sexta-feira, 31 de julho de 2015

A REZADEIRA — 3ª E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar



 Conte-me a verdade, repetiu Velha Vó Dindinha, empertigada, as mãos nodosas e ossudas sobre os joelhos.

Tiffanny Cristine entreabriu os lábios, deixando à mostra uma fileira de dentes pequeninos; os da frente, um tanto separados, davam-lhe um certo ar infantil e carente. Como as aparências enganam, pensou a Rezadeira.

 Não vou ser bonita e gostosa pra sempre. Antes que Edgar me troque por outra, quero o dinheiro todo dele. Agora. 

Velha Vó Dindinha aguardou. Essa parte ela já intuíra. Interessava-lhe o que ainda não fora dito. 

 Preparei um feitiço pra ele me obedecer cegamente, e assinar um papel me passando todos os bens.

Magia negra básica. O que dera errado? Por que uma entidade invadiu o corpo do marido, corrompendo seus canais energéticos com tanta violência, que o cheiro nauseabundo da podridão exalava para o plano físico?

 O que você prometeu em troca?

 Por que acha que prometi alguma coisa?  respondeu Tiffany, petulante.

 Porque esse é um trabalho relativamente fácil, até para amadores. Se houve possessão, é porque você prometeu alguma coisa. O quê? 

A mulher hesitou. O feitiço saíra de controle e agora precisava da ajuda daquela velha antipática. Depois daria um jeito nela também. 

 Prometi a Herrelle que, depois de Edgar assinar tudo, eu a deixaria ficar com o corpo dele. 

Horror, horror. Uma das mais trevosas entidades vodu! Tão poderosa quem nem os Guardiões da casa a suportaram. O medo que sentira era justificado. Olhou a mulher à sua frente  tão linda, tão loura, tão olhos azulíssimos: uma assassina fria e desalmada, que não tivera escrúpulos em trocar uma vida humana  uma vida que não era sua  por dinheiro. Sabendo que a entidade desintegraria o corpo do infeliz lentamente, tomando posse, depois, de sua Alma. Velha Vó Dindinha estremeceu. 

 O que você quer de mim?

 Que faça ele assinar os papeis. Tanto faz se vai tirar aquela coisa dele ou não. Eu quero os papeis assinados. Depois, prometo que vou interná-lo no melhor hospital, asilo, sei lá, pra ele ser cuidado e morrer em paz.

Morrer em paz! Velha Vó Dindinha teve ímpetos de bater naquela boneca loura. Tudo o que o pobre coitado não conseguiria seria morrer em paz. 

 Você está louca! Não posso concordar com essa barbaridade! 

Tiffany Cristine riu. 

 Por mim, tudo bem. Ele vai morrer, eu herdo parte dos bens. E a senhora será responsável pela morte dele...

Então, era isso. Deixar o desafortunado morrer lenta e dolorosamente, ou ajudar uma criminosa. O que fazer? Sentia-se mais à vontade trabalhando com Quimbanda, embora a Santería e o Candomblé tivessem as mesmas raízes. Teria ela forças e conhecimento para lidar com entidade tão maléfica? Seria um combate mortal. 

A mulher recostara na cadeira, tranquila e sorridente. Entendia o suficiente de feitiçarias para saber que a velha não poderia salvar Edgard sem sua permissão. Tinha, portanto, a Rezadeira nas mãos. 

 Vou ajudar seu marido. 

 Ele vai assinar os documentos?  foi tudo o que Tiffany Cristine quis saber. 

 Tenho de tirar aquela coisa. Posso garantir que ele recobrará a consciência. O resto é com você. 

Tiffany não ficou satisfeita, mas pensou melhor. Livre da entidade, o marido ainda estaria frágil e abobado. Ela, loura, linda, o sorriso charmoso, conseguiria o resto. Assentiu.

 Mais uma coisa  disse a Rezadeira. Tiffany resmungou. Só faltava aquela velha idiota fazer-lhe sermões. – Deixe que eu cure seu marido, sem você levar nada em troca. Assim não sofrerá as conseqüências de seu ato.

 Não perca meu tempo nem o seu. Diga logo quanto quer pelo serviço que tenho mais o que fazer.

Velha Vó Dindinha calou-se. Jamais aceitaria dinheiro manchado de sangue. 

Contou tudo à afilhada, que chorava, aflita, pois a probabilidade de a madrinha morrer era grande: já entrada em anos, adoentada, enfrentar uma entidade tão poderosa poderia ser fatal. A Rezadeira, por seu lado, estava tranquila. Morrer em missão era uma honra que ela sempre pedira ao Senhor. No entanto, não era hora de pensar em morrer, mas em cumprir seu destino. Deu início à desdemonização.

Foram 21 dias de jejum e oração, dentro de um círculo de 21 velas de 21 dias, seguindo as rezas fortes de São Cipriano, implorado o banimento da entidade à Nossa Senhora do Desterro, invocando Seres de Luz e os Loa, os intermediários entre os homens e o Bom Deus.  O mundo espiritual tem suas próprias leis, e aquela entidade quebrara uma delas, ao não cumprir sua parte no acordo. Os seres invocados em nome da Bondade Divina fizeram seu trabalho. O demônio saiu do corpo de Edgar e voltou para as trevas. 

O desrespeito à ksênia, a sagrada lei da hospitalidade, é crime imperdoável no mundo espiritual. Por cupidez, Tiffany infringiu essa regra, entregando o marido a uma entidade mortal. Como dissemos, o mundo espiritual tem suas próprias leis, e algumas são severas. As Erínias cumpriram seu papel e a castigaram com a loucura eterna. Nunca, enquanto viveu nessa terra, Tiffany recuperou a razão.

O Universo recuperara seu equilíbrio.

O corpo inerte, desidratado e anêmico de Velha Vó Dindinha foi internado em um hospital, em estado gravíssimo. Os médicos não tinham qualquer esperança de recuperação. O esforço cobrara seu preço.

O mundo espiritual, no entanto, tem leis próprias que a ciência dos homens desconhece.

Velha Vó Dindinha abriu os olhos e suspirou. Teria morrido de bom grado, mas, se não era sua hora, então, não era sua hora. Estava pronta para a próxima missão. 



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quinta-feira, 30 de julho de 2015

ESTE LADO PARA CIMA >> Analu Faria

Todo amor é um invasor. Eu olho para o meu namorado ali deitado, ocupando o sofá todo e penso nos mosquitos e borboletas que entram no meu pequeno apartamento, se eu deixar a janela aberta. Lembro também dos ensinamentos do meu irmão, que era engenheiro florestal, e me dizia que ficava tudo mais perigoso e a vida se enchia de possibilidades quando há espécies invasoras numa floresta.

O invasor é antes de tudo um forte. E vai modificar a paisagem com minigarrafinhas de Coca-Cola com o seu nome e o dele, e um porta-retratos com uma foto mostrando como foi legal se divertir mesmo naquele passeio mega sem graça. Vai também tornar a paisagem insípida sem a sua presença, de forma que, quando for embora, vai te deixar perguntando como é que se vivia naquele semiárido antes, naquela falta de diversidade. Os sons da casa não são os mesmos sem os zumbidos do invasor, trocando o canal da TV, rindo, apanhando do novo aplicativo, abrindo uma cerveja ou lavando a louça. E você vai contar os dias para o próximo fim de semana, quando é época de novo de abrir janelas. Espera, adaptação, sorte e seleção natural. Esse negócio de relacionamento é um suplício. Odeio Darwin.

Bom seria se meu pobre cérebro cartesiano encontrasse amores como quem encontra aquela lava-roupas de que precisa há tanto tempo. Aí sim: manuais, desenhos, instruções de montagem, tudo muito ali no seu quadrado. E o aviso vital na caixa: este lado para cima.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

EU E ELE NUNCA SEREMOS NÓS >> Carla Dias >>


O mundo se tornou um lugar para poucos. Pensei que isso nunca aconteceria... Que haveria uma saída que nos levasse para longe desse destino. Ainda assim, aqui estou: sentado em uma cadeira, próximo à porta que dá para o jardim. Perfeitamente vestido, corpo na postura correta, olhos o acompanhando, enquanto ele faz o seu monólogo matutino, andando de lá para cá.

“Sabe como é difícil conseguir um exemplar como você?” Ele se refere ao fato de eu ter cabelos negros e bem lisos, pele branca, olhos azuis, mais alto do que a média e corpo atlético. “Exemplares como você não dão sopa por aí”.

Esse lugar para poucos...

Respondi ao anúncio, após compreender que não havia outro jeito e eu precisava sobreviver. Todos os meus recursos haviam se esgotado, e eu já tinha perdido emprego e casa, não tinha mais como comprar comida. Eu olhava nos olhos daquela miséria sobre a qual, até então, eu só ouvira falar. A miséria que se oberva de longe, lamenta-se como se tal compadecimento pudesse colaborar de alguma forma. A miséria dos ignorados.

Anúncios do tipo se tornaram comuns. As redes sociais oferecem materiais mais visuais, o que facilita a compra de passe, mas também oferece mais risco. Eu escolhi os anúncios de jornal, e somente para nutrir uma falseada sensação de privacidade. Não queria alardear minha sucumbência.

Foi assim que o conheci, um dos remanescentes membros do grupo dos que mandam no mundo. Esse mundo que levou o termo “lugar para poucos” ao cúmulo do literalidade. Nem todos são respeitosos como ele. Então, aceito que tive sorte, que talvez a ideia de escolher pelo anúncio de jornal não tenha sido assim tão ruim. Se bem que não sei dizer o que poderia ser pior do que fazer o que faço hoje.

Lembro-me do início do que hoje temos. Não foi de repente, que pensando bem, o mundo já caminhava para isso. Não foi sutil, mas a maioria de nós — aqueles que não ocupavam tempo a pensar sobre o mundo e as pessoas que nele viviam — escolhemos não prestar atenção ao processo.

