DOIS SÓCRATES >> Ionio Paschoalin

 


O sábio que percorreu os caminhos na era dos tempos idos deixou marcas no chão pisado.
Sulcos e relevos: cuidado para não tropeçar!

Encontrou sua sorte na pergunta que nunca formulou; na morte, a resposta da questão: existir, sim ou não?

Sua vida, ânsia e indagação; na ceifa, o que tinha sido e o que ainda seria — explicação com sua justa negação: existir, sim ou não?

Analisou enquanto trilhava, refutou os conceitos, os consensos e os conselhos; afirmou que nada sabia, inventou a humildade que apunhala a prepotência.

Habitam no homem as ideias que semeiam o fato e sua contradição: existo, logo penso.

Partiu; ficou sua filosofia, cicatrizes dos dias e palavras que jamais redigiu.

Roubaram-nos-lo os poderosos da época: furto e latrocínio da razão, crime contra a humanidade. O que ele poderia fazer além de abraçar seu destino? Como se o conhecesse há muito, beijou sua face e agarrou suas mãos antes de seguirem juntos, rindo.

Desprezou a possibilidade de fugir, os mil protestos, as súplicas, as inúmeras propostas de seu pupilo Platão, que o amou mais que os demais.

Despediu-se ciente de que seus algozes erravam; enfim, essa foi a decisão dos senadores.

Eram homens velhos, de uma velhice que não lhes trouxe sabedoria ou ponderação; foi aquela senilidade que vem junto com as dores, o rancor e a inveja da juventude, a que invariavelmente agrega imprecisão aos movimentos do corpo e aos pensamentos.

Mesmo vivos, já estavam mortos: zumbis com escudos, escolta forjada de covardia, e ordenaram a abreviação da história do sensato. Mas essa foi contada mesmo sem permissão. Deles não devemos lembrar os nomes; que tais almas vaguem nas mesmas sombras que abrigaram suas consciências.

O mestre acatou sem hesitar. Na justiça ou na ausência desta, cumpriu o decreto dos decrépitos, dos vampiros, e bebeu o veneno que o matou… seu medo era coragem.

Foi. Se desafiasse o Judiciário, poderia arranhar uma democracia ainda menina e, assim, preceder o esgarçamento da sociedade regida por leis hipócritas, mais úteis nos jogos e nas guerras do que naquilo que se pretendia organizar: a harmonia da comunidade, que deveria funcionar como um organismo, pois um povo é como um corpo vivo que respira. Ele sabia, sim — muito!

E existiu o outro Sócrates e esse escreveu sua trajetória com seus pés, seus punhos.

A bola, que usou como lápis, dançava; fazia elipses, triângulos, losangos, trapézios, retângulos e todas as figuras geométricas que se pode imaginar. A arena era mais um ateliê que um campo gramado. Muitas vezes nos mostrou o impossível, deixando adversários procurando a pelota, o movimento de seus calcanhares, o propósito, o drible, o nada.

Completamente perdidos e quase paralisados, não achavam referência para que tomassem um rumo e, sem poder pará-lo, assistiam. De repente, o tento — esfera que viaja no espaço — colisão, explosão, Big Bang: goooooooooool!!!! É dele! É dele! É dele! É do doutor!!!!

O tempo de um jogo é como o de uma vida inteira: decorria, decorre e há de decorrer dentro de demarcadas linhas — os limites, os mesmos que fazem as águas das nascentes formarem rios.

E, fora de sua galeria de artista, durante o período de uma ditadura militar, desenhou um embrião de liberdade e o plantou em terra molhada; mobilizou a todos e nos convocou para lutar sua luta. Fomos porque o amávamos mais que os demais; brigamos, enfrentamos os idiotas, os acomodados, os conformados, os ditadores assassinos e os assassinos que eram ditadores de uma regra que não cumpriam. Mas matavam! Basta a um corpo ser só corpo?

Um dia esse também foi embora; dizem que uma rajada de vento, luzes, cores, amores e agonias o levou ao encontro do primeiro Sócrates e, então… eles nunca mais sentiram dor.

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