segunda-feira, 30 de setembro de 2013

COSPLAY >> André Ferrer

Vai à ONU e descarrega o “mimimi” escarlate nos desumanos ouvidos capitalistas enquanto lá fora, em Manhattan, o apartamento de 22 mil Reais a diária aguarda. Em Paris, comunistas brasileiros fazem compras e compõem sambas-protesto dedicados a um homem de bem, herói injustiçado que, nos Anos de Chumbo, derramou o próprio sangue na luta contra o imperialismo. Ó Notre-Dame dos Mensaleiros livrai-o! E também todo o resto de nós deste cinismo: Pedro Pedreiro exilado em plena farra turística às vistas do Sena. É claro, na margem esquerda.

No discurso dessa tropa vermelha, o Capital funciona mais ou menos como o demônio na boca dos televangelistas. Nenhuma coerência se sustenta fora do velho jogo do maniqueísmo. Daí a minha resistente desconfiança de que vivemos uma época infantil. No máximo, pré-adolescente.

Para crianças, a coerência não admite nuances. Ou você é bom ou está contra o herói. A criança inicia o reconhecimento das tonalidades cinzentas, entre o preto e o branco, na pré-adolescência. O caminho até a maturidade, onde, afinal, a paleta de cores revelar-se-á complexa e implacável, é árduo e cheio de crises. Há uma forte tendência à recusa. O mundinho simples e maniqueísta, perfeitamente dividido entre Deus e o Diabo, Tio San e Guevara, é muito melhor. E não tenho dúvidas de que a maioria das pessoas prefere a facilidade ainda que esta signifique o confinamento do espírito.

Por outro lado, é muito fácil dominar e lucrar mediante estas duas características: (1) ter o conhecimento de que as pessoas adoram o branco e abominam o preto, sempre incapazes de enxergar os infinitos tons de cinza, e (2) não ter caráter algum. Ora, qualquer cidadão que inventar um produto esotérico-marxista e aplicar uma estratégia de marketing voltada para os crédulo-dependentes do Bolsa Família ficará poderoso e rico neste país. Aliás, o cenário em toda a América Latina é favorável aos políticos inescrupulosos e aos falsos profetas. Reproduz, em preto e branco, aquela imagem satírica do Mao Tsé Tung na Disney, agora, no entanto, em proporções continentais. Engana-se quem ainda só pensa na Venezuela.  Tem “mané” fazendo cosplay de bolchevique do Panamá à Terra do Fogo.

Nada contra os cosplayers. Trata-se de um fenômeno natural. Marca de uma época na qual a protelação da seriedade avança tanto na vida das pessoas, que deixa espaço livre para a infância e a adolescência intermináveis.


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domingo, 29 de setembro de 2013

DE VOLTA PRA CASA >> Sílvia Tibo



Já são três anos sem você. Mas é engraçado, parece que nos vimos ainda ontem. 

Talvez porque eu tenha sempre uma foto sua em algum ponto da casa. Talvez porque a senha do computador que eu acesse diariamente, assim que me levanto, seja uma palavra de que você gostava. Talvez, ainda, porque são raros os dias em que nada me leva a você. 

Há quem veja tudo isso como tristeza, melancolia e luto. E então, diga que preciso superar a perda pra continuar vivendo. A estes, respondo que sua partida não se trata exatamente de algo que precise e possa ser superado. E, muito menos, de algo que eu queira superar. Ao contrário, sua presença, nessa vida, é o que eu mais desejo preservar. 

Há, também, os que (bem intencionados, reconheço) dizem que o vazio certamente vai ser preenchido quando vierem os filhos. A estes, respondo que sua ausência física não é, propriamente, um buraco, apto a ser preenchido com o que quer que seja. Até porque se, por um lado, nossas mãos não podem agora se tocar, nossas almas estão invariavelmente ligadas. E por vezes se encontram, nos meus mais belos sonhos.

Além do mais, com o perdão da sinceridade, não acho que filho substitua mãe. Assim como mãe não substitui marido. Marido não substitui irmão. Irmão não substitui amigo. Cada um no seu quadrado, é minha opinião. 

Nos últimos dias, ao tempo em que a primavera chegava e o frio se despedia, as lembranças se acirraram. Não só (e propriamente) porque se aproxima a data em que você partiu, mas, sobretudo, porque flores, cores e dias lindos de sol me dão a certeza de que você permanece viva em algum lugar. 

Na semana que passou, entre flores, saudades e raios de sol, andava à procura de algumas horas livres pra ler um bom livro, disparadamente (e para o estranhamento de muitos) minha maior diversão. 

Assim que o trabalho permitiu, fugi pra um lugar tranquilo e comecei a devorar a nova obra de Leila Ferreira, cujo título, “Viver não dói”, me pareceu bem pertinente. Lá pelas tantas folhas, me deparei com algumas poucas palavras que, juntas, definem exatamente essa sensação de permanência, que nem a morte parece ser capaz de apagar. 

Está lá, na página 175 do livro, estampada com todas as letras: memória é “um lugar sagrado onde os sentimentos não têm data para existir e a nitidez das imagens costuma ser bem maior do que as fotografias”.

À definição perfeita de Leila, permito-me (humildemente) acrescentar que a memória é o que mantém incólume a nossa essência. E é, ainda, o que nos dá alguma certeza e segurança nessa vida. Porque, para além das mudanças e turbulências que o tempo invariavelmente traz, a memória está sempre ali, pronta a nos reportar ao lugar de onde viemos, àquilo que realmente somos. Nos dias em que o chão nos falta, é ela quem, gentilmente, nos leva de volta pra casa. 


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sábado, 28 de setembro de 2013

ESCOLHA A FELICIDADE [Maria Rita Lemos]

Cada vez que ficamos infelizes, o fazemos por diversas razões, incluindo as que estão fora de nós e as intrínsecas, que estão bem enraizadas em nosso íntimo.

Dentre as causas que não dependem de nossa vontade, imaginemos que estamos presos dentro de uma caverna escura, infestada de morcegos, e sem encontrar a abertura de saída. Ou, então, que estejamos com fome e sem alimento disponível, ou, pelo contrário, sejamos obrigados a comer algo que nos desagrada. Em qualquer dessas situações, pessoas em estado saudável de consciência tentariam libertar-se o mais rapidamente possível daquilo que as está fazendo sofrer, encontrando uma saída.

O mecanismo para a felicidade versus sofrimento é muito semelhante. Segundo diversos autores, pessoas com bom equilíbrio emocional , em situações adversas, lutam para assumir o comando de suas vidas, sempre que isso seja possível. Só quem não está bem com suas emoções vai prolongar desnecessariamente o sofrimento, ou vai desistir de lutar, preferindo viver pela metade que pagar o preço, nem sempre barato, de ser feliz, fazendo essa opção de vida.

Aliás, na maioria das situações, temos essa escolha: ser felizes, ou, quando isso não for possível, por circunstâncias externas, no mínimo tentar “não ser infelizes”. Somos livres para escolher a felicidade na vida diária, uma vez que temos opções, a cada momento, para escolher comportamentos gratificantes ou autodestrutivos.

Um exemplo típico pode estar num artigo que li, um dia desses, se não me engano em matéria do excelente filósofo Rubem Alves. Ele reflete sobre uma pessoa que, saindo do supermercado cheia de compras, não conseguia entrar em seu carro, porque o veículo ao lado não tinha deixado espaço suficiente para que a porta do motorista fosse aberta. Havia, então, dois padrões mentais possíveis: ficar irritado, procurando nervosamente a pessoa que estacionou mal, causando o transtorno, seria escolher o mau humor e o estresse. Havia, porém, outra escolha: do lado do passageiro havia espaço suficiente, desde que, com boa vontade e um certo exercício de deslocamento do corpo, esse motorista escolhesse uma opção menos radical e mais simples: entrar pela porta possível e deslizar até o lugar do motorista, saindo, então, da situação, sem tanto desgaste emocional.