Eu era filho do mundo. Não tinha família, meus amigos eram poucos e nem tão amigos. Eu era um homem de posses, mas que não fazia bom uso do bom senso. Hoje eu sei bem de cada defeito que me colocou nessa posição. Porém, engana-se quem pensa que lamento somente por mim. Se há algo que a sucumbência oferece, ao menos aos que aceitam sua condição de reles ferramenta para facilitar a vida de outros, é a capacidade de lamentar pelos outros; por aqueles que se encontram na mesma situação.

Ele olha para mim e sorri. Figura triste vestida em caros tecidos, designada a assumir posto de rei, quando nem mesmo imagina como comandar a própria casa. Pede para que eu me levante e eu o obedeço. “Chegue mais perto...” E eu me aproximo dele, meus passos na cadência que ele determinou, anteriormente. Coloca a mão sobre o meu ombro e me encara: “o que você acha?”

O que tenho de achar — e digo isso porque tenho mesmo de achar, independente do que acredito — é o que ele me passou por e-mail, ontem à noite. Todas as noites eu recebo uma lista de coisas a serem feitas no dia seguinte, assim como recomendações sobre como me comportar diante do que acontecerá.

O mundo e a sua geografia de imensidão que quase conheci. Sim, eu viajei muito, estive em quase todos os países do mundo. Apaixonei-me por diferentes culturas. Havia diversidade nas pessoas e nas realizações. A pluralidade me encantava. Apesar de todos os problemas sociais, religiosos e pessoais, nós vivíamos em um mundo onde cabiam nossas jornadas. Mas foi até ali... Até se estabelecer essa nova ordem. Até poucos se tornarem tão poderosos a ponto de serem capazes de reescrever a história de milhões, sem a participação deles.

Ele continua o seu monólogo, lançando-me olhares curiosos, vez e outra. Tenho por certo que ele nunca se interessou pelo o que realmente penso sobre suas aventuras amorosas ou conquistas financeiras e profissionais.

Aquela miséria sobre a qual eu escutava falarem a respeito já não existe mais. Mas também deixaram de existir muitos países, culturas. Não existe mais problema de superpopulação. Esse também foi resolvido ao se reduzir o número de pessoas no planeta e aplicado um severo controle de natalidade. Sim, falo sobre algo que foi cogitado por muitos e que fez parte da literatura de importantes escritores. Tivesse ficado na intenção e na ficção, talvez a história fosse outra.

Quem diria que eu acabaria aqui, justamente na casa do mais poderoso do círculo que hoje abriga aqueles que regem o mundo, fazendo da vida das pessoas o que bem entendem, suprimindo-lhes desejos e sonhos. A miséria de hoje não é como aquela que eu conheci de longe. Esta tira homens e mulheres de seus ambientes seguros, do dinheiro e do pálido poder que os mantinha, lançando-os a um mundo de necessidades que jamais imaginaram que poderiam ter.

“Deixe-me ver...” Enquanto ele analisa minhas unhas, uma a uma, com rigor, olho para o adiante, engolindo o choro. “Limpas... Muito bem. Agora...” Abro a boca para que ele analise meus dentes. “Perfeito”.

Essa nova ordem tornou o ser humano mais solitário do que nunca. Os que mantêm relações de afeto honestas, das correspondidas, são invejados profundamente. Foi por conta dessa solidão que muitos dos poderosos adotaram a prática dos anúncios. No início, eles não queriam se revelar, temendo que o poder adquirido fosse fragilizado por tamanho desejo de se conectar ao outro. Depois, compreenderam que somente o poder lhes daria um mínimo de amparo emocional.

Antes de responder ao anúncio, chorei como se fosse criança e por horas. Adulto, sabedor que a vida de uma pessoa deveria lhe pertencer, tive de entregar a minha a alguém incapaz de se conectar naturalmente com outro ser humano. Eu atendia aos requisitos, e a ideia de poder voltar a dormir em uma cama, de contar com três refeições ao dia, trouxe à tona a minha fragilidade.

Verguei-me.

Ele diz que tenho de me dedicar um pouco mais, que devo assistir a todos os vídeos que ele deixou separados na sala de tevê. “Quero que aprenda cada gesto, a entoação das palavras... Perfeição.”

Tento acessar a memória, mas ela anda mais frágil que nunca. Por alguns instantes, esqueço-me completamente do meu nome. Quando ele me volta à memória, emociono-me, como se reencontrasse um velho amigo. Um deles me disse, há muitos anos, quando eu ainda era um indivíduo, que não há nada mais cruel do que roubar de uma pessoa o direito de ser, a sua identidade. Na época, eu satirizei a reflexão. Hoje, eu gostaria de dizer a ele que finalmente entendi o que ele disse.

Ele sorri com dentes completamente estragados, por conta de uma doença que seu dinheiro e seu poder não podem curar. Eu me vejo nele. Eu me vejo sendo a versão melhorada dele: as mesmas roupas, o mesmo perfume, mesma altura. Cabelos penteados da mesma forma. Olhos igualmente azuis. É como olhar para o meu reflexo no espelho.

Invade-me essa tristeza imensa. Enquanto ele continua a me adestrar, percebo a ironia: o poderoso, o capaz de mudar o mundo e decidir o destino de outras pessoas é um ser que sofre de solidão profunda. Ainda assim, do topo de sua prepotência, prefere pagar com casa e comida para que outro, alguém fisicamente parecido com ele, possa interpretá-lo em um enredo salutar e sedutor. Na solidão, em vez de buscar quem possa lhe oferecer afeto, ele coloca anúncio no jornal e encontra quem possa lhe fazer companhia como se fosse ele mesmo.

Bebemos chá no fim da tarde. Xícaras levadas à boca ao mesmo tempo. Às vezes, eu me esqueço de que sou eu mesmo. Às vezes, ele acredita que sou ele. Vivemos nesse mundo que se tornou um lugar para poucos.

Imagem: Brothers Bruckman © Karel Bruckman



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segunda-feira, 27 de julho de 2015

S.O.S. ACADEMIA >> Albir José Inácio da Silva

Hoje me movimento já com algum desembaraço pelos aparelhos da academia, mas não posso esquecer minhas desventuras de principiante no fitness.

A timidez não chega a me paralisar. Se tenho que fazer, faço, depois contabilizo os resultados. Mas confesso que aquela garotada irreverente, fazendo coisas difíceis com facilidade, assustava um pouco minhas acumuladas primaveras.

Por isso escolhi um mês de férias no trabalho, para que tivesse o tempo necessário à adaptação e, como tinham me orientado, pudesse frequentar no meio da tarde — horário em que a academia ficava quase vazia.

O professor rabiscou uma série e explicou rapidamente os aparelhos, tudo muito fácil segundo ele. Sobre os pesos, ou carga — esse é o nome correto — disse que era pessoal e o aluno adaptava à medida que evoluía no treinamento. E seguiu para outras muitas atividades.

Tarde sonolenta, academia vazia, professor ocupado, um garoto solitário na esteira, uma magrinha e eu. Eu, meio perdido, com uma ficha na mão, articulações enferrujadas e alguma preguiça. Tudo em paz, beirando a harmonia.

Se há alguma coisa de que não posso reclamar é do acolhimento. Sempre aparece alguém com empatia e boa vontade para me ajudar nos começos difíceis. Foi assim com a magrinha. Eu não saberia dizer sua idade, talvez por causa das roupas coloridas, dos gestos harmoniosos e da magreza.

Sei que era só gentileza e paciência com este neófito, abandonado pelo professor e pela coragem. E me explicou aparelhos, alavancas e velocidades. Sempre que me via olhando a ficha, lia comigo e interpretava.

Fiquei observando seus movimentos no LEG 45: esticava e flexionava as pernas, travava e liberava o peso ao final ou início de cada série. Até que se levantou e foi ao bebedouro.

Acho que, embora muito grato pela ajuda até ali dispensada, quis impressioná-la, mostrar minha desenvoltura e independência. Olhei para o aparelho e achei que havia muitas e grandes anilhas, mas não me preocupei.

Se minha amiga, magrinha daquele jeito, pequenininha, conseguia levantar com facilidade, ritmo e um sorriso tranqüilo, por que eu não conseguiria? Sentei-me no aparelho, apoiei as costas e coloquei os pés na placa de sustentação, como a tinha visto fazer. Empurrei os pés e liberei o peso.

Meus joelhos bateram no peito, eu não conseguia respirar nem me mexer. Também não conseguia gritar.

A magrinha levantou a cabeça do bebedouro e viu meus braços agitados em desespero. Chamou por ajuda, e eu me lembro das pessoas retirando as anilhas e me segurando pelos braços. Minhas costas não se endireitavam mais. Minhas pernas estavam bambas. Sei que falavam comigo, mas eu não ouvia.

Aos poucos, as vozes foram voltando. Quiseram que eu me sentasse, mas eu tinha medo de não levantar mais. Consultaram-se sobre a necessidade de ligar pra SAMU e eu protestei. A academia parou, todos a minha volta, e eu querendo sumir. Só tinha certeza de uma coisa: nunca mais voltaria ali.

Mas voltei, anonimamente, outro horário, outro professor, outras magrinhas. Tinha aprendido um pouco mais sobre prudência e humildade. E sobre aparências e enganos.


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domingo, 26 de julho de 2015

NÃO SE MEXA, MEU AMOR
>>Eduardo Loureiro Jr.

