Pular para o conteúdo principal

QUE HAJA SEMPRE PALAVRA LEMBRADA NO SEU QUINTAL >> Carla Dias >>

O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí

Tem aquela palavra da qual se esqueceu, e o esquecimento atormenta a pessoa até a madrugada. Vez e outra, durante dias inteiros. A atormentação dá-se de maneira ilibada, que não há quem doe palavra que caiba precisamente nessa necessidade de se lembrar da esquecida.

Às vezes, a cabeça gira, apinhada de pensamentos tantos. Não há meditação ou chá calmante que sossegue esse burburinho interior. E em meio a isso tudo, aquele vazio prevalece, feito lugar certo à espera do encaixe da palavra que lhe cabe. A palavra cara-metade, que provisoriamente está de caso com o esquecimento.

Já esqueceu fogo de fogão ligado, de encontro marcado com antecedência, do ascendente e de onde descende. Até de tomar café da manhã, almoçar e jantar, de responder e-mail, pergunta e desaforo. Houve quando se esqueceu – mas desta vez de propósito – de receber ofensa travestida de elogio. Luz acesa, etiqueta na roupa, pagar visita.

Porém, nenhum esquecimento lhe confunde e destrata feito o da palavra, que ainda que seja simples, de significado pueril, desconstrói a história toda, como se no causo passasse a faltar tema, ou telha na casa, muro de arrimo, lua no céu, gentileza no mundo.

Na falta da palavra, o tempo passa caudaloso. São longas as pausas nas ações, assim como nas conversas. Quem o vê parado no meio do caminho, segurando documentos urgentíssimos, acha que ele é um sátiro, um ousado malabarista das tarefas rotineiras. E que não irá durar muito na empresa, portanto, melhor ficar atento à futura vaga que será aberta. Vai que rende promoção.

Ainda que dedicado, o dicionário de livro de cabeceira, a solução receitada pelo neurologista, leite morno com mel, chega ali, naquele espaço em branco na sua mente, a vida se torna desoladora. Ele não consegue dar continuidade, como filme cancelado, antes de ser produzido, porque o desaparecimento do roteirista impediu a sua conclusão. Neste caso, o insubstituível se aplica.

O dia em que as palavras lhe fugirem aos pares, aos quintetos, às orquestras, será que ele se sentirá feito quebra-cabeça de peça perdida? Ou se reinventará com novas versões de suas verdades, talvez mais simples, planas. Talvez adira ao endoidecimento dos menestréis, à afetividade dos que têm suas histórias reescritas, ganhando autobiografia não autorizada.

Disseram a ele que o cérebro é um país independente, de influência determinante para o funcionamento do quintal que é o corpo. Ele achou extremamente bonito o dito, anotou em um papel e fixou com imã, na geladeira. Com o passar dos dias, a leitura diária de tal declaração, percebeu que também era triste o dito, e de tristeza profunda. Não é dado à melancolia, tampouco alimenta apreço pelas tragédias. Mas o que será do quintal desse país no dia em que seu presidente se esquecer de cuidá-lo?

Respira fundo, amarra os sapatos, confere se os cabelos estão bem penteados, arruma a gola do terno. A saudade por aquela palavra o consome, mas ainda há esperança de ele relembrá-la. Até lá, é lidar da maneira mais delicada possível com o vazio. E torcer para que seu país esteja sempre de portas abertas para ela, a palavra esquecida, de importância indelével.

Que ela seja sempre bem-vinda.


Imagem: O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí, inspirado na obra a Divina Comédia, de Dante Alighieri .

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Mais uma doçura da Carla Dias, essa artesã da poesia
Carla Dias disse…
Zoraya... Gentil como sempre...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …