quarta-feira, 30 de abril de 2014

ELÃ >> Carla Dias >>


Eu não sei, meu bem, confessar a dor de reconhecer a dor. Nem jogar videogame, virar cambalhota, dormir sem cobertor. Eu sou assim, assim, e me perdoe se o meu ser não é o melhor ser que eu poderia ser.

Houve dia em que eu sabia mais, era letrada em anúncios promocionais de amores vãos. Assim vivia em companhia de quem nem sempre me queria bem ou aquecia o meu coração. E o meu é dos contraditórios. Bate de um jeito que já tentei identificar, usei até metrônomo, mas não. Esse coração se descompassa à toa, como quando você diz palavras que desejo fisgar da sua boca.

Eu não sei, meu bem, verbalizar o sentimento que me rende. Nem falar outro idioma que o complemente. Sorrir à toa e à toa ceder a vez ao inusitado. Não sei partir para não mais voltar. Por isso aqui permaneço, que até pareço enfeite do tempo.

Eu não sei, meu bem, varrer o chão do cativeiro das lembranças. Nem cozinhar, escolher par, andar pela vizinhança como quem conhece cada um de cada casa. Eu sou uma coletânea de poemas não escritos. Um vendaval desmanchando as garras de um abismo. Não sei esperar pacientemente pelo que será.

O que será?

Se eu não aprender a varrer afeto pra debaixo do tapete, enquanto assovio uma canção de amor em ritmo de repente, só para irritar meu coração que faz de conta que é displicente, enquanto se importa imensamente com você.

De repente, meu bem, a vida fica mais silente. Nem canções, tampouco flores são capazes de enfeitar a solidão. A gente brinca de ser feliz pra ver se, de repente, a felicidade se compadeça da nossa dedicação... E nos alimente. A boca inundada de palavras quase fisgadas, a alma inspirando o que o corpo sente.

Imagem © Heinrich Vogeler

carladias.com





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terça-feira, 29 de abril de 2014

PEQUENOS MOMENTOS >> Clara Braga

Uma vez comentei sobre as vantagens de ser míope e poder escolher as coisas que eu queria e não queria ver. Muito fácil, só tirar e colocar os óculos. Ainda continuo acreditando e gostando dessa vantagem, mas agora estou descobrindo uma nova forma de enxergar as coisas. Lentes, sejam muito bem-vindas à minha vida!

Sei que estou usando lentes há menos de uma semana, ou seja, ainda não tive a oportunidade de conhecer o lado negro da força. Elas ainda não caíram na pia enquanto eu tento colocar, não ficaram perdidas dentro do olho nem nada do tipo. Mas só de poder lembrar a sensação de enxergar as coisas sem óculos, já valeu.

Sim, é bem verdade que às vezes ainda tenho aquele impulso que as pessoas que usam óculos têm, e tento dar aquela ajeitadinha nos óculos, como se o estivesse retornando para o lugar certo, mas não encontro nada no rosto. Nessas horas, desvio o caminho e dou aquela leve arrumada no cabelo, tudo bem naturalmente, para ninguém perceber.

Engraçado também é reparar o quanto somos condicionados. Fiquei com medo de dirigir. Sempre dirigi de óculos. Se estou sem é porque não vou ver os carros, ou seja, vou bater. Mas esse medo durou pouco tempo, pois no momento pouca coisa é melhor do que a sensação de poder dirigir de óculos escuros durante o dia. Estou dirigindo até de vidros abertos, para todo mundo ver: olha, eu também uso óculos escuros!

E a sensação de não ficar com os óculos embaçados quando entro no carro depois de ele ter ficado horas estacionado no sol? E continuar enxergando em dias de chuva, sem aqueles pingos na lente? E poder ir para as aulas de dança e os óculos não voar longe enquanto estou dançando?

Sim, eu sei, isso tudo parece um monte de besteira, mas esses momentos simples têm feito meus dias mais felizes! Para completar a minha lista de momentos felizes sem óculos, só falta uma atividade: ir ao cinema e assistir a um filme em 3D. Deve ser sensacional não ter que colocar os óculos 3D por cima dos óculos de grau. Acreditem ou não, estou tão ansiosa por esse momento que pareço até criança esperando o Papai Noel. Só espero que haja bons filmes passando durante o feriado.


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segunda-feira, 28 de abril de 2014

ALGODÃO DOCE >> André Ferrer

Sábado, 12 de abril de 2014, aproximadamente 14:30 horas, terminal rodoviário de Assis, interior de São Paulo.

─ Este produto tem um segredo que ninguém revela. Egoísmo pra quê?! Eu mesmo já ensinei a técnica pra muita gente que hoje em dia trabalha no ramo.

De longe, escutei a cantilena pela enésima vez. Eu, aliás, e as três pessoas que, a uma curta distância, cercavam o vendedor de algodão doce. Conforme entendi, alguém no grupo queria saber como ele conseguia que a guloseima permanecesse íntegra desde cedo até aquele horário.

O homem ameaçava contar o segredo ao grupo. Ele tinha chegado bem perto, sempre se justificando com aquela história de ser íntegro e generoso, mas arremetia no último instante. Pela sua idade, entre 45 e 50 anos, logo vi que não tinha saído ileso à cafajestagem atual. E se alguém naquele grupo virasse um concorrente! Era-lhe difícil abrir o jogo naquela tarde.

Houve um tempo em que a gratidão e o respeito das pessoas tornavam essa escolha bem simples. Meu bisavô materno, por exemplo, foi pioneiro da serralheria em Bandeirantes  município norte-paranaense de 32.182 habitantes (Censo IBGE/2010), justamente onde eu nasci. Com meu avô Antônio Ferrer Palomares e tios-avôs, ele ensinou a arte dos rufos e grades numa época em que a madeira era substituída por ferro e latão. Inúmeros jovens aprendizes passaram pelas oficinas dos espanhóis entre os anos de 1960 e 1970.

Panificadora, restaurante, bar, sorveteria e mercearia constituíram a vida profissional do meu avô paterno. José Domiciano, que hoje empresta o nome a uma das ruas de Bandeirantes era um bom mineiro. Quietinho, ele guardava os seus segredos, mas também era generoso e ensinou muita gente que trabalhou com ele em Minas e no Paraná. Meu pai, então, nem se fala! O Sr. Paulo empregou e formou vários profissionais da reparação automotiva e do comércio de autopeças.

De volta à rodoviária de Assis, o homem ainda hesitava no momento em que o meu ônibus encostou. Ele não conseguia contar o segredo. Não conseguia negar. E os seus avanços e recuos beiravam a comicidade. Principalmente quando enfiava coisas quase esotéricas na sua explicação: amor à profissão, mão boa, alto astral, enfim, clima, temperatura, umidade relativa do ar. Naquela alma generosa, porém distorcida pelo mau-caratismo dos novos tempos, travava-se uma luta inglória. Ele não queria ser traído nem passar por egoísta.

Já embarcado, espiando através da janela do ônibus, eu constatei que ele ainda não queria essas duas coisas.

Algumas linhas acima, devo ter exagerado. Inevitável quando escrevemos sobre o nosso clã. Desculpe, leitor, mas foi necessário. Tais apelos à história familiar nada têm de gratuito nesta crônica. Foi a única maneira que encontrei para expressar a minha empatia pelo indeciso vendedor de algodão doce. Dividido entre a obrigação de ser generoso (isso faz parte da minha formação) e a necessidade de ser cauteloso (litros e litros de água quente têm escaldado a minha pele de gato perdido), compreendi a profundidade escondida no comportamento contraditório daquele homem.


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sábado, 26 de abril de 2014

CACOS PARA UM AUTORRETRATO >> Cristiana Moura

Nem mesmo na minha infância, naquela época em que eu vivia em mim mesmada, passei tanto tempo em frente ao espelho como o faço agora, para pintar autorretratos. Horas a fio, tardes inteiras, madrugadas adentro, meu corpo nu e a incerteza de se era eu que olhava a imagem ou esta que olhava para mim. Quem reflete quem? Sinto-me observada e a minha loucura me seduz.

Na exaustão, entre olhares e pinceladas, a imagem parecia ganhar um desejo próprio, uma luz outra, um movimento além do meu. Entre o olhar e a mão: histórias da minha vida reconstituídas a cada pincelada.

Desde muito pequena mergulho no espelho. Minha grande companhia: a imagem de mim mesma como se pudera transformá-la na irmã que morreu — a fantasia da amiga, tão igual a mim mas sendo outra.

À medida que pinto, vejo a transmutação da imagem do corpo da menina acuada, acanhada, na imagem do corpo da mulher nua, sentada no chão. O espelho me fez companhia a vida inteira. Ocupou o lugar da irmã, numa tentativa vã de remontar nove meses de útero compartilhado, num líquido amniótico espelhado que se manifesta no aquoso do guache sobre o papel.        

Transformo as imagens e estas me transformam. Pintei em diferentes formatos, composições, paletas. Pintei-me inteira e em fragmentos refletidos em cacos de um espelho quebrado. E a metade morta de mim, ao passo que pinto, consigo deixá-la partir e permitir-me ficar. O ato de pintar me transforma nesta identidade multifacetária que em seu movimento traz a cura.

Mas o que quero curar? É algo por dentro que não está em uma parte do corpo apenas, é quando me sinto em pedaços, é quando me falta o ar, é aquilo que não aceito em mim.

Minhas pinturas são ex-votos em cor líquida e papel. Meu ex-voto que, talvez contendo em si promessas veladas, nas entrelinhas do nu desvelado, não vai nem à Aparecida, nem `a Canindé. A peregrinação foi de dentro para fora do espelho.

Os pássaros começam a cantar e adormeço sobre os lençóis sujos de tinta. E eu, que antes só orava em versos, agora oro em cores. Já do lado de fora do espelho, posso me ver melhor. Parafraseando Adélia: A uns Deus os quer doentes, a outros quer pintando.

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sexta-feira, 25 de abril de 2014

TRATO FEITO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Sem família ou amigos na cidade, Heloísa não tinha com quem dividir aquele sentimento indefinível de que algo estava errado. Tentou conversar, mas o marido negou com tanta veemência que ela até acreditaria, não fossem os pequenos sinais. Antes tão apaixonado e carinhoso, ele era agora um relapso distraído e um tanto rude, sempre criticando tudo, nunca satisfeito com nada. Sexo? Só o formal, sem preliminares ou pós-liminares — termo usado por Heloísa, não por mim; respeitemos, pois.

Ele tem uma amante, concluiu Heloísa, desesperada, mas acertadamente. E agora ficamos, nós e ela, a matutar o motivo de tal desfeita. Sofria, tanto mais por causa do amor que ainda sentia, e não conseguia atinar quem seria a causa de sua desdita. Não precisamos, porém, fazer o leitor sofrer junto com Heloísa, e vamos logo chegar à descoberta do mistério.

Jorge, o vizinho do 6º andar, encontrou-a no mercado, olhou-a bem nos olhos e cantou a bola de maneira rápida e objetiva:

— O calhorda do seu marido está tendo um caso com minha mulher. Vou matar os dois — disse, com os olhos injetados de ódio e sangue.

Heloísa quase desmaiou. Como? Amante da vizinha? Morte? Tragédia. Suas pernas falsearam e se Jorge não a tivesse segurado, teria ido ao chão.

Ele ofereceu uma cadeira, pediu água ao gerente e desculpas para ela. Descobrira a traição havia pouco tempo e estava meio desatinado. Entre lágrimas e goles de água gelada, Heloísa pediu-lhe que contasse tudo. Ele contou, mas ela custou a acreditar.

Seu marido apaixonara-se por uma falsa loura, que usava roupas três números abaixo de seu manequim, vermelhas unhas compridas, decotes mais profundos que os das Fossas Marianas e saltos de 15 cm que fariam Luís XV morrer de inveja. Michelly era seu nome e seu marido era um gentleman.

Paremos tudo e tomemos fôlego, as coisas estão indo muito rápido. Como e quando Heloísa descobriu que Jorge “era um gentleman”? Bem antes do que poderíamos imaginar, de tanto conversarem e trocarem mágoas, confidências e se consolarem um ao outro, acabou que eles concluíram que estavam muito mal casados. E decidiram dar o troco, ficando juntos, eles também.

Mas não se apresse, leitor, em tirar conclusões porque ainda vem chumbo grosso por aí.

O condomínio quase veio abaixo com o escândalo, com a novidade, com o evento que mais parecia saído de um enredo da novela do horário nobre. Apenas imagine a situação: jovens recém-casados, ricos, felizes e arrulhantes; um casal nem tão jovem, cujas brigas eram ouvidas em todo o andar, presenciadas nos elevadores, na portaria, em qualquer lugar — não foram poucos os vizinhos que testemunharam as farpas e agressões trocadas entre eles; o jovem nubente se apaixona e começa a ter um caso com a vizinha que vive às turras públicas com o próprio cônjuge; os traídos começam a se encontrar para entender o affair e acabam por se entender entre si, resolvem se unir e morar juntos. Haja fôlego.

As velhinhas deixaram as novelas e o tricô, as menos velhinhas largaram a academia, o pilates e o celular, ocupando o tempo em voejar de um apartamento a outro. Aquele assunto era mais interessante que tudo. Que romântico, diziam algumas; que pouca vergonha, diziam outras; babado fortíssimo, diziam as mais novas. E a bem da verdade — que seja dita — os homens também conversavam sobre o assunto nas rodas de pôquer, nas peladas, nas saunas. E nada mais revelo porque o que homens dizem perante esse tipo de situação é geralmente impublicável.

Mas vocês devem estar se perguntando... "Então, ficamos assim? A história acaba desse jeito?" Claro que não, a equação é complexa, e essas variáveis — seres humanos — são por demais inconstantes.

E a prova cabal de afirmação tão impudente é que, se Heloísa estava feliz com o novo marido, carinhoso, atencioso — um tanto vagabundo, é verdade, pois aos 40 anos ainda não tinha emprego fixo... mas quem se importa, dizia a apaixonada Heloísa, eu tenho dinheiro de sobra pra nós dois —, o mesmo não se podia dizer do ex-marido. Não que ele não estivesse satisfeito com Michelly, oh! satisfeito ele estava, e muito. Michelly cuidava muito bem para que todas suas fantasias sexuais fossem realizadas, e ainda se fazia de mulher perfeita, carinhosa, comida sempre fresca e posta na mesa... tudo bem que gastava muito e não trabalhava, mas, pensava ele, uma mulher bonita e fogosa como ela tinha mais era que gastar muito para manter aquela gostosura toda.

(Tem gente que pede a Deus que o mate e ao Diabo que o carregue, dizia minha Avó).

Então, se assim era, qual o problema? O problema era justamente esse. A loura gastava muito e o dinheiro de Heloísa estava fazendo falta. Foi nessa época que Michelly começou a ficar um pouco menos amorosa e menos afeita a satisfazer os caprichos do novo amante, e a insinuar, como Iago aos ouvidos de Othelo, que talvez a doce Heloísa já o viesse traindo há muito tempo com Jorge, e que tudo não passara de armação para ele sair de casa.

E o ex-marido de Heloísa começou a acreditar na história, vendo os sinais que sempre estiveram ali, sem que ele desconfiasse, crescendo nele um sentimento de frustração e vingança... 

Continua no dia 9 de maio, a partir das 10 horas.


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quinta-feira, 24 de abril de 2014

ESPREME QUE DÁ TEMPO >> Fernanda Pinho



Minha vida está dividida entre durante e depois do expediente. Não se trata de uma relação ambivalente, como eu sei que é para algumas pessoas (aquelas que não toleram seu trabalho e aquelas que usam o trabalho como uma fuga de tudo). Eu diria que é mais uma relação de mutualismo. Eu gosto do meu trabalho e preciso dele para levar a vida que eu levo depois das 18 horas. E quando não estou trabalhando eu faço coisas que, ainda que indiretamente, me ajudam no meu trabalho me inspirando, agregando novos conhecimentos ou simplesmente oxigenando minhas ideias.

O problema é que a cada dia eu gosto mais de mais um monte de coisa, o que me leva a calcular meticulosamente cada minuto do meu tempo, digamos, livre. Primeiro de tudo é preciso considerar que sou uma pessoa casada e nos recusamos a ser um casal que só interage 20 minutos por dia. Meu marido não é meu roommate. Gosto de ter um tempo de qualidade com ele, o que significa dedicar um pouco das minhas horas fazendo coisas que ele gosta (e ele cuida de fazer o contrário também).

Por sorte, temos alguns interesses em comum, como a academia. Que, aliás, é uma atividade fixa que me ocupa cerca de uma hora e meia do meu período mágico pós-dezoito horas. 