Claro que isso é apenas um exemplo, que não seria possível, por exemplo, para pessoas obesas, grávidas, ou com qualquer outra dificuldade de locomoção, mas para essas também, certamente, haveria soluções menos desgastantes. Se você é daquelas pessoas que se desgastam nos congestionamentos, xingando todo mundo, buzinando desnecessariamente, certamente poderá encontrar maneiras mais prazerosas e saudáveis de agir, colocando uma música agradável, cantando ou até treinando o controle de sua ira por mais alguns minutos! Isso não significa treinar para ter “sangue de barata”, como se diz popularmente, mas simplesmente substituir, gradualmente, padrões mentais negativos por outros que só vão nos trazer benefícios para a saúde mental e física.

Da mesma forma, em conferências chatíssimas, mas que somos obrigados a participar, podemos passar o tempo reclamando de tudo e todos, ou substituir o tédio escrevendo um diário, uma poesia, ou fazendo comentários que, talvez, ajudem o conferencista a reformular sua forma de expressão ou desenvolver o tema de forma mais agradável.

Em resumo, usar a nossa mente de forma positiva significa reavaliar as pessoas e situações que nos são desagradáveis e, em seguida, selecionar novos padrões mentais e comportamentais para que essas mesmas pessoas e situações, se forem inevitáveis, possam ser ressignificadas a nosso favor.

O principal é saber que somos muito valiosos(as) para nos desgastar com coisas negativas, mas que podem ser encaradas de formas mais positivas.

Podemos, sim, desenvolver hábitos de pensamento que nos defendam de sentimentos negativos, e treinar essa nova forma de viver: é sensacional!

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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

ACERTO DE CONTAS >> Fernanda Pinho

Chegou a hora da prova dos nove. Dos trinta, no caso. Há exatos 871 dias publiquei neste mesmo site uma pretensiosa lista batizada de “30 Coisas Para Fazer Antes dos 30”. Pois então, senhores, esse dia que parecia tão distante de mim a ponto de fazer resoluções publicamente, certa de que cumpriria todas, chegou. Fiz 30 anos ontem. Eu poderia fazer a desmemoriada e fingir que essa lista nunca existiu. Mas ser mais honesta comigo e com os outros está entre as minhas resoluções de moça de 30, o que me leva ao balanço a seguir.

Das coisas que não realizei e desisti completamente:

1 - Ir numa cartomante: Não quero mais brincar dessas coisas. O futuro está guardado nas mãos de Deus. Aprendi a ser menos ansiosa e a ter mais confiança.
17 - Experimentar todos os lanches da McDonald's: Sério. Que tipo monstro habitava dentro de mim quando escrevi essa lista? Ultimamente não posso nem passar na porta de um McDonald's.

Das coisas que não realizei por ainda não ter certeza se quero realizar:

2 - Fazer uma tatuagem: Posso pensar sobre isso até os 35?
8 - Escrever uma peça de teatro: Eu gosto de escrever, mas tenho talento para teatro?
9 - Ter um site sobre alguma coisa muito legal: Realmente estou interessada em ter mais trabalho do que já tenho?
15 - Voltar para a terapia: Estou precisando disso neste momento?
19 - Aprender a dançar forró: Pode ser outra dança?
21 - Organizar uma festa à fantasia, que tenha como tema os super-heróis: Quem topa?

Das coisas que pretendo realizar mas com ressalvas:

10 - Fazer um mochilão pela Europa: Muito a fim de ir para a Europa, mas posso sair daqui com todas as passagens compradas, hotéis reservados e uma enorme mala de rodinha? Já entrei naquela fase em que conforto é prioridade.
18 - Assistir um AtléticoXCruzeiro do meio da Galoucura: Quero muito também, especialmente para levar meu marido que ainda não viu essa paixão de perto. Porém, não preciso estar necessariamente dentro da loucura que é essa torcida.
20 - Viajar para outra cidade e ver um show da minha banda preferida, com minhas amigas. Exatamente como eu fazia antes dos 20: Seria melhor se eu não precisasse viajar. Exatamente como eu fazia antes dos 20, só quem viveu lembra. Já não dá mais para mim.
23 - Ver o sol nascer na Praça do Papa em BH: A ideia desse item era passar uma noite acordada. Agora, prefiro acordar cedinho e ir para a praça.

Das coisas que ainda desejo muito e ainda não fiz:

3 - Fazer alguma coisa mais útil para uma obra de caridade: Faltou vergonha na cara, mas pelo menos agora tenho planos bem sérios a esse respeito.
5 - Publicar um livro só meu: Essa justifico dizendo que não é algo que dependa só de mim e que no momento estou escrevendo uma história que gosto muito!
7 - Fazer Yoga, Shiatsu, Reike. Ou qualquer uma dessas coisas ou todas essas coisas: Faltou tempo.
11 - Fazer um cruzeiro: Faltou oportunidade.
12 - Fazer aula de uma língua que nunca estudei: Não estudei, mas em compensação tive que me especializar no espanhol, que já havia estudado.
14 - Mandar flores para um homem. Acho chique: Dia 8 é aniversário do meu marido. Quem sabe?
22 - Ver o sol se por no Juquinha, na Serra do Cipó: Apenas esperando voltar para o Brasil!
24 - Encher um porquinho de moedas: Sinto muito, não consigo parar de assaltar meus porquinhos. Talvez eu devesse levar esse tema para o item 15.
28 - Digitalizar todas as gravações em VHS feitas da minha infância: Faltou dedicação e paciência. Uma pena. Mas ainda vou fazer isso.
29 - Ir para a praia de maiô: Ainda não encontrei meu maiô perfeito. Porque para substituir o biquíni tem que ser maravilhoso!

Das coisas que fiz (Sim, sim. Não sou um fracasso completo):

4 - Cozinhar para alguém: Olha, quando eu fiz a lista eu não sabia nem fritar um ovo. Agora, tem mais de um ano que eu cozinho to-do-san-to-dia para alguém. Acho que isso compensa um monte de coisa que não fiz!
6 - Voltar a dirigir: Voltar eu voltei. Ganhei um carro e tudo mais. Só não tenho dirigido porque no momento não tenho essa necessidade.
13 - Praticar alguma arte marcial: Fiz boxe durante um tempo e achei chatíssimo. Tentei!
16 – Esquiar: Mais que esquiar eu queria conhecer a neve. Não apenas aconteceu como vim morar grudada nela.
25 - Ler todos os livros da minha lista chamada "Lacunas Literárias": Tenho lido. O problema é que quanto mais leio mais lacunas aparecem.
26 - Comer doces na Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro: Um beijo para minha amiga Calypso que foi quem me levou.
27 - Aprender a fazer massagem: Aprender não sei se aprendi, mas faço quase com a mesma frequência com que faço comida.
30 - Fazer um curso de automaquiagem: Fiz e ando viciada no tema muito mais que o pretendido.


Se eu me sinto mal por ter falhado tanto nos meus propósitos? Nenhum pouco. É incrível perceber quantas coisas maravilhosas e surpreendentes me aconteceram da data de publicação desta lista até hoje. Coisas que nunca entraram em lista alguma de resoluções. E por isso foram surpreendentes. E por serem surpreendentes, foram as melhores.