— Não, Mô. Isso, assim. Um, dois, três, X... Saiu borrada. De novo. Fica imóvel, não mexe nem um pingo. Mas sorri. Sorri direito. Não, não faz esse sorriso de quem tem que sorrir pra foto. Faz aquele sorriso original, o primeiro que eu vi, aquele que me fez apaixonar por você. Isso. Segura esse sorriso. Com naturalidade, senão sai aquele sorriso forçado. Um, dois, três, X... Ficou ótima! Linda! Vou postar... Vamos tirar outra? Deixa de chatice, só mais uma. Depois você faz o que você quer fazer. É que reparei agora que apareceu sua chinela no fundo da foto. Horrorosa essa chinela. Quando é que você vai usar a chinela que lhe dei de presente de aniversário? Vamos lá. Me abraça. Mais forte. Não tão forte, assim você vai me sufocar. Me abraça do jeito que você abraça sua mãe. Você não sabe como você abraça sua mãe? Assim, ó. Isso. Sorri, você já sabe, daquele jeito. Sorriso sincero, por favor. Você não está sorrindo sinceramente. Você não pode tirar uma foto direito comigo? Duas, dez, quantas for. Em que é que você está pensando? Isso é sorriso de quem não está com o pensamento em mim. Você não me ama mais? Você não quer aparecer mais comigo? Por favor, sorri. Lembra de tudo que eu já fiz por você, todos os presentes que já lhe dei, mesmo que você não use todos. Já fiz tanto sacrifício por você e você não pode sorrir para uma foto? Não, não esse sorriso, aquele outro. Não, esse também não. Nem esse. Aquele, mô, aquele! Esse! Isso! Um, dois, três, X... Ah, não! Você desfez o sorriso na última hora, ficou com cara de besta. Vamos tirar outra. Rapidinho. Um, dois, três, X... Eba! Tá vendo, quando você resolve colaborar, funciona. A gente podia fazer um álbum inteiro. Um álbum pequeno, Mô, uma foto por dia. Aí quando a gente fizer Bodas de Ouro a gente faz um vídeo, nessa época talvez até seja um holograma, vai ficar lindo. Só uma foto por dia. Você não pode dedicar um minutinho por dia pra gente tirar uma foto? Sinceramente, Mô, às vezes acho que você não gosta mais de mim. É muita má vontade. Você não entra no WhatsApp e no Facebook todo dia? Então por que não pode tirar foto comigo todo dia? Que tanta coisa é essa que você tem pra fazer? Não me diga que ainda tá com aquele sonho, aquela criancice. Tem que crescer, Mô. A gente tem é que trabalhar e ganhar dinheiro para comprar um celular com uma câmera ainda melhor que essa. Meus sonhos pra gente não são bons pra você? Por que é que você tem que ter esses sonhos só seus? Não mexe, Mô. Fica parado aqui perto de mim, não me larga. Sorri, sorri sempre. Eu te amo, Mô! Um, dois, três, X.

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sábado, 25 de julho de 2015

É >> Cristiana Moura



É que hoje as palavras me faltaram. É tanta linda gente, com tantas belas histórias. É tanta linda gente com tantas duras histórias. Tantas pessoas com seus sons, seus gestos, seus entraves encantando esse sábado do cotidiano que as palavras se ausentaram de mim.

É coisa de andar por meio aos grupos. De ver cada um caminhando seu próprio caminhar e procurando fincar os pés ao chão. São muitas as alegrias. São muitas as dores. Tem gente que hoje é triste. Tem gente que voa. Tem gente que brinca de escorregar. Tem sorrisos e pensamentos que não leio, mas os sinto.

É que gosto de gente sendo gente. Cada vez que alguém, num vislumbre, é o que é sinto-me encantada como que por uma varinha dos contos da infância.  São tantos os olhares que, hoje, as palavras me faltaram.



Imagem: S/ título - Cristiana Moura



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ESTAMOS AQUI >> Paulo Meireles Barguil


Comovente.

Impactante.

Escrito por Jéssica Paula e publicado recentemente, Estamos aqui relata alguns capítulos da saga de milhares de pessoas no leste da África, que tentam, há várias décadas, sobreviver a vários conflitos.

Ao longo de quase 300 páginas, a autora apresenta uma descrição pujante de sua odisseia, durante três meses em 2013, por quatro países africanos: Etiópia, Sudão, Sudão do Sul e Uganda.
O livro é recheado com fotos, que permitem ao leitor ampliar, consideravelmente, as suas sensações afloradas pelo texto envolvente.
A obstinação da viajante, na busca de alcançar seus objetivos, assemelha-se à determinação de irmãos africanos, que, em meio a ameaças diversas e com intensidades variadas, olham para frente.
Após a leitura da obra, profundamente atônito, pergunto-me:
— Onde é mesmo que nós estamos?


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quinta-feira, 23 de julho de 2015

CHEIRO DE ALMA NOVA >> Mariana Scherma

Poucos cheiros me deixam mais feliz do que o de café. Abrir um saco novo de pó de café de manhãzinha me faz querer acabar logo com ele pra abrir um outro. Acordar na casa da mamis com cheiro de café funciona mais do que despertador barulhento ou despertador com música gostosa.

Esse amor todo deve ter a ver com aquela história de memória olfativa. A lembrança mais antiga que tenho de café é de quando era beeem piralhinha e fazia minha mãe me levar pra casa da vó Ana e tomar café com ela. Hoje eu sei que o café da vó era o mais forte que já bebi na vida. Perto do dela, o meu é quase forte. Perto dos outros, o meu é forte, sim.

Café fraco pra mim é coisa de covarde, de gente que não demonstra sentimento. Aqueles copos gigantes de café que a gente vê em seriado dos EUA é enrolação, ninguém tomaria um copão daqueles do café da vó Ana impunemente, sem ficar o resto do dia acordado – e animaaaado. Café fraco é tão ruim que, sério, não merece ser chamado de café, chafé mesmo.

Outra coisa que não combina é essa coisa de coffee-to-go. Pra mim, café tem que ser tomado na xícara, enquanto você se embola no jornal ou enquanto você aprecia a vista da sacada. Se estiver chuviscando e for domingo, então, a felicidade é plena.

Já vou avisando (momento estou me achando) que dizer que gosta de café e só misturar Nescafé no leite não faz uma pessoa ser apreciadora de café. Não mesmo, café solúvel não tem nada a ver com café. Assim como café misturado com chantilly, doce de leite, canela... Isso é quase um pavê.

Eu sinto vontade de um cafezinho toda hora, até à noite. Eu posso ter acabado de tomar o último gole, mas se vir uma propaganda (daquelas com família na mesa de toalha branca e o dito-cujo saindo de um bule de louça), vou ter que tomar café de novo.

Café combina com pãozinho crocante, com caneca velha ou nova, com lotação ou solidão em casa, com pijama, com dia de chuva, com John Mayer tocando baixinho no rádio... Café, pra mim, é oficialmente a bebida que faz o dia nascer feliz (beijo, Cazuza!) e que faz carinho na alma. Na minha, pelo menos. Café é meu pretinho básico e vital.


P.S.: Café é refeição. Capuccino é sobremesa ;)


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

PÉS NUS >> Carla Dias >>


Caminha pela casa, mãos colhendo vento, olhos embriagados por imagens inéditas, dignas do embaralhar memórias com sonhos. Sabe que não é assim, que veio do mundo das certezas, do tempo despendido em tarefas concretas, do preencher formulários, sair para almoçar com colegas de trabalho, guardar as roupas passadas pela diarista, ir para a cama antes da madrugada. Cinco horas de descanso, então, começar tudo de novo.

É do tempo oferecido ao conforto da companhia dos amigos, das gargalhadas e histórias de vida compartilhadas, da resiliência diante da presteza do desapontamento em provar que, quando quer, é ele quem manda na situação. Ainda assim, caminha cadenciado pelos cômodos da casa, nessa quase dança de coreografia extravagante, o corpo a movimentar-se como se não lhe pertencesse, rendido ao barulho do silêncio sufocante.

A casa abriga mais do que sua realidade. Ultimamente, tem sido palco da sua imaginação. Há quem diga que sua criatividade libertou-se do aprisionamento do cotidiano. Há quem aposte na loucura, que anda na moda a mente das pessoas falhar por conta de tantas informações: cartão de crédito, leitura do tarô, mensagens chegam pelo computador e telefone, são entregues pela vizinha. Tragédias noticiadas por telejornais e durante as conversas entre passageiros do trem, leitura de revista de fofoca, aumento na conta de água, luz, supermercado.

Passeia língua pela borda do copo. Sempre bebe água gelada, que natural não lhe mata a sede. Mas era assim antes, que agora a sede não lhe abandona. Passeia língua pela borda do copo, a mente computando sede por outras coisas: beira-mar, sol lhe tocando a pele, passeio pela cidade em dias de feriado. Aquela sensação de paz ao olhar pela janela do carro, enquanto dirige até o aeroporto para receber quem partiu há tanto tempo, que a notícia sobre sua volta ressoa feito surpresa.

À noite, mergulha nas verdades omitidas pelos desvarios do dia. A mãe ligou para saber como estava, e não disse palavra que abrandasse a preocupação dela. Não tem mais o talento de oferecer alívio ao outro se não o reconhece. Houve tempo em que fazia isso com certa naturalidade, só que não mais. Também ligaram o contador, para detalhes sobre o imposto de renda, e uma tia distante, por pura curiosidade a respeito da doidice que, ela tem certeza, abateu-se sobre outros membros da família. A assistente do médico sobre a consulta na qual deveria ter comparecido, que seu coração precisa de cuidados.

A verdade é que talvez sua tia esteja certa, e haja doidice nesse desamparo que sente. Há momentos em que parece lhe faltar o ar, demora-se a recuperar o fôlego. Sente como se a morte lhe beijasse a fronte, várias vezes ao dia. Talvez a assistente do médico também tenha razão, que seu coração, às vezes, silencia de um jeito que até lhe faz pensar que parou. Que já era.

