Pular para o conteúdo principal

MINHA VIDA NÃO DARIA UM LIVRO >> Carla Dias >>


Desde que a necessidade de escrever se tornou literatura na minha vida, perdi as contas de quantas pessoas já me disseram que suas vidas dariam um livro. Na maioria das vezes, daria mesmo, porque a vida é geniosa, traquina e tem seus momentos de bipolar.

Muitas histórias contadas depois da introdução “minha vida daria um livro” me convenceram de que algumas delas teriam de ser divididas em três, até quatro volumes. São tantos enredos inusitados, e às vezes, mesmo daqueles que me parecem ter vidas tranquilas, saltam pontos de virada inacreditáveis, que parecem acurada ficção.

Para mim, a vida do outro é relevante, não apenas porque a vida em si tem valor, mas porque a história construída ou imposta a ele pode ser surpreendente. Em momento em que parece que a maioria de nós deseja somente contar suas histórias, escutá-las é uma forma muito interessante de espiar a própria existência. Escutar o outro se tornou raro, mas se a vida dele der um livro, e se esse livro acabar na prateleira das grandes livrarias, essa vida corre o risco de se tornar um best-seller.

Há quem viva em busca de que sua vida se torne um best-seller.

Porém, há aqueles que flanam por aí, quase despercebidos, escutadores dedicados de histórias de vida alheias. A vida desses curiosos – e também atenciosos figurantes na vida do outro -, provavelmente não daria um livro.

A minha vida não daria um livro.

A cada vez que alguém me diz “você tem de escrever a minha história, porque minha vida daria um livro”, acende em mim aquela curiosidade gritante sobre o que essa pessoa acha tão fascinante em sua vida, a ponto de ela merecer ser transformada em literatura. Escutadores atenciosos são sempre surpreendidos pela facilidade do declarante de vida em usar superlativos ao descrever situações diminutas. Não que isso apequene a história, mas certamente mostra ao escutador que aquela já é uma versão, um prefácio de percepções equivocadas.

Percebendo as pessoas dessa forma, e exercendo meu cargo de escutadora de plantão, posso garantir que a minha vida não daria um livro. Talvez, desse em notinha de rodapé de jornal, caderno qualquer, mas não em livro. Olhassem de perto, não haveria muito com o que se atiçar a curiosidade. A minha rotina é sóbria, daquelas contadas em longos e maçantes filmes, erroneamente rotulados de arte para justificar a falta de diálogos.

Mas, talvez, se eu pudesse convidá-los à sala de estar da minha cabeça, a visita valesse a pena. Talvez...

A cada vez que alguém diz “minha vida daria um livro”, e eu escuto sua história, há grandes chances de ao menos parte dela acabar em algum dos meus livros. Não acontece com frequência, mas acontece. O que é frequente é a inspiração que escutar essas histórias oferece. A vida pode até não dar um livro, mas definitivamente contribui para a criação de um.

A minha vida pode até não dar um livro, mas me encanta profundamente que a vida de muitos tenha esse potencial. Fascina-me o fato de que o ser humano é surpreendente, e que às vezes, ele se entrega à existência de tal forma, que a vida o lapida, feito obra de arte.

Sendo assim, sabe lá... Talvez você seja somente o leitor desses livros sobre pessoas de vida que daria um livro. Quiçá a sua vida tenha sido a inspiradora na criação de um livro, ou mesmo tenha realmente dado um livro. O declarante do “minha vida daria um livro” corre o risco de que isso realmente aconteça.

Viver é um risco que pode dar um livro.

Imagem: freeimages.com

Comentários

Carla,
ao ler suas lindas cronicas tenho a mais profunda certeza de que a sua vida daria sim um grande livro!
Nossas vidas podem parecer ate monotonas e comuns mas se temos a capacidade de tocar a alma atraves das palavras elas se tornam uma grande literatura!
Parabens!
Carla Dias disse…
Naomy... Obrigada por ler as minhas crônicas. E sim, a vida de todos nós pode dar em livro :)
Anônimo disse…
Amei sua cronica, parabéns!!
Carla Dias disse…
Anônimo... Obrigada!
Carla, você é um poema. :)
Klésia Torres disse…
Carla, obrigada por me proporcionar a oportunidade de ler algo tão belo e profundo. Apesar de sua crônica poder parecer simples, leva à muitas reflexões proveitosas.
Por diversas vezes temos uma enorme dificuldade de equilibrar a posição de ouvinte e falante da vida e muito me admira a sua humildade ao dizer que a sua vida não daria um livro.
A maioria de nós seres-humanos, por vezes vemos somente a nossa vida como digna de virar um livro devido às dificuldades pelas quias passamos e pensamos ser exclusivas nossas, mas a verdade é que a vida de todos nós daria um livro, tanto pela parte árdua quanto pelas doçuras.
Você me levou a conclusão de que quem define se nossa vida é um "best-seller" somos nós mesmos, através da apreciação com otimismo de cada instante em que nos é permitido existir.
Sua crônica daria um livro, e sua vida também. Grande abraço!
Carla Dias disse…
Eduardo... A ideia de ser um poema me encanta :)

Klésia... Eu que lhe agradeço pela leitura, pela compreensão de que sim, a vida de todos pode dar em livro. E concordo... Quem define se a nossa vida será um best-seller somos nós mesmos. Mas ainda estamos escrevendo essa obra. Beijo.
Thalita Almeida disse…
Maravilha! Sua crônica é encantadora e muito profunda! Eu tive a chance de refletir sobre minha própria vida e sobre como eu vivo.
Ninguém constrói uma jornada sozinho! Ás vezes é necessário ouvir um pouco da jornada do outro para conhecermos a nós mesmos.
Acredito que por menor que sejam algumas situações da nossa vida, cada uma merece uma atenção especial, pois, aos poucos são elas quem formam o nosso livro particular.
Abraços.
Carla Dias disse…
Thalita... Obrigada! Ser um bom ouvinte significa que você pode ser um bom contador de histórias também, ainda que seja da sua própria história de vida. É bom poder experimentar de ambos. E sim... Não há insignificância na história de vida de uma pessoa. Ela realmente importa. Abraços.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …