O COVEIRO. A MORTE. A VIDA. E O VAQUEIRO >> Zoraya Cesar
Uma emboscada de três contra um. Primeiro, um tiro no
cavalo. O cavaleiro caído. Uma paulada em suas pernas. Um chute nas costelas.
Uma coronhada nos dentes. Uma facada no estômago. O ruído nauseante de ossos
quebrados e órgãos esmagados, dos gritos desesperados, das risadas sarcásticas,
tudo se misturou aos sons da noite e aos uivos ululantes dos coiotes inquietos.
Uma longa noite até a morte, ela mesma incomodada com a selvageria, terminar com tudo. Um quieto rato do deserto saiu de sua toca, farejando, com seu focinho nervoso, o cheiro acre de sangue. Uma tarântula, até então imóvel, começou, lentamente, a mexer suas patas. De longe, um lagarto a tudo assistia, sem julgar.
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O coveiro recebeu o defunto mutilado com indiferença ancestral.
Desde cedo acostumara-se a ver todo tipo de corpo após a morte, criado que fora
na funerária do pai - que herdara do avô, que herdara do bisavô, que iniciara o
negócio por conta própria, porque sempre quisera viver da terra.
Ocasionalmente surgia algum sentimento pelo desafortunado,
um espanto frente à brutalidade humana. Mas logo afastava-os, impossível viver
compadecido pelo inevitável, ou a profissão tornar-se-ia impraticável; o viver,
insuportável.
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Durante o cavar do buraco ou a organização do funeral, muitas
vezes cantarolava baixinho, mas, geralmente, conversava – consigo mesmo, com o
morto, com o nada. E, mais amiúde, com o corvo que, invariavelmente, pousava em
uma lápide ou árvore próximas, a observar a faina do coveiro, desde a escavação
até a colocação do corpo na cova rasa. Não adianta se enganar, dizia sempre o
coveiro: rico ou pobre, caixão luxuoso de mogno ou saco preto, no final, todos
vão para o túmulo, cobertos pela mesma terra.
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Naquela noite, no entanto, o coveiro estava silencioso. Seus
pensamentos voltados para aquele corpo horrendamente desfigurado, perguntando-se
a quem teria pertencido. Passara horas lavando-o, costurando aqui, remendando
ali, limpando acolá, numa tentativa quase infrutífera de fazê-lo mais ou menos
apresentável antes de ser enterrado. Porque seu bisavô ensinara ao seu avô, que
ensinara a seu pai, que lhe ensinara: os mortos não mais são, mas foram seres
humanos, e merecedores de respeito. Nunca os enterrar de qualquer jeito.
Os únicos ruídos audíveis na noite eram o suave farfalhar de folhas à leve brisa, o eventual crocitar discreto do corvo, o arfar do coveiro pelo esforço e o lúgubre som da pá se arrastando no cascalho e despejando a terra ao lado da cova. Tudo estaria em paz, não estivessem todos mortos.
Íntimo da morte, o coveiro já vira muitas coisas que teriam posto
a correr o mais valente dos homens, levado à loucura o mais rígido cientista,
implodido a cabeça do mais cético filósofo, virado a cabeça do mais religioso
dos religiosos. Não ele.
Por isso não estranhou quando o corpo tremeu. Os olhos – o que
restava deles, intumescimento que estava um, vazio em sua órbita o outro – abriram.
Um gemido profundo saiu da garganta esmagada do defunto e ele levantou uma das
mãos de dedos quebrados.
O coveiro parou seu afazer e esperou. O corvo se aproximou batendo
fortemente as asas, num ruflar violento que silenciou o vento, derrubou galhos das
árvores e afastou a nuvem que cobria a lua.
O cadáver abriu a boca macerada e falou lentamente.
- Obrigado por me costurar.
A voz saiu ranheta e aguda pela garganta do corvo. Pela
primeira vez, o coveiro se espantou. Que mortos se comunicavam, ele sabia. Que corvos
falavam, também. Agora, ver um morto utilizar um corvo (e, mais impensável
ainda, o corvo permitir) para se comunicar, bem, aquilo era novidade.
Morto e corvo quedaram-se imóveis e silentes, assim como
tudo em volta.
O coveiro podia sentir uma tensão elétrica cortando o ar. Teve
a certeza, em seus ossos, que o homem e a ave estavam se comunicando, habituando-se
um com o outro, mesclando-se.
Aguardou. Se há uma coisa que lidar com a morte ensina é a
ter paciência.
- Deixe que meu corpo seja aquele que escapou da última pá
de terra.
Como?! Nunca, na vida de seu bisavô, seu avô, seu pai ou na
dele houvera caso de não enterrar um defunto. Seria uma afronta às leis dos
homens e, que se danassem a lei dos vivos, era uma afronta à sua profissão, à
sua ascendência. O que seu bisavô, seu avô e seu pai iriam pensar?
- Por favor. Retornarei para você terminar seu serviço. Não
vou faltar ao meu enterro.
- Mas o que você quer? O que vai fazer? Quando você volta?
- Minha alma ainda está errante. Tenho uma missão a cumprir
para ter paz. Volto assim que terminar. Tem a minha palavra.
Vocês poderiam se perguntar o que vale a palavra de um
morto? No mundo dos vivos, nada, talvez. Mas no limbo em que estavam o sujeito
misterioso, o coveiro e o corvo, valia muito. No fim, no entanto, escolhe-se
acreditar ou não. Porque os mortos também mentem. Enganam. Roubam. Matam.
Mas o coveiro sabia distinguir quem era quem, conhecia o
intuito dos mortos. E tomou uma decisão audaz, audacíssima, aliás, levando em
consideração tudo o que foi ensinado por seu bisavô ao avô, ao pai e,
finalmente, a ele.
- Está bem – disse. Assim, seco, sem discursos, sem palavras
desnecessárias. Está bem.
O corvo crocitou alto, com a própria voz, não a do morto, em
um tom que não deixava dúvidas; comemorava.
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Continua dia 10 de abril a 2ª e última parte. E façam o
favor de deixarem de gracinhas e comentar agora e não depois da 2ª parte
publicada. Ou...
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Esse conto foi longinquamente inspirado na canção Grave Digger, da Blues Sarraceno, banda de Dark Country, estilo que eu gosto demais. Seguem a letra, o vídeo e o link
https://youtu.be/so2s-NZVXZA?si=EGWbe_vrscyAXTrQ
grave digger, grave diggersend me on my way release me to THIS EARTH within' this shallow grave grave digger, grave digger bring me to my knees forget what i have done forgive me if you please save me if you can the time for me has come let me be the one that got a way grave digger, grave digger slowly fill my grave whisper to your god allow me to be saved grave digger, grave digger pray for my lost soul release me from this earth allow me to grow old save me if you can the time for me has come let me be the one that got a way oh my god can I be saved and not forgot I hold out own its not too late so I'll pray I'll pray its not too late grave digger, grave digger rest THESE weary bones help me on my way dont let me die alone grave digger, grave digger take what I have left give it to the lost up on my dying breath save me if you can the time for me has come let me be the one that got a way
AHHHH O CORVO DESAPARECE E SÓ SURGE NO FINAL, NA MORTE DO
COVEIRO.
NO FINAL O COVEIRO
SAI PARA VER O MUNDO DOS VIVOS E QD ELE MORRE O AMIGO ESTÁ LÁ E VAI LEVALO PRA
CONHECER UM OUTRO MUNDO SEM SOFRIMENTOS OU INJUSTIÇAS
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Comentários
Ah. Por falar nisso, vou colocar um selo da Fraternidade da Pá, posso?