não trata um pai. / Sentindo o peso dos anos sem poder mais trabalhar, / o velho, peão estradeiro, com seu filho foi morar. / O rapaz era casado e a mulher deu de implicar. / "Você manda o velho embora, se não quiser que eu vá". / E o rapaz, de coração duro, com o velhinho foi falar: / Para o senhor se mudar, meu pai eu vim lhe pedir / Hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair / Leve este couro de boi que eu acabei de curtir / Pra lhe servir de coberta aonde o senhor dormir / O pobre velho, calado, pegou o couro e saiu / (...)”.

Ficava imaginando aquele velhinho caminhando sozinho pelas estradas afora, doente e cansado. Morrendo de frio, padecendo de fome. Era uma história que eu achava muito triste e dolorida e jurava que nunca, nunquinha ia fazer uma coisa daquela com os meus pais.

Muito tempo depois aprendi um sábio princípio bíblico, que diz “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra”. O princípio é claro, não deixa dúvidas: é preciso honrar pai e mãe para que te vá bem pela vida afora e, indo bem, tenha uma vida longa e boa. Uma matemática simples de entender e, em tese, de colocar em prática.

Se não for pelo princípio em si, vale pela obviedade da sentença. Filho que não honra, que não respeita pai e mãe, a quem mais vai respeitar? A quem mais vai amar, se não ama aqueles que o amaram primeiro? Aqueles que sonharam consigo antes do primeiro gesto? Claro que existem pais e pais... mas estou me referindo a um tipo comum de pai e mãe: aqueles que fizeram o melhor que podiam para os seus filhos, mesmo agindo errado quando acreditavam que faziam o certo.

Eu penso nos pais que abrem mão de seus próprios sonhos, enfrentando jornadas duplas ou triplas de trabalho para entregar aos filhos aquilo que lhes é mais caro: a sua juventude, o resultado precioso de horas de trabalho extenuantes muitas vezes resultantes de desrespeito de chefes medíocres, de lágrimas escapulidas no silêncio dos seus quartos enquanto os ideais se perdiam no torvelinho dos dias e nas muitas horas de sono afanadas pela doença – ou capricho dos filhos.

Com sacrifícios e abnegação estes pais proporcionam aos filhos a vida que, na maioria das vezes, eles mesmos não tiveram, como estudos e viagens. E os filhos sonham e voam. Voam alto, voam para longe daqueles que o criaram, num movimento natural da vida.

Com o passar dos anos, o processo se inverte: agora são os pais que estão carentes de afeto, de atenção e, principalmente, de cuidado destes mesmos filhos que eles amamentaram com o próprio sangue. Pais doentes, pais envelhecidos e arqueados pelo trabalho, pelas amarguras de uma vida inteira, precisam agora do apoio daqueles a quem dedicaram tanta afeição e ternura. Os pais super-heróis de antes se transformam naquele velho sertanejo da música cantada pelos antigos. Seguindo o princípio bíblico e o processo natural que seria de esperar destes rebentos, os pais não teriam com o que se preocupar. Para ser mais clara, a bíblia se repete no mesmo tema, na forma de Provérbios: "Ouve a teu pai, que te gerou, e não desprezes a tua mãe, quando vier a envelhecer."

Princípios bíblicos esquecidos é o tom da música que vejo se repetindo inúmeras vezes bem aqui, do meu lado. Filho crescido, bem empregado, família constituída, coloca os pais para dormir no chão, nas raras ocasiões em que estes o visitam na bela e confortável casa que construiu. Não há um quarto reservado para receber os velhos e amorosos pais, não há um espaço na vida daquele homem respeitável para dedicar àqueles que bancaram sofrivelmente os seus estudos na capital, não há sequer uma palavra de gratidão e afeto por parte daquele filho, ainda tão amado. Numa outra família, a mesma história. Uma mãe doente e enfraquecida é negligenciada pelos seus dois filhos. Não há na casa de nenhum dos dois um espaço para aquela silenciosa e resignada mãe. Também é num colchão velho e sujo, estendido no chão da sala, que ela passa dias e noites quando precisa estar com um ou outro, durante as crises da doença. E esta mãe, com os olhos sempre vermelhos e muito abatida, perambula indefinidamente com sua sacola de poucas roupas puídas, ora na casa de um parente, ora na casa de um vizinho, buscando abrigo perto dos de longe, porque os filhos do coração não a querem. E ela arrasta os dias e as noites, como se fosse um estorvo no mundo. Logo ela, que sempre sustentou a si e aos seus dois queridos filhos, chora em silêncio ao perceber que as pernas não respondem mais ao estímulo mental. Ela se pergunta o que fez de errado para merecer tamanha dor e abandono. E eu, sem resposta, escondo o rosto para que ela não veja as minhas lágrimas.

O inusitado nestas duas histórias é que os pais não reclamam do tratamento recebido dos filhos. Ao contrário, continuam nutrindo por eles amor e cuidado, sempre justificando a falta de afeto. E ainda aparecem correndo quando são chamados numa hora de necessidade dos filhos, para doar o pouco que lhes resta.

“Hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair / Leve este couro de boi que eu acabei de curtir / Pra lhe servir de coberta aonde o senhor dormir”. A velha balada sertaneja se repete todos os dias, bem aqui, debaixo dos meus olhos e eu ainda choro em silêncio, porque o velho avô que antes eu via na minha imaginação infantil, agora são muitos e tem rostos e nomes e eu conheço muito bem as suas histórias – tão infelizes quanto aquela da canção.

Por que é tão difícil que os filhos amem aos seus pais com o mesmo amor que eles lhe dedicaram? Lembrem-se, filhos ingratos, tão certo como a noite vai cair ao final do dia é a certeza de que vamos envelhecer e estaremos tão lentos e teimosos como os nossos pais e não há nada que faça a roda do tempo girar para consertar os erros do passado.

