sábado, 21 de fevereiro de 2015

AÇÚCAR!!! >> Sergio Geia

Antigamente eles vinham num pote bojudo, a granel, quantidade farta, a gente se lambuzava. Depois segregaram os cristaizinhos em miúdos sachês de cinco gramas. Aliás, tudo virou sachê. Viu, não? Mostarda, ketchup, maionese, açúcar. Até inventaram o abridor de sachê. Coisa fina: você chegava ao estabelecimento e se deparava com o abridor melecado até os tubos. Mas os sachezinhos estavam lá, fartamente distribuídos, à espera dos doçólatras de plantão.

Não sei se em todo lugar tá assim, mas aqui em Taubaté, meus amigos, de uns tempos pra cá, venho notando, meio desconfiado, a ausência desse inestimável contribuinte da beleza da vida. Quando peço meu expresso, pão com manteiga, suco de laranja, ele aparece minguado, solitário, na bandeja de uma das mocinhas. Como sempre preciso de mais, a demora faz esfriar o meu café.

No começo, relevei. Porém a situação, que reparei generalizada nas padarias da região, de uns tempos pra cá passou a me incomodar. Então, antes de qualquer providência mais enérgica contra esses insensíveis proprietários de padaria, pus-me a refletir sobre melindrosa questão, entender o que de fato acontece. Entre as diversas hipóteses e teorias conspiratórias aventadas, a primeira delas, meio estranha, confesso, foi simplesmente a falta do produto no mercado. Como Taubaté é pioneira em certas bizarrices (você não se lembra de nossa falsa grávida? É! Foi aqui!), concluí que nós não poderíamos ficar atrás, e como até o momento a água ainda jorra de nossas torneiras, elegeu-se o açúcar, esse meloso alimento, como o produto da vez.

Será? Já estou até vendo a notícia: EM TAUBATÉ NÃO FALTA ÁGUA, MAS AÇÚCAR. Se formos fazer uma reflexão perfunctória sobre o tema, a verdade é que estamos ganhando, afinal, em tempos de stress hídrico, água é ouro nas ilhas de calor. É muito melhor ficar sem açúcar do que sem água, claro, claro. No entanto, uma passadinha no supermercado me fez abandonar a teoria: os pacotes estavam lá, aos montes.

Outra ideia que me passou ligeira foi que as autoridades, a indústria, o comércio, e, principalmente, os donos de padaria, estão preocupadíssimos com a nossa saúde e resolveram implementar uma campanha de redução do consumo de sacarose. Assim como um dia eles tiraram o sal do queijo minas e o deixaram sem graça, agora querem acabar com o nosso brownie, petit gateau e outras delícias.

Nada mais louvável, alguém diria, afinal, a obesidade é uma doença. No entanto, sou daqueles que rechaçam a ideia de patrulhamento e que está no time dos que defendem a liberdade individual de cada um decidir o que é melhor para si. Essa eterna mania de as autoridades decidirem o que eu devo fazer no meu quintal. Ora bolas, o corpo é meu, seu, dele, dela. Se a pessoa quer fumar maconha, se prostituir, ou exagerar no açúcar, eles não têm nada a ver com isso.

Mas eis, meus queridos, que entre eu dar uma chegadinha na cozinha para pegar um cone de chocolate (o melhor de Pindamonhangaba) que comprei de uma loirinha graciosa ontem no bar, e retornar para concluir meu raciocínio, minha filha de 13 anos, que espiava o que eu estava escrevendo, não aguentou tamanha inocência e comentou como se eu fosse um velho babão: “Não é nada disso, pai! Como eles não faturam com o açúcar, eles deram um jeito de pessoas como você usarem menos sachês.”

Vi minha filha digitando. “Tá pronta, pai. Pode publicar!” Sei...


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Um comentário:

albir silva disse...

Não tem açúcar, mas tem mais uma cronista que já "tá pronta, pai. Pode publicar!". Parabéns, Sergio, pela crônica e pela filha.