Pode parecer aos que lhe observam — e esmiúçam motivos sobre o que se passa com pessoa antes tão centrada, agora um ser iludível — que o acontecimento é a loucura contemporânea, da que laça aquele que não tem força de vontade para continuar lúcido. Mas a verdade é que houve esse dia em que não quis se levantar no horário de sempre, tampouco se aventurar em jornada de trabalho. Em que não importava se as roupas seriam guardadas, se deixaria o dinheiro da diarista no lugar de sempre. Houve o dia em que se fascinou pela a ideia de existir de outra forma, em outro lugar. E enquanto não sabe como e quando, caminha pela casa, pés nus roçando chão dos cômodos, procurando por outros caminhos.

Imagem: The Swan © Hilma af Klint



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terça-feira, 21 de julho de 2015

E TUDO MUDOU... >> CLARA BRAGA

O australiano nem imaginava. Ou até imaginava, já que ser surfista tem o possível encontro com tubarões como lado perigoso da profissão. Mas deve ser uma daquelas coisas que a gente vê acontecendo com os outros e acha que com a gente nunca vai acontecer. E ai, quando perguntado sobre o que ele sentiu quando saiu do ataque ileso, a resposta não podia ser outra: “Nasci de novo!”

Parece clichê, mas nós, que nunca passamos por uma situação parecida, não estamos aptos a julgar. A sensação deve ser exatamente essa, um novo nascimento. A gente fica apenas acreditando que de fato deve existir uma força maior, seja lá no que você acredita, que “salva” a gente quando ainda não chegou a nossa hora.

Aliás, essa história da hora certa também é um outro clichê com o qual a gente se depara o tempo todo. Até como forma de consolo quando o final não é tão feliz quanto no caso do surfista, afinal, quem somos nós para questionarmos as atitudes da tal força maior? Se ela salva, deve saber muito bem quando não é exatamente a hora de salvar, pelo menos é o que a gente espera.

O casal que se salvou do tsunami pois estava mergulhando e nem sentiu a onda passar, o homem que foi tirado com vida do navio que havia afundado já tinha uns dias, as pessoas que sobreviveram ao ataque ao World Trade Center, enfim, são todas histórias surpreendentes que contrastam com mortes inesperadas e aparentemente bobas, como aqueles jogadores de futebol que estavam bem, jogando normalmente, e morreram em campo. A única explicação possível? Chegou a hora de uns e a de outros não!

Todos os casos são tão curiosos, chamam tanto a atenção, que logo viram filmes e lotam salas de cinema com pessoas que se debulham em lágrimas sem nem saberem explicar exatamente o que as faz chorar tanto. Pois bem, eu, uma chorona nata, tenho uma teoria. Tem um outro clichê que faltou falar nessa história toda: a percepção do quão frágil nós somos. Na minha opinião, é exatamente isso que nos toca tanto nesses casos de perigo extremo. Ficamos com uma sensação de urgência, de que temos que realizar logo nossos sonhos, parar de perder tempo com besteiras, correr atrás do que nos faz feliz, afinal, não sabemos do dia de amanhã.

Felizmente, algumas pessoas ainda não perderam a capacidade de se colocar no lugar do outro e se sensibilizarem com as histórias a ponto de refletirem sobre a própria vida. Para todos os outros, basta apenas rezar para que não tenham que sentir na pele a sensação de quase morte ou novo nascimento para entenderem que a vida é muito curta para perder tempo com o que não se deve.

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domingo, 19 de julho de 2015

UMA ALEGRIA >> Whisner Fraga

Quarenta semanas de gestação (não estou certo quanto a esse número, pois sou do tempo que a gravidez era computada aos meses) e chegava o dia. Meu irmão arruma a tralha (duas ou três malas) e ruma para o hospital com minha cunhada. Lá se lembrarão que deixaram muito para trás, pois um bebê é imprevisível, a começar pelo dia que vai nascer e precisa de tanta coisa que não sabemos! Estão apreensivos, ansiosos. Tanto tempo de preparação e parece que a teoria se transformaria em prática. Meses de desenvolvimento (não evolução) e uma vida de transformação para descobrir, enfim, que nunca passará de casulo.

Chega como chegam todos: aos prantos. Um choro que será seu vocabulário por alguns meses. Utilizará desse expediente quando tiver fome, frio, dor. Crescerá em uma sociedade violenta, inóspita, competitiva, mas também compreensiva, acolhedora, fraterna, como era há cinco ou dez mil anos. Perceberá que não se muda nada da noite para o dia, mas que é nossa obrigação tentar a mudança. Repito: não a evolução, a mudança.

Meu sobrinho João Vitor, que ainda não conheci pessoalmente. Tem os olhos acinzentados dos primeiros dias de convivência com as leis deste mundo, tem os cabelos ralos que cairão para dar lugar a outros igualmente negros e arrepiados. Segue, portanto, todos os padrões de comportamento da raça e é bom que seja assim, para a tranquilidade de todos. Não gostou do primeiro banho, aquele líquido morno que bateu em ondas em sua barriga sensível. Não gostou e gostou: é assim o mundo da experimentação.

Agora mesmo posso vê-lo, graças ao século XXI, com uma touca azul na cabeça, saindo para o passeio. Posso assisti-lo se debater na banheira enquanto lhe esfregam o cabelo. Tenta reconhecer nessa nova realidade algum lugar seguro, algum ruído confortador e quando encontra algo que reconhece como bom, se acalma e volta a dormir. Nasceu em Uberlândia e lá deverá passar sua infância. Lembro-me da missionária “Santa”, do filme “A grande beleza”, ao explicar a Jep porque só come raízes: “Porque as raízes são importantes”.

Ontem mesmo mando uma mensagem ao meu irmão: “o pior ainda está por vir: as festinhas de crianças”. Antecipo algumas noites sem dormir, que em breve chegarão para eles. Não importa, ele perceberá. Os aniversários infantis também o divertirão, sei disso. A infância tem o seu tempo. O que importa agora é nos planejarmos para uma visita, em breve. Os primeiros dias devem ser a solidão dos pais e o aprendizado. Trocar uma fralda, interpretar um choro, dar o banho, fazer o bebê arrotar após uma refeição, tudo é novo e, no entanto, tudo tem milhares de anos.

Meu sobrinho João Vitor tem os olhos acinzentados e aprendeu a sugar o leite e a remexer os pés em busca de apoio. Gira a cabeça à procura de um som que reconheça. Só por isso eu sei que será feliz. E é bom que assim seja.



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sábado, 18 de julho de 2015

CONTRA A CALVÍCIE >> Sergio Geia





“Um novo produto contra a calvície chega ao mercado brasileiro, amigo.” A notícia, que leio em voz alta pro Julio, garante que o negócio é bom, daqueles da China; que possui ingredientes fantásticos, cientificamente comprovados, capazes de dar cabo da coisa.

“E não é só isso não!”, continuo, agora com a voz numa tonalidade mais elevada: “Além de segurar os fugidios numa espécie de carandiru capilar, ele recupera, revertendo o processo de queda, fortalecendo, revitalizando, nutrindo, fabricando um chumação igual ao tempo em que você tocava na noite lá em Ubatuba, Caraguá, São Sebastião, e ostentava uma floresta amazônica na cabeça. Sem efeitos colaterais, isso é bom anotar, e sem gastar tanto dinheiro, olha que maravilha. Seus fios serão novos rebentos, aptos a uma vida decente em sociedade. Veja aqui, veja... a foto do cara que tomou.”  

Julio me olha com incredulidade, mas enxergo nele uma fina ironia nascendo de seus grandes olhos, como quem já tá preparando o troco. “Sem efeitos colaterais” — eu continuo meu monólogo — “porque você sabe, né?, a Finasterida, outro produto do mercado, dizem que produz a perda da capacidade sexual, provocando até impotência, o que pra mim não deixa de ser uma grande papagaiada. Já travei altas discussões sobre a questão e posso afirmar com conhecimento de causa: decididamente, isso não ocorre com a maioria absoluta dos usuários. Sem gastar tanto porque você não vai precisar fazer um consignado na Caixa pra bancar um procedimento de recomposição capilar.”

“Mas os caras são foda! Eles enfiam uma faca no fígado e torcem. Associam aparência com autoestima, e o cabelão como principal componente da aparência. Assim, não é difícil concluir num silogismo escroto, que se você tem cabelo, tem boa aparência; logo, sua autoestima tá lá em cima, batendo os píncaros do Himalaia. Se não tem...”

Só pra você saber, amigo leitor (aliás, nessas alturas você já sabe, né?): o Julio é careca. E muito bem-resolvido, diga-se. Por isso, é claro, me permiti a piada. E diferentemente de mim, que senti o coração sorrindo de esperança, ao mesmo tempo em que meus amiguinhos de cima começaram a revelar um quê de preocupação com os novos tempos, sabendo que as escapulidas estão com os dias contados, o Julio não sentiu nadinha de nada. Aliás, se sentiu, foi apenas desprezo, um desprezo atroz pela notícia fora de hora.

Mas minha empolgação se arrefeceu ao tomar conta da notícia contextualizada. Na verdade, não era notícia, matéria jornalística eu quero dizer, cirúrgica, precisa; era simplesmente um merchan de jornal, um produto que você não encontra nas farmácias, mas que tem que ligar; e se for nos próximos cinco minutos, ganha 60% de desconto. Como acreditar num merchan que diz que o desconto vai durar só cinco minutos, se todo dia que você clica nele, o desconto tá lá; que cinco minutos são esses, meu Deus, que duram uma eternidade!?

“Pensando bem, o tal do Vin Diesel tá aí arrancado suspiro da mulherada e eles falam de baixa autoestima?”. Julio me corrige dizendo que seria mais adequado eu falar do Bruce Willis, não do Vin Diesel: “Você entende, né, Sergio? É contemporâneo seu, he, he, he”.