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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

FINAIS E CHICLETES >> Carla Dias >>

Finais de séries e chicletes me incomodam. Quer dizer, não me incomoda alguém pensar diferente de mim sobre os finais de séries, tampouco se mascarem chicletes do sabor que seja. O que me incomoda é a urgência que vem com o final de uma série, e o chiclete, quando o mascam de boca aberta.

Vamos deixar os chicletes pra lá, então.

Dexter
O último episódio de Dexter foi ao ar no domingo, nos Estados Unidos. Sim, sentirei falta da série, que apesar de seus altibaixos, conta com momentos e personagens catárticos. Como não pensar no final da quarta temporada? Aquele último episódio seria um belíssimo final de temporada. Mas ainda havia muito sobre Dexter (Michael C. Hall) a ser dito. O serial killer queridinho dos apreciadores das séries estava deixando o 100% psicopata para trás. Por isso mesmo, as mudanças couberam onde deviam. Para mim, o saldo foi positivo, e Dexter fará muita falta.

Breaking Bad
Outra série muito interessante, que não temeu assumir mudanças drásticas no comportamento dos seus personagens principais, já está no corredor da temporada final. Se humanizar um serial killer deu pano pra manga, o que dizer sobre um pacato professor de química mudando de status para cozinheiro/traficante de drogas? Breaking Bad transformou o Mr. White em um cara que dá medo. A mudança não é apenas sensorial, mas também física. Bryan Cranston, que interpreta Mr. White, vem mudando de acordo com a forma que o personagem se permite apreciar o poder que sua cria lhe oferece.

House M. D.
Anti-heróis são sim muito mais interessantes. O serial killer que tem um código e mata somente assassinos, o professor de química que se torna o cozinheiro de uma das melhores drogas do mercado. O que dizer do médico que não consegue enxergar o paciente, mas somente a doença? House M.D. deixou um vazio enorme na grade das séries, que ouso dizer, mas apenas de leve, acaba sendo lembrada pela conexão de temas por meio da personagem principal de Nurse Jackie. A enfermeira lembra, e muito, o House (Hugh Laurie), em seus momentos de necessidade intensa de um remedinho. Jackie (Edie Falco) é mais ligada ao ser humano, ainda assim, é de uma crueza, de uma ironia e de uma capacidade de mentir de primeira linha.

In Treatment
Na minha cabeça de pessoa que adora séries, que tem dificuldade em se despedir delas, já imaginei o Mr. White sendo tratado pelo House, e se tornando o fornecedor de drogas do médico e da Jackie, a enfermeira que bate de frente com House. Eles se tornam amigos do analista de respingos de sangue, quando Dexter vai ao hospital visitar Deb. E acabam todos no sofá de Paulo Westom (Gabriel Byrne), da interessantíssima In Treatment.

Nurse Jackie
Finais me tiram do eixo. Talvez eu deva mascar chicletes, enquanto aguardo o retorno de Nurse Jackie.

carladias.com

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domingo, 22 de setembro de 2013

A ASSINATURA >> Whisner Fraga

Trabalhando no oitavo andar do Edifício Ituiutaba, eu utilizava muito o elevador. Verdade que algumas vezes eu preferia a escada, mas só nos dias em que o calor dava uma trégua. Perto do botão que usávamos para chamar o veículo-caixote, várias assinaturas asseguravam que, algum dia, seus donos passaram por ali. Era uma tentação para o egocentrismo de um adolescente.

Sempre tive esse desejo de me sobressair, essa arrogância de um idiota que queria seu lugar à sombra, de modo que, naquela tarde, levei a minha caneta vermelha. Os outros nomes vinham em tinta azul ou preta, o que dava uma monotonia desconcertante ao cenário todo. Eu desejava dar um pouco de cor à placa de alumínio que envolvia o botão branco. Caprichei no meu nome, todo em letras maiúsculas: WHISNER. O cuidado fora tal que parecia uma obra de arte em meio a garranchos.

Desci feliz rumo ao banco: precisava pagar alguns boletos para o patrão. Imagino que tenha sido o Sô Bete que descobrira a minha assinatura naquele mesmo dia, ao rumar para casa, pouco antes do fim do expediente. Já o reconheço voltando ao escritório e avisando meu pai do ocorrido: "Você precisa dar um jeito no moleque, Mamede. É um menino bom, deve ter sido influenciado por algum amigo." Trabalhava com meu pai e com o velho Gilberto Cancella e, se eu tivesse feito algo de errado, sabia que eles me repreenderiam. Como era início de noite e nenhum dos dois falara comigo, esqueci o assunto.

Ao chegar em casa, minha mãe veio nos receber com a testa franzida e com as sobrancelhas quase unidas, como se formassem uma só. Tremi. Só quem conheceu mamãe brava sabia o que aquilo significava. Se a coisa toda descambasse em uma bronca, me sentiria um garoto de sorte. Na sala, ela ordenou que me sentasse. Obedece quem pode e, quando ela percebeu, eu era um pequinês abanando o rabo, esperando perdão e, quem sabe, um afago na cabeça.

Meu pai assistia a tudo, como um juiz. Logo descobri o motivo da reunião: era a minha assinatura escrita em vermelho, ao lado (ou abaixo, não me lembro) do botão. Eu devia levar um pano umedecido no dia seguinte e apagá-lo. Aquilo não se fazia, era coisa de gente pobre de espírito, devíamos preservar nosso nome acima de tudo, que vergonha, o que as pessoas iriam dizer? e assim por diante. O sermão foi comprido, mas ficou por isso mesmo.

Além de não deixar rastro, tive de ir ao Sô Bete pedir desculpas. Pelo que me recordo, fui também até o zelador, até o porteiro, ao ascensorista e também me desculpei com eles. Devo ter falado com umas dez pessoas. Minha família sempre foi assim: pronta a se penitenciar a respeito de qualquer assunto.

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sábado, 21 de setembro de 2013

A MESMA ÁRVORE [Ana Claudia Vargas]

Todos nós estivemos no mesmo lugar, à mesma hora, no mesmo dia e sequer havíamos marcado encontro. Foi simples e natural nossa ida àquele lugar sem que houvéssemos combinado. No domingo das lojas fechadas, algumas poucas abertas; a praça estava cheia de idosos que dançavam músicas antigas dos tempos grandiosos; de crianças levadas pelas mãos de seus pais atentos ou displicentes; e havia ainda o córrego quase transbordante das chuvas da noite anterior e suas águas barrentas e opacas e mais as nuvens carregadas da outra chuva que haveria de cair dali a pouco (como de fato caiu). Era final de verão.

E, no meio de tudo, nós que sequer havíamos marcado encontro, como já dito, nós todos – a família, esse núcleo de criaturas humanas que se assemelham somente porque dividem a mesma origem biológica – nos espalhamos pelas alamedas da praça, nos juntamos quando a chuva se fez mais forte sob o mesmo teto e eu me lembro das lojas cheias de turistas apressados e ávidos por comprar e comprar - e nós todos, como todos os outros que ali estavam, carregamos nossa solidão conscienciosos como se moradores de um convento secular e pouco nos atrevemos a ir ao encontro de um ou outro de um jeito que ultrapassasse a superficialidade daquele passeio singelo do domingo de manhã.

Foi assim que nós todos juntamos nossas ausências ali, no meio da praça do domingo sob o sol ameno que depois se tornaria chuva incessante e, apesar disso ou justamente por isso, é que soubemos intimamente (e isso é algo secretíssimo, algo que só se conta em invencionices como essa ) que sim, somos de fato e verdadeiramente uma família.

