NO SALÃO >> Sergio Geia

 


Quase dois meses se passaram sem que meus cabelos sentissem a aproximação de uma tesoura; fui ao salão.
 
(Espere. Pausa. Um recuo.) 
 
Os novos tempos às vezes desbotam a beleza de uma frase. Rubem Braga, por exemplo, jamais iria a um salão, mas ao barbeiro. Antônio Maria não cortaria os cabelos com tesoura, mas com navalha. Eu mesmo escrevi “tesoura” por uma espécie de pudor estético. A verdade é menos elegante: meus cabelos não veem tesoura tem muito tempo; o que eles conhecem, intimamente, é o zumbido de uma maquininha que corta não só os fios, mas um pouco da poesia da crônica. 
 
Sentei. Uma moça que não conheço veio me perguntar se faria a barba. Não. Vou cortar o cabelo. Ela olhou pra minha cabeça com uma cara engraçada. Vou raspar, completei. 
 
Acontece que de uns anos para cá meus cabelos resolveram me abandonar. Meu pai não era careca; tampouco os tios do lado paterno. A herança veio pela outra margem da família. Talvez eu tenha puxado a meu avô materno, o velho Assumpção. Meu filho, por sua vez, vibra: nesse quesito, puxou à mãe. 
 
Quando Ana Cláudia surgiu com a navalha-tesoura-maquininha, eu disse: em cima, um; no resto, meio. Um?, ela estranhou. Vou passar um e meio em cima, pra ver o que você acha. A maquininha, faminta, levou quase tudo. Isso, me apressei em dizer ao ver o resultado. Melhor um e meio mesmo. Se for a um não sobra nada. 
 
Lavava os cabelos — hum, sei bem o que vocês estão pensando, seus irônicos danadinhos. Eu quero dizer que no instante em que lavava a cabeça, enxerguei Norma. Lembro de Norma da Professor Moreira. Não resisti. Você é Norma, não? Lembra de mim? Ela fez com a cabeça que não. Claro. Como lembraria? Eu era uma criança. Agora sou velho e careca. Serginho, neto da dona Lourença. Os olhos dela brilharam. 
 
Eu estava de saída quando a vi ainda no salão à espera do tempo da tinta. Norma olhava o chão, um olhar solto. Lembrei muito de minha mãe naquele instante. No fim de sua vida, sentada numa cadeira de rodas, minha mãe olhava o chão com o mesmo olhar solto. Na verdade, ela perseguia formiguinhas com atenção infantil, até o momento de armar o pé prum pisão. 
 
Era medo, talvez, mas não tive a chance de saber. Ela não mais falou. 
 
 
 
Ilustração: ChatGPT

Comentários

Postagens mais visitadas