ESTEVÃO >> JANDER MINESSO

 

No Ano Novo, o Estevão fez a clássica promessa de parar de beber. E não foi da boca para fora: entre as festas de fim de ano e o Carnaval, ele tinha tomado uma única taça de vinho e olhe lá. Não queria levar o comprometimento a ferro e fogo, mas considerava uma dose em dois meses prova suficiente de seu empenho.

Também tinha deixado para lá os bonequinhos de super-heróis. Sentia que não pegava bem chegar com a peguete no apartamento e ter que explicar quem era o Asa Noturna. Estevão até acreditava que o amor verdadeiro dependia da aceitação integral do outro, incluindo os passatempos e o Asa Noturna, mas naquela coleção tinha muito dinheiro parado. Vendeu dois terços dela assim que voltou do Réveillon e nunca mais comprou um hominho sequer — nem aquele Monstro do Pântano vintage que apareceu no grupo de promoções do WhatsApp. Inclusive, saiu do grupo para não cair em tentação.

Depois de duas resoluções sólidas colocadas em prática, ele queria mais. Queria ver a vida como ela é, sem as distrações e as válvulas de escape. Jogou fora o prensadinho que sobrara da viagem para o sítio de Ibiúna. Cancelou a Netflix, a HBO e só ficou com o Amazon Prime porque tinha frete grátis e nem sempre conseguia passar no mercado para comprar tudo que precisava. Mas prometeu não assistir a nenhuma partida de futebol, mesmo que o seu Barça do coração chegasse na final da Champions League. Cortou o açúcar, as frituras e a gordura em excesso, comendo no máximo um punhado de castanhas no lanche da tarde ou um fio de azeite extra virgem na salada da noite. Fazia academia cinco dias por semana, alternando treinos aeróbicos e de hipertrofia. Dormia cedo. Ao acordar, mentalizava um dia de realizações, mas sem delírios. Reciclava o lixo. Meditava. Nada daquilo era um sacrifício para um homem determinado a privar-se das distrações e viver a realidade.

Ontem, telefonei para saber como estava meu amigo depois de tantas mudanças. A conversa começou bem, mas quando perguntei da peguete, a linha ficou muda. Depois de uma eternidade silenciosa, Estevão me disse que não deveria ter vendido o Asa Noturna e desandou a chorar. Eu, que comia um hambúrguer e bebia cerveja durante a conversa, chorei junto.

Para ajudar o autor a viver de arte, compre o livro Conversas.

Comentários

Ana Raja disse…
Pobre Estevão! Muito bom, Jander.
Anônimo disse…
Todo mundo já viveu um momento de ao menos pensar em vender seu Asa Noturna
André Ferrer disse…
Quando percebi que envolvia colecionáveis, soube que não julgaria o Estevão. Lindo retrato geracional, Jander.
Ionio Paschoalin disse…
Jander que legal sua crônica! Estevão buscou um desapego desesperado, foi muito rápido. Em todos aqueles objetos, aparentemente fúteis, havia uma parte dele. Primeiro sentiu falta da coleção do Asa. Depois iria sentir a falta do resto. A história não acaba junto com o texto. Demais cara!
Albir disse…
Kkkkkkkk, não é diretamente proporcional. Exagerar na dose do remédio não implica ganhar mais saúde!
Nadia Coldebella disse…
Adorei, Jander!! Estevão é o legítimo monge moderno, tenta eliminar todas as pequenas ilusões da vida para tornar a existência (in)suportável — seria ele um monge masoquista? No fim descobre que a realidade sem Asa Noturna é pesada demais para um homem só (na minha opinião, realidade sem Super Homem, Mulher Maravilha, Batmam e todos os anexos). Então é isso. Certas ilusões não são luxo, são equipamento de sobrevivência.
Zoraya Cesar disse…
Qd vi q Estêvão resistiu ao Monstro do Pântano vintage , vi que ele estava se perdendo. A gente pode nadar sem perder nosso porto de vista, e sempre há de ter um cais. Coitado do Estêvão. Nao percebeu que estava se desfazendo de parte de sua alma. Jander, se ele fosse amigo meu, eu tb teria chorado junto.

Postagens mais visitadas