Pois uma família é exatamente isto: carregar nossas solidões sob as intempéries do tempo que recobre o mundo – seja ele qual for - e nos sentirmos acolhidos quando somos fracos, quando estamos sob pingos grossos de chuva sem uma sombrinha velha sequer que nos cubra ou quando ficamos adoentados e, ainda, quando estamos com fome ou quando descobrimos com algum ranço de revolta ou resignação que não há nem nunca haverá remédio para o fato de que nada que se faça nessa vida vai mudar o rumo do que quer que seja – destino? Padrões genéticos? Filosofias rasas ou complexas? Deus...? – e que, nesse caso, é o fato de estarmos presos de forma definitiva a todos os outros frutos e sementes dessa mesma árvore: a família.

Essa árvore de tronco grosso como um jacarandá, um carvalho ou uma paineira; árvore grandalhona e de galhos compridos espalhados – alguns até se encontram no topo ou nas laterais como que se buscando afoitos em meio à arquitetura algo caótica e deslumbrante das folhas – que florescem nas estações certas (apesar dos pesares), espalham suas sementes pelos chãos e pelos ares; estas árvores quase petrificadas de tão remotas, estes verdadeiros monumentos orgânicos que deixam entrever algo de Deus em suas folhas lustrosas, suas grossas e duras cascas e suas (quase sempre) raras e tão esperadas flores.

Quando vemos uma árvore dessas, assim antiquíssima, mas ainda resplandecendo seiva e frescor, e a vemos envolta por pássaros numerosos e tão diversos como bem-te-vis, anus, pardais ou sanhaços, e percebemos, quase comovidos, como elas oferecem à paisagem dantesca desse mundo o frescor luminoso de suas sombras bordadas na terra como se pinturas caprichosas e tão delicadas...

...pois quando estive diante de uma árvore dessas num domingo de manhã, entre os meus, foi que pensei que uma família também é (ou deveria ser) como uma dessas grandes (grandes) árvores: um lugar onde o afeto pudesse sempre ser compartilhado de forma serena e nunca (nunca) fosse usado como moeda de troca ou como as migalhas que às vezes somos obrigados a buscar em terras distantes – como passarinhos desorientados - porque a ‘nossa’ árvore se esqueceu de produzir alimento suficiente para todos. E, então, se assim fosse, nós todos seríamos como essas aves tão diversas de origens e cantos que voam pra longe – para o sul ou para o leste – que atravessam os céus de sob oceanos e caatingas, mas sempre retornam para os galhos dessas grandes e acolhedoras árvores.

Uma família deveria ser como as grandes árvores, isso eu pude apreender naquela manhã.




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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

PODE CHEGAR, CALOR >> Mariana Scherma

A primavera não chegou oficialmente, mas o calorão já. Acho o máximo morar num país que faz mais de 30 graus ainda no inverno, mesmo que seja na reta final dele. Adeus casacos, cachecóis e meias grossas. Sejam muito bem-vindos shorts, saias, chinelos e biquínis. O que mais me encanta na primavera-verão é que tudo fica mais simples. A gente não precisa sair de casa com quinze blusas e quatro meias, nossas refeições ficam mais leves e as saladas se tornam ainda mais saborosas. Tomar banho volta a ser gostoso, a água gelada caindo do chuveiro é divina. Mas...

Como tudo o que é bom tem um mas, o do calor são as pessoas que vivem reclamando dele. Eu acho a coisa mais confusa brasileiro reclamando do calor e dizendo preferir inverno. Toda vez que ouço algo do tipo fico com uma certa raiva da cultura do Hemisfério Norte que a gente vive engolindo sem mastigar. Sim, na minha opinião é por causa dos filmes com bonecos de neve e mulheres chiques, cheias de casacos, que boa parte dos brasileiros diz preferir o frio. Culpo também o Papai Noel, que faz boa parte da população achar que Natal precisa daquelas refeições pesadas, típicas de países frios. Eu morro de dó de nossos papais noéis brasileiros que ficam nos calçadões durante o fim do ano, todos encasacados, suando litros e litros. Por mim, refeições de natal deveriam ser leves, menos leitoas e companhia, por favor. Nossa legião de papais noéis deveria usar calções, regatas e chinelos. E, claro, dar uma aparadinha naquela barba pesada.

Não sei o que você, leitor, pensa disso, mas tem também a turma que adora dizer que no frio as pessoas são mais elegantes. Como se ser elegante dependesse de bota e casaco. É possível ser elegante no verão, gente, claro que é. Desenvolvi uma teoria com alguns amigos de que as pessoas que vivem infelizes com sua imagem gostam do frio porque se escondem nas roupas e só vão se dar conta de que ganharam uns quilinhos quando chegam o calor e a vontade de ir à praia. Tem aqueles que dizem que no inverno as pessoas são mais cheirosas, também acho mentira das grandes. Já ouvi um monte de gente dizendo ter preguiça de tomar banho quando está bem frio, agora ninguém tem preguiça de tomar um banho (ou mais de um por dia) no nosso calorão. Óbvio que os perfumes franceses são mais fortes, eles precisam disfarçar a falta de hábitos de higiene que os gringos têm.

Para a turma que não gosta de verão por causa da infestação de insetos, como baratas e mosquitos, principalmente os da dengue, reservo minha maior indignação. Mais do que tudo, é aí que entra a questão da boa higiene. Dengue, pra mim, não é um problema restrito às prefeituras, é uma questão de limpar o seu próprio quintal. Você não deve culpar o prefeito e cia. por encontrar larvas de mosquito se deixa seu quintal cheio de bagunça e sujeira. Será que o calor deixa as pessoas mais lentas e preguiçosas? Algumas sim – e vão adiando a faxina da casa. Depois, não adianta reclamar das visitas indesejadas, ou melhor, dos insetos indesejados. Sair do sofá e dar uma geral enquanto as chuvas não chegam é o melhor que todos podemos fazer.

O verão é lindo pra quem o recebe de braços e guarda-sol aberto. E eu estou bem assim, já fiz meu estoque de protetor solar e regatas, me preveni de qualquer foco de mosquito da dengue aqui em casa, tenho meu veneno de baratas sempre à mão (e minha garganta também, sou dessas que mata barata no grito)... Sou contra desprezar esse calor tão nosso, tão brasileiro. Quando chegar dezembro e os papais noéis surgirem, também já preparei meu olhar de solidariedade a eles. Ninguém merece excesso de barba e casacos em pleno fim de ano.


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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

PRA LÁ DE BOAS >> Carla Dias >>

Eu tive uma noite pra lá de boa, ontem. E nem pensem que não celebro e agradeço por isso. Aliás, agradecimentos fazem parte da minha existência. Não os renego, tampouco os invento. Tenho o maior apreço pelos agradecimentos do qual sou autora, já que por detrás deles há sempre uma história que vale a pena. Para mim, agradecimentos são sagrados.

Claro que isso não quer dizer que eu ande por aí dizendo somente “amém” a tudo. Pelo contrário... Sou geniosa em alguns aspectos, meu ser escorpiano se eriça quando me aviltam, desrespeitam. Mas se há algo que sei fazer é reconhecer momentos que me acontecem como presentes da vida.  Aí entra o agradecimento.

Pensando bem, já são duas noites pra lá de boas, em menos de uma semana. Além de ontem, a noite de sábado foi muito bacana. Agradecimentos registrados.

