RELATO DE UMA ESCRITORA >> Ana Raja
Não que exista um encanto diferente em ser escritora, não é nada disso. Primeiro, dificilmente ela sobreviverá dos seus escritos e, sendo mulher, o caminho se torna ainda mais tortuoso. Muitas são despertadas e poucas continuam avançando. Mas a marca foi feita, não desprega, e não há como fugir disso. Podemos sufocar o desejo de exercer a escrita, e sermos obrigadas a matar o devaneio de escrever. Mas se isso acontecer, seremos incompletas na nossa existência.
Em certo momento, ouvi as folhas de um livro trocarem de lugar umas com as outras, e isso fez o seu cheiro inconfundível me entorpecer. Me distrai por um momento e olhei fixo nos olhos daquela mulher. O olhar dela dominava o meu espaço. Não havia peso em seus ombros, suas palavras se tornaram mudas para mim. Seus gestos, sorrisos, a maneira como mexia o corpo na cadeira, a boca num abrir e fechar. Ela lia, empolgada, o último parágrafo da sua história. Aquela figura, naquela cena, me ofereceu indícios do que é ser escritora.
Olhei para a minha mão esquerda, a mesma a segurar minha fruta preferida, o garfo durante as refeições; a mesma que acarinha um bicho, que desembaraça os cabelos com cerdas de nylon, e equilibra o copo transbordando de tudo e, nesse momento, um risco longo mostrou o meu destino. Essa sou eu: faço todas essas coisas com a mão esquerda e não sou canhota.
De repente, a voz da escritora voltou a preencher o cenário do sonho. Doce as suas palavras em mostrar o circuito de sua obra. Distante o seu olhar por não enxergar com clareza o que está na sua frente.
Procuro seguir a minha aventura. Com a mão direita, escrevo sonhos e luto para continuar a linguagem harmoniosa do espírito.
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As dores delas, primeiro livro de Ana Raja, está a venda no www.editoraurutau.com.



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