NOMINA PECULIARIA >>> Nádia Coldebella
Acordei várias vezes de
madrugada com um incômodo nos meus pensamentos. Poderia ser um incômodo
altruísta (fome no mundo, guerra do Irã, fim da patente do Ozempic) ou poderia
ser um incômodo visionário (achar um método melhor de fazer relatório, como não
me desgastar tanto no trabalho), um incômodo do coração ou a preocupação com o
live action do He-man. Ou qualquer incômodo que faça sentido. Mas meu cérebro
resolveu me perturbar com algo que não se enquadra em nenhuma categoria
racional: o incômodo com nomes – o meu, no caso.
O que tem de perturbador com o
meu nome? À primeira vista, Nádia, digo, nada. Só que tem. Tudo começou com um
colega de turma dizendo pra minha filha mais nova que meu nome era feio. Pode
ser feio, meu filho, mas não é comum. E o seu, que é Enzo? Mas essas coisas me
magoam, fiquei com meu coraçãozinho ferido. Como você pode, Enzo? Falar mal do
meu nome?
(Faço um parêntese aqui. Eu
sou uma grande hipócrita. Geralmente dou risada, gargalhadas até. Depois de
tantos anos trabalhando com gente, tenho uma lista de nomes estranhos que não
ouso divulgar. Eventualmente você pode ver no meu texto ou solicitar a
lista in off, mas se disser que fui eu que forneci, eu nego).
Tudo, porém, tem uma
explicação. Deixe-me esclarecer ao leitor, de modo bem científico, a teoria que
eu inventei para me justificar, é claro. Meu nome não é um nome qualquer, é um Nomina
Peculiaria. Os Nomina Peculiaria se definem por serem nominações
humanas não comuns. Veja, quando perguntei pro Google quantos nomes Nádia
existem no Brasil, ele primeiramente me zoou: “Quantas nádegas existem no
Brasil? Quantas nádegas existem na pessoa? Quantos sentidos tem o nada?” Depois
ele me humilhou: “O nome Nádia ocupa a 591ª posição em popularidade, com cerca
de 46.845 registros (0,02% da população), com maior concentração em mulheres
com idade mediana de 42 anos, sendo um nome mais frequente em gerações
passadas, mas ainda em uso”. Sou uma geração passada, mas ainda em uso.
Obrigado, Google.
Se fosse só isso, eu relaxava.
Quem não envelhece? O problema é que, daqui a 20 ou 30 anos, quando eu estiver
quase batendo as botas, ele será um Nomen Insolitum, e eu corro o sério
risco de sofrer bullying dos meus netos:
— Vó, vó, vó, vóóóó...
— Que quié, menino?
— Nádia.
— Hein?
— Vi-tro-la.
— Hã?
— Nadia haver.
— Nádia ver tudo, meu netinho...
Bom, talvez eu não tenha
netos. Seja ter netos ou o que meu nome irá virar, o futuro a Deus pertence. O
fato é que hoje, nesse exato dia, o que me incomoda é saber que meu nome é do
tipo Nomen Quod Nihili Convenit, um nome que não combina com nada.
Veja, caro leitor, apesar de
existirem nomes compostos, como Nádia Maria e Nádia Regina, isso não soa bem. É
esquisito porque Nádia é um nome que não combina com Nádia. Composições de
Nádia com outros nomes não têm boa sonoridade, entende? Por exemplo: Ana Nádia?
Nádia Cláudia? Isabel Nádia? Ai, Jesus, isso é tortura. Pra piorar, não dá pra
fazer nome combinado. Por exemplo, Mari dá pra combinar com tudo: Maristela, Maritânia...
Ou Ana: Analu, Anabela... Agora,
imagina: Nadivânia, Nadicreusa, Nadiana...
Ai, meus sais! Se Nádia é da geração passada, a composição seria o quê? Da
Idade da Pedra? A sacanagem é meu cérebro acordar de madrugada e tentar
composições e combinações durante horas. É um caso de autobullying comigo
mesma.
Mas não para por aí. Meu nome
também não tem forma masculina. Em nenhuma língua. É um nome ultrafeminino,
então. Só que, na tabela de elementos químicos, tem um Vanádio. Vanádio é um
metal de transição altamente resistente à corrosão e usado para fortalecer o
aço. Na escola, ninguém ligava pra sabedoria implícita, só diziam: Vai, Nádia,
teu marido.
E, se isso não fosse
suficiente, meus queridos pais me agregaram o sobrenome. Que lindo, dizem,
Coldebella, é tão musical. Primeiro, eu não sou pássaro para me preocupar com
coisas musicais. Segundo, experimenta ter que soletrar toda vez uma coisa que
deveria ser simples! E, mesmo soletrando, ter a grafia trocada: Cor de Bella?
Cor de abelha (sim, pura verdade), Colde Bella?
Certa vez fui dar uma
palestra. Loira, bela e magra, fui apresentada para um grupo de quase
quinhentas pessoas: Naja Galdébella. Poxa, cara!!! Eu soletrei: Não é Naja, é
Ná-dia — essa tortura de ser chamada Naja eu senti até aqui na Crônica, pela
caneta de uns e outros — e não é Galdébella, é Col-de-bel-la. Foi a primeira
frase que eu disse, enrolada no sorriso amarelo do cara que me apresentou,
seguido de um desconforto da plateia e de uma vontade enorme minha de colocar a
cabeça num buraco. A sorte é que a palestra era brinde e eu acabei em 15
minutos. Mas foi desumano. Fui vítima e tentaram colocar a culpa em mim.
Eu, porém, tenho um alívio e o
doce sabor da vingança nessa dor toda, que é o significado do meu nome: no
árabe, sou mensageira, anunciadora; no sânscrito, espírito de luz. Em russo,
Nádia é diminutivo (putz, mas um desabono pra minha lista) de Nadezhda e
significa esperança. Então torça, querido leitor, pra essa Naja aqui não ser
sogra do seu filho. Pois a esperança é a última que morre.


Comentários
Parabéns pelo texto.
Nádia, nada adia, faz na hora, presente,
mira o alvo no centro do dia, momento,;
às vezes se faz naja, sibila, serpente.
Veneno, Arcádia, arcadismo e o vento.