Colecionadora de Palavras

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

MICHAEL JACKSON (1958 - 2009) >> Leonardo Marona

foi preciso mais de um mês
para secarem as manchetes,
a saliva das hienas familiares,
cessar a boataria provinciana.
agora passa mais de um mês,
os dentes do mundo trituram
tua carne pútrida, as hordas
se aglomeram sobre o vazio.
estamos todos de mãos dadas,
rumo ao que mesmo teu corpo,
mais perfeito que a suposição
de deus ou de esferas métricas,
não pôde suportar, e tua morte
não é tua morte, é nossa morte.

falavam sobre ti, sobre teu sexo,
porque representavas nossa falta.
dos teus distúrbios psicológicos,
para escamotear as taras diurnas
com as quais damos leves passos.
mas teus passos não eram passos,
eram surtos, convulsão mitológica,
para nós, que trombamos nas ruas,
e desprezamos o gênio para amá-lo.
como o teu pai, com pedaço de pau,
batemos em ti até a morte, e agora
nos perguntamos: que fazer da sobra
com que nos arrastamos pelos dias?
que falar de ti, que parou o tempo?

queira nos perdoar, mister Jackson,
pelos restos que te demos em troca
da mágica do herói de video game.
queira desculpar por ter ofuscados
os olhos quando furaram teu peito
com as agulhas que mantêm vivos
os semimortos, sem cor a cada dia.

você foi a risada mais cruel de deus,
que te aprisionou num corpo mortal,
que te fez perguntar: mas e que cor?
não há cor, Michael, só há perguntas.
não há dor também, restos de pranto.
estamos empoleirados e, sem chapéu,
sabemos que pouco há que se fazer...

a não ser ir atrás da eterna infância
e criar passos que nos façam deslizar
imóveis para trás, sobre a pele da lua.


http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 16 de julho de 2009

VIAGENS >> Kika Coutinho

Há alguns anos atrás eu trabalhava em uma grande empresa e estava alocada em um projeto global, portanto estava na mesma equipe de pessoas que ficavam do outro lado do mundo e tinha diversas conversas telefônicas com os americanos.

Foi numa tarde normal, em que eu falava com uma gringa, que tive um instante de susto quando ela disse qualquer coisa como:

– Você estará disponível no dia tal a tal para participar de um workshop aqui em Chicago?

– What?! – foi o que eu respondi...

A gringa continuou falando, explicando, e eu achei que meu inglês devia estar mesmo muito ruim, porque tinha entendido que a mulher estava me chamando pra ir pra Chicago, imagine. Pedi pra ela mandar tudo por e-mail alegando que a ligação estava ruim. Acontece que, depois, ela me mandou mesmo tudo por e-mail, e era verdade. Alguém agilizou meu visto, passagens, hotel e etc. Estava mesmo tudo certo, mas eu custava a acreditar.

No dia de embarcar, quando cheguei ao aeroporto, cheguei a sentir-me relutante ao fazer o check-in. Eu estava muito envergonhada porque tinha a nítida sensação de que a mulher do check-in ia me dizer, espantada: “Senhora, de onde você tirou essa idéia de que iria para Chicago? Não tem nenhuma reserva aqui com o seu nome, deve ter sido um engano.”

E eu nem sei que cara ia fazer porque, na verdade, para mim, era óbvio que seria um engano! Quem, no mundo, ia pagar pra eu ir pra Chicago a não ser eu mesma, em 10 vezes? E nada tinha caído no meu cartão.

Muito sem graça e timidamente, fui até o balcão e dei meu passaporte. Decidi não falar nada, qualquer coisa iria me fazer de surda e muda e sumiria dali em dois tempos.

No entanto, para a minha surpresa, tinha mesmo uma reserva, e eu fui para Chicago sem gastar um tostão. Outras viagens se seguiram depois dessa, de forma que nem achei mais tão grande coisa assim.

Mas a história volta à minha cabeça hoje, toda vez que vou ao médico para ver o meu pequeno bebê, porque tenho uma sensação muito parecida com a que tive naquela noite, no aeroporto. Vivo achando que o doutor vai pôr aquele ultrassom na minha barriga, olhar, olhar, olhar e, de repente, vai dizer: “De onde você tirou essa idéia de que está grávida? Não tem bebê nenhum aí!”

E eu, mesmo com todos os papéis e exames, vou ter que ficar calada porque, de certa forma, é óbvio. Onde já se viu carregar um bebê, inteiro, vivo, dentro do bucho? Nas minhas piores cenas, imagino o médico lavando as mãos, se despedindo de mim e dizendo: “Essa barriga aí deve ser de cerveja. Dá uma maneirada, né?” Enquanto isso, eu saio sem graça, sem nem saber que gosto tem um chopp...

Acontece que, como no aeroporto, a realidade é muito melhor do que a minha tola imaginação pode acreditar. O médico sempre mostra o bebê, a mãozinha, o pezinho, tudo se mexendo, o coração batendo alto, enquanto eu fico bem calada, perguntando-me como a vida pode ser tão generosa comigo. É ainda mais inacreditável e muito, muito melhor, do que ir para Chicago...

www.embuchada.blogspot.com
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

DESCORTINÁVEL >> Carla Dias >>


Sonhos recorrentes me inquietam...

Ser recorrente me assusta.

Não dizem (digo) que tudo já está na fase do reinventado (invertido)? Toda história já foi contada, e agora o que vale é a lábia, a doçura, o erotismo vestindo o olhar desbotado, inócuo. O dito que é desdito na tentativa de se angariar releituras.

Releituras me intrigam... Que fique claro que releitura não é cópia, mas uma forma diferente de se alcançar o significado (se isso é possível) do que já foi criado. Dizê-lo de forma diferente. Olhá-lo com mais afeto do que o julgamento que acompanha quase todas as observações nossas sobre as crias alheias, principalmente quando desejamos demais sermos os pais delas, não somente seus autores.

É preciso haver humildade para que uma releitura seja gratificante. Para que seus cantos, avessos, assimetrias, fragmentos sejam rearranjados de uma forma muito mais bela, valendo-nos sempre da beleza que transborda das disparidades.

A releitura do vôo rasante me remete aos refúgios emocionais, como este onde me encolho na tentativa de compreender o que se esconde em meu dentro e anda me tirando o sono.

Fustigando-me com sonhos recorrentes, como aquele em que me sento em uma cadeira, no meio do mundo, e as pessoas desaparecem. E eu espero que voltem, sentada, quieta, mãos repousando sobre as pernas, o olhar ressabiado, mas apaixonado pelo adiante. E envelhecendo não somente o corpo, mas também a esperança de viver intensamente até mesmo as banalidades.

Estou como numa canção rearranjada, notas esquálidas sendo aquecidas e abrigadas por fermatas e sua intrínseca sede por.

Não repaginada... Não me atrai essa definição. Não me seduz esse movimento. O que me interessa é a reinvenção das coisas que já foram coisificadas no dicionário da pretensão humana. Aprecio quando seus significados embaçam e embarcam em mais uma sessão de melodramas e tragicomédias, desvendar mistérios e aceitar limites. Nessa pulsação de não saber pra que lado correr eu sei que há vida.

Sabe?