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sexta-feira, 17 de julho de 2015

A REZADEIRA — 2ª PARTE >> Zoraya Cesar


A mulher do outro lado da linha quase gritava, aos prantos, alguma coisa sobre possessão, marido, espíritos malignos. 

Chovia muito, estava um pouco frio — e as articulações reumáticas da velha Rezadeira lhe diziam que esfriaria mais. O ideal seria tomar uma boa xícara de chocolate quente e ficar em casa, mas alguém lhe pedira ajuda; portanto, ajudar ela iria. 

Preparou o ritual que sempre fazia antes de sair a trabalho: ofereceu uma vela na intenção de Nossa Senhora do Desterro, outra a São Cipriano; sentou-se em sua cadeira de balanço, acendeu o cachimbo e entrou em oração. Pediu por seu Espírito, para que não arrefecesse frente ao medo ou às tentações; por sua Alma, para que não fosse arrastada pelas forças do Inferno; e luz, para cumprir sua Missão de acordo com a Vontade Divina.

Entre uma baforada e outra, os olhos fechados, deslizava os dedos por suas guias de contas e cantava. Cantava cantigas de proteção e exortação que, um dia, algum xamã, pajé, curandeiro, druida, feiticeira, balalorixá lançara aos céus e os céus gravaram no ar que circunda a Terra, por anos e séculos, para serem captadas por quem tem ouvido para ouvi-las.

Deixou recado para a afilhada com a vizinha, chamou um táxi e partiu com sua bolsa de apetrechos; sua experiência; sua fé; e um pé atrás.

Ao chegar, foi recebida por uma mulher bonita e bem tratada, de longos cabelos louros e olhos profundamente azuis, inchados de tanto chorar. Velha Vó Dindinha foi convidada a sentar, e a mulher pediu licença por alguns instantes. 

A sala era grande, decorada por móveis caros e de gosto duvidoso, naquele estilo pseudo-elegante que agrada aos novos-ricos. Mas a velha Rezadeira percebeu muito mais que isso.  

Toda casa tem sons que lhe são próprios, como vibrações e vozes de antepassados, lares e ectoplasmas, inaudíveis aos ouvidos do corpo. Essa casa, no entanto, estava inteiramente silenciosa. Velha Vó Dindinha também não vislumbrou a presença de qualquer guardião dos moradores. Encontrar uma casa praticamente desabitada pelo mundo espiritual era fato raro, mesmo para ela, que já vira tanta coisa nesse mundo — e no outro. E ainda havia o estranho cheiro de café com aguarrás que permeava o ambiente. Antes, porém, que chegasse a uma conclusão, a mulher voltou.

Seu nome era Tiffany Cristine, e se dizia desesperada. Conhecera o marido — um empresário rico e muitos anos mais velho — no salão de cabeleireiro onde trabalhava, apaixonaram-se e casaram. Ao voltarem da lua-de-mel, ele foi subitamente acometido por uma estranha doença que nenhum médico conseguia diagnosticar. Entrara em estado de estupor, do qual só saía para gritar palavras incompreensíveis e ranger os dentes com aparente ódio. Ela podia jurar, de pés juntos, que já o vira levitar poucos centímetros acima do colchão. 

A mulher chorava sem parar, era horrível, balbuciava, tivera de amarrá-lo à cama, pois, quando alerta, ficava violento, quebrava coisas, tentava agredi-la, logo ele, tão carinhoso. Desistira de contar com a medicina tradicional e começara a percorrer centros espíritas de todas as linhas, igrejas de todos os matizes, sem resultados, até que uma amiga de uma amiga indicara o nome de Velha Vó Dindinha. 

— A senhora é minha última esperança. A senhora tem que tirar meu marido dessa situação, eu acho que ele está possuído.

Velha Vó Dindinha, disso, não tinha dúvidas. Por tudo o que percebera na casa e pelo que fora relatado, ela sabia que havia o dedo, a mão, talvez o corpo inteiro de alguma entidade do Mal naquela história. O que ela ainda não sabia era de onde vinha a desconfiança de que a mulher escondia algo. Pediu para ver o doente.

O quarto era lúgubre, mal-iluminado por uma luz branca e fria. “Ele não aguenta a luz do sol”, explicou Tiffany Cristine. Mesmo enxergando mal, Velha Vó Dindinha pôde ver o suficiente para se sobressaltar: o homem estava apodrecendo, sendo comido por dentro e... ela entendeu o porquê do cheiro de café com aguarrás. Era para disfarçar o odor pútrido que tresandava do desinfeliz. 

O homem abriu os olhos e, de repente, pôs-se a uivar. Um uivo triste e soturno, como o de um lobo às portas da morte. O coração de Velha Vó Dindinha, forte que fosse, confrangeu-se, compadecido — era muito sofrimento. Mas ela não estava ali para sofrer junto, estava ali para ajudar. 

Tiffany Cristine começou a gritar, descontrolada, não aguentava mais aquilo, meu amor, minha vida, volta pra mim... Os uivos pararam. E foram substituídos por palavras vociferadas, cheias de baba e ódio, palavras que a Velha Rezadeira reconheceu como sortilégios haitianos. Ela tremeu. Não ter medo da entidade que possuíra o desvalido seria uma temeridade irresponsável. Quanto maior o medo, maior a cautela. E Velha Vó Dindinha não vivera tantos anos por agir irrefletidamente. 

Voltaram à sala. Sentaram de frente uma para outra. A mulher, loura, jovem e chorosa. A outra, encanecida, idosa e severa. Seus olhos se encontraram. E saíram fagulhas desse encontro. Num átimo, não eram mais cliente e contratada. Eram oponentes, adversárias e perigosas.

— Agora — disse acerba, mas calmamente, a Velha Rezadeira — Você vai me dizer a verdade. Se quer a minha ajuda, eu preciso da verdade.

A 3ª e última parte será publicada em 31 de julho.


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quinta-feira, 16 de julho de 2015

BRICOLAGEM, PALAVRÃO E HOMEOPATIA
>> Analu Faria

Eu gosto de umas palavras sem nem saber o significado delas. Tipo “bricolagem”. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez, fiquei repetindo para mim mesma “bricolagem, bricolagem, bricolagem...”. Em seguida, criei diálogos imaginários com ela, tentando adivinhar o significado. Uma forma de artesanato? “Quero aprender bricolagem, minha tia é artesã e disse que bricolar [é claro que eu ia derivar um verbo disso] é superdesestressante.” Uma manobra política? “Os deputados usaram de bricolagem na aprovação do projeto de lei.” Ou ainda uma brincadeira irritante de criança? “Parem de bricolagem, vocês dois, ou eu chamo a diretora!”

Outras palavras eu trago comigo como remédio. Muitas são palavrões. Toda vez que estou acometida de alguma tristeza não requisitada, ou de raiva, ou, pior, de preguiça, valho-me de um deles. Bosta é meu favorito. Faz uma explosão na boca quando a gente fala, assim: b*OOO*sta! (Eu geralmente acrescento um “ô” antes: “Ôôôô b*OOO*sta!”). É terapêutico!

Está claro, pelo menos para mim, que um dos aspectos determinantes para que eu goste de uma palavra é o seu som, o aspecto fonético (que me corrijam os linguistas, se eu estiver usando o termo equivocado aqui): como eu disse, eu não sei o significado de muitas das palavras de que gosto e quanto aos palavrões, bem, eu sei que há algo de subversivo em proferir um palavrão, mas nem todo palavrão me parece interessante, nem todos soam “terapêuticos”. E definitivamente não posso dizer que gosto da palavra bosta pelo que ela significa. O negócio é que é bom falar — e ouvir — certas palavras e me afeiçoo a elas por conta disso.

Mas há uma outra “música” na comunicação verbal, que não tem nada a ver com o som das palavras ou com a cadência das frases. É uma música que se ouve na comunicação escrita e na falada. Eu não sei descrevê-la, mas aqui talvez minha percepção tenha relação com o significado. Por exemplo: Cecília Meireles, para mim, escrevia poemas que soam como "música instrumental para se ouvir tomando o chá das cinco". Acho até que não sou fã dela porque músicas de chá das cinco não são a minha praia. Aliás, nem chás das cinco. Clarice Lispector é Pink Floyd, o que me deixa incomodada — leio, ouço, me toca, mas transborda — e eu já transbordo demais em atividades cotidianas. Segundo minha homeopata, essa, aliás, é a causa da minha asma. Então, como tenho asma, leio Clarice com moderação. Hilda Hilst é Nirvana e Pearl Jam, ela e eles, alguns dos meus favoritos. Guimarães Rosa é jazz (hard bop, provavelmente): é a simplicidade inteligente que acelera meu coração e destransborda meus excessos.  Adélia Prado é a MPB de Caetano e Maria Bethânia — é impossível não gostar de Adélia Prado, se você for um brasileiro que gosta das coisas daqui e tiver um coração.

Machado de Assis e Shakespeare, eu não sei classificar. Não me vem à cabeça uma banda ou um estilo musical que se encaixe no que eles escreveram. Mesmo assim, a “música” deles me agrada muito. E minha homeopata disse que pode fazer bem para a minha gastrite. "Com exceção de 'A Mão e a Luva'", ela disse, "'A Mão e a Luva' pode ter um efeito contrário. Mas se quiser reler, toma um chazinho de Espinheira Santa junto."



Em tempo: segundo a Wikipedia, bricolagem é um termo “usado nas atividades em que você mesmo realiza para seu próprio uso ou consumo, evitando deste modo, o emprego de um serviço profissional."



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quarta-feira, 15 de julho de 2015

OLHA O JORNAL! >> Carla Dias >>



A primeira vez que um texto meu foi publicado em um caderno cultural de jornal foi em 1994. Eu fiquei feliz, meu namorado nem tanto, que ao ler o conto, mesmo sem eu ter inserido no tal seu nome e endereço, reconheceu-se nele de imediato.

