ÂNCORA >> KIU OLIVEIRA


 

Do que eu mais gostava de brincar quando era criança? Tinha polícia e ladrão, um dois três tô salvo, bandeirinha, baleada, futebol. Mas a preferida mesmo era outra, talvez a senhora ache estranha essa brincadeira; eu digo que não era, porque minha mãe participava. Nunca falei pra ninguém o que acontecia na minha imaginação, doutora, ninguém mesmo, nem os juízes conseguiram que eu contasse. 

O que eu sinto ao lembrar dessa época? Já passei por tanta coisa na vida, hoje em dia não sei chefiar sentimentos, é uma confusão aqui dentro, dou risada quando é pra chorar e choro quando é pra calar. Me entende ou acha que preciso de algum remédio pra cabeça? Acha mesmo que está tudo bem? Se eu contar, promete não rir de mim como os outros faziam quando eu brincava sozinho? Acredito em você, doutora, o meu medo é ter um homem na sua casa, e ele não gostar. A senhora não vai contar? Não tem homem? Melhor. 

Eu esperava todo mundo sair, pra evitar de fazerem chacota de mim de novo. Aí eu inventava ela: minha mãe. Começava pelos pés, dedos compridos com unhas pintadas com esmalte claro e um desenho de âncora na unha do dedão... olha, doutora, tenho uma âncora no peito. 

As pernas da minha mãe eram sempre de atleta. Dos ombros até as coxas, um vestido branco com flores verdes. Mãos de fada com poderes de bruxa. O rosto bonito e forte, os cabelos volumosos, os olhos atentos. De mãos dadas, passeávamos pela rua, eu ria e contava das minhas dificuldades com as letras, os números, o professor da boca grande e suas mãos pesadas. Depois eu a pedia para se sentar na calçada e deitava a cabeça em seu colo, os dedos dela, suaves e certeiros, percorriam os meus cabelos. Eu aproveitava a brincadeira ao máximo, até aparecer alguém e minha mãe sumir. No dia seguinte, eu a inventava de novo; outra roupa, um novo cabelo, olhos ainda mais atentos, rosto inteiro. Minha mãe. 

(Silêncio comprido) 

A senhora está bem, doutora? Não lembro quando foi a última vez em que chorei. Quer um lenço, doutora? Ah, tenho que te contar uma coisa antes de sair. Um funcionário do estado me procurou outro dia, assistente social parece, trouxe recado do meu pai, avisando que ele queria me conhecer. Dezoito anos depois, dá pra acreditar? Sabe o que fiz, doutora? Fui lá na prisão ver ele, tinha uma pergunta dentro de mim pedindo fuga. Na revista, me reviraram todo, à procura de droga, celular, arma, cigarro, os luxos da cadeia. Ao entrar na sala de visitas, me deparei com o assistente social e um homem envergado, os olhos vermelhos, uma Bíblia na mão, era ele. O assistente social perguntou se eu queria que ele saísse, aceitei com um aceno discreto. De cabeça baixa, meu pai se aproximou, meu peito igual a dinamite, dei um passo para trás e disparei: 

Cadê a minha mãe, porra? 

Ele não deu um piu, doutora. 

(Silêncio curto) 

Doutora, a senhora tem filho?

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