Tirando a academia e o tempo de qualidade com o marido, sobra um precioso tempo que me recuso a manter vago – ou praticando o tal do nadismo, como algumas pessoas vêm difundindo. Simplesmente porque não consigo ficar deitada sem fazer nada quando eu sei que poderia estar: lendo um livro, escrevendo um livro, assistindo a um seriado de humor, assistindo a um seriado de suspense, cuidando da minha casa, assistindo tutorial de maquiagem no YouTube (sou viciada, me julguem), testando o que aprendi nos tutoriais, conversando com meus amigos no Whatsapp, pesquisando na internet sobre assuntos que me interessam (de dietas detox a evidências da existência de extraterrestres)  e agradecendo ao Manoel Carlos, que fez uma novela das nove tão ruim que fez a mim, noveleira de plantão, ganhar uma hora a mais.

Naturalmente, Morpheu me pega no meio de uma dessas e me leva até a hora que meu despertador me ensurdece. Desconto das minhas noites de sono uma preciosa hora da manhã para ler as notícias do dia e preparar meu suco verde.  Depois, me dirijo até minha mesa do escritório localizado aqui mesmo, no quarto ao lado e, antes de começar, agradeço novamente. Agora não mais ao Maneco, mas a Deus.  Em uma época em que o tempo vale diamante, é um privilégio poder estar sempre ocupada apenas com coisas que me dão prazer.


(E se você é desses que pensa que atividades prazerosas não contam como ocupação, sinto muito pela sua vida).

Imagem: freeimages.com 


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quarta-feira, 23 de abril de 2014

CARTA-RENÚNCIA >> Carla Dias >>

O universo transpira ao seu favor, fazendo a vez de fada madrinha emburrada, e ocupadíssima, toda vez que você, desapegado da justiça coletiva, pisa no pé da verdade, jurando que a dor que ela sente é, de fato, afeto desmedido.

O desmedido, e lhe digo isso por experiência na aplicação, nunca faz serviço decente. Não adianta cometê-lo usando a máscara da gentileza, valendo-se dos trejeitos da felicidade. O desmedido é, por definição, desproporcional à empatia.

Mas quem sou eu para alertá-lo sobre os sentidos, não? Alguém que observa a sua rotina de desmazelos, de desculpas impregnadas de suspiros que acabam por enfeitiçar aos que tiraram o dia para se tornarem vítimas da sedução barata da palavra dita em versos, chamada poesia por pura falta de fineza seria gritá-la pelo nome apropriado: repetições.

Sobre as repetições, devo lhe dizer que elas sim têm valor. Repetições são inevitáveis, e podem ser certeiras se às voltas com a sinceridade. Não fosse assim, dizer “eu te amo” a alguém, mesmo amando esse alguém de fato, soaria como o refrão de uma canção ruim. Na repetição das declarações de amor o que vale é o ineditismo do sentimento, o seu frescor, a sua naturalidade. E depois, a sua evolução desapegada da memorização, e completamente entregue ao improviso.

Improvisos enfeitam sentimentos e surpreendem expectativas.

Se quiser, escolada que ando no seu vocabulário, de tanto ficar à mercê da sua existência, posso lhe cantar repetições abrilhantadas pela minha eficaz habilidade em lhe gostar, com direito às repetições inéditas, descarada que me tornei por tanto insistir no que jamais será da minha alçada: você.

Mas antes de sair de cena, devo lhe alertar: a boa sorte anda exasperada de tanta incompetência sua em se fazer merecedor dos seus abrandamentos. Ela não se conforma com esse tratamento que você anda lhe oferecendo, como se ela fosse, na melhor das hipóteses, um direito. De direito ela oferece apenas a oportunidade de cortejá-la, e já a vi se negar a vingar na vida de uns e outros que lhe ofereceram bem mais do que você insiste em dizer ser suficiente.

Quanto ao suficiente, quase sempre ele é insuficiente, e por pura lógica: o que você tem a oferecer nem sempre é o que o outro merece receber. A sincronia entre o oferecido e o merecido é um daqueles pequenos milagres dos quais ignoramos a importância, só porque ele acontece silenciosamente, dando a impressão de que nada mudou, enquanto, na verdade, ele se tornou o alicerce dos melhores acontecimentos da sua vida.

Lamento não poder lhe oferecer mais tempo para lamentar o que falta, oferecendo-lhe meus ouvidos, minha alma e o meu tempo ao embalar seus suspiros oriundos de uma encenação barata de infelicidade que você nem sente, mas gosta de acessar para se sentir confortável com o desconforto alheio.

Sobre o desconforto, em algum momento ele deixa de ser do outro.


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terça-feira, 22 de abril de 2014

ESSA TAL VIDA >> Clara Braga

A vida é assim, gosta mesmo de nos pregar peças e nos colocar em situações nas quais não sabemos exatamente que rumo tomar. Na verdade, não sei até que ponto não sabemos qual o rumo, acho que temos mesmo é receio dos desafios que vamos encarar, então acabamos tendo a tendência de optar pelos caminhos mais fáceis. O problema é que nem sempre esses caminhos nos levam para o nosso real objetivo.

A verdade é que não adianta, chega um ponto em que temos que dar um passo para trás para podermos dar vários para frente, por mais difícil que isso seja.
Temos que olhar a situação pelo lado de fora para podermos melhor analisar.
Temos que dizer não, mesmo querendo dizer sim.
Temos que fazer escolhas que nem sempre os outros vão entender.
Temos que voltar e refazer nosso caminho.
Temos que omitir algumas verdades.
Temos que questionar aqueles em quem acreditamos.
Temos que abaixar nossa cabeça e admitir alguns erros, mas temos que saber manter a cabeça erguida quando sabemos que estamos fazendo o que é certo.
Temos que dar prioridade ao que nos faz feliz, mesmo que isso deixe outras pessoas um pouco tristes.
Temos que nos modificar diante de uma decepção.
Temos que encontrar coragem para encarar o desconhecido.
Temos que admitir que precisamos de apoio, e assim vamos encontrá-lo nos lugares menos esperados.

Enfim, "temos que" muitas coisas e nenhuma delas são fáceis. Às vezes magoamos algumas pessoas pelo caminho, da mesma forma que ficamos magoados. Mas com o tempo a gente aprende que, se estamos sendo verdadeiros e honestos com nós mesmos, se estamos agindo de acordo com o que acreditamos ser certo, vamos sempre ter apoio. E o mais importante, uma consciência tranquila, e isso, meu amigo, nem mastercard!


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segunda-feira, 21 de abril de 2014

SODAMA II >> Albir José Inácio da Silva

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

As moças, proscritas da cidade, nem consideravam gostar ou não dali. Sem ter aonde ir, restava-lhes o Sodama como casa, Seu Ernesto como dono e umas às outras como família.

Seu Ernesto supria-lhes as necessidades da melhor maneira possível. Patrão generoso, ficava com apenas setenta por cento de cada atendimento, para as despesas da casa e outras providências, em benefício das próprias meninas. Não lhes cobrava pela moradia, em que se revezavam para limpeza e manutenção, nem pela comida, que elas também preparavam, mas era ele quem comprava.

Na verdade, como ele dizia, não precisavam de nada. O dinheiro lhes sobrava para pequenos luxos como maquiagem, lingerie, bolsas e sapatos. Luxos que usavam no trabalho e eram providenciados também por Seu Ernesto, já que não podiam ir à cidade. Ele trazia tudo a preço de custo, só para agradar. Elas é que eram gastadeiras e estavam sempre devendo a seu Ernesto.

Mas ele não se importava, queria vê-las felizes. Trouxe celulares novinhos em folha. Caros, como explicou, porque eram de última geração. Além de telefonar, podiam tirar fotos, gravar e ouvir músicas. Bem, telefonar não, porque inexistia ainda sinal por ali, mas já estava chegando. E o Sodama virou uma festa com desfiles, poses e fotos.

Verdade que Seu Ernesto era rigoroso em questões de trabalho, honestidade e obediência, mas, quando se comportavam bem, era só carinho. Poucas vezes, e só quando absolutamente necessário, teve de castigar esta ou aquela faltosa. O que fazia a contragosto e com cuidado, cinto de couro sem fivela, para não marcar a pele em prejuízo da plástica e do trabalho.

Os negócios se expandiram em resposta à boa gestão. Seu Ernesto vendeu lotes no entorno por preços módicos, prazos razoáveis e promissórias. Inaugurou linha de transporte alternativo para facilitar a frequência dos clientes e a mobilidade dos moradores. Chegou a escrever no para-brisa da kombi: CENTRO – SODAMA, mas a secretaria de transportes implicou, e ele teve de trocar para CENTRO - Km 19, que era a altura da estrada em que ficava a, já agora, Vila Sodama.

Primeiro Seu Ernesto cuidou de alimentar as meninas da casa, como vimos, mas logo ampliou a atividade, abrindo portas ao lado para atender clientes e moradores, que assim podiam comer e beber sem ameaçar a discrição do sobrado. Discrição era tudo nessa atividade, mas era difícil mantê-la.

