NÃO GOSTOU? >> ALLYNE FIORENTINO


Manchar a verdade com a baba dos sofismas. Foi assim que Antero de Quental, um dia, se referiu aos escritores que se prendiam ao passado para escrever. Disse isso brigando com outro escritor, e, para dizer, escreveu uma longuíssima e chatíssima carta, cheia de rodopios esfuziantes de adjetivos e frases idealistas. Parágrafos e mais parágrafos para sofismar aquilo que ele realmente queria dizer: “Não gostou? Vá à merda”. 

Sim, é irônico. Mas não na época! E nem ele sequer o fez de propósito, a ironia veio com o tempo e o afastamento. Era um paradoxo que só poderia ser identificado no futuro. E o futuro, meu caro, é um emaranhado de loucuras e paradoxos, infelizmente ainda não temos notícias de equilíbrio. Vivemos em polos, sem acordos tácitos já conhecidos. Sem bom-senso e bom gosto - diria Antonio Feliciano de Castilho minutos antes de Antero de Quental surtar.  

Foi o que aconteceu também antes de um vendedor de balas surtar comigo. Segundos antes, veio ele andrajoso se aproximando de mim, com o caminhar gingado, oferecendo balas aos que estavam ao meu lado. Só esperei que ele se prostrasse à minha frente e logo soltei sem hesitação nem perda de tempo: “Não, obrigada”. Mas ele, sério, diz: “Obrigada pelo quê?” Sem reação pela quebra do protocolo, apenas fiquei olhando pra ele, esperando que ele desse por si e mantivesse o acordo tácito de “se afastar lentamente, pelo amor de deus, que é final de um dia cansativo”.

Contrariando todas as leis da física do bom-senso, ele não voltou atrás e nem manteve o acordo, seguiu me olhando e falando que aquela fala era dele e que eu a estava roubando, afinal ele é quem deveria agradecer. Que conversa de maluco! - pensei. Preferiria que ele tivesse dito “Não gostou? Vá á merda”, como qualquer outro mendigo de tempos idos. Segundo ele, quem deveria dizer obrigado era ele porque estava me interrompendo. Mas sendo, assim, será que ele gostaria que eu tivesse dito apenas “não”? E será que eu deveria tê-lo interpelado para descobrir esse mistério?

Para não contrariar, eu disse: “Claro, é você quem deve agradecer”. E ele responde, com a altivez: “Exatamente, obrigado” - disse ele. “De nada” - finalizei.  E lá se foi ele munido de um “obrigado” engatilhado na ponta da língua, sem motivo algum. E eu fiquei com meu “de nada” também, sem motivo algum. Esse é um problema sério hoje: o excesso mascara a causa e a superficialidade a mata. Há que se ter bom-senso. O bom gosto fica pra depois.

Fico pensando se os melindres dos escritores de outrora, rebuscados, efusivos, apaixonados encontrariam um campo fértil se descobrissem que no futuro existiria um negócio chamado “lugar de fala”. E que esse tal lugar era usado na arte também, justamente o lugar onde você poderia ser quem quisesse. Que grande quiproquó seria dizer a eles que tudo deve ser empírico. Menos quando a realidade não lhes convém, aí sacrificam a verdade em prol dos sofismas e o empírico vai pro saco com a mesma rapidez, ousadia e falta de senso com que o mendigo me interpelou.  

Imagine a cena: “Não pode fazer texto fictício sobre coisas que não conhece na realidade, meu jovem!” “Mas eu estou escrevendo uma distopia!”. “Não interessa, você é cidadão distópico? Não. “É extraterrestre?” “Não”. “É viajante do tempo e veio do futuro?” “Não”. Então não pode. E também não pode usar essa palavra esquisita, quiproquó, as pessoas não sabem do que se trata e nós usamos apenas linguagem pasteurizada”. “Não fui eu quem usou, foi o narrador desta crônica! Você não sabe a diferença entre a voz do narrador e a voz de um personagem?” “Sei, sim, mas você está errado. Não leu quem escreveu esta crônica? Ela é mulher, então é narradora”. “Pelo amor de deus, esta é a autora! Não me diga que também não sabe a diferença entre autor e narrador...”. “Você é cheio de justificativas, não é mesmo? Por muito menos já processaram as pessoas por uso indevido da palavra”.  “Que tipo de processo?” “Por chamar homem de homrm e mulher de mulher, por exemplo”. “É sério isso?” “Tão sério quanto um ataque cardíaco”. “Que conversa de maluco! Parece que estão tratando a realidade como fantasia, mas também não a chamam de ficção, sendo que para a ficção é preciso de um lastro de realidade chamado “lugar de fala”? “Por que está surpreso? Esse narrador que você tanto fala que está aqui, implícito nesta crônica, já não disse isso?” “Disse o quê?”. “A realidade vai se tornar um crime!” “Eita, disse mesmo, lá naquela crônica Salafrário. Como você é intertextual!”. “Sou o quê? Repete se você tiver coragem”. “Ah quer saber? Não vou gastar meu latim com você. Que cara chato. Essa crônica também já está bem sofismática, pende para os iniciados já. Não gostou? Vá à merda”. E que deus ajude os do futuro a identificar nossos paradoxos.  

__________________

Imagem: Freepik

Comentários

Postagens mais visitadas