O que conta é com qual roupa o sentimento sai da carcaça, se dança baião, salsa ou se é apenas um balé desengonçado sobre medos e ausências, não importa. Se ao se refestelar na vida a vive, e dói, ama, corrói, beija, abraça, abandona, esbofeteia é que conta.

O que importa é a vida que não seja recorrente, mas que se liberte da repetição ao ser sorvida pelas peculiaridades de cada um.

Apesar de me olharem aqui, sentada na minha cadeira, já cansada da espera, quase caindo no sono, sou das reinvenções e dos regalos. Posso não ter o inglês afiado, o português ser capenga, e ter medo do escuro e de ser vitimada por uma autopiedade desandada, só por ter me cansado de enfrentar as desavenças entre o meu destino e a biografia que construo a partir das minhas escolhas.

A possibilidade me tornar recorrente me deixa agoniada que só...

A certeza de não ser capaz de me tornar recorrente me conforta. Mesmo que tenha de voltar ao ponto de partida mais vezes do que penso possível.

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domingo, 12 de julho de 2009

FINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

"Nem tudo que acaba aqui
deixa de ser infinito."
(Zélia Duncan / Edu Tedeschi)

Eu gosto de finais. Mas não de alguns finais.

Houve uma época em que eu tinha vontade de sair do cinema sempre um minuto antes do filme acabar. Eu tinha a sensação de que os diretores não sabiam concluir os filmes, que terminavam sempre depois do ponto ideal.

Não, eu não tenho nada contra finais felizes, até gosto muito do "viveram felizes para sempre", mas de vez em quando acho que se força um pouco a barra. Para a alegria ou para a tristeza.

O final não pode ser fruto de "um jeitinho", o final tem que estar de acordo, concordar, de coração, com a história. Isso não quer dizer que não possa ocorrer uma reviravolta no final. O final mais impactante que já vi tem uma grande reviravolta. E o personagem, na cena final, não se parece em nada com o personagem durante todo o filme, mas pra mim é impensável que o filme pudesse terminar de outra forma.

Vejam por vocês mesmos o final de "Perdas e danos", um filme fortíssimo em que um político famoso se envolve com a noiva do próprio filho. O caso é descoberto, o filme poderia ter acabado no final trágico, mas termina assim:

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Revendo agora, penso que o diretor não precisava ter ido tão longe. Teria sido mais perfeito se ele interrompesse o filme na hora em que o personagem está cortando o queijo ou, no máximo, quando ele começa a abrir a janela. É que, na minha memória, eu havia ficado só com isso: com a paz depois das perdas e danos, com a paz de um queijo sendo cortado sobre uma mesa simples, dentro de um quarto simples, por um homem simples.

Não deve ser coincidência o fato de que o meu final preferido pertence ao meu filme preferido: "Tempos Modernos". Nesse final estão toda a dureza e a dificuldade que aparecem durante o filme, mas está também, e sobretudo, a esperança no futuro.

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Para mim, os finais não são finais: eles são um fio de continuidade. O final mantém nossa ligação com a história mesmo depois que as luzes são acesas ou que o livro é fechado. O final eterniza o que poderia ser passageiro. Por isso a tristeza de um final perfeita e adequadamente triste é tão luminosa quanto a alegria de um final perfeita e adequadamente alegre. Mesmo o final suspenso, o final sem final, é o melhor que existe quando é perfeito e adequado.

Porque o final, quando é preciso, exato, faz com que a gente continue acompanhando os personagens em nossa imaginação. A gente consegue imaginar o que é ser feliz para sempre, ou então fica torcendo e rezando para que o personagem consiga ser feliz depois de um final que tinha de ser triste.

De vez em quando, penso em que aventuras estão metidos o vagabundo e sua musa. E quando percorri as ruas estreitas e de pedra de algumas cidades italianas, fiquei imaginando encontrar o ex-político que corta queijo com simplicidade.

Espero que também você esteja começando a imaginar o que será de mim depois desta crônica. Porque eu já estou com aquela sensação de que estou demorando demais pra colocar o ponto final.

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

É QUE EU PRECISO DIZER >> Leonardo Marona

E então Bebel Gilberto olhou para mim com os olhos emprestados do demônio e me ensaboou de amor próprio, a mão no meu ombro: “E você, babaquinha, o que você faz, hein?”. E olhando para ela sentada na mesa do traficante mais famoso do Baixo Gávea, cabelos grisalhos, provavelmente um derrame ou óleo quente na prisão, um que age sempre em frente ao Bar Hipódromo, habitualmente acompanhado por uma bela loira sincera em termos de nádegas, que leva o branco até o nariz do podre. E olhando para ela, filha Dele, Bebel, abraçar os garçons daquele jeito, um rapaz de Sobral chegou a ajeitar a borboleta no pescoço com a violência da paixão despercebida de quem fez... E faz... E viu... E nasceu... E brilhou!

Enfim. Ela estava com os dentes amarelos e podres bem na minha cara, queria saber de mim. Eu sabia dela. E o que não sabia ainda, já sabia agora. Tentava lembrar daquela música, “...te amar ou perder sem engano...”, aquela que o Cazuza deu para ela cantar. E ela era exatamente ela mesma naquela época e eu era exatamente eu mesmo também, poeira cósmica com cacos de vidro na barriga da mamãe.

- Cara, tu te recordas daquela do Cazuza que ela cantava? Sei que é alguma coisa parecida com: ...nanana nananá nananána... te ganhar ou perder sem engano...

- Porra, ela é bem pior do que a Leandra Leal! – alguém gritou bem alto.

De repente, lá está Bebel muitas-coisas-juntas, lá está Bebel entornando a Guanabara, o ego escorrendo pelo nariz junto com a vontade de ser verdadeira. Ela corre na nossa direção e grita:

- Fiquem quietos! Parem de falar agora! Fiquem quietos pela-môr-de-deus!

(Os olhos fechados, as mãos para o alto).

- Ah, Bebel... Tá doidona? Eu, hein! Fica na tua aí... Tá chata.

Para quê?

- Olha aqui, seu...

E, finalmente, a mão no meu ombro.

Fiquei olhando para ela e ela tendo uma atitude dessas de mãozinhas quebradas no ar, goles borbotados e sapateado russo. Eu olhei e tudo sumiu de repente. O que eu poderia dizer a ela? Havia feito uma pergunta simples e eu não sabia o que responder a ela: “E você, babaquinha, o que você faz?”. Boa, Bebel, boa pergunta. Excelente!

Permaneci olhando para Bebel, estático. Aquilo durou cinco segundos. Depois um amigo olhou para ela e tentou quebrar o gelo na fanfarronice:

- Porra, Bebel, aquela ali naquele outdoor não é você não, é?.

- Aquela dali é outra mulher!

(Mão joga cabelos para trás).

- OUTRA MULHER, OUVIU BEM!?

Então voltamos todos, inocentes sem pátria, a beber e cantar Chico Buarque. Porra, eu podia ter nascido sem braço e sem perna, sem amor algum ou sem nenhuma compaixão, mas por que, senhor, por que o senhor não me deu o dom de apreciar a música fabulosa de Chico Buarque? Por que basta ele cantar e eu sinto dor de barriga e aflições, começo a roer as unhas e olhar o relógio? De onde vem essa culpa de ouvir Chico Buarque com a sensação de inquérito policial? Terá sido um passatempo pré-edipiano?

Ficamos lá, cantando. Eu ainda tentava lembrar: ...te ganhar ou perder sem engano... E a pergunta de Bebel tilintando dentro da minha cabeça. “O que você faz, babaquinha?” Se você não puder responder a um bêbado, não pode responder a si próprio também. E de que adiantava querer que se afastassem?

Sentimentos, muitos e poucos. Quem sabe esperar um pouco mais? Fale tudo e não fale de mim. Mas não, nada. QUERO SABER AGORA! Vamos, fale a verdade, cospe aqui em cima de mim que eu sei muito bem como são os do seu tipo: sórdidos, escorregadios. Eu, mais uma vez, mudo. FALE ALGUMA COISA! Maltrate-me. já sei, então é isso, é isso e isso e isso, e você não é nada, por isso tem que me dizer o que é, o que quer, agora, vamos, tá ouvindo o barulho?, é desse tic-tac escroto, ele corre, ó!, e você precisa saber, não importa o que você ache que seja honesto ou não, sincero ou não, cruel ou mais cruel, me deixe em paz e diga que me adora e que quando me abraça ganha o mundo só pra ti. Mas se eu disser Te Amo, mentiroso, Se disser Te Odeio, sem coração, Se disser Perdão, pro diabo!, Se disser Paixão, errado, é F-U-N-C-I-O-N-A-L-I-D-A-D-E, Amor, cama de gato, trocados furados, um ganha, outro perde, é a vida, uma prece?, Cassino Royale, sempre com poucas fichas e muito vício, mas Se disser Não Sei, não estou pensando, estou fazendo, estou sentindo, tentando me deixar embalar, AHÃ, NA-NA-NI-NA NÃO! NÃO VALE!, Covarde Covarde Covarde! Felicidade, logo ali, uma esporrada torta e espinhas são as culpadas. Alguém chame o patrão, por favor. Não estou me sentindo bem. Vou ler o Universo em Desencanto e virar pai de santo. TEMPO TEMPO TEMPO, Bebel me levou todo e me deixou apenas com Chico e meus guardanapos sujos.


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quinta-feira, 9 de julho de 2009

O milagre >> Kika Coutinho

Bem eu que nunca fui sorteada em nada. Bem eu que nunca ganhei em rifa, nem em bingo, nem em nada.

Bem eu, agora, recebi um milagre.

Tudo bem que é um milagre corriqueiro, acontece todos os dias, com muita gente, mas um milagre não deixa de ser milagre apenas por ser comum. O que faz de um milagre um verdadeiro milagre é a sua grandiosidade, seu fator incrível, sua enorme magia e encantamento, e não sua raridade, oras. O milagre pode ser freqüente mas, nunca, banal.

Na verdade, o milagre que me aconteceu não parecia tão milagroso assim, enquanto eu o via acontecer aos outros. A gente se acostuma aos milagres, não? No entanto, basta que eles aconteçam conosco para darmos a eles o devido valor, basta que o milagre seja nosso, seja em nós – e para nós – que, daí sim, o notamos e ficamos naquele estado de choque, um bocado anestesiados, outro tanto abobados, encantados por sermos premiados, sorteados, ganhadores da mega-sena acumulada que nos foi esse milagre.

O meu milagre aconteceu sem eu nem saber. Não faço idéia de quando se deu o fato. Fui notar muito tempo depois. Que coisa modesta é o milagre, né? Vem tão calado, na espreita, devagarzinho, muito, muito em silêncio. É na quietude que acontecem os milagres.

O meu, então, aconteceu em alguma noite qualquer. Eu não notei. Vim a saber depois, muito depois, quando percebi que havia algo diferente no meu corpo. Era o milagre.

Ainda assim não botei muita fé. Passei manteiga no meu pão, fui fazer a unha, mandei uns e-mails, tomei um copo de toddy – estava enjoativo. De novo, era o milagre dando as caras. Fiquei quieta no meu canto. Escrevi uma crônica, trabalhei um bocado, fiz um monte de xixi. Diacho, que tanto xixi que eu faço agora?, pensei comigo sem saber que era a dica, uma sutileza que passou despercebida, um recado do milagre que me acontecera.

Foi só de tarde, quase no final do dia, que resolvi aceitar a sugestão de uma colega e fazer um teste de farmácia. Ainda não tinha anoitecido. Estava sol aquele dia. O sol, certamente, era um milagre do inverno, como que me dizendo que não havia frio nem escuridão no milagre que já acontecia dentro de mim. Foi antes das 5 da tarde que eu soube do milagre. Ali, num teste de farmácia, que reluzia com duas listras diante de mim. Era um sinal de positivo. Um jóia, um ok, uma vida nova, me dizendo o quanto era positivo o fato da vida ainda ser repleta de milagres. Entre o susto e alegria, falei sozinha: “É um milagre!”. Calada, diante da prova irrefutável do milagre, não conseguia deixar de pensar o quanto era incrível que um óvulo, um único óvulo, um pequeno óvulo, tinha sido atingido por um espermatozóide, um micro espermatozóide, que eu nem sabia como era, uma explosão acontecera dentro de mim e, talvez, eu estivesse até dormindo. O milagre era maior do que eu, enfim.

E dentro da minha barriga, que assisto crescer todos os dias, um pequeno-enorme milagre cresce. À revelia do que eu faça ou do que eu coma, ou do que eu pense.

Eu nunca ganhei um sorteio, nem rifa, nem nada, mas, a mim, a vida deu um milagre. Que explodam os fogos, que chovam estrelas sobre nós, eu vou ter um bebê.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

TIPO UM TESTAMENTO >> Carla Dias >>


Ah, o memorial do Michael Jackson...

