quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

QUE HAJA SEMPRE PALAVRA LEMBRADA NO SEU QUINTAL >> Carla Dias >>

O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí

Tem aquela palavra da qual se esqueceu, e o esquecimento atormenta a pessoa até a madrugada. Vez e outra, durante dias inteiros. A atormentação dá-se de maneira ilibada, que não há quem doe palavra que caiba precisamente nessa necessidade de se lembrar da esquecida.

Às vezes, a cabeça gira, apinhada de pensamentos tantos. Não há meditação ou chá calmante que sossegue esse burburinho interior. E em meio a isso tudo, aquele vazio prevalece, feito lugar certo à espera do encaixe da palavra que lhe cabe. A palavra cara-metade, que provisoriamente está de caso com o esquecimento.

Já esqueceu fogo de fogão ligado, de encontro marcado com antecedência, do ascendente e de onde descende. Até de tomar café da manhã, almoçar e jantar, de responder e-mail, pergunta e desaforo. Houve quando se esqueceu – mas desta vez de propósito – de receber ofensa travestida de elogio. Luz acesa, etiqueta na roupa, pagar visita.

Porém, nenhum esquecimento lhe confunde e destrata feito o da palavra, que ainda que seja simples, de significado pueril, desconstrói a história toda, como se no causo passasse a faltar tema, ou telha na casa, muro de arrimo, lua no céu, gentileza no mundo.

Na falta da palavra, o tempo passa caudaloso. São longas as pausas nas ações, assim como nas conversas. Quem o vê parado no meio do caminho, segurando documentos urgentíssimos, acha que ele é um sátiro, um ousado malabarista das tarefas rotineiras. E que não irá durar muito na empresa, portanto, melhor ficar atento à futura vaga que será aberta. Vai que rende promoção.

Ainda que dedicado, o dicionário de livro de cabeceira, a solução receitada pelo neurologista, leite morno com mel, chega ali, naquele espaço em branco na sua mente, a vida se torna desoladora. Ele não consegue dar continuidade, como filme cancelado, antes de ser produzido, porque o desaparecimento do roteirista impediu a sua conclusão. Neste caso, o insubstituível se aplica.

O dia em que as palavras lhe fugirem aos pares, aos quintetos, às orquestras, será que ele se sentirá feito quebra-cabeça de peça perdida? Ou se reinventará com novas versões de suas verdades, talvez mais simples, planas. Talvez adira ao endoidecimento dos menestréis, à afetividade dos que têm suas histórias reescritas, ganhando autobiografia não autorizada.

Disseram a ele que o cérebro é um país independente, de influência determinante para o funcionamento do quintal que é o corpo. Ele achou extremamente bonito o dito, anotou em um papel e fixou com imã, na geladeira. Com o passar dos dias, a leitura diária de tal declaração, percebeu que também era triste o dito, e de tristeza profunda. Não é dado à melancolia, tampouco alimenta apreço pelas tragédias. Mas o que será do quintal desse país no dia em que seu presidente se esquecer de cuidá-lo?

Respira fundo, amarra os sapatos, confere se os cabelos estão bem penteados, arruma a gola do terno. A saudade por aquela palavra o consome, mas ainda há esperança de ele relembrá-la. Até lá, é lidar da maneira mais delicada possível com o vazio. E torcer para que seu país esteja sempre de portas abertas para ela, a palavra esquecida, de importância indelével.

Que ela seja sempre bem-vinda.


Imagem: O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí, inspirado na obra a Divina Comédia, de Dante Alighieri .

carladias.com

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2 comentários:

Zoraya disse...

Mais uma doçura da Carla Dias, essa artesã da poesia

Carla Dias disse...

Zoraya... Gentil como sempre...