Foi assim que eu descobri que nem todos gostam de servir de inspiração.

A segunda vez foi um tanto mais emocionante, e nem teve de prefaciar fim de namoro. Foi em 1999, dois anos depois de meu primeiro livro ser publicado. Zanoto foi muito gentil com o meu Azul, chegando a publicar meus poemas na sua coluna do Correio do Sul, a Diversos Caminhos. Ele não só publicava os meus poemas, como me mandava o jornal, direto do Sul de Minas, e sempre com alguma anotação. Mas um deles me deixou pra lá de feliz. Não somente pelas palavras, mas novamente pela gentileza de Zanoto.




Então, a internet ganhou espaço de vez. Um imenso espaço.

Não, eu não sou contra a internet. Na verdade, eu adoro a internet. Acredito que, quando usada com sabedoria, ela pode nos fornecer ferramentas para adquirir conhecimento, conectar-nos a interesses e pessoas interessantes... Ok, ok... Também serve para ficarmos por dentro não apenas da obra, mas também da vida daquela figura — bem pública — que adoramos.

Mas folhear jornal também é bacana.

Então, aconteceu novamente. Quando vi um escrito meu publicado em jornal impresso, já não se tratava mais de caderno cultural. Tratava-se de um “impresso mensal de literatura”. A oportunidade apareceu por conta de um texto que publiquei aqui mesmo, no Crônica do Dia. Em 2011, o 48 foi incluído na edição de janeiro do RelevO, jornal literário do Paraná.




Foi assim que comecei a me relacionar com o RelevO. Veja bem... Quando aprecio profundamente algo, eu definitivamente me relaciono com ele. Quem acompanha minhas crônicas por aqui sabe disso. Seja filme, livro, disco, fotografia, pessoa, decisão, projeto, independente do tema, se me pega de jeito, compartilho o gosto com vocês. Depois, vocês decidem se também gostam ou não.

No começo deste ano, Whisner Fraga — amigo querido e escritor que admiro profundamente — indicou-me para substituí-lo como Ombudsman do RelevO. Não vou explicar com detalhes como me senti, que isso vocês podem conferir na edição de março do jornal, clicando aqui. Mas posso garantir que foi o início do estreitamento da minha relação com o impresso.

A edição de julho do RelevO já está disponível [clique aqui para conferir]. A de agosto será a última com a minha participação como Ombudsman. Na verdade, não sei se cumpro corretamente esse papel, mas garanto que estou fascinada pela quantidade de gente boa fazendo literatura, e acabo escrevendo sobre isso. Sobre autores que eu não conhecia e tive o prazer de conhecer, porque descobri de vez o RelevO.

Antes que minha última colaboração com o jornal seja publicada, aqui estou para, mais uma vez, apresentar a vocês um dos meus afetos. Vocês podem ler o RelevO na versão digital, mas ele é o que é: um impresso mensal de literatura. E por mais bacana que seja a internet oferecer a oportunidade da democratização da cultura, ao menos para mim nada se compara a isso:




O editor, Daniel Zanella, e todos os envolvidos na feitura do jornal colaboram para que o RelevO seja uma deleitável experiência, um palco para autores e toda diversidade que faz parte do pacote. A literatura publicada no RelevO vem sempre acompanhada de ilustrações e fotografias de artistas tão interessantes quanto os autores. Em breve, a Antologia Relevo 5 Anos ganhará o mundo, com textos escolhidos entre os já publicados e exemplares confeccionados de forma artesanal.

Assim como muitos projetos por aí, o RelevO também precisa de um bom abraço. Sei que ele está lá, qualquer um pode acessar e apreciar seu conteúdo, mas se trata de um trabalho árduo — clique aqui e acompanhe as publicações na página do jornal no Facebook para entender melhor sobre —, e feito com o maior carinho.

Sendo assim, a de hoje é crônica-convite. Eu convido quem não conhece o RelevO a conhecê-lo. Depois de conhecê-lo, caso se sinta encantado por ele, como eu me senti, eu o convido a colaborar para que ele continue esse espaço importante para todos os que apreciam e fazem literatura. Assine o jornal para receber o impresso e ter o prazer de poder folheá-lo. Justamente por não ter fins lucrativos, a assinatura anual não irá desestabilizar a sua economia pessoal. A cada edição, os leitores têm acesso à prestação de contas.

Tomei a liberdade de escancarar sobre meu apreço pelo RelevO por ser o Crônica do Dia um desses espaços importantes para a literatura. Ele que conta com a minha profunda benquerença, que é um projeto que venho abraçando há tantos anos, com o qual colaboro com o maior carinho.

Não é assim que funciona? Eu sou de abraçar os projetos pelos quais me afeiçoo ao reconhecer a importância da existência deles.

Jornal RelevO
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carladias.com



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terça-feira, 14 de julho de 2015

E O QUE É FÉRIAS? >> Clara Braga

Férias, segundo o dicionário da língua portuguesa da Larousse Cultural, significa dias consecutivos destinados ao descanso dos trabalhadores e estudantes.

Segundo a wikipédia, férias é um período de descanso periódico de uma atividade constante, geralmente trabalho ou aulas, e maior que um fim de semana. O período de férias varia de acordo com a legislação de cada país. No Brasil, a legislação trabalhista estabelece um mínimo de 30 dias consecutivos de férias após o período de doze meses de trabalho.

Deixando de lado os significados técnicos, para muitos férias é sinônimo de viagem. Talvez não na atual crise, mas no geral… Em Brasília, as pessoas correm logo para perto de uma praia, principalmente aqueles que conseguem tirar férias no período da seca.

Para outros, férias é sinônimo de trabalho dobrado. Nada melhor do que férias para investir no crescimento da sua própria empresa. Ou talvez seja um ótimo período para crescimento pessoal, então férias passa a ser sinônimo de muito estudo e, também, de aprimoramento de alguns hobbies, vai saber.

É também um período no qual as pessoas tiram o atraso e colocam em dia todos aqueles livros e filmes que estavam só aguardando a chance de serem lidos ou assistidos.

Tem gente que acredita que férias também é sinônimo de engordar! Faz dieta o ano todo para nas férias enfiar o pé na jaca. Ou talvez a comida não seja exatamente o foco, mas o fato de estar viajando e querer provar comidas diferentes faz com que a consequência seja uns quilos a mais.

Indo pelo lado oposto, tem aqueles que enxergam nas férias a chance de investir ainda mais pesado nos exercícios físicos e acabam emagrecendo. Recentemente conheci corredores que marcam suas viagens de férias para lugares nos quais terão provas de rua para que eles possam participar. Não vou negar, é tentador! Existem corridas famosas e clássicas em paisagens maravilhosas, como Paris.

Férias também podem ser o período em que você vai resolver tudo aquilo que não conseguiu resolver enquanto estava trabalhando. Banco é um exemplo clássico disso. Como pode o banco só funcionar das 10h às 16h (levando em consideração as possíveis variações), se esse é justo o horário que a maioria das pessoas estão em seus locais de trabalho? 

Férias pode significar muita coisa, mas não importa qual seja o significado de férias para você, uma coisa é certa, férias mesmo, sem nenhuma obrigação envolvida, só são 100% possíveis quando você viaja. Se você ficar na sua cidade alguém vai ficar com inveja da sua “falta do que fazer” e vai logo te pedir um favor. Nada demais, só aquele favorzinho básico, afinal, você nem tem nada para fazer. Essas pessoas só esquecem que o princípio básico das férias é exatamente esse, não ter nada de obrigação para fazer e, então, poder escolher aquilo que você quer fazer!

No geral, férias nada mais são do que um período que a maioria aguarda ansiosamente e que, quando termina, já se precisa de outro, pois raramente lavam o conceito técnico a sério, ou seja, raras são as pessoas que de fato só descansam.

Mas no final, nada disso importa, o que importa mesmo é que eu, finalmente, estou de férias!


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segunda-feira, 13 de julho de 2015

SER OU NÃO SER >> Albir José Inácio da Silva

O Jornal dos Sports prometeu uma edição com o resultado para aquela tarde. Depois do almoço, tínhamos descido à banca umas quatro vezes cada um, eram cinco horas, e nada. Chefe e colegas estavam intrigados com nossas fugidas, segredos e olhares conspiratórios.

— Saiu nada não! — gritava já o jornaleiro antes que eu me aproximasse.

E foi assim até o final do expediente. Iríamos até a sede do jornal, que costumava colar o resultado na parede. Uma caminhada boa pelo Centro, mas era melhor que ficar esperando na banca.

No início daqueles plúmbeos anos setenta, naquele subúrbio que só comemorava a vitória da Portela, a salvação passava pelo juízo final chamado vestibular. Vestibular que podia dar o paraíso da universidade ou a eterna condenação de permanecer coisa nenhuma.

“Tornar-se alguém”, “virar gente” ou ainda “ser alguma coisa” eram expressões repetidas à exaustão em nossas cabeças adolescentes até se tornarem uma obsessão. E diziam todos que eles não tinham conseguido ser nada, mas que nós tínhamos a obrigação de ser.

Ninguém descia à minudência filosófica de que, se precisávamos nos tornar, era porque não éramos. Nossos pais e demais parentes, novos e velhos, pacificamente concordavam que não eram ninguém.

Apesar de me parecer absurdo a princípio, acabava participando da crença, pois se eles se diziam ninguém, quem era eu para contrariá-los. E a mim caberia salvar a estirpe, tornando-me alguém, passando no vestibular.

Mas qual não foi nossa surpresa ao sair do trabalho! O jornaleiro prendia com pregadores de roupa a edição extra com o título “Resultado do Vestibular”. Juntamos moedas, porque nosso dinheiro era contado para o trem, e entramos no botequim com o jornal na mão.

