segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

VADE RETRO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

- Este menino precisa é de rapariga! Fica agarrado em saias de tias e padres, - nada contra o senhor, viu, seu padre! - enquanto os outros moleques estão lá, no bem-bom, desfrutando a safadagem.

Para desespero de Padre Antônio, Tia Tonha - solteirona, carola, mas prática - apoiou o irmão:

- Que Genésio guie o menino, então, até onde ele possa aperfeiçoar seus dotes de varão!

Todos concordavam que Genildo era bom menino. Estudioso, trabalhador, não acompanhava os outros garotos pelas arruaças nos finais de semana. Ficava dentro de casa ajudando nos afazeres e participando das rezas, o que aumentava seu conceito com o padre e as mulheres da fazenda. Mas o pai, que já percebera olhares e risinhos dos outros, andava nervoso.

Padre Antônio esbravejou:

- Esse mundo está perdido mesmo. Agora é a própria família que empurra o filho na direção do pecado. O garoto participa das missas, das novenas, das quermesses, e não há por aqui melhor paroquiano. E os adultos, que deveriam seguir-lhe o exemplo, é que estão querendo jogá-lo no inferno. Se não querem o menino aqui, que o mandem para o seminário! Ou vocês vão responder por isso diante de Deus!

A confusão se instalou. Todos falavam juntos. Concordavam uns com Genésio, outros com o padre, mas ninguém se entendia. O tio estava em vantagem. Até os mais santos temiam o pior, enxergavam em cada gesto de Genildo um motivo de preocupação. Seu Rufino sentenciou:

- O senhor me desculpe, seu padre, mas alguma coisa tem que ser feita já. Depois que esse menino estragar de vez, nem pro seminário ele vai servir. Genésio, pode providenciar!

Genalva, filha do meio, considerada lesa mas que também sofria aguilhoadas hormonais, sussurrou, com risco de ser ouvida pelo pai:

- E pra menina mulher, não tem treinamento não?

Levou puxão de cabelo da mãe, beliscão da tia e até Padre Antônio acertou-lhe a bengala na canela.

                                                                              ***

Por séculos, nestas plagas, mulheres apanham sem que ninguém se preocupe em perguntar se gostam ou não. Jactam-se os varões nos botequins da energia com que tratam as senhoras, como se falassem da vitória do time. Mas as viagens às metrópoles, principalmente Rio e São Paulo, apresentaram prazeres até então insuspeitados.

Soturnos e bigodudos senhores habituados a escovar com rigor suas damas, pagas com dinheiro ou casa e comida, começaram a perceber que, também neles, um tapinha não doía. Nem tapinha, nem tapão, nem chinelada e nem chicotada. O masoquismo conquistou-lhes os sentidos, porque de sadismo já sabiam tudo, mesmo sem conhecer tais palavras.

Foi por isso que Madame Adelaide, sempre antenada com as novidades, importou do Rio de Janeiro uma certa Rainha Catrina, que tinha no nome sua maior suavidade. Genésio foi recebido com festa porque, como dizia Adelaide, era de casa.
 
- Madame, este é meu sobrinho Genildo. Precisa destravar, virar homem. Quero o que você tiver de melhor. Dinheiro não é problema.

A uma cotovelada do tio, Genildo puxou do bolso um maço de notas, o que aumentou o sorriso da anfitriã:

- Pois ele vai ter o melhor. É coisa forte, que não se vê por aí. A última palavra em perdição!

- É de coisa forte mesmo que ele precisa - disse Genésio, desconfiado de que o sobrinho estava tão em cima do muro, tão em risco de maricagem que, se ventasse contra, ele ainda caía a favor.

A palavra perdição provocou no menino um arrepio. Ele viu de novo as labaredas que costumava enxergar no olho do Padre Antônio, sempre que o reverendo falava dos horrores do inferno. Mas, com um empurrão do tio, seguiu madame pelo corredor.


( Continua em 15 dias)


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Um comentário:

Zoraya disse...

Albir, assim tb já é crueldade demais!