Quando eu morrer, quero um memorial também, mas claro que nas devidas proporções: um show na sala da minha casa mesmo, ou no quintal do sítio que minha mãe um dia inaugurará (os alicerces já estão prontos!), gente boa batendo uma caixa sem perceber que a morte passou por ali e me levou pela mão. Meus sobrinhos contando, sorriso nos lábios, sobre quando eu lhes dava beijos de cachorro ou rolávamos no chão fazendo cócegas uns nos outros. Mulheres e homens feitos, dando beijos de cachorro em seus filhos e netos, e rolando com eles no chão, fazendo cócegas uns nos outros.

A gente - enquanto gente – em algum momento acaba por imaginar a morte como imaginou a vida: de um jeito quase lúdico, como se fosse um game com direito a vencedor e vencido. Mas acho que não é bem assim ao pensar nisso agora, quando o assunto está alerta como o olhar do girassol lançado ao céu.

Só não quero lavação de roupa suja no meu funeral rock’n roll! Coisinhas terreninhas de tudo, como as mancadas que dei como amiga, filha, tia, sobrinha e por aí vai, bom, elas merecem vir à tona quando eu ainda estiver na terra, viva, ciente do significado de algumas palavras-chave de defesa e aceitação dos erros cometidos.

Mas quero ser cremada! Nada de ocupar espaço sem necessidade.

Há algumas semanas, faleceu a avó de um querido amigo. Eu só sei que o nome dela é vó, viu? Nunca perguntei sobre as letras que a tornavam uma cidadã do mundo.

De alguns anos pra cá, a vó estava com o esquecimento à flor da pele, atacado feito aquela tosse que, crianças, achamos que nunca vai passar e vai acabar estourando nossos pulmões; que nos faz querer somente deitar a cabeça nos ombros da mãe, enquanto ela pensa em salvar a gente do abismo. Então, toda vez que eu aparecia na casa da vó, ela me fazia a mesma pergunta, como se tivesse voltado o calendário e se perdido no caminho, vivendo de passado e esfumaçando o presente. Eu nunca consegui responder a tal pergunta de uma resposta só... Cada dia era uma resposta, houve até o dia em que ela foi apenas um sorriso desalentado.

Será que a vó achou a resposta antes de mim? Espero que sim...

Semana passada, faleceu um baterista muito querido no nosso meio, autor de um método para bateria que ajudou muitos músicos a se tornarem bons profissionais. Em 2003, ele estava com 84 anos de idade, ele veio ao Brasil para se apresentar no Batuka!. Além de uma pessoa sábia, via-se que a bateria era realmente a sua vida. Aquele homem de cabelos branquinhos que só, de encher o olhar da gente de admiração e a alma de inspiração, com tantas histórias sobre a música e sobre suas experiências para contar, foi-se daqui para adiante com crédito no paraíso. Educou muitos músicos, mas também contribuiu com a humanidade de muitos deles.

O que quero dizer é que não foi somente a morte do Michael Jackson que colocou em xeque a minha imortalidade (e a de tantos outros por aí). Tenho pensado nisso, com essa nostalgia que vem junto, como se lembrar dos avôs e das avós que já se foram, ou dos amigos e irmãos que perdemos prematuramente. Vida e morte são companheiras, mas, como na vida da gente, as irmãs sempre entram em atrito em algum momento. Há sempre a mais suave no trato e a tresloucada... Isso quando não tem a do meio, que não fica nem lá nem cá, debruça no muro e vive de morrer.

Viver requer um traquejo e tanto, mas a ciência de que temos prazo de validade nos faz sim temer termos feito mais mal do que bem aos outros e a nós mesmos. E fosse fazer meu testamento hoje, meu espólio seria emocional até, apesar de físico. Deixaria meus livros de prateleira e meus discos aos amigos, meus afetos e questionamentos tatuados neles. E a cada um a quem os dediquei, deixaria os livros que escrevi.

Há pessoas que faço questão que estejam presentes na minha festa de partida, então vou torcer para que não façam o baile antes de mim. E aconteça na sala de casa ou no quintal do sítio da minha mãe, ainda que invada as ruas de São Paulo ou o parque da minha infância, lá na minha querida Santo André; ou que seja desnaturada de tradição e vá acontecer à beira do mar, minha festa será memorável, apesar de eu ter certeza de que há quem lavará roupas sujas, enquanto dança o rock’n roll. Mas fazer o quê? Coisas da vida.

Imagem: Jim (Unprofound)


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domingo, 5 de julho de 2009

LINDA SENHORA >> Eduardo Loureiro Jr.


Ela tem sido minha companheira mais fiel...

Esperava por mim antes mesmo de eu nascer. Acompanhou meu parto. Mesmo não sendo minha parente direta, esteve presente em todos os meus aniversários. E, se não aparece nas fotos, é por pura timidez. Esteve comigo naquela festa junina em que fiquei, menino, sem par. E me acompanhou naquele briga contra os colegas de rua. Escutava, pacientemente, eu mudar de emissora em emissora no rádio durante as madrugadas adolescentes. Sempre cuidou de mim quando minhas namoradas viravam ex. Em meus momentos mais felizes, sempre foi discreta; recolhia-se a seu canto com humildade e nunca quis partilhar das glórias que foram gestadas em nossos encontros. Chegamos a fazer um pacto de morte, mas achamos melhor não levar adiante.

Mesmo eu tendo crescido, ainda nos encontramos vez por outra. Quando ela vem, adio todos os compromissos e faço como ela faz comigo: dedico-lhe toda a minha atenção. Ela traz uns filmes, uns livros, uns CDs, e a gente fica vendo, lendo, ouvindo em silêncio. A gente se fala pouco. Aproveita o tempo só pro aconchego. Ela não precisa de mim, mas faz jeito de quem precisa, pra que eu não fique tão desconfortável ao me abandonar em seu colo. Se dá vontade de chorar, eu choro, e ela chora junto, me consolando com sua própria solidão. A gente passa dias, semanas, sendo um do outro. Ela tem um cheiro gostoso que enche meu peito de saudade. A vida vivida e também a que não vivi ficam ali feito eu e ela, lado a lado. Ela é uma linda senhora, que parece apenas um pouco mais velha do que eu. Nunca lhe perguntei a idade, acho que não interessa. Ela vem quando quer, não tem pressa de sair. Eu não me incomodo. Com ela me sinto à vontade, até mais à vontade do que quando estou sozinho. Às vezes, fico pensando como será a vida quando ela não puder ou não quiser mais vir. Mas minha imaginação não vai muito longe. Ou então nosso amor é mesmo para sempre, embora eu saiba que não sou o único. Sei que, quando durmo, ela vai ao encontro de outros, e não tenho motivos para pensar que ela os trate pior do que a mim. Não tenho ciúmes. Sou capaz de ficar anos longe dela e nem mesmo sentir saudades. Mas quando ela volta, o abraço e o silêncio são todo o conforto que eu sempre quero.

