ALGO BOM >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
Para levar o lixo até a rua, ele tinha que atravessar o jardim (o que fez, às oito horas da manhã, intrigado por duas coisas: o calor e o silêncio). Abriu o portão. Ajustou o nó da sacola. “Que é da algazarra dos Silva hoje?” Somente um anúncio da Ford e o assovio da chaleira vindos da cozinha.
De repente, alguém disse no rádio que já era outono. A voz anasalada do locutor, prometendo baixas temperaturas, arrancou-lhe um muxoxo (ele vivia descrente). “’Magina!” O clima e a estação, apartados por uma contenda antiga, pareciam nunca mais fazer as pazes. Frescor e árvores desfolhadas entre março e abril? Só mesmo na capa da Reader’s Digest.
Quando terminou a tarefa, ele mirou a casa e a árvore nua contra o sol. Os galhos do ipê e a expectativa combinavam, o que parecia bom.
“Pelo menos isso”, pensou. Depois, apressou-se para acudir a fervura da água.



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