segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

VADE RETRO I >> Albir José Inácio da Silva

Era uma reunião comum na sala grande da fazenda, família numerosa, fazendeiro bravo, filhas virgens protegidas por winchesters e um único filho, obviamente destinado a desfrutar das filhas dos vizinhos que desavisadamente diminuíssem a vigilância.

Seu Rufino repetia, no seu jeito calmo, batendo os dedos na mesa pra marcar as pausas:

- Nesta família, o que não for mulher, é macho. Ou então defunto!

Podia ser uma reunião tranqüila, mas o tema desafinava: Genildo, o filho adolescente, sabe-se lá por quê, não vinha cumprindo com o que dele era esperado pelo pai, pela família e até pelas filhas dos desavisados.

O menino cresceu em meio às assombrações e aos sustos que lhe podiam inculcar. Mas no momento certo foi desacreditando de Papai Noel e demais bobagens da infância. Só ficou um: o medo da danação eterna por causa dos pecados da carne. Não conseguia se livrar dos maus pensamentos nem das mãos pecaminosas. Sofria com as admoestações do Padre Antônio e se aferrava ao bom comportamento e às coisas religiosas.

Culpa do padre, pensava o fazendeiro. Sufocou o menino com essa coisa toda de pecado, de não pode isso e não pode aquilo, que ele perdeu as forças diante de tanta proibição. A igreja só sabe amedrontar, mas não tem solução pra essa força irresistível que pode conduzir às profundezas do inferno. Como sempre, a santa madre igreja arrocha o fiel com ameaças de castigo e fogo eterno, mas ele não pode aguentar e segue pecando, e se multiplicando, e se culpando. Mesmo que não vá para o inferno, vive na terra o inferno de carregar culpas e medos de perdição por causa do que não pode evitar. E sempre vai ficar a dúvida: o padre, como é que resiste, se é que resiste, a essa tentação que não vem de fora, está dentro do corpo, como uma bomba pronta para destruir a pobre criatura?

Seu Rufino lidava bem com cavalo xucro, touro assassino, peão abusado e até onça, mas desses assuntos se esquivava, principalmente quando envolvia seu único filho macho. Por isso chamou o padre que, além do dever paroquial, tinha obrigação de ajudar a resolver o problema, já que ajudou a criar. E também porque sabia pedir dinheiro sem a menor cerimônia.

Mas o padre estava de má vontade, não concordava com o rumo que a reunião ia tomando. Pra começar, convocaram um tal de Tio Genésio, com fama de libertino e conhecedor de antros pecaminosos dali até Belo Horizonte, e poderia ajudar a destravar o menino e afastar eventual risco de ele amaricar. E, pra piorar, o reverendo estava sendo responsabilizado pela muita santidade que o menino apresentava.

E Tio Génésio disse logo a que veio:

- Este menino precisa é de rapariga! Fica agarrado em saias de tias e padres, - nada contra o senhor, viu, seu padre! -  enquanto os outros moleques estão lá, no bem-bom, desfrutando a safadagem.

(Continua em 15 dias)


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Um comentário:

Zoraya disse...

só daqui a 15 dias? me dá uma palhinha antes, vai...