Todo mundo fica triste às vezes. Depois desfica. Depois fica de novo. Eu prefiro pensar que a Senhora Tristeza vem me visitar de vez em quando.

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sábado, 4 de julho de 2009

INDEPENDÊNCIA [Sandra Paes]

Dia quatro de julho celebra-se a independência dos USA. Natural as pessoas perguntarem: “O que você vai fazer? Onde vai celebrar?” Eu, que ando ligada a outras questões, levo um certo tempo pra me localizar e responder o simples “não sei!” É claro que estava me referindo a como e onde celebrar a independência do país. Algo tão importante para os patriotas americanos.

Mas o tema não deixou de circular em minha mente essa semana toda. Na televisão, fala-se em independência financeira, independência de governos — por conta do assalto a Honduras —, independência de vidas de maneira geral, como quando vimos a briga pelo corpo e herança de Michael Jackson.

Aqui, no meu cantinho, me encolhi diante da constatação mais evidente: a total dependência da energia elétrica.

Tem chovido demasiadamente todos os dias. Tempestades intensas, dessas com coriscos que assustam a alguns e prenunciam um tempo pesado de furacões. Ontem, antes do escurecer — aqui é verão e o sol se põe pelas oito da noite —, resolvi começar a preparar o jantar. Panelas ao fogo, um pouco de azeite e, ao abrir a geladeira pra pegar o espinafre... surpresa: a geladeira estava escura por dentro. O quê? Só me faltava essa! Será que a geladeira queimou?

Vou olhar os relógios e vejo que estão parados. Pego o telefone pra ligar pra portaria e os telefones estão mudos. O que fazer? Constato que não há energia elétrica. Sem música, sem fogão, sem geladeira, sem televisão, sem telefone, sem internet.

Tudo se paralisou. Minha cabeça também. Fazer o quê? Tomar banho antes que fique escuro e eu tenha que pegar velas. Para quê? Só pra dar um ar de romantismo.

E se foi só na minha casa? Abro a porta e verifico que há luz nos corredores. Ah, o prédio tem gerador próprio e a luz dos ambientes comuns está ligada. Mas e dentro do apartamento? Bom, o jeito é esperar.

Com chuvas terríveis todos os dias, alguma coisa provalmente se passou e levou a condução de energia. Isso sem contar que sinais de satélite, com tempestades, nem pensar.

Fiquei pensando: puxa vida! Tudo nesse país está dependente de satélite, de cabos e sinais transmissores pra qualquer coisa. Sem isso, voltamos pra que idade? Da pedra?

Pensei em tudo que está preso por um fio, o cordão quase que umbilical que sustenta a vida majestosa de nossos tempos modernos. E, é claro, não consegui deixar de pensar nas previsões para 2012 que falam em três dias de escuridão total. Sinal do final dos tempos. Uma maré solar gigantesca danificando todos os satélites, ou muitos deles, e extinguindo o poder elétrico no planeta.

Onde ficaria toda a independência e todo o controle de nossos confortos?

Escrevo nesse instante antes que a tempestade derrube de novo a força que traz luz pelos fios, enquanto ainda posso. Depois disso, há que se pensar na escrita a lápis, a comida fria, o banho gelado, as roupas sem lavar, as comidas se estragando na geladeira e nos congeladores, os telefones mudos e as televisões sem audiência e sem programações e anúncios. Muito silêncio e o convivo diferenciado com o desconhecido escurecimento de tudo. Será uma amostra grátis nesse quatro de julho?

Continuo com o meu “não sei” ainda no ar. E um silêncio que se faz presente depois disso. Ainda me resta a independência das idéias e do sentir. Será?



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sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Deserto de Hofmannsthal >> Leonardo Marona

“Rape and rebellion in the nurseries of my face”
(Dylan Thomas)

Aos que ficarão eu deixo minha rosa negra, esse hálito espesso das últimas respirações. Sou do tipo dócil, que esconde metralhadoras nas entranhas. De uma ambição tão firme que não permite a tentativa esperançosa. “Não serás nada. Por mais que faças, não serás nada”. As frases como pedras interrompem a perfeição alienada. O problema real é que não falta água: carregamos o deserto dentro do peito, nos arrastamos em nós. Oásis às avessas, pensamos, sentimos, padecemos, mas a crueldade do fragmento caótico não se ocupa de nossas avançadas tecnologias ou das imagens saturadas da nossa falta de sentido cósmico. E, afinal, ao me isolar, me reconheço finalmente como terra minha, infértil sobre a identidade submersa. A relação transborda e mistura os venenos adocicados. Somos todos no fundo feitos de poemas abandonados e frases de consolo as quais desprezamos e dizemos automaticamente, para ocuparmos as bocas que ruminam infanticídios silenciosos. Para não ficarmos de uma vez com “nada a dizer”. Não ter nada a dizer, eis a única revolução estética possível. As palavras se esgotaram ao formarem a ponte de concreto por onde passa amputado o sentido químico das coisas impronunciáveis. A sensação, portanto, de transparência involuntária, de esquartejamento metafísico que enche as livrarias de tédio, não é de forma alguma privilégio deste ou daquele tempo provisório: as palavras, elas já vieram natimortas, tais que viemos assim e somos pais desse Frankenstein, às vezes de veludo, às vezes um alfinete no olho do recém-nascido, às vezes fuga, afago, voragem, um milhão de sentidos belíssimos, mas que não compreendemos. A maldição: sabemos que há dádiva em tudo, pois que a dádiva é uma mentira. Não tocar, dizer timidamente, “não, eu fico por aqui, obrigado”, negar a dádiva porque é uma mentira não parece entretanto a melhor solução. Esperamos debaixo da chuva e não encontramos respostas melhores. A crueldade maior não é não poder tocar, é não querer poder tocar. É dizer: “O jeito é não dar sentido para, e só assim, afirmar, com a própria falência inevitável, que não existe de fato sentido.” Mas por que essa necessidade enorme em querer saber a verdade? Que, em suma, não há absolutamente nada realmente capaz de alterar a rotação do que quer que seja, onde fomos inseridos, ou nos inserimos a nós mesmos... Enfim, o que se sabe é nada, mas colhemos as nossas medalhas. No fundo os que pensam nisso são os mesmos que não têm outra grande habilidade de onde tirar seus louros e preferem, portanto, esmaecer no morno da existência, e nada em volta, nenhuma outra existência, portanto, calcada no progresso, poderá tocar, ou se quer surpreender: eis a miséria.

