CONVERSE COMO SE CRIASSE UM ARRANJO PARA UMA BOA MÚSICA >> Carla Dias

Semana passada foi muito interessante musicalmente. Assisti a um show espetacular na sexta-feira à noite, acompanhei um ensaio para outro show no sábado de manhã e, no domingo à noite, fui ao resultado daquele ensaio.

Do primeiro, eu conhecia bem os bastidores. Na verdade, acompanho de perto a carreira da artista há décadas. Talvez por isso tenha sido tão grande meu espanto ao assistir àquela apresentação. Não faz muito tempo, estive no mesmo lugar vendo o trio da mesma artista, acompanhada pelos mesmos músicos. E uma das coisas que mais me encantam na vida é quando a mesma pessoa, ao lado de parceiros de sempre, consegue fazer ainda melhor aquilo que já costuma fazer — e os espectadores nem imaginavam que poderia ser melhor.

O repertório, além das músicas autorais, também trazia releituras de grandes compositores da música instrumental. Ah! Tem isso... era fim de semana de música instrumental. A voz da música sem emitir palavra.

O trio comandado pela baterista e compositora Vera Figueiredo conta com músicos fantásticos. Outra coisa muito boa: dizer que alguém é fantástico e isso ser verdade. Marcos Romera (piano/teclados) e Carlos Ribeiro Jr. (contrabaixo e baixo elétrico) são, com todo o afetuoso respeito, músicos ridiculamente bons — para a sorte do público que reagia com vivaz encantamento às dinâmicas da música oferecida pelo trio.

Na manhã seguinte, passei algumas horas acompanhando um ensaio. Os músicos da noite anterior estavam lá: Marcos e Carlos. Além deles, Vitor Alcântara (sax/flauta), que abracei depois de muitos anos sem nos encontrarmos. Eles se preparavam para a apresentação de Will Calhoun, baterista da Living Colour, no Blue Note São Paulo. Will é um dos músicos mais bacanas que tive o prazer de conhecer nesse meu passeio pelo universo musical. Ele mantém um trabalho instrumental fantástico, paralelo à sua participação na banda (que eu adoro!).

Já participei — como observadora atenta — de muitas sessões de gravação e de ensaios. Os processos sempre me encantam, especialmente na música e na literatura. Ainda assim, foi a primeira vez que presenciei um ensaio que, para mim, se tornou um dos diálogos mais interessantes e bonitos sobre ser diferente. Em vez de colocar as diferenças a serviço da comprovação de que uma perspectiva seria melhor que outra, os envolvidos escolheram usá-las para chegar a um lugar onde todos se sentiam bem em estar.

O tempo todo, a linguagem musical de cada um preenchia o tempo da música — cadência e duração — em encontro com a do outro. Eles apenas faziam o que fazem em seus projetos profissionais e pessoais. Conheciam os caminhos. Para mim, espectadora da construção daquele repertório, atenta a cada pequena mudança que tornava a música ainda mais tocante e poderosa, capaz de nutrir reflexões e momentos de êxtase, o pensamento era inevitável: se conversássemos como quem faz um arranjo musical, talvez fosse mais fácil chegar a conclusões que beneficiassem a todos. Pensar a conversa como caminho permitiria que as diferenças se encontrassem em um arranjo capaz de criar a música do entendimento.

E, para minha alegria, a conversa desses músicos no palco foi uma das coisas mais bacanas que presenciei. Cada um com sua voz musical, construindo, diante do público, um verdadeiro deslumbramento. São memórias que merecem permanecer.

Obrigada Vera, Will, Marcos, Vitor e Carlos pelo fim de semana de fazer a alma feliz com música... a música de vocês.

Espero um dia ser capaz de fazer meus personagens dialogarem com a mesma fluência com que esses músicos — muito queridos e admirados por mim — conversam por meio da música.


Comentários

Anônimo disse…
Tem gente que faz a coisa parecer fácil, né?
Nadia Coldebella disse…
Carla, não entendo nada de fazer música, mas adoro ouvir boa música. Talvez por isso tenha gostado tanto da sua imagem de conversar como quem cria um arranjo. Mesmo sem saber explicar, a gente reconhece quando as vozes se encontram em harmonia.
Carla Dias disse…
Tem... E é lindo de ver e escutar. <3
Carla Dias disse…
É isso, Nádia... a dinâmica da palavra sendo som e voz. Beijos!

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