Nos lares da cidade, a coisa não ia tão bem. A falta de comparecimento dos maridos sugeriu às mulheres que eles tinham encontrado outro folguedo. Não precisou muita investigação para saberem do novo lupanar no KM 19. Mobilização, religiosos, donas de casa e administração municipal. Discursos inflamados diziam que na periferia da cidade erguia-se uma nova Sodoma, e invocavam de Deus o mesmo tratamento dado à cidade do velho testamento, ou seja, destruição com fogo e enxofre descidos dos céus.

Os gentios, que não frequentavam igreja nem liam Bíblia nenhuma, corromperam a palavra Sodoma para Sodama, entendendo que o nome se devia ao fato de o lugar ser habitado apenas por mulheres-damas. Começaram por dizer “só damas, só-damas, sodamas” e, pronto, retirar o “s” dos plurais era-lhes tarefa corriqueira. Ficou Sodama, agora não apenas o sobrado, mas uma comunidade com dezenas de pessoas.

E o que inaugurara tudo de bom na vida de Seu Ernesto começou a ficar incômodo. O dinheiro era bom, o prestígio, mas não queria ser conhecido como cafetão. Precisava dissociar seu nome daquele lugar sob pena de ver naufragarem suas pretensões eleitorais.

(Continua em 15 dias)

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domingo, 20 de abril de 2014

QUAL NOSSO PRÓXIMO PLANO >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique avisado que eu não tenho moral para falar a respeito do que falarei. Em termos de amor, que é o assunto desta crônica, sou tão fracassado quanto uma pessoa pode ser. Para você ter uma ideia, já fui casado duas vezes e meia. Era pra ser três, mas uma de minhas ex não inclui o nosso casamento na lista de casamentos dela. Então o leitor considere o que vem a seguir como o conselho de um amador vacilante cuja única virtude é ser persistente...

Os românticos que me perdoem, mas “eu te amo” não é suficiente. O repertório de frases de um amor precisa ser maior que esse, e não estou falando aqui de variações envolvendo “eu te adoro”, “meu amor por você é maior que a soma das estrelas do céu e dos grãos de areia na praia”, “você é o amor da minha vida”, “minha alma gêmea”, “meu amor, meu bem, ma femme”...

Pra começo de conversa, o amor não nos exime de frases aplicáveis a outros contextos como “por favor”, “obrigado”, “eu gostaria”, “com licença”... Não é porque “eu te amo e tu me amas” que tu és escravo ou escrava de meus desejos e vontades. Educação e respeito fazem bem até mesmo aos amores mais românticos e predestinados do mundo.

Talvez cada casal, por questão de sobrevivência do amor, precise desenvolver certas frases que permitam que o amor vá além da paixão inicial. Se meus amores até aqui não duraram mais que a eternidade de sua curta ou média duração, talvez tenha sido pela ausência da frase certa.

Esses dias, ouvi uma frase que será útil em minha próxima tentativa. Não é uma frase assim que vá chamar a atenção de um espírito apaixonado, mas a mim, que sou um tanto pragmático, me fez arregalar os olhos num “é isso!”. A frase é, simplesmente, “Qual nosso próximo plano?”. Não é linda? Não é fofa? Não é querida? Não, não, não, a leitora não achará nada disso e ainda pensará que enlouqueci, que com uma frase dessas é que não tenho mesmo a mínima chance de ser feliz para sempre com uma princesa de contos de fadas. Então preciso me explicar, tintim por tintim...

QUAL? Uma frase que começa assim abre as portas da compreensão. Porque embora gostássemos que o amor fosse cheio de certezas, a verdade é que ele não é. De onde vem essa ânsia toda de ouvir “eu te amo” senão da nossa própria insegurança que se expressa em pensamentos musicais do tipo “será que você ainda pensa em mim?”, “será que a gente ainda será aquela história de amor que sempre acaba bem, meu bem?”? Então, em vez de tapar a insegurança com ciúmes e cobranças, melhor é assumi-la logo e começar nossa frase de amor com um pronome interrogativo. Porque precisamos nos perguntar. Tanto no início do amor, quando tudo parece possível, quanto no meio, quando as coisas começam a engrossar. E também no que ameaça ser um desesperador fim. Qual? É preciso estar aberto para algo que ainda não sabemos o que é.

Qual NOSSO? Eu sou eu, nós é nós. “Às vezes parece até que a gente deu nó”. Nós. Nessas horas, a pessoa está sujeita a achar que o nó está no outro, que é o outro que está travando a relação. Mas não é nó, são nós. Usar o NOSSO na frase amorosa chama a consciência para essa construção conjunta. A culpa não é sua nem do outro, a responsabilidade é de ambos. NOSSO é um antídoto para nossa costumeira panaceia que quer que o outro mude, afinal "ele é que está errado, eu sou uma pessoa altamente amorosa que sempre fiz tudo para ele". Isso, claro, vale para o início do relacionamento também. O NOSSO, por exemplo, precisa aparecer na hora de escolher cada programa. Senão fica o programa de um ao qual o outro comparece (por vezes, contrariado).

Qual nosso PRÓXIMO? O amor é uma continuidade. Se hoje você não ama algo que amava ontem, então possivelmente não amava aquilo ontem. Podia ser outra coisa: paixão, interesse, empolgação, impulso, vício... mas amor que é amor dura, mesmo que o formato da relação mude. Então é preciso perguntar o que vem a seguir. É como canta o Gil, “quem poderá fazer aquele amor morrer se o amor é como um grão?” Há que se perguntar, dia após dia, o que vem em seguida, de que planta o nosso amor é grão. PRÓXIMO também indica algo que está por perto. O amor não precisa de mirabolâncias, objetivos distantes e quase inalcançáveis. A idealização de si, do outro, da relação, é o que torna o amor longínquo, escapável ou mesmo inatingível. O amor é um passo depois do outro. Um passo, depois o próximo passo, e o próximo, e o próximo...

Qual nosso próximo PLANO? Devido à abertura do QUAL, ao compartilhamento do NOSSO e à continuidade do PRÓXIMO, é preciso traçar um plano. Ter ideias, imaginar caminhos, projetar o futuro que se quer. Mesmo que as ideias mudem ao ser implementadas, mesmo que a imaginação se adapte à realidade, mesmo que o projeto passe por reformulações, é bom ter um plano. O plano nos indica qual o ponto de descanso mais próximo. Estamos aqui, vamos até acolá. Vamos planejando até onde a vista alcança, e, bem no início, ou nos momentos de crise, a vista pode alcançar bem pouco. Então é preciso criar ou refazer os pequenos hábitos do amor: o próximo plano pode ser ver um filme, ouvir um ao outro naquilo que ainda não foi contado, dar um passeio, fazer um livro, ter um filho, plantar uma árvore...

Tendo “por favor” e “com licença” por base, e “qual nosso próximo plano?” por meio, fica muito mais fácil acreditar quando se diz e quando se ouve, enfim, “eu te amo”.

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

6ª FEIRA DO AMOR >> Paulo Meireles Barguil

Por que é mesmo que se chama Santa uma 6ª feira em que são lembrados o julgamento, a humilhação, a crucificação, a morte e a sepultura de Jesus Cristo?

Nomear de 6ª feira da Paixão é uma alternativa, mas não expressa adequadamente o que nela ocorreu.

O mais sensato seria adotar uma nomenclatura que manifesta o ocorrido: 6ª feira do Amor.

Cá para nós: a linguagem, muitas vezes, é utilizada para negar a realidade, ao invés de favorecer o seu entendimento pela Humanidade.

De falseados em falseados, a pessoa, quando menos espera, descobre que está perdida, pois está longe demais da verdade.

Há quem acredite que Jesus era filho de Deus. Há quem defenda que ele era um homem, que alcançou a iluminação, tal como outros líderes espirituais: Buda, Maomé... Há, ainda, quem negue que ele viveu na Terra.

Sua mensagem foi resumida por ele mesmo em dois mandamentos: "Ame a Deus sobre todas as coisas." e "Ame o seu próximo como a si mesmo." (Mt 22:37-40).

Desde os primórdios, quando vivíamos na selva, nosso principal objetivo, tal como os outros animais, era nos mantermos vivos. Para alcançar esse intento, alguns dizem que a máxima que impera nesse ambiente é "cada um por si". Outros afirmam que a regra é "juntos somos mais fortes".

Apesar de sermos, agora, civilizados, vivenciamos, a todo momento, situações em que oscilamos entre uma e outra, dependendo das circunstâncias...