Aqui estou sentado diante de um quadro que foi achado no lixo e sinto uma enorme compaixão pelo quadro, mas não especialmente sinto amor por ele. O ser humano, não há o que tirar nem pôr: são compassivos ao máximo, sem amor nenhum. E eu poderia usar agora enormes costeletas ou estar com o rosto metido no rapé e diria que não faz diferença ser um escriturário em Wall Street ou um bêbado em Sunset Boulevard, que não tiro proveito das modernidades evolutivas da minha espécie. Que me importa a grande rede? Há uma gripe, “simples como um resfriado comum”, mas interminável, uma gripe da mistura de todo o lixo que fizemos, e essa gripe é o cansaço morrendo, “uma gripe comum”, que não acaba nunca e ataca principalmente ricos, que viajam mais que os pobres e portanto se infectam, chamam ela de “Gripe do Porco”, mas poderia se chamar “Gripe do Leonardo”, de quem quer que seja. Evacuaram escolas, usamos máscaras nas ruas e nos edifícios judiciais, além do que Michael Jackson, o homem das muitas máscaras, acaba de falecer, diz o jornal, de enfarte fulminante, aos 50 anos de idade.

A matemática é exata, nós não. Como é possível que um sistema matemático possa, então, dar conta da nossa aflição? Crença imbecil; comeremos os próprios rabos. Inventamos tudo o que nos leva à preguiça, mas a preguiça só é válida quando é injustificável. Produzimos os sentimentos, repetimos as velhas frases, bolhas de sabão, salmos e notas de rodapé. Somos a cárie do monstro que inventamos. Na verdade monstros somos nós, os de sensibilidade turva, neurônios calados. Monstruoso é acordar todos os dias e ser obrigado a saber que não é necessário que se tenha uma explicação plausível, mesmo assim sabendo que se precisa de uma explicação. A negação tão pouco nos infla de coragem: paramos pelos cantos, não falamos com ninguém e reconhecemos a festa criminosa dos que sorriem e diagnosticam as quimeras de plástico. Fragmentos são as nossas mãos e bocas quando algo nos obriga a pensar. Fragmento é o vazio que arrastamos em terra desnivelada, a fantasia que é o único lugar onde não somos personagens de um romance mitológico em medidas drásticas e sem tempero. As execuções são inconcebíveis, os crimes da existência nos levam até as ilhas e assentimos, baixando as cabeças diante da lâmina.

O que levaria, por exemplo, um homem relativamente jovem, aparentemente sadio ou não exatamente, de fato um pouco amarelado e com os intestinos entupidos por pavorosas infecções cumulativas, a cogitar a possibilidade de que, em condições perfeitamente controladas e propícias, não tem a menor idéia de como verbalizar o que lhe afunda o peito no meio de uma noite não tão fria, ao som do esgoto mal conservado que despeja nossos restos e cansa a tristeza dos homens? O que faria afinal com que um homem, que leva consigo o Saara, as grutas da Mesopotâmia e as minas dinamitadas do Congo dentro do peito rasgado por um quelóide no centro, que não é câncer, é o fogo em brasa do mundo à beira do último choque sem qualquer resolução - mas este homem precisa sair da inércia e terminar a pergunta, isso o torna um sujeito perigoso, pois talvez seja preciso discorrer sobre o peso morto que cada um carrega para não nos esbarrarmos acidentalmente nas esquinas. É preciso mais uma vez que um homem, um homem esteja no escuro e sem a sensação confortável da ilusão da consciência parcial de que não há qualquer regra e, portanto, qualquer medida. E todos podemos criar condições e por isso criamos porcos, mas o que faz este homem, apenas um rapaz latino-americano, pequeno até mesmo para se comparar a um símio, usar a palavra símio uma hora dessas, já não seria motivo suficiente para crer que...

Pobre rapaz, com a responsabilidade de quem sabe derreter em praça pública ou ser afrontado pela própria imagem com profundas olheiras, na posição fetal, um Bartleby cujo cordão umbilical é uma linda gravata e entre seus dentes há tinta e séculos de transições forçadas por necessidades úteis à evolução do corpo inclinado à decadência inevitável, mas este homem um dia levantará, olhe em volta, ele está nas ruas e nas festas de aniversário, olhe para o lado, ele dança de olhos fechados e fala sobre a desenvoltura de uma carreira promissora, ele assina papéis com cores extravagantes e mancha com decência hinos de sabedoria e paz. A tudo diz sim, pois Camus está morto. Vemos um milhão de Jean-Pauls circulando um osso roído, homens com bochechas vermelhas e microscópicos olhos molhados, católicos pelas manhãs, irritadiços à tarde, abençoando as certezas com frases divertidas, esperando pelo fim de semana, basta olhar em volta ou atrás das portas dos banheiros públicos infestados com assinaturas pederastas, basta olhar para ver como dou-carrego-me-mato por qualquer um que me tire daqui.

Mas mal sabia Melville que o problema não estava em dizer Não: a comunhão no fim se torna uma divisão magra de restos. Com apenas dizendo Não, preservaríamos a função dos extremos, voltaríamos a morrer de inanição ou de amores impossíveis, retornaríamos ao tempo dos sonhos idiotas quando nos dizíamos gênios – ah! mas precisamos morrer tantas e tantas vezes e, afinal, dói demais o sol quando rompe o peito do avesso, essa ilha de calor sem plantas onde o desejo chora.

Mas mal sabia Camus que não é mais preciso dizer Não para se rebelar – a rebelião, ao contrário, está no sim apavorado e minúsculo e febril diagnosticado no centro de um tempo falso, de quem sem estômago pretende engolir tudo, pois reparem no tempo que leva um sorriso quando os dentes estão podres, repare na chuva quando brota do coração do silêncio ancestral, o isolamento que vivemos e nos acompanha como o cheiro ruim que vem do estômago da hiena, o mundo virtual das teorias e dos bisturis, Atacamas sólidos que se manifestam no olho do polvo, separados pela unificação da língua, acorrentados pela indiferença, pelas guerras que fazem sentido e são pescoço nos caninos – ah! se algum teórico suspeitasse como faz frio nos picos mais elevados da solidão incipiente, como é bonita a terra quando vista do seu próprio barro, nem uma página por isso, nem uma solução, apenas seguir os mil imãs do norte, rapaz do meio do nada, não é preciso andar, seguir sem pensar em nada, pensar e não seguir.