O nervosismo amarfanhava as folhas procurando instituições, cursos e números de inscrição. Eu me achei na UFRJ, mas calei, não queria comemorar até que Ronaldo achasse o seu número. Depois do que pareceu uma eternidade, ele gritou:

—  Achei... tá aqui. Passei! — só então eu respirei fundo.

— Eu também! — consegui dizer, e nos abraçamos sem palavras porque já não as tínhamos.

Seu Manel, o dono do bar, comemorou: — Parabéns, garotos! — e não cobrou o refrigerante que engolimos queimando a garganta. Tínhamos pressa, não havia celulares ou telefones em nossa casa, e precisávamos dar a notícia: éramos alguém!

Em pouco tempo descobri que não virei gente — na faculdade, calouro é chamado de “bicho” — , mas talvez já fosse alguém antes do vestibular. Eu e os outros, às vezes melhores pessoas que os graduados.

Mas naquela hora, e nos dias que se seguiram, os problemas do mundo acabaram, a ditadura era só um detalhe histórico e a pobreza não doía quando se passava no vestibular.  

Naquele início de noite, o trem lotado era o melhor lugar do mundo, e eu cabia confortavelmente nele. Só não cabia em mim. 

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domingo, 12 de julho de 2015

QUERIA, MAS NÃO QUERIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Mana a mana, Aqueia e Romana.

Romana queria, mas não queria. Aqueia não queria... mas queria.
Quer? Não. Mas que iam...
Queira! Quero não. Amariam, mas.

Amar o quê?

Querer anão. Meios quereres? Quereriam? Quis. Masoquis. Mas quão? O querer não queria?

Não queria suas mãos — aquário. Mas suas mãos queriam — másquomo, riquema, mônaqua — e aquariam um maná a mais: quiara, másquara, riqueria.

Esqriquiariam, esqriquiam, esqriquiarão...

Anarquia? Monarquia. O querer amansa quem não mais queria. Aqueia e Romana, mano a mano, quorum quora, riam. Que quereiria!

E quem quiser que queira outras mais...



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sábado, 11 de julho de 2015

INUTILIDADES DOMÉSTICAS >> Cristiana Moura


Noutro dia, estava eu a espreitar a conversa alheia sobre compras feitas em viagens. O marido dizia aos que ali escutavam a conversa que ela e a amiga haviam comprado demais. Eles se hospedavam na casa de um amigo que muito consideram e o anfitrião já havia advertido previamente quanto ao excesso das compras.

Ela mesma confirmou. Eram sacolas e mais sacolas. Mostrou-me uma foto: as sacolas, ela e a amiga sentadas no chão do rol de entrada do apartamento onde estavam hospedadas. Na foto elas pareciam escondidas por detrás das compras. Estavam ali guardando as compras de lojas diferentes nas mesmas sacolas a fim de diminuí-las e assim parecer ser menor a extravagância das compras.

E a esposa foi contando em tom de animação dos diversos objetos e de suas utilidades. Foram tantos os objetos que se tornaram de consumo, sem talvez terem sido objetos de desejo, que me instigou. Um entre tantos me chamou especial atenção. Trata-se de um medidor de macarrão com a boca de boneco cuja função seria acertar a quantidade de espaguete para o número de pessoas para o qual se cozinha.

Ela descreveu o tal medidor e sua utilidade em tom de defesa.
— Você já usou?
— Ainda não.
— Quando foi mesmo que você comprou?
— Em setembro do ano passado.

Enquanto eu ouvia, fui me reportando a um dos escritos de Rubem Alves. Ele nos fala que o corpo carrega duas caixas — uma de ferramentas e uma de brinquedos. Na primeira carregamos ferramentas que são inventadas para tornar o corpo mais poderoso. As coisas desta caixa nos dão meios para viver. Na segunda, carregamos o que não é útil, não serve pra nada. As coisas da ordem do amor, aquelas que nos dão razões para viver. Nesta caixa ele colocou os poemas de Cecília Meireles, a música de tom Jobim. Aqui não se trata de utilidade, mas de fruição.

Fiquei sem saber em que caixa colocaria um medidor de macarrão. Por certo se trata de uma ferramenta. Entre essas, Rubem cita vassouras, papel higiênico — coisas úteis. Porém, no meu entendimento, o tal medidor é pouco útil. Inutilidade essa longe de ser a mesma da arte. Jamais ousaria guardar o tal objeto junto aos poemas de Cecilia ou à música de Tom. Pela minha cabeça passou uma lista de outras coisas, as que já comprei, as que ganhei, as que tenho e não desejei. Coisas que nem são úteis nem são da ordem do amor.

Como o corpo carrega as inutilidades domésticas?

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sexta-feira, 10 de julho de 2015

HOJE É... >> Paulo Meireles Barguil

Hoje é 04 de julho.

Tendo em vista que viajarei próxima semana e ficarei impossibilitado de escrever, estou usufruindo, com alguns dias de antecedência, meu prazer quinzenal...

Nesse tempo de crise, com tudo indicando que ainda vai piorar bastante antes de começar a melhorar, é recomendável ter cuidado: já pensou se o Editor Chefe resolve me dispensar só porque eu deixei de escrever uma crônica?

Na qualidade de estudante, nunca gostei de faltar aula.

No papel de docente, então, o zelo é ainda maior.

Chove lá fora e aqui dentro.

Sem isso, a vida não floresce.

Estruturas celestes ameaçam o pulsar na Terra.

Corpos terrestres amedrontam a vida no Céu.

Atento e indiferente a isso, sigo.

Cego?

Chego?

Hoje é 05 de julho.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

O MUNDO SEM ELA >> Carla Dias >>

O maestro — tomado pelo frenesi que lhe é peculiar — leva a orquestra para as ruas, para um ensaio. Alguns músicos e os dirigentes da orquestra ficam furiosos. Onde já se viu sair de uma sala de acústica perfeita para ensaiar em um estacionamento, ou espaço afim, no meio da cidade e seus barulhos, as buzinas, o falatório, os passos das pessoas rumo ao trabalho? Expostos à curiosidade dos comuns?

Mozart in the jungle
O produtor sofre com a demanda musical de sua gravadora. A música que antes lhe fascinava, e os artistas com os quais tinha prazer em trabalhar, resumem-se agora a pessoas que caibam em um modelo de sucesso. Ele sabe que retorno comercial é necessário, afinal, todos têm de ganhar a vida. Mas por que não um retorno comercial com boa música? Ele encontra essa compositora e decide que irá produzir o disco dela. Sem a parceria com a gravadora — da qual foi convidado a se retirar pelo seu sócio —, ele vai para as ruas. Grava todas as faixas do disco nas ruas, aproveitando os barulhos da cidade e de seus personagens.

Mesmo se nada der certo (Begin Again)
Ela queria ser a primeira pianista clássica negra da História. O talento estava lá, a dedicação, idem. Porém, na sua época o preconceito racial não era assim, possível de ser comentado. Não vamos nos enganar, que ele ainda existe e tem força, ainda é bem complicado comentar a respeito, apesar de termos mais liberdade nesse quesito, o que é bem triste ao nos voltarmos ao que muitas pessoas arriscaram e continuam a arriscar — sim, falo da vida delas — para melhorar esse cenário. Ela não se tornou a primeira pianista clássica da História, mas certamente uma das artistas mais importantes dela. Mas a vida pode tirar a pessoa do prumo, não? Mesmo com boas intenções, com a batalha certa a ser encarada, a intimidade com seus demônios traçou outro plano, enquanto o público se encantava com sua música.

Nina Simone
Toda vez que reflito sobre a importância da arte — e eu o faço com frequência, já que, com a mesma frequência encontro quem afirme que é somente entretenimento, então vamos mantê-la consumível, ainda que descartável —, imagino o mundo sem ela. Você consegue?

Vamos nos ater à música, que é o assunto em pauta. Você consegue imaginar um mundo como um longo filme sem trilha sonora? Sem canções de ninar? Sem canções religiosas? Ah, mas sem essas também... Nada de Eleanor Rigby, Insensatez, Stairway to Heaven ou Roda Viva. Sem os musicais, claro. Sem serenata, roda de violão, festivais.

Conheço muitos artistas que dizem que não vieram ao mundo para influenciar a opinião de ninguém, que fazem arte por vários motivos, menos com a intenção de mudar o mundo. Talvez por isso o façam tão graciosamente. Obviamente, seria ótimo se esses artistas, os que têm algo a dizer, tivessem mais espaço na realidade das pessoas; que fosse possível que suas obras chegassem ao grande público com a facilidade — apesar da dificuldade — com a qual um maestro leva músicos e instrumentos para as ruas, e um produtor musical grava canções pela cidade.

Você pode até dizer que estou delirando, afinal, o maestro e o produtor são personagens de série de televisão e cinema. Mas e a pianista? Ela não é personagem. Apesar de ter se tornado uma pessoa difícil de lidar e que, às vezes, tinha ideias radicais, ideias que avançavam enquanto ela lidava com transtorno mental, antes mesmo de doenças como a que tinha fossem diagnosticadas normalmente. Era bipolar, daí veio muito do seu comportamento errático. Arriscou uma carreira de sucesso para cantar sobre direitos civis, falando sobre o orgulho de ser negra em um momento em que sê-lo era muito mais difícil e complicado do que é hoje em dia. Imagine sê-lo com orgulho.

Arte também requer coragem de se expor como a maioria de nós jamais se exporia.