Cada vez mais tenho sido invadido pela dúvida: eu cuido primeiro de mim ou do outro? Eu sei que se "as máscaras de oxigênio caírem" eu devo colocar primeiro a minha e depois ajudar o outro. E nas demais situações?

É possível me amar sem amar o outro?

É possível amar o outro sem me amar?

Como conciliar esses amores – por si e pelo outro – de modo harmônico?

Como evitar a armadilha milenar entre Amor e sexo, na qual todos estamos sujeitos a cair ao longo da vida? Sim, eu já li: isso acontece porque projetamos no outro aquilo que só dentro de cada um pode ser encontrado. A paixão é o momento em que acreditamos que a busca é finda: a felicidade eterna teria sido encontrada.

Alguns meses depois, contudo, a verdade vem à tona: o outro já não nos satisfaz como outrora. O sonho se transformou num pesadelo! O que aconteceu? Quem e o que mudou? Muitos de nós acreditamos que a fonte externa secou e é necessário recomeçar a busca do lado de fora...

Afinal, o que é amar?

Seria dar a sua vida pelos outros, tal como fez Jesus?

Já li várias vezes o Sermão de Montanha. Entender com a mente não é tão difícil. Vivê-lo, com todo o meu ser, é um desafio diário.

No momento em que a diversidade se amplia e requer respeito ao diferente, agradeço-lhe, Jesus, porque você ensinou, durante toda a sua vida, a cada pessoa como ela pode interagir de forma amorosa consigo, com o outro e com a natureza.

No momento em que o egoísmo e o materialismo se aprofundam, manifestos num consumo fulgaz, obrigado, Jesus, porque você mostrou que a vida transcende a essa breve viagem na Terra.

No momento em que se propaga o discurso de que não há felicidade nessa vida, mas apenas raros momentos alegres, grato lhe sou, Jesus, porque nos mostrastes que podemos e temos direito de que todos os dias sejam felizes, amorosos e santos.

No momento em que atos e palavras golpeantes contra a vida daqueles que têm a missão de divulgar sua mensagem se revelam ao mundo, obrigado, Jesus, pelo seu Amor infinito, porque Ele não se abala e continua firme.

No momento em que o conhecimento é fonte de poder e dominação, afastando as pessoas, ao invés de aproximá-las, agradeço-lhe, Jesus, pela Luz que emana de Ti, a qual me lembra que eu também posso recebê-la e partilhá-la, sendo necessário que eu me dispa de todas as certezas que me distanciam da vida plena.

Que eu encontre, cada vez mais, o pequenino que em mim habita e cuide muito bem dele, acolhendo-o na sua dor de abandono, invasão e rejeição.

Que eu perdoe todos aqueles que não cuidaram de mim como eu gostaria e possa, assim, descobrir e usufruir da Verdade: sou filho de Deus.

Que eu continue a jogar na fogueira as máscaras e armaduras, cuidadosamente elaboradas para me proteger do mundo, escondendo, até mesmo de mim, sentimentos, atitudes e pensamentos, que tornam a caminhada insuportável e sem alegria.

Que eu realize com êxito essa passagem e ajude outros a fazer o mesmo. Que aconteça, enfim, a Páscoa!

Ainda bem que tem chocolate todo dia e não somente no próximo domingo, afinal vou precisar de muita energia. ;-)

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

ESTREIAS E DESPEDIDA >> Carla Dias >>

Quem me conhece sabe que adoro uma série de televisão, e que o assunto me empolga de um jeito que pedir uma indicaçãozinha pode acabar em uma lista generosa de preferidos. Também sou das que se apegam aos personagens, e sei que faço parte de um grupo bem grande que morre de saudade deles quando a série acaba.

Atualmente, nem sei quantas séries eu acompanho. São muitas, ainda não contei, não fiz lista, e tive até de colocar algumas no modo de espera, que não estava dando conta. Mas isso não significa que, aparecendo uma nova série, eu não vá conferi-la.

Algumas estreias entraram rapidinho para a minha lista de preferidas. Dracula, por exemplo, foi uma das que me deixaram ansiosa pela estreia, por ser baseada no livro de Bram Stocker e por ter o irlandês Jonathan Rys Meyers no papel principal. Eu já gostava de Meyers pelos seus trabalhos no cinema, mas me dei conta do quanto ele é talentoso ao assistir outra série, The Tudors.

Criação de Cole Haddon, os primeiros episódios de Dracula me deixaram meio reticente, mas não tardou para que fosse possível compreender elementos importantes da história, e que Meyers encarnasse, de vez, o sedutor maligno Vlad Tepes, na série conhecido como o empresário americano Alexander Grayson. A série estreou em outubro do ano passado e foi renovada para sua segunda temporada.

nbc.com/dracula

Ainda sobre vampiros, The Originals, criada por Julie Pec, estreou em 2013 e a primeira temporada ainda está sendo veiculada. É da leva das séries que contam com mais vinte episódios por temporada, sendo que a segunda já está confirmada. Derivada da série The Vampire Diaries, ela tira o complexo híbrido (vampiro/lobisomem) NiKlaus Mikaelson do cenário adolescente e o coloca em um muito mais interessante: Nova Orleans.  A série conta a história dos primeiros vampiros, os originais, que ajudaram a construir a cidade da Louisiana. Com Klaus, seguem para Nova Orleans os seus irmãos Elijah (Daniel Gillies) e Rebekah (Claire Holt).

O britânico Joseph Morgan interpreta Klaus, esse personagem que decide reconquistar New Orleans tendo de encarar situações complicadas. Sua história repleta de injustiças, a anterior a sua transformação, pontua os motivos de Klaus ser tão cruel. O híbrido não suporta traição, e em determinados momentos, o espectador acaba compreendendo a razão disso.

cwtv.com/shows/the-originals
Também estreante em 2013, Almost Human, criada por J. H. Wilman, chega a 2048 com androides como parceiros de policiais. O mais interessante é que uma série desses androides foi descontinuada, depois de os testes revelarem um defeito. O problema é que a alma sintética desenvolvida pelos cientistas deixaram os androides, por assim dizer, sentimentais demais. É um destes androides que se torna o parceiro do detetive John Kennex (Karl Urban).

Depois de voltar do coma, Kennex não se adapta ao modelo de parceiro disponível. Sendo assim, sua chefe, Sandra Maldonado (Lili Allen) lhe oferece Dorian (Michael Ealy), um dos androides que deram defeito.

Almost Human é ficção científica de primeira.

fox.com/almost-human

Criada por Alfonso Cuarón (sim, que recebeu o Oscar de Melhor Diretor por Gravidade) e Mark Friedman, Believe estreou em março, ganhando rapidinho lugar entre as minhas favoritas. O episódio de estreia foi dirigido por Cuarón.

Believe conta a história de Bo (Johnny Sequoyah), que nasceu com dons extraordinários, como comandar a natureza, ver o futuro e por aí vai. Ela foi criada no alojamento de um grupo dedicado a explorar pessoas com esses dons. Agora, aos dez anos de idade, seus poderes estão sendo amplificados, e também mais perigosos. Em mãos erradas, Bo pode se tornar uma arma. Para protegê-la, um grupo de pessoas, liderada por Milton Winter (Delroy Lindo), vive em fuga. Para auxiliá-lo nessa missão, Winter ajuda Tate (Jake McLaughlin), que foi condenado à morte por um crime que não cometeu, a fugir da prisão, contanto que ele cuide de Bo. O que Tate não sabe é que Bo é sua filha.


Eu poderia escrever muito mais sobre outras séries, as que já chegaram à terceira, quarta temporada, e até mais adiante. Mas para fechar essa geral sobre novas séries, vou lamentar o fim de uma delas.

A quinta temporada de Justified já foi ao ar, e a sexta será a final. Baseada no personagem Raylan Givens, do escritor Elmore Leonard, Justified é um faroeste contemporâneo, que se passa em Kentucky.


Timothy Olyphant interpreta Givens, e a própria peculiaridade da atuação dele contribuiu na construção desse personagem. O cowboy moderno, o mocinho sem verniz, o labirinto que se torna as relações afetivas do personagem, e a quantidade exorbitante de tiros, fazem de Justified uma série repleta de atrativos.

Ano passado, Elmore, que também era produtor executivo da série e colaborava como escritor, faleceu. A partir daí, os produtores começaram a considerar o fim de Justified.

Como eu disse no início da minha crônica, há personagens para os quais é muito difícil dar adeus, que o digam Mick St. John, House e Dexter.

Agora, só me resta perguntar: o que será de mim sem Raylan Givens?