Kleber Albuquerque

No sábado, eu fui ao show do amigo, compositor e poeta, Kleber Albuquerque, e em nossa terra natal, Santo André. Além de ter assistido a um show lindo que só – o que dizer sobre um show chamado 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo quando se diz e se toca muito bem, obrigada? -, com um público feliz de estar ali, eu estava acompanhada dos amigos de longa data, Paulo Renato e Raquel, também companheiros de tentativas mil de ter uma banda (sim, estamos tentando novamente), e dos gente boa Eduardo e Eli.

Eu, Paulo Renato, Mônica, Pedro, Eli e Eduardo.

Raquel, Kleber e Eli
Não bastasse tanta gente legal, ainda encontramos dois amigos queridos por lá, o Pedro e a Mônica. Música e boa companhia, enfim, agradecimentos pipocando. Ah! E ainda encontramos a Rubia no supermercado quando fomos comprar coisinhas para o jantar! Pena que não deu pra ela jantar com a gente.

Com Will Calhoun no IBVF, onde ele deu aulas de bateria, em junho

E então, ontem foi uma boa noite. Também muito bem acompanhada, de amigos queridos e artistas talentosos, aportei lá no show do Living Colour. Will Calhoun, o baterista, conheci por conta do trabalho com o Batuka! Brasil. Ele tocou na última edição do festival, que aconteceu em junho no Memorial da América Latina, aqui em São Paulo. Antes disso, Vera Figueiredo, com quem trabalho há mais de vinte anos, idealizadora do festival, conheceu e encontrou o Will várias vezes em festivais e feiras de música internacionais nas quais foi tocar. Will Calhoun é uma pessoa bacanérrima, artista interessantíssimo e plural.

Rubia, eu e Vera - Osvaldinho, Julio e Rubia

E as companhias foram especiais: Vera Figueiredo, Osvaldinho da Cuíca, Julio Cesar e Rubia Elias (sim, a amiga do supermercado de sábado!). A Vera é baterista e compositora que aprendi a admirar. Antes de me tornar sua funcionária e amiga, fui sua aluna. Osvaldinho da Cuíca é o mestre do samba de São Paulo, que, obviamente, sabe fazer a cuíca cantar que é uma beleza. Julio Cesar é um percussionista super talentoso, com uma habilidade linda de tocar instrumentos do samba. A Rubia é uma amiga que ganhei ao começar a fazer aulas de bateria aqui na escola onde trabalho (é uma produtora de eventos e escola de bateria e percussão brasileira), em mil novecentos e sabe Deus quando, que se tornou irmã faz tempo.

Osvaldinho da Cuíca, Julio Cesar e Will Calhoun
No palco com o Living Colour

As presenças de Osvaldinho da Cuíca e Julio Cesar no show do Living Colour não foi somente para assistir ao show da banda americana. Will viu o Osvaldinho tocar no Batuka! Brasil, acompanhado pelo Julio, e ficou encantando com o nosso guru do samba, convidando-os para participar de uma das músicas do show. Sim, parte das minhas companhias subiu ao palco e tocou ao lado de Will Calhoun, Corey Glover, Vernon Reid e Doug Wimbish. E como não poderia deixar de ser, foi um momento lindo que só. Aliás, quem nunca escutou Osvaldinho da Cuíca fazendo a cuíca cantar, por favor, Youtube-se. Will Calhoun o chamou de “pai brasileiro” e não foi à toa. O baterista estava encantado com o talento desse instrumentista e compositor, uma enciclopédia ambulante quando se trata do samba.

Osvaldinho da Cuíca, Corey Glover e Julio Cesar
No palco com  o Living Colour

O show do Living Colour foi muito legal. O local era pequeno, o que é sempre interessante, porque é possível ver o artista no palco e escutá-lo muito bem. Fiquei muito feliz pela oportunidade de ser feliz com o show e com as pessoas.

Portanto, estou pra lá de agradecida pelas noites pra lá de especiais que tive, em menos de uma semana. E obrigada a todos que participaram delas, que as tornaram assim especiais


KLEBER ALBUQUERQUE - PERMITIDO


LIVING COLOUR - LOVE REARS ITS UGLY HEAD



OSVALDINHO DA CUÍCA


Salve a boa música! Salve os bons criadores e intérpretes da boa música!







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domingo, 15 de setembro de 2013

COISAS DA VIDA >> Sílvia Tibo


Até bem pouco tempo atrás, tinha em casa, colado atrás de uma das portas do guarda-roupa, um pedaço de papel com um punhado de metas e atividades a serem executadas ao longo dos meses e anos seguintes. Além disso, andava sempre com um bloquinho de notas a tiracolo, onde tentava agendar, com rigor, todo e qualquer compromisso assumido. 

Obviamente, volta e meia acontecia uma surpresinha que abalava o esquema, o que me obrigava a traçar novas datas para o cumprimento de uma ou outra tarefa. E, por mais que isso não me trouxesse qualquer tipo de prejuízo real, era suficiente pra deixar malucos (e à flor da pele) cada um dos meus mais calmos nervos.

Com roteiro à mão, seguia vivendo, na ilusão boba e egoísta de que as forças do universo estavam (ou deveriam estar), todas elas, à minha inteira disposição, conspirando o tempo todo pra que o meu script fosse executado dentro do prazo estimado e nos termos estabelecidos. 

Ao longo do tempo, sem que eu me desse conta, os papeizinhos colados no armário ou carregados diariamente na bolsa passaram a ser responsáveis por crises de ansiedade e noites de insônia, que me fizeram, inclusive, gastar horas (e uns bons trocados) em bate-papos terapêuticos. 

Tardou (e muito!) pra que eu entendesse e aceitasse que o planejamento tinha ultrapassado os limites da disciplina e da organização saudáveis e necessárias pra que se chegue a qualquer lugar. 

Nessa loucura toda, foram muitos os benefícios das sessões de terapia. Tantos que, até hoje, já mais ou menos livre dos roteiros rigorosos e inimigos, aquelas conversas curativas continuam fazendo parte da minha rotina. 

Mas, para além dos conselhos profissionais, é a própria vida quem tem se encarregado de me mostrar que tem rumos próprios. E se esses rumos, por vezes, nos conduzem a situações ruins e indesejadas, são igualmente capazes de nos transportar a destinos surpreendentemente melhores e mais interessantes do que aqueles que insistíamos em aprisionar nas planilhas e nos bloquinhos de notas, como se fossem os únicos possíveis e imagináveis. 



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sábado, 14 de setembro de 2013

PAQUERA DE MOTORISTA [Ana González]

Ela chegou esbaforida e sentou-se do meu lado no primeiro banco logo atrás do motorista. Tive que me encolher porque ela era alta, cheia de corpo e ainda tinha uma criança no colo. Olhei de lado e senti vontade de ajudar, porque ela carregava também uma bolsa e uma garrafinha de água. Mas, a mãezinha tinha habilidade e experiência. Não precisou de mim.

Ela agradeceu o motorista que acabara de se ajeitar do banco e avisou que desceria no ponto da Praça 14 Bis, ao que ele respondeu que ela o esperasse parar o ônibus antes de se levantar do assento. Cuidado com a criança?

Depois que ela se tranquilizou, comentei que ele era um motorista educado e atencioso. Ela abriu um sorriso largo e completou: “Raro mesmo, diferente, dá gosto. Tomara todos fossem assim.” No que ele, ouvindo, respondeu: “ Pois então chegue até o ponto final.” Ela então disse prontamente que iria mesmo se não tivesse que parar, pois o prédio em que morava era logo ali, aquele verde e apontou. E se a filha não estivesse cansada e com fome. Ele disse: “Pena mesmo.”