Resta apenas esse prazer insuspeito e quase irônico, essa cruz de aço que gela as cicatrizes e acende as brasas. E resta andar, andar sem direção já que giramos em escala menor e, afinal, o deserto que nos separa é o mesmo que faz com que as palavras - estas míseras, traidoras, dentes podres - estejam sempre onde já não está mais o que nos fez nomeá-las ao erro, fundando a nossa história de depravação silenciosa e culpa, não mais um desejo reprimido, mas em alerta. Os portões se abriram, a madrugada pegou fogo – que fim dos leões de pedra e das enormes bocas morais? – e os desejos são eunucos excitados, mas há um rapaz, nesta noite não mais tão gelada, há um rapaz que, sem saber de nada, sabendo e sentindo a cada dia que sabe menos do que, no entanto, reconhece distante e imprescindível, pois há um rapaz que desaparece, ainda assim, tentado escrever algo, com quatro cigarros à varejo, uma incrível dor nas costas e o medo de se convencer de que pode acertar o alvo e estragar toda essa incrível desconfiança pueril que, na falta da compreensão e diante dos buracos da nossa fé, nos põe aos encontrões em terrenos vazios encharcados de pequenas comemorações acerca de especialidades vulgares que visam abastecer com cera o cadáver selvagem que é o deserto chamado Evolução da Espécie diante – e sem escapatória – de um seco ponto final, impronunciável.

http://www.omarona.blogspot.com/



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quarta-feira, 1 de julho de 2009

MENINOS DO BATUKA! >> Carla Dias >>

Estamos aqui, na correria para a realização da 11ª edição do Batuka! Brasil International Drum Fest, um festival de música voltado à bateria e à percussão, idealizado pela baterista Vera Figueiredo, com quem trabalho há quase dezesseis anos.

Dos quase dezesseis anos, dez deles eu trabalhei na produção do festival que, desde sua primeira edição, em 1996, serve como ponto de encontro para instrumentistas e público em geral vindos de vários estados brasileiros. Essa colcha de retalhos cultural vem nos servindo de ferramenta para defender o que mais nos interessa nesse projeto: criar espaço para instrumentistas e sua diversidade cultural, promover o intercâmbio entre músicos brasileiros e estrangeiros e, principalmente, divulgar a nossa cultura. Foi dessa forma que o Batuka! Brasil entrou para a lista mundial dos mais importantes festivais do gênero.

O Batuka! Brasil recebe artistas brasileiros e estrangeiros para apresentação de performances, workshops, palestras e shows. Além dessa programação, também há o Concurso Nacional de Bateristas, vertente do projeto responsável por revelar talentos espalhados por esse Brasil.

O Concurso Nacional de Bateristas é uma caixinha de surpresas. Desde a primeira edição do festival, foram premiados 22 bateristas, de regiões e idades diversas. Para comemorar a volta do Batuka! Brasil - a última edição foi apresentada em 2005 -, resolvemos traçar o perfil desses meninos que não são jogadores de futebol, mas fazem gols fantásticos quando se trata de tocar bateria.

Hoje mesmo eu coloquei no ar o perfil dos bateristas no site oficial do Batuka! Brasil. De certa forma, nunca nos distanciamos dessas pessoas, porque suas conquistas também foram celebradas por nós, que realmente acreditamos no talento de cada um deles. Porém, ao ler suas biografias para incluir no site, e acompanhar mais de perto a trajetória deles, percebi que mais do que imaginávamos, a passagem dessas pessoas pelo Batuka! Brasil foi uma inspiração também para eles, já que a dedicação e determinação desses meninos nos inspiraram a realizar dez edições de festival, apesar de toda dificuldade de se realizar projetos como este sem um patrocínio.

É muito gratificante quando percebemos que partilhar do sonho de alguém pode tocar a vida de tantos. Eu partilhei do sonho da Vera e passei a considerá-lo meu também, desde o primeiro momento, e cá estamos: 11ª edição do Batuka! Brasil International Drum Fest.

Bem sei que grandes descobertas foram feitas a partir dos sonhos de seus descobridores, mas é diferente quando se está intimamente envolvido nesse processo. Ao criar este espaço virtual para os 22 meninos do Batuka! Brasil, eu me aproximei ainda mais da realidade deles, e me surpreendi com a jornada que traçaram para si mesmos, desde o dia em que os conheci, nos bastidores do festival.

Aliás, os bastidores do Batuka! Brasil dariam um livro. As pessoas que já passaram por ele, dos artistas ao público, muitos merecem um registro. Certamente, no nosso coração estão registradas histórias engraçadas e emocionantes, como quando ligaram dos Estados Unidos para um baterista que tocaria no festival para avisá-lo que seu pai estava doente. Corremos para remarcar a passagem de volta dele para a mesma noite, mas ele fez questão de se apresentar. E antes de tocar lindamente, como sempre, tocou tambores com o som do coração de seu pai. Aquela pulsação, para quem sabia da história, que ele contou ao público depois, levou muitos de nós a cair no choro. E passagens como esta é que definem o espírito desse cenário criado pelo Batuka! Brasil.

Muito além da produção de um evento, da necessidade de divulgação, de se vender ingressos, de se captar recursos para bancar despesas, detalhes necessários, obviamente, o Batuka! Brasil é um sonho no qual embarquei e que, a cada edição, colabora para que os sonhos de outros se realizem. Seja conhecendo seus ídolos, como tive o prazer de conhecer muitos dos meus, ou tendo um espaço para mostrar sua música, participando do concurso, ou como uma das pessoas da platéia, da equipe.

Sugiro que vocês conheçam esses meninos mais de perto, saibam sobre a história deles. Independente da área, muito do que eles têm a dizer, tenho certeza, cabe direitinho no sonho de muitos de vocês.

Rafael Barata, Guilheme Santana, Fred Valle, Cristiano Forte, Flavio Teixeira, Alex Buck, Márcio Corrêa, Luke Faro, Marius Rodrigues, Marquinhos Fê, Igor Willcox, Turquinho Filho, Valmir Bessa, Ebel Perrelli, Márcio Pereira, Gledson Meira, Sandro Moreno, Cláudio Félix, Paganini, Gabriel Martins, Elóy Casagrande e Vaney Bertotto... Os meninos do Batuka! Brasil.

Batuka! Brasil International Drum Fest
www.batukabrasil.com
Para conferir o perfil dos vencedores do Concurso Nacional de Bateristas, clique na seção BATUKA! BEAT.

Edição 2009
Dias 18 e 19 de julho no Auditório Ibirapuera - SP
Clique AQUI e confira o flyer.

http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



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