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sábado, 12 de abril de 2014

TRAZ A PESSOA AMADA >> Cristiana Moura




Depois de alguns minutos quebrei o silêncio.

— Vou trocar você pela Sarah. Instantes de mais silêncio. — Já viu os cartazes pelos postes?

— Traz a pessoa amada!

— Isso!

E do lado de trás do divã, onde não o vejo, ele riu. Venho deixando no divã linhas e entrelinhas da vida. E as desventuras do amor. Talvez por permitir que a ilusão se faça em véus sobre a minha face. Talvez por amar secretamente, sem confessar ao outro meus sentimentos. Ou por tantas outras nuances que nem sei.

Mas neste dia, levantei-me do divã pensando na Sarah, na Estrela Guia, mãe Jurema, pai Arnaldo. Pensando em buscar algo, fora de mim mesma, capaz de trazer a tal pessoa amada. Não contei isto para o Walmy, psicanalistas não costumam ser afeitos `as buscas místicas.

Saí da terapia disposta a marcar uma consulta no primeiro sinal fechado onde eu encontrasse um desses cartazes. Só então, dei-me conta que tenho medo da Sarah e de seus colegas de profissão. E se me mandar fazer algum ritual macabro? A pessoa amada que não chega, possivelmente já tem uma outra pessoa amada. E se fizer mal a alguém? Faria um vodu da tal mulher? Ai, ai, ai, isso não. Lembro que quando eu era adolescente conheci uma senhora espírita que falava muito da inveja e de como deveríamos resguardar nossas fotografias. Falava do quanto era perigoso alguém mal intencionado ter posse das nossas imagens. Menos de trinta anos depois temos fotos de todas as pessoas disponíveis nas redes sociais. A tecnologia facilitando as maldades oriundas da inveja.

Achei por bem pedir a opinião de uma amiga.

— Ela deve mandar você coar café numa calcinha e servir para ele.

— Como?

— É, diz que amarra o homem.

— Se ele estivesse vindo tomar café na minha casa, eu já teria trazido, sozinha, a pessoa amada.

Instantaneamente imaginei-me repetindo esta última fala para Sarah. Junto veio a minha fantasia de sua resposta:

— Fia, se num tá nem conseguindo levar o homem pra tomar um café é porque tá ruim mesmo. Vai sair mais caro.

Bem, a conversa com esta amiga em nada encorajou-me. Falei com uma outra que me indicou uma cartomante e, por uma hora e meia, contou-me sobre tudo  o que ela havia lhe dito e como havia sido bom. Marquei.

Lúcia não cumpria os estereótipos da profissão. Tinha uma fala simples e ausente de clima de suspense ou adivinhação. Lia as cartas como quem lê um livro ainda a ser escrito. Falou-me de sucesso profissional, de muitos estudos, de cirurgias bem sucedidas que farei. Lúcia não trazia a pessoa amada e, pelo contrário, disse-me que se trata de um amor alheio, que eu o deixasse para trás, ficasse só de verdade para assim poder chegar o “homem do cavalo branco”, um homem para compromisso. – Vai viajar sozinha! – disse Lúcia.

Saí aliviada da consulta. Enfim, eu tinha muitos conselhos e nenhum ritual esquisito a realizar. Mas a cada sinal fechado eu via mais um cartaz. Decidi que, para ser honesta com o título da crônica, deveria, ao menos, ligar para me informar. Apenas para me informar.

O coração palpitou. Até a mais cética das mulheres que, como eu, amasse secretamente um homem que a chama de amiga, ficaria tentada a contratar os tais serviços afetivo-espirituais. Liguei.

— A Tim informa, o número chamado não existe.

Liguei mais duas vezes para ter certeza que não havia digitado o número errado. A mesma gravação.  Mais um sinal fechado. Outro poste, outro cartaz, uma nova tentativa.

— Alô.

— Boa noite, eu gostaria de falar com Pai Arnaldo.

— Moça, pai Arnaldo não mora mais aqui não, voltou pro interior.

— Hum...

— As coisas por aqui andavam difíceis. Só tá atendendo lá. Voltou a morar com a mãe em Quixeré.

Sou uma mulher insistente. Tentei outro cartaz.

— Este número está programado, temporariamente, para não receber chamadas.

Ê, ê... Não é só para mim que esse negócio de amor anda mal.


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sexta-feira, 11 de abril de 2014

O GATO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Exatamente naquele momento crucial, um fortíssimo trovão ressoou e um raio caiu perto de onde estavam, cindindo uma árvore ao meio e trazendo consigo uma noite escura de temporal. Silvia, a mulher, gritou e fugiu, sem terminar o serviço. Ele tremia, paralisado, malditos nervos, de repente estava mesmo na hora de trocar de profissão. Vou morrer eletrocutado, pensou. Respirou fundo, tentando recuperar o controle e a experiência que os anos de treinamento lhe ensinaram. Um passo de cada vez, seguiu, sem se perder, até chegar à hospedaria. 

Entrou resolutamente na recepção, procurando por Silvia, mas encontrou apenas a velha que fazia as vezes de recepcionista, cozinheira, porteira e fofoqueira de plantão. 

A velha olhou para ele com olhos remelentos e sagazes, como os de uma ave que olha para um barbante no jardim e não sabe decidir se aquela estranha minhoca era comestível.

— D. Silvia não gosta de chuva nem de gatos, moço. O marido dela fugiu com a amante, uma jovem recepcionista que tinha um gato detestável. Sumiram os três numa noite de chuva como essa. 

Atônito, ele subiu para o quarto e se preparou para pensar e agir. Tomou banho, praticou tai chi chuan e, ao terminar, começou a entoar estranhos mantras enquanto tirava da mala alguns de seus apetrechos de trabalho: Bíblia, cristais, velas, guias, búzios... Depositou um copo com água no chão, onde traçou o mais poderoso símbolo de proteção da linha Nagô, acendeu velas e colocou-as junto com cristais nos pontos cardeais; posicionando-se no centro do desenho, movimentou o atame no ar, invocou as Forças da Luz, ajoelhou-se defronte à Bíblia, leu alguns trechos de São Paulo, pegou o Rosário e começou a rezar, concentradamente, todas as 220 contas. 

Entrou em meditação profunda, as respostas vindo naturalmente. Começou reconhecendo a canção que ouvira Silvia entoar ao cavar no pé da árvore, uma invocação egípcia aos Espíritos dos Mortos; intuiu o segredo do poço aterrado; o significado de um gato que só ele conseguia ver; a razão de estar ali naquele momento; e o que deveria fazer. 

Chovia torrencialmente. De repente, para além do ruído dos relâmpagos, dos trovões e da água pesada da chuva, algo parecido com os miados selvagens de uma sussuarana romperam o som da noite, seguidos por um gorgolejar pavoroso, temperado de pavor e morte, que só ele ouviu. Continuou imóvel em sua posição de lótus, projetando escudos de proteção para os outros hóspedes, pois, quanto a Silvia, só restava aguardar o curso dos acontecimentos

Veio a madrugada, trazendo, paulatinamente, o silêncio. Cessaram os miados ameaçadores, os trovões e relâmpagos, e, por fim, a chuva. Quando a primeira estrela da manhã brilhou, ele se levantou, desfez o círculo mágico, agradeceu a todos os Espíritos que o ajudaram e guardou tudo. Vestiu-se, apanhou uma lanterna, o celular e foi até o carro, pegar uma pá.

Não esperou o gato mostrar-lhe o caminho, pois agora não existiam mais cansaço ou nervos em frangalhos, nada; só a determinação de cumprir a missão para a qual fora convocado. Chegou ao poço com os primeiros raios de Sol, mas nem precisou da pá. 

O temporal fizera a maior parte do trabalho, espalhando as pedras, abrindo o poço, lavando a terra e expondo os corpos já meio decompostos, mas identificáveis, de um homem de meia-idade e de uma mulher jovem. 

Sem mexer na cena do crime, ligou para a polícia e deu as coordenadas, contando, por alto, a história de uma mulher que, não suportando ser abandonada pelo marido, matou-o e à jovem amante com quem ele fugiria. Nada falou do gato nem das práticas de Magia Negra que prenderam as almas de todas as vítimas à Terra, impedindo-as de descansar em paz. 

Voltou à hospedaria, perfeitamente senhor de si, como se nunca tivesse estado doente,  para encontrar um verdadeiro pandemônio. Todos do lado de fora, uma ambulância, a velha dos olhos de ave perscrutadora enrodilhada numa manta preta, como uma dona Carochinha de cemitério. Assim que o viu, correu ao seu encontro, para contar a novidade:

— O senhor nem sabe, a patroa enlouqueceu, rasgou a garganta toda com as próprias unhas, morreu ontem à noite, eu nunca tinha reparado que as unhas dela mais pareciam garras... — e ficou a falar sozinha, pois ele continuou andando, sem lhe dar atenção. 

