DIA DOS NAMORADOS ESTRANHO. MAS ATÉ FOFINHO. (UM POUCO) >> Zoraya Cesar

 


A primeira coisa que lembrei ao acordar foi a última coisa que senti antes de desmaiar.

Uma voz macia e cadenciada me dizendo que tudo ia ficar bem. E um rosto de lábios grossos e pestanas espessas nos olhos cor de jabuticaba. E um sorriso... vocês agora esperam “um sorriso branco pasta de dente”, não é? Mas a essa altura do campeonato não vou mentir. Eram meio amarelados, sabem, daquela cor de quem tomou muito antibiótico na infância ou fumou muito quando adulto.

Essa lembrança se mistura com a sensação de estar flutuando, como um astronauta na lua. Efeito de algum remédio, provavelmente.

Dormi sem medo, embalado por sua voz e seus cuidados. Fazer o quê? Me apaixonei. E, quando acordei, só tinha um objetivo: encontrá-la e declarar meu amor, dedicar-me a fazê-la feliz.

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Não que fosse fácil. Um hospital é um universo cheio de labirintos e passagens secretas. E cada um deles com cheiros e vozes distintos. Cheiro de formol, remédios, urina, fezes, perfumes dos visitantes, desinfetante. Cheiro de morte, medo, vida. Vozes cheias de esperança, júbilo, cansadas, indiferentes (mais comuns que vocês pensam), dor, e as de consolação.

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Mesmo não sabendo seu nome, não me preocupei muito, porque uma alma amante é capaz das maiores proezas.

Claro que teria sido mais fácil procurar por um nome que  ficar perguntando “você sabe qual o plantão da enfermeira cuja pele cheira a creme de baunilha, tem olhos negros de azeviche e voz angelical?”.

Seria mais fácil, também, se me respondessem. Sei que trabalhar num hospital às vezes brutaliza um pouco as pessoas,  mas caramba! Bom, pelo menos, graças à azáfama geral e à urgência constante, ninguém se importou com minha presença.

(Verdade que incomodei alguns, sim, verdade, mas era uma gente muito assustadiça e nervosa. Cruzes!).

Até que a encontrei! Meus amigos, encontrei minha amada.

Pude vê-la de perto. Tinha a pele do rosto marcada por espinhas mortas e as unhas roídas. Seus peitos eram grandes e suas ancas deviam ter dificuldade em passar nas roletas de ônibus. Vocês dirão, ah, desapaixonou, né? Por quem me tomam? Um toleirão? Aparência não tem importância, mas a essência. Até porque, depois que morremos o corpo se perde. A essência permanece.

(Levei uma vida inteira para aprender isso, mas antes tarde que nunca, não é? Não. Não é. Às vezes é tarde demais sim, deixem de ser os idiotas da positividade – me aproveitando de Nelson Rodrigues. Esse negócio de pensamento positivo new age tóxico é irritante).

Minha última lembrança dela não tinha sido uma ilusão. Seus olhos derramavam compaixão. A compaixão de quem ainda não se deixara conspurcar pela tragédia de todo dia, de quem ainda se encantava com a vida e não temia a morte. Seu sorriso confortante e meigo alentava os corações mais doloridos. Como não amar?

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Infelizmente, não causei o mesmo enlevo. Ao sussurrar em seu ouvido ‘te amo’, ela gritou e largou estrepitosamente a bandeja que tinha nas mãos. Fugi, magoado e intimidado por sua reação inopinada. Sempre fui tímido. Nem sei como tive a ousadia de chegar nela daquele jeito. Sou um desastrado mesmo.

E agora? Se a primeira abordagem foi um desastre, como me aproximaria de novo? Não tinha ideia. Só sabia que não podia desistir. Tenho certeza de que ela contribuiu para meu restabelecimento. O amor é uma força estranha e poderosa!

Tomei coragem. Ia convencê-la de meu amor sincero e imorredouro e de que fôramos feitos um para o outro. E que minha dívida de gratidão era eterna.

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Se o primeiro encontro foi um desastre, o que dizer do segundo?

Encontrei-a numa das salas de depósito, agarrada com um médico muito do desenxabido, mais parecia um besouro, os dois com a mão naquilo, aquilo na mão. Saí desabalado, não sei como não derrubei pessoas e coisas pelo caminho.

Solucei, chorei muito. E posso dizer que o mundo anda muito pouco solidário. Ninguém veio me consolar.  Ao contrário. Só gente se persignando e dando meia volta, eu hein, gente esquisita.

Perdi a graça. Desolado, decidi que era hora de ir embora, vida que segue, a fila anda, rei morto rei posto, sempre tem um pé velho para um chinelo cansado, blablabá.

No entanto, ainda a amava e sempre a amaria. Só porque ela tinha outro, não era motivo para eu não me despedir.

Era Dia dos Namorados, segundo as conversas e comentários. (Vocês não têm ideia do quanto as pessoas falam quando pensam que não tem ninguém ouvindo. Há algumas vantagens em passar despercebido).

O médico
desgraçado
parecia um
besouro rola bosta
Encontrei-a na mesma sala com o mesmo doutorzinho rola bosta. Eles discutiam surdamente. (Assim, quando a gente briga na cozinha, mas não quer que as visitas ouçam, a gente berra surdamente, sabem como é?). Pois bem, ela descobrira que vinha sendo traída e estava terminando tudo. Ele deu de ombros, disse que não havia o que terminar, pois 'tudo era apenas uma brincadeira, que foi crescendo, crescendo o meu pau na sua mão, que peninha!'. E foi embora rindo da própria piada. Besouro de merda. 