Pronto. Estava firmada uma paquera explícita. Ele estava com meio sorriso na boca, satisfeito por algo, certamente. E eu fiquei observando aquela cena com uma alegria infinda. Acabava de ser cúmplice de algo muito especial dentro de um dia-a-dia qualquer. Tratava-se de um encontro, com certeza, daqueles que abrem uma janela em nossas vidas, por onde entra um sol lindo demais.

Aquela cena deve ter tido um antecedente. O que teria acontecido nos momentos em que ela subira no ônibus, pouco antes de ele ter tomado o lugar do motorista? Teriam se avistado na calçada em que o ônibus estava estacionado? Teriam trocado olhares? Há momentos em que olhares preenchem um vazio enorme, preenchem dúvidas e respondem nossas questões. São gestos que dialogam com nossas ausências e a partir deles tudo faz sentido. A vida se assenta e nossas mazelas se dissolvem no ar. Nesses momentos tudo se liga magicamente, como se houvesse algo nos entre-tempos e nos entre-espaços. Tudo justo e harmonioso.

Olhei para ela e havia uma boniteza feminina naquele rosto redondo de olhos vivos e amendoados, cabelos castanhos lisos e presos. Sua voz era firme e o tom certeiro, sem hesitação ela topara a situação e fora assertiva na hipótese de que iria com ele para onde ele quisesse. Ela sairia de seu caminho e ficaria a seu lado, porque ele assim o desejara. Ela aceitara a corte. Iria, não fosse a filha no colo, a hora avançada e mais todos os possíveis enredos de sua vida. Pedras no meio de um caminho que poderia ser diferente. Mas era como tinha que ser. Ele também sabia disso. Fez o que devia como homem que sabe o que quer. Homem que pode.

Em casos como esse a vida às vezes diz sim, os anjos dizem amém. Mas, naquele dia, já que um sim era impossível, a vida dizia um talvez. Isso foi feito: dizer o sentimento, dar a passagem e o sinal positivo.

E com um talvez, com a aceitação das limitações e de uma realidade inóspita, mesmo assim, acredito que esse diálogo tenha plantado a esperança na vida dela, assim como deve ter plantado também na vida do motorista. Assim como plantou também no meu coração. E até no coração do casal idoso que no banco ao lado assistia a tudo sorrindo. Talvez concordassem que o motorista era especial, que ela também era. Percebendo tudo, abençoavam a doce cena.

Aquele homem deflagrara um evento. Era um motorista perfeito. Diferentemente de seus trajetos habituais, nos guiara a outro lugar. Uma viagem pouco convencional. Ele tinha levado todos nós para onde deveríamos estar sempre. Naquela viagem de ônibus urbano tínhamos vivido uma experiência rara. Ganháramos uma disposição para topar a vida com alegria, com olhos calmos e o coração pronto para o amor.

http://www.agonzalez.com.br/



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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

QUE ME PERDOEM A FALTA DE PROSA COM A POESIA >> Carla Dias >>


Quando não consigo me inspirar para escrever uma crônica, acabo sempre enfiando o pé na poesia... E as jacas que se danem. Hoje não será diferente, porque acordei mais para a poesia do que para a prosa. Em dias como este, eu me internaria em casa, um bom disco para ficar tocando o dia inteiro, uma boa janela para observar horizonte. E então, depois de horas de contemplação, daria vida a alguns poemas lançados ao mundo feito irmãos coniventes com o assalto dos sentimentos à flor da pele que decidiram me fazer companhia.

Só que a verdade é que estou no trabalho, no meu horário de almoço. A música não é de disco, mas uma coletânea de algumas das minhas preferidas sendo lançadas ao recinto pelo computador. Ella Fitzgerald está cantando Blue Skies neste momento: Blue skies / Smiling at me / Nothing but blue skies / Do I see. E me chamam no Skype para dizer que um determinado documento não foi entregue, como prometido. Prometi para até às 15h... Vai chegar.

Eu não compreendo o motivo de tanta pressa, da necessidade de que as promessas sejam atendidas antes do prazo, quando o simples fato de uma promessa ser atendida ser algo realmente importante.

Agora Nina Simone é quem dialoga com a música: Everytime we say goodbye / I die a little. Eu morro um pouco toda vez que presencio quem descarta a gentileza, quem recalca os direitos, quem quebra as pernas da educação. Só que também sei que esses são assuntos que venho martelando nas minhas crônicas, nos últimos tempos. Fazer o quê se o meu incômodo não se cala, não se enverga? Ele fica zanzando pela minha vida, em busca de um canto no qual possa descansar, até se tornar passado.

Passou.

Passou?

...

Eu sei que data é hoje... Hoje é o dia de aniversário de um amigo que morreu muito cedo, com quem toquei há alguns anos. Sei, sei... Também é dia disso que você está pensando. Lamento, pelo meu amigo e pela tragédia provocada. E lamento tanto, que não posso mais falar sobre isso. Além do mais, tenho de escrever um poema para ocupar o lugar da crônica de hoje.

Robert Plant me distraindo... Do you remember when we met / that’s the day I knew you were my pet / I wanna tell you / how much I love you. E não se enganem… Por mais desafinada que eu seja, dei um tempinho na crônica não acontecida para cantar, alto, essa música. Porque é minha hora de almoço, estou sozinha, tenho trinta e cinco minutos para voltar ao trabalho. E quer saber? Bem que eu gostaria de colocar os pés nesse sea of love sobre qual o Robert canta.

Infelizmente, vou ficar devendo o poema, meus caros. Tenho apenas vinte e nove minutos para publicar esse... Se não é crônica e nem poema, é o quê? Sei lá, mas tenho de publicar algo, então, que seja meu pedido de desculpas por não conseguir escrever nada de interessante para ocupar esse espaço do qual gosto tanto. Mas ás vezes acontece. Nós gostamos tanto, mas tanto, que nos faltam as palavras.

E ainda tenho de almoçar...

E o Dave Matthews... Eu sei, muitos de vocês já não aguentam mais me escutar falando ou ler o que escrevo sobre ele. Mas fazer o quê parte 2?. Eu gosto, e ele começou a cantar uma que eu amo: It’s out of my hands for now / I can’t just walk away / Be nice to walk away.

Vou indo, que daqui a pouco, tudo volta a funcionar como se este pedido de desculpas nunca tivesse acontecido.

Out Of My Hands - Dave Matthews & Tim Reynolds


Imagem © Daniel Baeder






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terça-feira, 10 de setembro de 2013

A TERÇA QUE NÃO É SÓ UMA TERÇA >> Clara Braga

Desde que comecei a escrever pro Crônica do Dia passei por muitas terças que não eram apenas terça, mas também eram dias importantes por diversos outros motivos, mas com certeza essa é minha primeira terça-feira do dia do meu próprio aniversário!

Confesso que escrever no aniversário dos outros é um tanto mais fácil, afinal, sempre temos coisas boa para dizer para aqueles que são especiais para a gente. Mas escrever no próprio aniversário é complicado, eu não vou fazer uma homenagem para mim né, isso seria um tanto esquisito. Então, decidi transformar essa crônica na crônica do agradecimento.

Isso mesmo, hoje vou aproveitar para agradecer a todos que fazem sempre com que os meus dias, seja meu aniversário ou não, sejam especiais. Seja me fazendo sorrir, seja me dando um ombro para chorar, seja apenas estando por perto, muito obrigada!

Hoje, mais um ano da minha vida se inicia, e esse dia é especial por causa de todas essas pessoas que fazem com seja especial! Espero que todos continuem por perto, seja diariamente ou seja esporadicamente, ou seja apenas nas terças, não importa!

A todos, meu muito obrigada!


