ONTEM, ERA MAIOR >> André Ferrer

 

Por um segundo, ele tirou os olhos do smartphone e espiou o apartamento em que moravam. O nó da cortina encardida. Os despojos do café sobre a mesa. A torneira pingando. Seu nome era Gui. Tinha acabado de chegar. Estava em pé no meio do cômodo.

Aquela sala era copa e cozinha ao mesmo tempo. Um lugar exíguo de fato. Então, seus olhos pousaram rapidamente no avô. Ele estava sentado à mesa.

Robótico — sem tirar os olhos do celular —, Gui puxou uma cadeira e o velho Nestor nem reagiu. Manteve a cabeça levemente erguida. Olhar fixo na janela.

IMAGEM: PickPik

Por longos minutos, os dois esperariam pelo tão costumeiro estímulo — o sinal verde para as conversas em família que, ultimamente, tanto queriam de um modo desesperançoso. Os dois sabiam que, àquela altura, a tal intervenção já não existia. Era impossível. Então, ficariam indiferentes. Ignorariam um ao outro. Tudo porque esperavam por algo perdido — a fagulha que, até um ano atrás, iniciava o ânimo entre eles. De fato, aquilo jamais voltaria e, por isso, a ideia de retorno sobre algo definitivamente extinto — na forma de uma impressão muito viva — era tão pesada. Matava a interação entre eles.

O velho colocava miolo de pão na boca. Gui continuava imerso no aparelho. Nestor mastigava. O rapaz, de vez em quando, fazia uma expressão qualquer, mas era tudo por causa das postagens que via. Nestor não deixava a janela em paz. Gui, às vezes, desviava o rosto porque a respiração do avô era forte. Então, o rapaz olhou para a frente. Parecia ter se lembrado de algo, mas aquilo ficou dentro dele, contido. Pensou: Ora! Foi tão ruim assim? Afinal, preciso cuidar das minhas coisas. Ficar atento às oportunidades. Não. Eu não podia ir.

Nestor moveu-se. Colocou outro naco de pão na boca e voltou a olhar para a janela. Suspirou. Enquanto isso, Gui continuava absorto no smartphone, mas o mergulho que empreendia era outro. Não! Eu não podia, pensou.

 

*

 

Naquela manhã, o rapaz acordou cedo e estava ávido pelas redes sociais. Na noite anterior, tinha produzido um vídeo, mas o número de visualizações era pífio até ali, o que o atormentava. Estava num mundo exigente, afinal, e não queria perder nada. Precisava ficar ligado. Incluído. Por isso, mal levantava a cabeça — os olhos no aparelho — enquanto Nestor falava sem parar durante o desjejum. Falava muito e era repetitivo sobre a consulta marcada e a possibilidade de Gui acompanhá-lo até a clínica. Em oposição a como estaria mais tarde, o velho andava com a língua solta logo cedo. Falava e olhava para a janela.

— Como eu disse: hoje será um dia corrido. Guilherme! Essa janela encolheu. Está menor. Você não acha?

— Não. Isso é coisa da sua cabeça vô.

— Como eu disse: um dia corrido. Sabe. Vou àquele doutor. A minha perna está cada vez pior. Incomoda muito e há vários dias.

 

*

 

Oito horas depois, os dois estavam novamente um diante do outro. Sentados à mesa. Nestor com os olhos na janela. O rapaz com os olhos no celular. Então, Gui fez um movimento interno: quis perguntar algo. Depois, escondeu-se num vídeo sobre tombos de bicicleta. Era engraçado, mas ele não riu.

 Como se tivesse a habilidade de sondar o interior do neto, Nestor abaixou a cabeça. Esfregou os olhos. Voltou a encarar a janela. Disse:

— Eu não poderei mais sair de casa. Terei que usar um andador. A perna precisa desinchar até o dia da cirurgia. O doutor foi bem claro a respeito disso.

Sem tirar os olhos do celular, o rapaz acenou com a cabeça e o seu rosto se contraíu. O velho espiou o rapaz. Gui ficou atônito. Olhava para a tela. Não piscava.

 

*

 

De manhã, ele tinha saído logo depois da “conversa” com o avô. Estava ansioso. Precisava fazer um vídeo incrível, já que o anterior não ia bem. De jeito nenhum, aceitaria ficar de fora. Na verdade, aquilo já era medo. Medo de ficar de fora. Então, Gui teve uma ideia na frente de um parque. Sua mãe, há um ano, costumava acompanhá-lo até lá. Eles passeavam. Tomavam sorvete. Mas, agora, aquilo já não era possível. Então, com o seu celular, ele escreveu um pequeno roteiro e fez um vídeo. Era sobre a importância daquele tipo de lugar para o cidadão.

Minutos depois, ele postou o vídeo e deu um giro pelo centro. Enquanto caminhava, também começou a vagar pelas redes. Agora, sim, pensou. Não perderia nada. Estava confiante. A contagem cresceu, estagnou, parou. Algo aconteceu: da mesma forma que o vídeo anterior, aquele também “flopou”.

 

*

 

Diante do neto, o velho se levantou. Parecia mais preocupado com a janela do que com o cárcere domiciliar recém-anunciado. Chegou perto. Queria examinar os detalhes. Cada rugosidade da tinta sobre o metal.

Bruscamente, o rapaz levantou-se. Ficou parado no meio da sala. Tinha vontade de jogar o aparelho no chão, mas conteve-se. O velho continuou, de costas, voltado para a janela.

Incrédulo, Gui espiou a tela brilhante do seu smartphone e as costas arqueadas do velho. Era possível? Há um ano, os dois estavam sozinhos. Um ano já e os dois ainda estavam assim. Então, o rapaz fez menção de ir para o seu quarto com um passo, mas hesitou. Os olhos vibravam. Encharcavam-se. Ardiam. Depois, o velho se afastou da janela. Queria um ângulo mais aberto agora. Torceu a cabeça. Perscrutou. Disse:

— Guilherme. Diminui a cada dia! Você não acha? Ontem, a nossa janela era maior.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
que história triste de lascar, Ferrer! Q angústia. E o pior é q a danada nao larga da mão da gente, apertando, apertando até doer. Textaço!
Nadia Coldebella disse…
Poxa vida, André! Luto, desespero, ansiedade, fuga e negação, tudo numa tacada só! E tem aquela coisa agonizante, uma angústia pulsando que perpassa o texto inteiro, dando a entender a péssima notícia do que virá depois... E essa sacada da janela? Podia ser uma metafora, mas não é nada disso. É muito concreto.

É a terceira ou quarta vez que tento achar uma palavra pra adjetivar sua narrativa, mas faltam palavras. Ela é crua, sutil, agonizante, como uma faca afiada suspensa sobre a cabeça da personagem!

Vc é um mestre! Show, muito muito bom!
Jander Minesso disse…
Sei que sempre foi um traço seu, mas nas últimas semanas as entrelinhas estão mais cheias do que nunca. Belos silêncios.
Albir disse…
Sufocante, espaços se contraindo, janelas se fechando, palavras inúteis. Angústia implacável.
Belíssimo texto!

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