Não há como passarmos pela vida sem que a arte nos toque de alguma forma. Quem sabe se, ao ampliarmos o seu alcance, possamos usufruir todos os seus matizes. E trazê-la para a rua como experimentação. Trazê-la sem mutilá-la para que caiba em projetos formatados. Trazê-la na grandiosidade que lhe cabe. Trazê-la para falar sobre tudo, sem censura, mas definitivamente celebrando a liberdade e o respeito pela criação e opinião do outro.

Para que, muito além do prazer que a arte pode nos oferecer, não nos tornemos um mundo mudo e incapaz de enxergar além.




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terça-feira, 7 de julho de 2015

E VOCÊ, VOLTARIA? >> Clara Braga

Ele entrou no ônibus para ir trabalhar. Logo depois, ela entrou no mesmo ônibus, também ia trabalhar. Se fosse um livro do John Green eles iriam se apaixonar e viver um lindo romance até algum deles descobrir que está com leucemia, mas estamos falando desse nosso Brasil que está ficando "muito doido"!

Ele entrou no ônibus armado, é da polícia. Ela, médica! Os dois acreditavam que seria apenas mais um dia comum, mal sabia ele que pela primeira vez se sentiria na responsabilidade de atirar contra pessoas, correndo o risco de tirar uma vida para, talvez, salvar a vida de outras tantas.

O caso virou manchete em todos os jornais, foi reportagem destaque no Fantástico! Mas o caso chama atenção não por ser assalto a um ônibus, mas sim porque o policial teve que atirar nos bandidos para salvar as vidas que estavam no ônibus. Quando o tiroteio acaba, um dos assaltantes fica ferido, e quando a médica percebe que ele ainda está com vida, volta para o ônibus e socorre o bandido até a chegada de uma ambulância.

Você socorreria uma pessoa que minutos antes estava apontando uma arma na direção da sua cabeça?

Eu não sei se eu teria estabilidade emocional suficiente para sequer pensar em ter uma atitude dessas! Da mesma forma, não teria condições de rir e fazer pouco caso da situação, como fez um outro policial que chegou mais tarde na "cena do crime", mas voltar e ajudar realmente foi uma atitude louvável.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma como a reportagem abordou o caso. Foi uma das poucas vezes que vi o foco na pessoa que fez o bem, nada daquelas cenas apelativas que fazem a gente ficar chocado na frente da televisão. Finalmente deram a oportunidade do bem se manifestar, mostrar que ele está em falta, mas não em extinção.

Normalmente não damos importância, nem sequer refletimos sobre a maneira como as notícias são abordadas, mas tal elemento é de extrema importância. A reportagem poderia ter sido apelativa, poderia ter deixado todos os telespectadores morrendo de raiva do policial que desejou que o homem ferido fosse encontrar o diabo, poderia ter nos deixado com vontade de uma vingança irracional de olho por olho, dente por dente. Mas não, a reportagem acabou dando uma lição, mostrando uma mulher que, mesmo tendo sido assaltada mais de dez vezes, enxergou o assaltante como, antes de tudo, um ser humano que estava entre a vida e a morte e que ela poderia mudar o resultado dessa história positivamente.

Em vez de ter raiva, assisti à reportagem e fiquei refletindo: quantas vezes nós temos a oportunidade de voltar e ajudar alguém que esteve com “a arma na nossa cabeça”? Claro, leve em consideração as proporções das situações, mas acho que se não conseguimos passar por cima de situações pequenas, podemos até nos chocar com atitudes como a do policial, mas também não teríamos a racionalidade e a leveza de ajudar alguém que já teve sua vida em nossas mãos.


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segunda-feira, 6 de julho de 2015

SABE, QUEM MASCA FUMO >> André Ferrer

Quando criança, fui aos galos. Um amigo do meu avô, aficionado por rinhas, levou-me.

Tratava-se dos anos de 1980 e é interessante pensar que inúmeras coisas e atitudes daquele tempo agora são ilícitas. Hoje em dia, também, muito do que é e sempre será hediondo — bem, pelo menos, para algumas pessoas — já começa a ser considerado — assim, na boa, como se diz por aí — o suprassumo da virtude.

Enfim, a minha primeira e única experiência no universo do MMA galináceo veio à tona em plena semana em que o Zeca Camargo decidiu pintar a nossa cultura. Foi surpreendente porque, durante anos, achei que a única lição aprendida naquele recinto barulhento e esfumaçado tinha a ver com náusea e cheiro de fumo de corda. 

Abraão Batista (xilogravura - 1977)
A verdade é que o tempo dá novo significado às coisas. Ele cria metáforas. Transforma livros para colorir e brigas de galo em lentes de aumento ou, dependendo do caso, em trave para os olhos. 

Agora, os administradores das apostas atiram as grandes questões do nosso tempo nas redes sociais e aguardam. A sociedade, que sempre foi uma rede, tem cada um dos seus pontos monitorados e, na medida do possível, transformados em "vendas convertidas". Hoje, qualquer infeliz ostenta o direito sagrado à portabilidade de tudo o que há de mais ignóbil e acredita ter o mundo inteiro nas mãos. Entretanto, a rinha do Zuckerberg só é fumacenta para quem se acomoda. Enxergar com clareza, dentro ou fora das caixas de comentário, pode engrossar um pouco os números de uma resistência cada vez mais desmoralizada. Pouco, afinal, é melhor do que nada.

Os tempos líquidos de Zygmunt Bauman já chegaram e estão na forma de torrente. Chegaram para carregar os imbecis. A opinião — bastante apartada do ato de pensar —  é coisa de quem se apega à primeira tábua de salvação. Ordinariamente, a tábua tem alguém no controle. O dono da banca de apostas. O CEO.

A ideia é tão antiga que envergonha. Trata-se de criar a ilusão de autonomia no maior número de pessoas. Quem masca fumo sabe: "Os bobos rareiam, mas nunca acabam!"


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sábado, 4 de julho de 2015

CÉU, EU TE AMO! >> Sergio Geia




Tenho mania de ficar escutando música ativamente em busca de preciosidades poéticas. Quando eu falo escutar, eu falo escutar mesmo, me jogar de corpo e alma na canção e me deixar emocionar. Ponho o CD no aparelho, encho o copo de uísque e viajo.

Achei muita coisa boa no último CD do Chico. Na música Sem você 2, por exemplo: “Pois sem você o tempo é todo meu / Posso até ver o futebol / Ir ao museu, ou não / Passo o domingo olhando o mar / Ondas que vêm / Ondas que vão”. É melancólico, tá, eu sei, mas acho bacana. Acho que ele consegue captar um instante mágico – o cara se separou, tem o tempo todo pra ele (era o que queria), mas parece não estar feliz. Em Nina: “Nina diz que fez meu mapa / E no céu o meu destino rapta / O seu”. Acho isso maravilhoso: no céu o meu destino rapta o seu. Em Sinhá, Chico dá um show. Ele conta a história da sinhá que se envolve com um escravo. Será que se envolve mesmo ou é cisma do senhor de engenho? O escravo se defende: “Se a dona se banhou / Eu não estava lá / Por Deus Nosso Senhor / Eu não olhei Sinhá / Estava lá na roça / Sou de olhar ninguém / Não tenho mais cobiça / Nem enxergo bem / Para que me pôr no tronco / Para que me aleijar / Eu juro a vosmecê / Que nunca vi Sinhá”. No final, Chico desvenda o mistério: “E assim vai se encerrar / O conto de um cantor / Com voz de pelourinho / E ares de senhor / Cantor atormentado / Herdeiro sarará / Do nome e do renome / De um feroz senhor de engenho / E das mandigas de um escravo / Que no engenho enfeitiçou Sinhá”. Sacou? Simplesmente maravilhoso.

“Eu vim, vim parar na beira do cais / Onde a estrada chegou ao fim / Onde o fim da tarde é lilás / Onde o mar arrebenta em mim / O lamento de tantos ‘ais’”. Essa é de João Donato, letra do Gil. Lindo. “Quatro da manhã / Dor no apogeu / A lua já se escondeu / Vestindo o céu de puro breu / E eu mal vejo a minha mão / A rabiscar, esboço de canção”. Teresa Cristina e Pedro Amorim, canção interpretada por Roberta Sá, em Braseiro, na companhia pra lá de especial de Ney Matogrosso.

Amigo, preste atenção. O cancioneiro popular tem cada preciosidade. “Subo nesse palco / Minha alma cheira a talco / Como bumbum de bebê”. Como bumbum de bebê é ótimo. “Sou eu que vou seguir você / Do primeiro rabisco /Até o beabá / Em todos os desenhos / Coloridos vou estar / A casa, a montanha / Duas nuvens no céu / E um sol a sorrir no papel...”. Do Toquinho, essa pra mim é simplesmente mágica, dar voz a um caderno é um barato louco, e com uma poesia refinada dessas. Pra mim, um instante singular, superior, divino. “Nhonhô bebeu um gole de cada poro meu. E feito vinho de caju, amarrei-lhe a boca. E nosso amor foi todo a prova de Ebó. Não teve um só que separou eu de Nhonhô”. Céus, isso é Céu! É Muito bom! Olha a estética, amigo! Quando ela fala que o Nhonhô bebeu um gole de cada poro seu feito vinho de caju, eu piro. Quem afinal é esse Nhonhô?

Pois descobri que sou apaixonado pela Céu. Eu sei que é facinho, facinho de se apaixonar, afinal, ela é musa, mas não é disso que estou falando. É algo superior, meu jovem. Muito superior. É coisa visceral, de outras vidas, entende? De som, poesia, misturas. Não é um simples estado momentâneo de excitação, passageiro como o trem da estação. É algo maior, muito maior. É infinito. Eu ponho o Caravana, fecho os olhos, bebo algum uísque e vou. Ah, isso é Chico.

Ilustração: Céu – Revista Afro

P.S.: Sou fã de carteirinha da Cristiana Moura e de suas crônicas maravilhosas. No próximo sábado ela volta, para a nossa alegria.


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