Precisava telefonar para um contato na polícia e sumir de cena sem ser interrogado. E precisava, urgentemente, ligar para o Padre Tércio, pois, embora a Deusa Sekhmet, encarnada no gato, tenha feito justiça, todas aquelas almas precisavam de perdão e de um enterro cristão.

Seu nome era Lucrécio Lucas, caçador implacável do Mal que os olhos não veem, que chegara fraco, assustado e cansado, de tanto ver e lutar contra forças que nos fariam enlouquecer de medo. Mas que nunca deixara de entrar em ação e cumprir sua Missão quando chamado.

Ele ainda cogitou em ver se o gato estava enterrado ou não, mas desistiu. Não faria diferença. Que os gatos também descansassem em paz.

Outras aventuras de Lucrécio Lucas



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quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUE PARA SER, MELHOR QUE SEJA SEM ENSAIO
>> Carla Dias >>


Antes de sair de casa, de rezar as rezas que o seu coração acabou de decorar. De arrastar os pensamentos de acordo com as tarefas pré-estabelecidas e verbalizar desejos dos quais você não sabe se é autor ou simpatizante.

Antes de entrar na roda, nessa ciranda aprisionadora de pensamentos, vestindo a melhor roupa do momento. De redecorar a alma com o condicionamento exato para a necessidade vigente.

Antes de sussurrar banalidades nos ouvidos do outro, a fim de provocar o sorriso automático, inventando uma alegria que padece de descontentamento, mas cai bem no cenário. De interpretar mágoas porque elas parecem devidas, de atiçar a sanha, porque pode, por que não?

Antes de nascer o dia em que o sentido não faça sentido, que a importância seja outorgada ao primeiro que chegar. De a felicidade parecer tão distante, que colecionar lonjuras se torne um hábito. De faltar o ar por pânico, em vez de pelas gargalhadas nascidas à toa.

Antes que o rumo mude, de um jeito sem volta, desbotando as alegrias, botando medo no seu entusiasmo. E que você já não saiba como reconhecer-se na felicidade que lhe é devida. E de o antes pontuar a sua história, sem deixar espaço para um depois que valha a pena...

Pense naquela cena de cinema que não sai da sua cabeça, que já lhe fez sorrir, e tantas vezes, com gosto, sem encenação, sem cabimento.

Que para ser, melhor que seja sem ensaio.

carladias.com



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terça-feira, 8 de abril de 2014

E ISSO SERVE PARA O QUÊ? >> Clara Braga

— Bom dia, tudo bem? Pode se sentar, vou te fazer algumas perguntas, ok? Você toma algum remédio controlado?
— Não.
— Já precisou passar por algum procedimento cirúrgico?
— Não.
— É alérgica a algum medicamento?
— Não que eu saiba até o momento.
— Sente alguma dor crônica em alguma parte do corpo?
— Não.
— Tem diabetes?
— Não.
— Alguém na família tem?
— Sim, avó e tia.
— Pressão baixa ou alta?
— Não.
— E na família?
— Pai e mãe com pressão alta.
— Casos de câncer na família?
— Alguns…
— Ok, qual o cargo você está assumindo?
— Professora.
— Então, Clara, as principais doenças que os professores podem desenvolver ao longo da carreira são...

Nesse momento, no meu diálogo ideológico imaginário, o médico iria me explicar sobre as possíveis doenças que um professor pode desenvolver. Depois, pediria para que eu sentasse na maca e respirasse fundo enquanto ele ouviria meus batimentos cardíacos. Logo em seguida, tiraria minha pressão, me pesaria, mediria minha altura, conversaria mais um pouco sobre coisas que eu não entendo, me daria o exame que constaria "não há riscos" e me diria para voltar dentro de X meses para uma nova avaliação.

Mas como o mundo real não é muito próximo do fantástico mundo de Clara, o que aconteceu foi:

— Bom dia, Clara, pode se sentar. Quanto você pesa?
— (Informação confidencial.)
— Tem quanto de altura?
— 1,61.
— Ok, vou medir sua pressão. (Alguns segundos depois) 12 por 8, está ótimo. Pronto, está dispensada, boa sorte no novo trabalho.

Tudo bem, não vou negar que gostei da praticidade da coisa que acabou não tomando muito tempo do meu dia, mas será que isso vai funcionar para alguma coisa? Fiquei pensando, caso eu venha a ter um troço no trabalho (isola), em que diabos a minha altura, meu peso e minha pressão serão úteis? Será que existe alguma fórmula matemática que multiplicando um pelo outro, dividindo pelo MMC do primeiro e somando com a raiz quadrada do segundo pelo terceiro eles descobrem minhas possíveis doenças? Descobrem ainda o que eu posso vir a desenvolver? Caso não, pra que serve, afinal, um exame admissional?


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segunda-feira, 7 de abril de 2014

SODAMA >> Albir José Inácio da Silva

Da varanda da casa nova, ainda nos acabamentos, Ernesto observa o Sodama. Que destino dar ao sobrado depois das eleições?

Quanto a estas, as eleições, fez o que tinha de fazer e devia estar tranqüilo, mas não está. Alguma coisa impede a sua paz. Não consegue confiar nos eleitores, mesmo quando lhe fazem festa. Ernesto acha que merece respeito e gratidão daquela gente e espera que o reconhecimento venha através do voto.

Mas sua mente retorna ao Sodama. Há muitos anos o lugar estava em ruínas e muito trabalhou ali, quando não tinha dinheiro, para que ficasse habitável. Fugira de Minas numa carroça, com meia dúzia de tralhas que juntou às pressas depois de um crime de sangue. Muitos dias no mato, atravessou morros e rios, e chegou àquele lugar.

Lembra que olhava desanimado e faminto para o sobrado, o capim entrando pelas janelas, quando viu, saindo da estrada, um bando de mulheres. Estavam péssimas: roupas rasgadas, mancando umas, outras feridas, duas com sangue já seco no lado do rosto. Com medo, custaram a se aproximar.

— O senhor sabe quem é o dono daqui? Ouvimos dizer que está abandonado, mas nunca se sabe, né?

Ernesto já ia dizendo que não, também estava de passagem por ali, mas a esperteza falou mais alto.

— O dono sou eu. É de nossa família. Está meio abandonado porque a gente tem outras propriedades, mas agora eu tô chegando aqui pra cuidar.

— A gente tá um caco, moço. Será que não dá pra se abrigar até resolver o que fazer da nossa vida?

Não conseguiram evitar tremura e lágrimas quando contaram a história. Funcionavam numa discreta casa de cômodos na cidade, e não faziam mal a ninguém, quando a perseguição começou. As mulheres, desconfiadas de que aquele lugar atraía seus maridos, antes tão honestos, começaram com xingamentos na rua, vassouradas nas meninas, e depois pedras contra o telhado.

Com apoio das autoridades religiosas e sob vista grossa das administrativas, depois de barulhenta campanha pela moral, as senhoras atearam fogo na casa e as moças foram expulsas da cidade no meio da noite. E é por isso que estavam ali, estropiadas por socos, pontapés e horas de escuridão pelos caminhos.

Amanhecia e os olhos de Ernesto também se iluminaram.

— Só não me aborreço com as meninas porque vocês não têm obrigação de me conhecer. Conhecessem, e saberiam que Ernesto jamais deixaria damas tão distintas no desamparo.

Quase tão destruídas quanto a casa, as mulheres ainda assim trabalharam muitas horas, dias, para limpar, capinar e consertar, sob o comando firme e carinhoso de Ernesto.

Muito suor e pouca comida depois, o lugar foi aberto, mas, longe da cidade, não havia clientes. Diligência e esperteza, entretanto, não faltavam a Ernesto. Carroça cheia, descia o chicote no burro até o Centro com a desculpa de vender bugigangas. O que fazia, na verdade, era informar aos homens que encontrava o novo endereço da alegria. Exaltava a beleza das meninas, o conforto das instalações, o preço justo e a discrição do lugar, agora não mais exposto aos olhos das fofoqueiras e dos fiscais da felicidade alheia.

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

(Continua em 15 dias)

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domingo, 6 de abril de 2014

SE ARVORANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Imagem: André Neves
Desde que comecei a morar em apartamento, há 25 anos, passei a me sentir mais seguro. Morar em casa tem suas vantagens, claro, mas eu, sinceramente, não sei quais são. Ou não sabia.

