A GOTA QUE FALTA PARA TRANSBORDAR >> Ionio Paschoalin
Por
trás das janelas de seus óculos, Stanislaw observava o mundo com deslumbre.
Luzes!
Encantado
é o homem que se deixa encantar com tudo que o encanta. Ele via as coisas da
vida fascinado e sem conhecer uma forma melhor de reação, ria.
Nascido
no décimo primeiro dia de janeiro, no Rio da Guanabara, foi batizado com o nome
de Sérgio. Gostava de futebol, jazz, música brasileira, cinema, teatro e
boates. Um dia foi menino e quando aprendeu a ler, gostou do formato e do
desenho das letras. A literatura o levou pelas mãos. Destino e feitiço. Acabou
cursando jornalismo e as palavras que saíam de sua boca escorriam nos papéis em
que escrevia. Aos poucos foram se tornando mais pontiagudas; flechas. E mais
doces; balas.
Era
Sérgio e Porto para as ideias náufragas ganharem chão. De dia trabalhava, mas
só passava a viver quando encontrava a noite. Ele a presenteava com raios de
sol que colhia dos dias. Todos os dias, noite e dia.
Cansou-se
de ser só Sérgio. Percebeu que dentro de si havia um outro rio e criou um
heterônimo que iria sobreviver depois que o porto não estivesse mais lá.
Atravessou uma ponte e do outro lado, viu seu rosto espelhado nas águas e
chamou a si próprio de Stanislaw.
O
disfarce abriga o disfarçado e lhe serve de barragem. Correnteza.
Foi
escritor, jornalista, crítico, comentarista esportivo, compositor, artilheiro
da alegria e goleiro da liberdade. Falava com bichos, astros, pedras, plantas e
quando as rosas pararam de conversar consigo, desconfiou que alguma coisa
preciosa lhe fora roubada. Pensava nisso quando parou num posto para abastecer
seu carro e, surpreso, reconheceu o samba encarnado. Conhecia aquele frentista;
seu rosto não era estranho. “O senhor não é o Cartola, que fundou a Estação
Primeira de Mangueira? Por acaso não teria reinventado o Carnaval e o profanado
com a lascívia dos brilhos?”
Sim.
Deparou-se com Agenor Cartola e o devolveu ao berço dos batuques, à hierarquia
dos ritmos. Tinha que salvá-lo do ostracismo e do autoexílio. De fato, o mundo
é um moinho.
O Samba sorriu e o agradeceu, recebendo a ambos com carinhos e saudades. As cuícas choraram, as batidas dos corações dos surdos ficaram aceleradas. Havia tamborins, reco-recos, ganzás. Os violões, cavacos e banjos provaram que a teoria das cordas era a única explicação aceitável para a origem da vida.
Durante o período da ditadura militar, testemunhou um festival de besteiras que assolou o país e fundou uma fábrica de zombarias; a revista “O Pasquim”. Satirizou a ignorância e a arrogância dos generais. O ácido do sarcasmo aos poucos os enfraqueceu. Lento envenenamento, até enferrujá-los junto com seus jipes e tanques de guerra fria.
Enfim
bateram em retirada, tropeçando. As trincheiras que cavaram os esperava para os
engolir e mastigar. Sobraram seus filhotes, ratos, mas esses nunca aprenderam a
ler. Limitam-se a sonhar o sonho dos mortos.
Porto
e Ponte não eram amigos. Um era ilha, solidão e cheiro de mar. O outro era
península, ligado às pessoas por estreitos que atravessam as distâncias
interpessoais. Às vezes um deles abandonava o corpo para que o outro o ocupasse
e pudesse escrever em paz. Recusavam-se a estar no mesmo lugar. Depois de viver
metade de uma vida, Stanislaw guardou todas as águas que não saíram pelos
olhos, poros, gozos e estava inundado, esperando apenas uma gota para
transbordar.
Sua
vida foi breve, queimou como o cigarro que fumava, quando depois da última
baforada, suspiro, o apagou. Disse à funcionária que o acompanhava: “agora vou
apagar a mim mesmo”. Fechou a janela e nunca mais abriu, queria a noite eterna.
Mas
como o brilho de uma estrela morta há dois mil anos luz, que vemos agora no céu
dos nossos olhos, Stanislaw falou comigo depois de ter secado há muito tempo.
Eu também já fui menino e quando cursava a quinta série, abri uma cartilha de
português com contos e crônicas e parei numa página. “Gol de padre” era o nome
do texto. Eu juro por Deus. As palavras pularam do livro e riscaram a parede!
Nela o desenharam. Ele ganhou vida se mexeu e acenou para mim. Pude vê-lo
nítido e vivo. Tive certeza de que ambos estávamos loucos e jamais buscaríamos
cura. Ele se apresentou, “meus amigos me chamam de Lalau”. Foi assim que nos
tornamos éter e terra. Posteriormente ele seria meu mentor mais querido e me
ensinaria que as cheias que molham e matam a sede estão sempre a uma gota de
distância das nossas línguas.



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