CRÔNICA DA PÁ >> Albir José Inácio da Silva

 

O medo travou seus passos por instantes, mas a indignação falou mais alto e ele empurrou a porta de acrílico da delegacia.

 

Numa rara tarde sonolenta, o detetive mandou que ele se sentasse.

 

- Qual é o problema?

 

- O problema é complicado...

 

- Todos são. Qual é a sua complicação?

 

- Estou sendo ameaçado.

 

- Quem ameaça? E qual é a ameaça?

 

Fóbio tirou da pasta umas folhas com mensagens e prints. A página do registro de ocorrência surgiu na tela e o detetive emendou:

 

- Seu nome?

 

- Fóbio...

 

- Fábio?

 

- Não, Fóbio mesmo. Meu pai comemorou a noite toda o meu nascimento, foi direto para o cartório e encontrou um escrivão igualmente obnubilado. Eu já entrei com processo, vai ser Fábio, mas por enquanto...

 

Quando digitava o nome no computador, o detetive olhou para Fóbio e pegou as folhas em sua mão.

 

 - Ah, então é isso?

 

- Sim, é isso e muito mais. Imagino que eu não seja a primeira vítima. Esses criminosos atuam há muito tempo...

 

- Isso não é crime, é gozação! Me admira o senhor, metido a intelectual, caindo nessa esparrela! Sabe que pode ser processado por comunicação falsa de crime? – ameaçou o policial.

 

Fóbio não se conteve. Era só o que faltava! Vítima, noites sem dormir por conta das ameaças e, quando procura as autoridades, ouve desaforos! De pé, e apontando o dedo na cara do detetive, lembrou a obrigatoriedade do fazer o registro, a condição de funcionário público, empregado do cidadão que lhe paga o salário, falou sobre prevaricação e passou outras descomposturas. A corregedoria ia ficar sabendo!

 

- Ferrante! – gritou o detetive para os fundos da delegacia, e o carcereiro veio correndo.

 

- Que foi, Jônio? Tá nervoso aí o cidadão?

 

- Tá agitado. Este é o rebelde da internet. Melhor levar pra psicologia!

 

Fóbio tentou resistir, mas ficou cambaleante porque Ferrante chegou por trás e lhe aplicou um lenço no nariz.

 

Os policiais o conduziram com os pés balançando para o subsolo e, após longo corredor escuro, chegaram a uma porta em que se lia: PSICOLOGIA.

 

- Dra. Naja, a senhora tem um cliente, acho que já o conhece. Mundo pequeno este! – divertiu-se Ferrante.

 

- Coloquem-no no divã! – disse a psicóloga.

 

Jônio retirou as algemas, deitou-o na cama de aço e apertou as braçadeiras.

 

Confuso ainda por causa do lenço, mas voltando aos poucos, Fóbio se deu conta dos nomes de seus anfitriões. Descarados, nem se dão ao trabalho de usar pseudônimos nos crimes cibernéticos! É a certeza da impunidade!

 

Não podia se mexer, mas podia gritar e gritava. Isso provocava risos entre os presentes. Estava perdido, pensou.

 

A porta se abriu mais uma vez para dar passagem a outra mulher. Ela usava um cordão com o distintivo da polícia e uma miniatura que ele não reconheceu na hora.

 

Jônio se apressou nas apresentações:

 

- Dra. Zorraga, este é Fóbio, alcaguete de internet, que não gostou da nossa recepção.

 

A delegada se aproximou e o infeliz pôde reconhecer a miniatura ao lado do distintivo: uma pá!

 

- Vocês vão me matar? – desesperou-se Fóbio.

 

- Não precisamos, – respondeu a delegada – depende de você. Não queremos sua vida, queremos sua alma!

 

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Esse texto foi verificado e aprovado pela

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Ah, Albir, ngm merece!!! Por acaso essa Naja, psicóloga, eu conheço? agora pede parte dois. Vou mexer no seu texto, vai ter um adendo embaixo. aguarde
Ionio Paschoalin disse…
KKKKKK, estou com uma sensação estranha....deja vu? É, acho que é isso. Eu penso que o Jônio é um perigoso sociopata, está nas entrelinhas. Provavelmente foi ele que enviou as ameaças a Fóbio, planejou isso friamente! Talvez com a ajuda dessa enigmática "Fraternidade da pá". Um dia ainda vou abrir minha agência de detetive. Parabéns Albir, bom demais!
Kiu Oliveira disse…
Criatividade pura, Albir. Fiquei preso no texto. Muito bom.

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