Ano passado, retornei para o Ceará e resolvi morar numa casa, a casa de praia de meus pais, que só era usada em feriados e férias. O leitor não se empolgue demais com a minha nova residência, porque a praia fica a três quarteirões, só dá praia mesmo na maré baixa durante um período de apenas duas horas que muda todo dia e que, metade das vezes, acontece à noite. Feita essa ressalva, tenho que admitir que estou gostando de morar numa casa novamente, ainda mais perto do mar.

Uma coisa boa de morar aqui é que vivo não só no mesmo nível do mar, mas também no mesmo nível das árvores. Desci do meu salto alto de 13, 8, 3 andares para pisar no chão. Só agora percebi que eu me sentia superior a muita gente simplesmente porque eu morava pendurado em um apartamento.

As árvores, como se sabe, dão frutos, coisa de que às vezes a gente esquece quando vive num apartamento de uma grande cidade e só consegue fruta no supermercado. Aqui ao redor de casa, já deu caju, sapoti, manga, seriguela... e agora está dando acerola. É isso mesmo, as árvores dão, não precisa passar no caixa, basta pegar no galho. Mas a árvore não dá o tempo todo, o ano inteiro, ela tem época para isso. Depois de um tempo dando, ela fica quieta, na dela, matutando, pensando, refletindo, tomando banho de sol, pegando chuva, criando coragem para dar de novo ano que vem.

Agora, se a árvore dá, a gente precisa receber. E receber nem sempre é tão simples como parece. Receber requer exercício. Não é ficar sentado numa poltrona dizendo, “mãe, traz um copo de leite”, “pai, faz um sanduíche”. Para receber da árvore, é preciso se aproximar do pé de planta e apurar o olhar para descobrir a fruta boa, a mais bonita, a mais madura. Fruta verde não presta, não chegou seu tempo. E fruta que passou do tempo está podre. Avistada a fruta madura, há que se pegá-la. Pode ser que ela esteja pertinho do chão e só exija um pequeno esticamento de braço. Pode ser que ela esteja um pouco mais alta e peça um estiramento de corpo. Pode ser que ela esteja ainda um pouco mais acima e você precise puxar o galho pra baixo, estirar o corpo, esticar o braço. E pode ser que ela esteja no alto bem alto, e você tenha que subir na árvore. Tem fruta que só dá o seu sabor se você der a sua meninice para ela. Se você se descalçar e trepar no galho. Se você des-pensar o supostamente seguro pensamento de que “pode cair e quebrar um braço ou uma perna, menino!”.

Se você já estiver trepado no galho, é provável que apareça mais alguém para ficar lá embaixo do pé, indicando: “Ali. Na ponta. Mais pra frente um pouquinho. Aquela bem vermelha.” Aí quem está em cima tem que afinar o olho com quem está embaixo para chegar direitinho na fruta que é tirada do pé e jogada lá do alto.

Algumas frutas são comidas ali mesmo, pelos passarinhos e pelos meninos. Outras são tiradas e guardadas e levadas para casa. Menino que é menino, quando acha uma árvore dando fruta, pega tudo o que tiver. E é para pegar mesmo. Se é época de dar, árvore já apronta mais fruta para o dia seguinte. Mas para pegar esse tudo de frutas é preciso, além de ter olho bom, girar ao redor da árvore. A fruta que se vê do chão, quando se vai pegar, às vezes parece que muda de lugar. Tem que ficar arrodeando a árvore para achar as frutas que ficam escondidas atrás de galhos e folhas. É a árvore brincando de esconde-esconde com a nossa meninice. Tudo que dá na vida, assim de graça, assim ao natural, é desse jeito. Depois de ver e antes de pegar, muitas vezes é necessário arrodear. É esforço, mas é também brincadeira. Mais do que a fruta, é um jeito de ver melhor a árvore, seu tronco, seus galhos, suas folhas, suas flores.

Árvore fica sempre parada. Plantou, tá plantada. Menino, não. Acorda plantado na cama ou na rede, depois se levanta, se planta à mesa, se levanta, se planta no chão, se levanta, se planta no assento do ônibus, se levanta, se planta na carteira da sala de aula, se levanta, se planta na árvore do pátio da escola, se levanta, se planta no sofá de casa, se levanta, se planta no selim da bicicleta, se levanta... Gente se planta e se desplanta muitas vezes durante a vida. Às vezes tão rápido que se esquece de dar. Porque quem se planta se cresce, quem se cresce se fortalece, quem se fortalece se frutifica e quem se frutifica se dá. Quem se planta e se dá atrai os olhares de novos meninos curiosos e famintos, e sente cócegas quando as mãos e os pés da meninada percorrem seu corpo fibroso, seus galhos tortos. Porque se a gente é o que come, e gosta de comer o que dá em árvore, nós também vamos nos transformar em árvores, e, sendo árvores, alimentaremos novos meninos, futuras árvores, que por sua vez se plantarão perto de casas em que habitarão velhos meninos como eu.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

CONVERSA ENTRE FILHA E PAI >> Paulo Meireles Barguil

Cuidar da prole: missão de todos os seres do reino Animalia de modo a garantir a continuidade da respectiva espécie. Em outras crônicas, falarei sobre as duas etapas anteriores ao nascimento, pois agora quero inverter a ordem da vida, tendo em vista que somente aqui posso fazê-lo.

A subespécie Homo sapiens sapiens, duplamente sábia, pelo menos no seu nome, teve que enfrentar, assim como os animais que a antecederam e os que habitam o Universo, vários perigos da natureza. A morte sempre está à espreita, escondida de várias formas: doenças, predadores, fome, sede, frio, calor...

Há quem diga, bem como quem acredite, que o amor – ou a falta dele – é capaz de matar. Talvez seja, minhas tênues aventuras não me permitem afirmar ou negar esse axioma. Concordo, sem oferecer qualquer resistência, que ele é capaz de torturar.

Na epopeia humana, os múltiplos espaços-tempos nos têm permitido elaborar dinâmicas diferentes na criação das novas gerações. Em cada século, a Humanidade se reinventa. A mudança de cenários, personagens e interações é cada vez mais rápida...

As evidências arqueológicas indicam que, no início, as mulheres ficavam nas cavernas enquanto os homens iam caçar. Essa divisão de tarefas não demorou muito. Há quem afirme que essa mudança foi causada pela progressiva extinção do nomadismo em virtude do desenvolvimento da coleta e, posteriormente, da agricultura.

Desconfio que, em breve, se descobrirá que, desde os primórdios, as mulheres, zelosas com os seus companheiros, obrigaram-lhes a lhes dar uma casa decente, desejando também que eles tivessem um emprego menos insalubre, permitindo-lhes passar mais tempo com sua família.

Admito, contudo, que, às vezes, no Brasil, de modo especial em cidades grandes, se tem a sensação de que moramos em cavernas ou, antes, na própria selva... E o pior: esqueceu-se de que o objetivo de caçar, coletar, plantar ou colher é aumentar a qualidade do aconchego afetivo.

Para incrementar a produção e tornar a sua vida melhor, o Homem desenvolveu ferramentas, conhecimentos. Nas sociedades atuais, ditas e tidas como avançadas, a tecnologia alterou de forma intensa as relações sociais em todas as áreas da nossa vida. As crianças, por exemplo, dispõem de novos cuidadores: instrumentos eletrônicos.

Alguns desses, felizmente, permitem que elas possam se comunicar com seus pais – caçadores pós-modernos –, os quais também usam tais parafernálias fascinantes. A conversa, antes ao vivo, durante alguma refeição, agora é via e-mail, SMS, Skype, Facebook, WhatsApp...

– Papai, você pode vir deixar a blusa do catessismo? – pede a menina ao seu genitor.

– A do catecismo, eu posso. A do catessismo, não dá, pois ela não está por aqui. – responde o pai, que não perde uma oportunidade de ensinar ortografia, ou qualquer outro assunto, à rebenta.

– Ok! Você ainda esta aí ou teve um infarto com o erro? – cutuca a espirituosa filha, acostumada com a mania dele de consertar as coisas...

– TE AMO!!! – diz o pai, tentando deixar claro que o mais importante é o que sente por ela.

– TAMBÉM. – retribui a garota.

– Estou morrendo de rir da sua resposta, lindinha! – o pai acha engraçado quando ela comete alguns errinhos, e aproveita esse momento, pois sabe que vai chegar a época em que eles mudarão da Língua Portuguesa para outras áreas, indicando o final de um ciclo e a chegada de um novo...

[Crônica dedicada a Ana Beatriz, minha filha de quase 10 anos, com quem tenho estabelecido fecundos diálogos]

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