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domingo, 8 de setembro de 2013

IN MEMORIAM >> Whisner Fraga

Para uma criança, presenciar aquele senhor oferecendo a sua mansão em troca de uma casa de classe média, recém-construída, está claro, mas ainda de classe média-baixa, era coisa séria. Moleque leva tudo a sério demais. Fato é que, quando ele me pediu a opinião, fui taxativo: não. Eu gostava de meu quarto, que dividia com dois irmãos e que devia ter uns três metros quadrados de área útil, descontados os espaços ocupados pelas camas e pelo guarda-roupa.

Mais tarde, na adolescência, me aproximei mais deste senhor: cheguei a trabalhar para seu filho, em uma vídeolocadora. Aos sábados, o estabelecimento funcionava o dia todo, até o final da tarde. Não eram raras as aparições do pai de meu patrão, que me pedia que colocasse um filme para a gente assistir. Como o movimento era fraco depois das quatro, era sempre possível.

Certa vez, estávamos a ver "Trocando as bolas", com Eddie Murphy, um blockbuster bem previsível dos anos oitenta, hoje quase um clássico, quando começaram a desfilar mulheres de seios de fora pela tela, o que nos assustou bastante. Daí que ele quis checar: você colocou um filme de sacanagem? E terminamos por rir do mal-entendido. Acho que ele sabia que a Dona Dagmar, sua esposa, não aprovaria a atitude e, é claro, tampouco alguém de minha família.

Para mim, ir à Agropecuária Vianna do Castelo era uma aventura. O escritório situado no Edifício Ituiutaba, tinha tudo que representava o sonho de um jovem que sonhava com a literatura: a assinatura da revista Visão, duas ou três máquinas de datilografia e papel à vontade. É claro que eu passava apressado pelas colunas políticas da Visão para chegar logo aos textos sobre cinema e cultura. Eu não sei se o Sr. Bete, como o chamávamos, se interessava por artes, mas atesto que ele era um leitor atento, a julgar pelos óculos que nunca abandonavam os olhos fixos no jornal do dia.

Minha família deve muito a ele e se eu deixo para contar a razão no final desta crônica, é porque sempre foi muito difícil falar sobre o assunto. Minha mãe precisava urgentemente de uma cirurgia no cérebro e, é claro, não tínhamos dinheiro o suficiente para bancar a intervenção. Veio o Sr. Bete em nosso auxílio: bancou hospital, viagem e tudo o que não tínhamos direito. E pagou, até onde sei, os melhores médicos do país, pois o trabalho foi tão bom, que minha mãe não ficou com nenhuma sequela.

Devemos muito ao Gilberto Cancella, mas, de minha parte, nunca poderei pagar, pois soube que ele faleceu no final do mês passado. Fiquei triste, como se fosse um amigo que partia. Durante muito tempo acalentei o desejo de voltar ao oitavo andar do Edifício Ituiutaba, para revisitar um pedaço da história deste senhor, mas acho que ela é muito mais bonita e interessante onde está: em minha memória.

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sábado, 7 de setembro de 2013

A TERCEIRA RAZÃO [Maria Rita Lemos]

Acordei, hoje, com muita vontade de escrever sobre o desapego.

As razões para isso são três: a primeira veio de uma notícia no jornal que li recentemente, dando conta do êxodo de lavradores chineses que, devido a grande seca na região, tiveram que deixar suas terras às pressas para procurar, na cidade, melhores condições de vida. Sem saída, tiveram que desapegar-se do que era seu.

Segunda razão: encontrei-me casualmente, no último final de semana, com uma amiga querida. Feliz, ela me contou que seu filho, que mora em outro estado, havia vindo visitá-la, por poucos dias, e ela estava fazendo compras no mercado para as comidinhas favoritas dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, enquanto ela me contava que sempre que ele vem é assim: como um cometa luminoso, chega e parte, deixando saudade. Ela é muito apegada a ele, e sofre com sua ausência, ainda sabendo que ele está feliz, fazendo o que quer e onde quer.

Lembrei-me, ouvindo a amiga, de uma lenda. Conta a história de um mestre e seu discípulo, que estavam a caminho de uma aldeia vizinha, quando viram, na margem de um rio, uma bela moça tentando atravessar. O mestre ofereceu ajuda e levou-a, no colo, até a outra margem. Logo após, cada qual seguiu seu caminho. O discípulo ficou preocupado, porque aprendera que um monge não deveria jamais tocar numa mulher. Assim, voltando ao templo, ele perguntou ao mestre por que fizera aquilo com aquela moça, ao que ele respondeu: "Eu apenas deixei a moça do outro lado do rio, você é que ainda a está carregando..."

O desapego, das coisas e pessoas, tem que começar bem miudinho, quando nos desfazemos de coisas pessoais no nosso guarda roupa, por exemplo. Não apenas naquilo que não nos serve mais, mas no que queremos dar só para treinar esse traço importante de caráter. Quando mais sábios, podemos treinar com os sentimentos, que também estacionam no verbo "ter": pensamos que "temos" as pessoas. Meu amor, minha esposa, meu marido, meus filhos, meus pais, meu, meu, meu... aí chega a vida e tira algum ou vários deles, brincando conosco, nos ensinando, ou ambos. Perdemos o chão, ficamos sem referencial. Talvez aí seja a hora dolorosa de treinar o desapego, se não fizemos isso antes.

Vivemos num tempo em que vale mais quem mais tem, e a mídia o tempo todo apela para que compremos bens materiais, como se isso fosse o segredo da felicidade. Talvez esteja exatamente aí a nossa grande fonte de angústia.

No momento em que superarmos a vontade de ter, no mágico instante em que visualizarmos um carro magnífico pensando que não o temos, mas somos felizes ainda assim, já teremos avançado muito em direção à verdadeira qualidade de vida. Mais difícil, porém, que desapegar-se de coisas exteriores, é o desapego em relação às pessoas. Ninguém pode ser trancado, guardado, escondido num armário, à nossa disposição, sejam eles filhos, parentes, amados ou amigos.

É difícil lidar com esse conceito, mas é absolutamente correto: as pessoas ao nosso redor, por mais que as amemos, nos foram emprestadas, e podem partir a qualquer momento, para onde querem ou para o lugar de onde vieram. Todas as coisas e pessoas, nessa vida, vão e vêm. Roupas e sapatos se desgastam, carros novos rapidamente ficam obsoletos. Pessoas, ainda que queridas, separam-se de nós, viajam, morrem. Por algum tempo ou para sempre, é a dinâmica da vida, que não se detém nem nos dá tempo para recuperarmo-nos.

Desapego não é desamor, mas entregar-se por inteiro ao momento, sabendo que tudo e todos passam. Sofre muito mais quem se apega, seja ao dinheiro, ao status, à profissão ou aos que ama. Importante é "deixar ir", tanto as coisas como as pessoas. Se a chuva cai, vamos desfrutar do cheiro da terra molhada, bem como do brilho do sol, porque ambos são temporários. Rubem Alves diz que "amar é ter um pássaro pousado no dedo: nós o amamos enquanto o deixamos partir e voltar, à sua vontade".

Desapegar-se é entender que solidão não é estar sozinho, é ter coragem de partir ou deixar partir sem olhar para trás, sem se lastimar, sem sentir que perdeu. Lá em cima eu disse que havia três razões para essa reflexão de hoje - comentei a respeito de duas delas. A terceira razão para que eu escreva sobre desapego quero guardar bem dentro do meu coração. Tomara que esse texto, inspirado num simples encontro, também me ajude em minha terceira razão.

