MÃES >> Ionio Paschoalin
No início ele era planeta, dormia protegido pela noite que o agasalhou com manto. Sonhava. Acordou durante um incêndio que matou sua tutora, roubando-lhe a inocência. Nunca superou o trauma e chamou a si próprio de mundo. Gigante e frágil, prestes a romper, corpo e rosto deformados, percebeu que em si foi plantado aquilo que vive, move e rasga. Só, esperou, e nele chegamos através de mães.
Tudo
o que nasceu do ventre foi abrigado por uma mulher que foi lugar, onde semente
virou coisa, onde folha virou carne, onde viramos e nos tornamos, respirando
dentro de suas águas...
Como
peixes, como deuses, como algas, corais, fauna e flora, tempo e espaço
reunidos, força fraca e força forte, eletricidade à sua imagem e semelhança;
Milagre.
Além
das Santas, as duas, as nossas e a Dele que também é nossa, mais do que Dele,
mais que tudo é materna a Terra, a Lua e a Semântica.
Não há polêmica quando menciono as duas primeiras,
mas afirmo que foi a terceira que pariu nosso pensamento.
Deu-nos olhos para arrancarmos-lhe palatos, vernáculos e dentes; aleitou-nos
enquanto ainda mamávamos.
Provo como tese científica, como quem pretende
cortar uma fatia do etéreo, como se fosse preciso, como quem luta com moinhos,
vento na cara queimada, lufadas, citando o poeta Caetano "não tenho
pátria, tenho mátria, tenho fratria", minha língua, minha mãe.
Para
dar forma humana às ideias que voam, vieram as palavras criadoras das sociedades,
com hábitos, vícios, assassínios, justificativas, artes, artifícios,
misericórdias e virtudes. Leis, regidas por idiomas, determinaram gêneros,
cores e separaram as mãos construindo o deserto que segregou a certa da errada,
a sinistra e a destra.
Em
cada frase existem julgamentos, carimbos, cicatrizes e ideogramas.
Minha
fala é portuguesa, meu raciocínio é de Pessoa, que era e ainda é, são, pois foi
um que se partiu em três. Pai, filho e Santo Espírito. Tese, antítese e
metástase. Vida, morte e a gente.
É
espada, meu escudo e meu bálsamo, minha língua é a mesma que morou na boca de
Amália Rodrigues, tudo isso existe, é fato, é fado, é fada, é portuguesa! Por
ela vivo, sobrevivo e caminho. Pra crescer, morrer na Cruz e nascer de novo.
Nela, chaves cerram sem cortar; depois abrem asas. Vá, saia daí, tome essa vida
que ela é sua; não se aceitam devoluções.



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