DOIS CAUSOS COM COMIDA >> JANDER MINESSO

 

Domingo passado, a esposa e eu fomos a um desses restaurantes que colocam o nome do prato em outra língua. O fim de semana tinha sido complicado e achei que merecia um almoço bacana.

Chegamos, sentamos e recebemos cardápios maiores que as Tábuas da Lei. Depois de uma olhadela rápida, decidimos por um bolinho de entrada e um risoto de prato principal. Inclusive, quando fiz o pedido para o garçom, lembro de dizer:

– Amigo: vamos de bolinho na entrada e, de prato principal, vamos querer esse risoto aqui, para duas pessoas, por favor.

É assim que me lembro de ter pedido. Mas como disse, o fim de semana fora complicado e, na noite anterior, eu tinha dormido três horas. Sentado.

Depois de uma espera dentro dos padrões, chegou o bolinho. Bem bom. Comemos e ficamos papeando enquanto esperávamos o risoto. Que demorou um pouco, mas veio. O prato chegou pelas mãos de um segundo garçom e, ao aterrissar na mesa, suscitou uma dúvida na esposa:

– Pequeno, né?

Sei que, nos últimos anos, os nomes dos pratos vêm aumentando, ao passo que as porções em si são cada vez mais módicas. Ainda assim, perguntei para o segundo garçom:

– Esse risotto al ragu di ossobucco aqui é para dois?

– Hm. Não, senhor. – ele respondeu, preocupado. E logo saiu atrás do garçom original.

Estávamos emendando um outro papo qualquer quando o garçom número um se materializou na nossa frente.

– Você falou que ia dividir um individual.

Como uma amiga apontou há alguns dias, tenho o péssimo hábito de pedir desculpas por qualquer coisa. Por isso, passado o susto pela chegada surpresa, respondi:

– Me desculpa, amigo. Talvez eu tenha me expressado mal. Mas a gente gost…

– Você falou que ia dividir um individual!

E assim, o garçom número um se desmaterializou na minha frente. Nunca mais o vi.

Uma pessoa rancorosa e afeita aos embates teria feito um escarcéu. Mas eu, apesar de rancoroso, detesto embates. Dividimos a porção individual, até porque a fome nem era tão grande. Ainda assim, comi quieto, temperando o risoto com uma saborosa frustração reduzida em banho maria. Paguei a conta (cobraram pelo risoto individual, mesmo) e fui embora tramando possíveis desforras. Por sorte, a esposa é uma pessoa iluminada e me demoveu da ideia, dizendo que esse tipo de picuinha não leva a lugar algum. Não fosse por ela, provavelmente eu tentaria expor o restaurante Pecorino de alguma maneira.

Já na última quinta-feira, tive um contratempo mais fortuito numa barraca de pastel. De saída para o trabalho, aproveitei que era dia de feira para me deleitar com a mais brasileira das delícias fritas. Encostei na Barraca do Fiote.

– Tudo bem, Rita? Me dá um de palmito, por favor. Aliás: me dá um de carne. Mudei de ideia.

– Vai levar ou vai comer aqui?

– Vou comer enquanto sigo para o metrô.

A Rita, sempre com aquele sorriso solar, assentiu com a cabeça e saiu tirando mais alguns pedidos. Lá pelas tantas, veio com a maquininha. Cobrou o meu, cobrou o da galera e seguiu na lida. Instantes depois, meu celular vibrou, acusando uma compra no valor de… dois pasteis.

Senti uma certa palpitação no peito, um resquício de incômodo do risoto dominical. Respirei fundo e chamei a Rita.

– Acho que você cobrou dois.

– Eita, menino, me enganei! Achei que era “um de carne e um de palmito”. Mas calma, que a gente acerta isso.

Não sei se foi a tranquilidade na voz, o sorriso solar ou o quê. Algo naquele instante iluminou o dia e desfez todo o mal causado por um certo garçom dias antes. Olhei bem no fundo dos olhos dela e disse:

– Quer saber? Tá tudo certo. Vou levar os dois.

– Nesse friozinho dá mais fome, né? Vou colocar um pacotinho de pastel de vento junto. Fica de brinde.

Banca do Fiote, meus amigos. Talvez quem estiver em busca de uma pasta fritta ripiena di manzo macinato e cuori di palma acabe se desapontando. Mas quem gosta de pastel vai se esbaldar. Garanto.

Imagem: Pixabay

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Otimo causo!
Gosto de rizoto, mas com certeza, depois da história do restaurante Picorino que vc teve a elegância de não expor, vou de Pastel da Rita.
Comida deve vir acompanhada da sensação de alegria, né?
Gde abç
Ana Raja disse…
Eu tenho a sensação que os garçons não prestam atenção nas nossas palavras. Eu adoro água tônica e sempre peço sem o gelo e as rodelas de limão, mas não tem jeito...ele ouviu: muito gelo e rodelas de limão..aff
Quero conhecer a Rita e experimentar o pastel.
sergio geia disse…
Muito bom, Jander. Gostei da sua sutileza, se é que me entende. Coisa de cronista 😁😉. E da Rita também.
Zoraya Cesar disse…
hhaha, sutileza cavalar muito boa e bem mirada kkkk. Expor o restaurante Pecorino (que fica onde, mesmo?) seria indelicado e pequeno, como o risoto. Ainda bem q vc viu a luz.

Já sorriso solar, gentileza e pastel é uma combinaçao perfeita! Banca da Rita já!
Anônimo disse…
Quem apertar no link podia ganhar um desconto lá no ristorante. André Ferrer aqui.
whisner disse…
nada como o diálogo, a boa vontade e dois pastéis.
Albir disse…
Ainda bem que você não expôs nas redes o Restaurante PICORINO.
Isso poderia ser um desastre para os negócios. Vou aproveitar para não ir ao PICORINO da próxima vez que estiver por aí.
Soraya Jordão disse…
A vingança é um prato que se come frio. kkkk

Postagens mais visitadas