a gata e eu >> whisner fraga

 


clarice de um pulo está na mesa, escala mais um pouco e alcança o topo da impressora, de onde vigia os pássaros descansando na pitangueira, do outro lado da janela, 

de vez em quando um rabo de olho me procura, mas eu sei que ela está só me testando,

tudo é encenação, vigília,

ela quer se deitar na minha cadeira, mas não posso deixar, não agora,

preciso terminar algumas tarefas, 

sequer arriscarei ir à cozinha, se me der sede ou fome,

clarice sabe que se tomar o meu posto não terei coragem de tirá-la de lá, 

ficará o quanto quiser, o que significa pelo menos duas horas de um cochilo no meio da tarde e meio da tarde é hora de trabalhar, 

para o serviço não acumular, permaneço no banco,

clarice insiste, me encara com firmeza, desce, chega mais perto, me desafia,

disfarço, como se não fosse comigo,

ela se senta entre mim e a tela e eu só enxergo uma gata me mostrando quem é que manda,

não tem jeito, é hora de dar um tempo,

eu me levanto, clarice não deixa o assento esfriar, se ajeita na poltrona, impassível,

agora preciso ver o que faço com estas horas que ganhei.


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