Ela era daquelas mulheres que, quando choram, o nariz incha, as lágrimas saem pelo nariz junto com as melecas, os olhos vampirescos. Eu não estava nem aí. Meu amor por ela só crescia. Lembrem-se, seus tolos, o que importa é a essência!

Mas, quando me sentei ao seu lado, meu mundo caiu.

Havia um espelho em frente a nós.

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Sim, vocês devem ter adivinhado, eu não aparecia no reflexo.

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Compreendi por que não me respondiam, por que nunca fui incomodado. E por que algumas pessoas se assustavam. (Dizem que todo mundo é meio médium. Então, vocês, que conseguem ler esse relato, devem ser médiuns e meio).

As lembranças que surgiam em minha mente de vez em quando - pessoas gritando, mãos me carregando, a dor nos ouvidos, que nem comentei antes para não preocupar vocês - fizeram, finalmente sentido. Sofri um terrível acidente e vim parar naquele hospital. Onde conheci o amor da minha vida.

Fiquei arrasado. Estou morto? Morto com farofa? Morto e acabado? Finito? The end?

Estou.

E minha última lembrança antes de esticar as canelas foi a presença dela tentando diminuir meu medo e minha dor.

Repito: como não amar alguém assim? Só se eu fosse um desalmado. E isso eu não sou. Desencarnado sim. Desalmado, não.

Acheguei-me de novo. E, dessa vez, estranhamente, ela não se assustou. Ao contrário, fechou os olhos e recostou no encosto.

Sussurrei palavras de conforto, como ela fizera comigo. Que eu a amava demais, sempre estaria a seu lado, como um anjo agradecido e amoroso.

Que ela vivesse bem, pois, quando chegasse a hora, eu a estaria esperando, para cuidar dela em seus primeiros momentos na outra vida, como ela cuidara de mim em meus últimos momentos nessa.

Feliz Dia dos Namorados, minha amada. Nos vemos do outro lado.

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https://www.letras.mus.br/peninha/48116/ Sonhos - Peninha

Imagem do besouro rola bosta https://segredosdomundo.r7.com/besouro-rola-bosta/

Outras histórias de Dia dos Namorados - algumas bem fofinhas, juro. Outras, nem tanto. 

 Feliz dia dos namorados, D. Letícia - porque você acredita, milagres acontecem

Amor e redenção - o amor, às vezes, é discreto; mas pode vir armado para proteger e servir

Feliz dia dos namorados, patrãozinho - o amor em suas mais variadas formas, singelo e abnegado 

Uma praça, um homem, um jornal e o destino - hummm, esse não é tão fofinho quanto os outros. Mas também é redentor

Uma história para o dia dos namorados, um tantinho macabra, mas fofinha - bem, o título já diz tudo. Mais que isso seria spoiler

Dia dos Namorados estranho. Mas até fofinho (um pouco) - o amor transcende obstáculos físicos e imateriais. E pode ser bastante útil, se pensarmos bem. Ah, sim, também ensina que o que importa é a essência, não a aparência


Comentários

Nadia Coldebella disse…
Ah, Zoraya! Quanto romantismo! Quanta sensibilidade!

Como bater as botas pode ser tão fofo? Ainda bem que mesmo na terra dos pés juntos, o amor prevalece. Ainda bem que, quando se passa dessa pra melhor, pode-se viver encostado para sempre. Ainda bem que ainda existe assombração apaixonada.

Agora recostou no encosto só podia vir das suas histórias.

Gde bjo

Marcio disse…
Vocação é mesmo algo profundo.
A autora gosta de matar, a um ponto em que mereceu a alcunha de "Lady Killer".
Aí, quando vai escrever sobre o Dia dos Namorados, arruma um jeito de colocar uma temática de morte no enredo.
Não tem solução: se a Zoraya escrevesse uma coluna diária de horóscopo, ou de receitas de bolo, iria arrumar uma maneira de derivar desses temas desinteressantes para poder dissertar sobre a morte.
Pelo menos, desta vez ela descreveu uma morte morrida.
Ou terá sido uma morte matada, ainda pendente de elucidação por Felipe Espada?
branco disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
branco disse…
Cheio de surpresas, acredito que você alcançou o que perseguiu ao escreve-lo
Antonio Fernando disse…
Essa Zoraya escritora eu não conhecia. Chegaram a brotar lágrimas de meus olhos e ternura de meu coração.
Muito obrigado pela sensação boa que esse texto me causou. Ah, mas torço pra Lady Killer voltar. Kkkk
André Ferrer disse…
Eu adoro. É prazeroso quando encontramos essa espinha durante a leitura da Zoraya e, muito mais, quando essa linha é sutil e estrondosa ao mesmo tempo. Na cervical, Poe. Na torácica, Álvares de Azevedo. Na lombar, Tim Burton. Não necessariamente nesta ordem.
Jander Minesso disse…
Um nível de fofura que só você consegue chegar, Zoraya. Coisa mais cuti-cuti, essa história de amor.
Érica disse…
Depois da noiva cadáver, só mesmo o namorado cadáver mortinho com farofa para suplantar hahaha.
E o videozinho do teaser da história ficou o máximo. Muito bom hehehe
Albir disse…
Corri ao espelho no meio da leitura, mas encontrei lá meus olhos arregalados e minha testa franzida.
Agora carrego um espelho no bolso para de vez em quando me conferir.
Em tese, ainda estou vivo.

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