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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SOBRE FILAS, BEATAS E RESPEITO >> Mariana Scherma

Às vezes é inevitável encarar uma fila e tudo bem, faz parte. Quando é preciso, eu já me programo e saio mais cedo de casa pra não fazer a dança dos pezinhos irritados. Porque uma coisa é certa: pior do que a fila em si é a galera ao redor bufando e batendo o pé, como se estivesse descalça num asfalto a 100oC. O problema é que nem sempre a vida da gente se encaixa nessa ordem quase utópica de ter tempo pra tudo e aí...

Eu só precisava trocar dinheiro pra pagar uma pessoa no trabalho e decidi dar uma passada rápida no supermercado, que ficava no caminho. Tinha 20 minutos cronometrados. Peguei duas humildes bananas e entrei na fila. O problema é que o supermercado não colaborou comigo. Tinha apenas um (ãham, um!) caixa funcionando e todo mundo estava na fila: eu, você, o fulano, o cicrano e, se bobear, até o padre dos balões apareceu na fila. Eu era a última até que apareceram também duas senhoras mais velhinhas (mas não era caixa preferencial, então não cedi meu lugar).

O problema é que faltava muuuita gente passar no caixa até chegar a minha vez e comecei a olhar o relógio, que, obviamente, começou a trabalhar contra os meus 20 minutos cronometrados. Aí, meus pés começaram a fazer a dança do asfalto quente, enquanto o cara da minha frente embalava meu ritmo com suas bufadas bem bravas. Todos nós na fila nos olhávamos com aquela cara de cúmplices indignados, vítimas de um supermercado que não estava com boa vontade em relação a seus consumidores, menos as senhoras que estavam juntas atrás de mim, que conversavam euforicamente sobre o Papa Francisco. Quis muito ser aposentada nessa hora e achei até que sairia aposentada do supermercado, porque ôh fila grande, minha gente!

Mas aí veio a esperança: uma funcionária fez menção de abrir o caixa ao lado. Eu estava preparada pra mudar de caixa no maior estilo Usain Bolt (e pouco me importava se ia ou não queimar a largada, nessa hora já faltava menos de dez minutos pra entrar no trabalho). Só que a funcionária voltou atrás e tive que ouvir da senhora fã do Papa Francisco: “mocinha, se você fizer isso na próxima vez, vai perder seu lugar”. Tentei explicar que precisava entrar no trabalho em pouco tempo, mas a bondade da senhora não chegava aos pés do nosso novo Papa.

Nisso, a amiga dessa senhora já foi pro outro caixa (naquele esquema, “quando chegar a minha vez você vem pra cá”), que estava pra abrir. Eu fiz menção de mudar de caixa e levei outra bronca da que ficou atrás de mim, que pode até estar na melhor idade, mas enfrenta o pior humor do mundo. Aí juntei o meu tempo que já estava esgotando, as bufadas nervosas que contaminam todo mundo e meus pés cansados da dança do asfalto quente e respondi: “mas a amiga da senhora está guardando lugar no outro caixa. É a mesma coisa que estou fazendo, só que vocês estão em duas”. “Azar o seu”, a senhora fã do Papa me disse. É mole? Mas eu não fiquei quieta, ah, não: “E sorte a sua, que vai herdar meu lugar na fila”, respondi à mulher e ainda fiz uma ceninha ao colocar minhas bananas na cesta dela.

Eu sei, a gente precisa respeitar os mais velhos. E eu respeito. Sou muito amiga da minha vizinha de 80 anos, me divirto com minha avó de 86, tenho vários amigos na academia que já passaram dos 70... Mas respeito, que eu saiba, é uma rua de mão dupla. Não precisa passar dos 60 pra ser respeitado, foi o que minha mãe me ensinou. É por isso que eu tenho um pé atrás com essas senhoras muito beatas, que praticamente usam camisetas “I Love Papa Francisco” e detestam qualquer um que esteja na frente delas numa fila. Sem generalizar, é claro.

P.S.: eu ainda consegui trocar o dinheiro numa farmácia, mas fiquei pensando nas bananas nanicas, que estavam tão apetitosas... 


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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

COLECIONANDO >> Carla Dias >>


No universo dos colecionadores se encontra de um tudo. Mas há colecionadores que não estocam produtos na sala de estar, não preenchem espaços físicos. Que passam pela vida como se colecionar não fosse parte de suas vidas. Esses são os colecionadores mais intrigantes.

Quem nunca conheceu um colecionador de status, ainda o conhecerá. Aquele sujeito que adora títulos, que por eles faz e acontece, sem se importar com as consequências, contanto que alcance o seu posto no pódio.

Colecionar títulos é bem diferente de conquistá-los. Na conquista, há um prazer muito mais atencioso com aqueles que caminham ao nosso lado, já que, para alcançar qualquer objetivo, precisamos que outras pessoas também cumpram os seus papéis. Além do mais, a conquista lida com as emoções, enquanto um colecionador se dedica a controlá-las como um meio para se atingir um fim.

Já me deparei com muitos colecionadores de lamentações, aquelas pessoas que não sabem fazer outra coisa que não seja se lamentar. Quando acontece algo trágico com alguém próximo, o colecionador de lamentações toma para si a questão. Como se a vida do outro ter sido virada ao avesso afetasse a dele, já que terá de lidar com amenas transformações, que na versão do colecionador de lamentações são verdadeiros tsunamis.

Mas já viu colecionador de delírios? Não... Nem todos moram em instituições especializadas em doenças mentais. O colecionador de delírios, quase sempre, é um camaleão. Você não percebe de cara que ele só sabe viver em função de dialogar com o improvável. Em um primeiro momento, você se permite envolver profundamente pela capacidade dele de seduzir os seus sentidos. Há um apaixonamento instantâneo, seguido pela compreensão de que não há como viver o tempo todo debruçado na imaginação. Que é preciso por os pés no chão, para que a cabeça nas nuvens traga algo de positivo para as nossas vidas.

Colecionadores de silêncio são taciturnos. Alguns evocam a falta de gentileza, como o moço que faz a leitura da Eletropaulo aqui do trabalho. Toda vez que ele toca a campainha, eu o recebo com um “bom dia”. E toda vez ele não responde. Mas isso não me desanima, porque meu desejo de que ele tenha um bom dia é sincero. Fico pensando que deve ser muito chato ser incapaz de corresponder ao desejo de um bom dia.

Há também os colecionadores de silêncio, eles que vivem para dizer muito sem emitir palavras. Eles adoram ser decifrados, e em 99,99% das vezes, o decifrador está errado. É por este 0,01% que os colecionadores de silêncio esperam. E já que a esperança é a última que morre...

Colecionadores de corações partidos são dos mais atrozes. Claro que um colecionador pode sofrer muito com o seu transtorno. Porém, ele também é um manipulador de primeira, com a capacidade de manter pessoas por perto, ao seu dispor, mesmo quando não as ama e delas nada quer. A ideia de habitar as emoções alheias, de ser tão importante para as outras pessoas - a ponto de elas não conseguirem levar a vida sem a possibilidade de ver e escutar o que seu colecionador de corações partidos tem a dizer -, chegando a escravizar seus espíritos, alimenta o próprio coração partido desse colecionador.

Na minha infância, colecionar tampinhas de garrafas de refrigerante era o mais próximo que poderia chegar de ser uma colecionadora. Porque, obviamente, também eu faço parte desse balaio. E sou das colecionadoras do que não se vê e tampouco se estoca. Eu coleciono pensamentos... E você pode imaginar o quanto isso pode ser inquietante?

E profético...

Pode ser patético...

Vez em quando: poético.


Imagem: sxc.hu

carladias.com



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