RELATO DE UMA ESCRITORA >> Ana Raja


Dia desses ouvi, durante um sonho, a entrevista de uma escritora. Ela contava sobre o oficio da escrita e seus desafios; que quando, nas linhas das mãos que rega o destino, se encontra essa inclinação, a vida da pessoa é marcada por profundas mudanças.

Não que exista um encanto diferente em ser escritora, não é nada disso. Primeiro, dificilmente ela sobreviverá dos seus escritos e, sendo mulher, o caminho se torna ainda mais tortuoso. Muitas são despertadas e poucas continuam avançando. Mas a marca foi feita, não desprega, e não há como fugir disso. Podemos sufocar o desejo de exercer a escrita, e sermos obrigadas a matar o devaneio de escrever. Mas se isso acontecer, seremos incompletas na nossa existência.

Em certo momento, ouvi as folhas de um livro trocarem de lugar umas com as outras, e isso fez o seu cheiro inconfundível me entorpecer. Me distrai por um momento e olhei fixo nos olhos daquela mulher. O olhar dela  dominava o meu espaço. Não havia peso em seus ombros, suas palavras se tornaram mudas para mim. Seus gestos, sorrisos, a maneira como mexia o corpo na cadeira, a boca num abrir e fechar. Ela lia, empolgada, o último parágrafo da sua história. Aquela figura, naquela cena, me ofereceu indícios do que é ser escritora.

Olhei para a minha mão esquerda, a mesma a segurar minha fruta preferida, o garfo durante as refeições; a mesma que acarinha um bicho, que desembaraça os cabelos com cerdas de nylon, e equilibra o copo transbordando de tudo e, nesse momento, um risco longo mostrou o meu destino. Essa sou eu: faço todas essas coisas com a mão esquerda e não sou canhota.

De repente, a voz da escritora voltou a preencher o cenário do sonho. Doce as suas palavras em mostrar o circuito de sua obra. Distante o seu olhar por não enxergar com clareza o que está na sua frente.

Procuro seguir a minha aventura. Com a mão direita, escrevo sonhos e luto para continuar a linguagem harmoniosa do espírito.

------

As dores delas, primeiro livro de Ana Raja, está a venda no www.editoraurutau.com.

anaraja.com.br

Comentários

Kiu Oliveira disse…
Não há volta, Ana. Belíssimo texto.
Ionio Paschoalin disse…
Ana você não precisa mais lutar, seus sonhos vão te procurar e estarão em cada frase que escrever, serão oníricas sempre. Ser mulher é muito mais difícil do que não ser. Mas a arte da fêmea é profunda e traz experiências que os falos não conhecem, obrigado por compartilha-las. Sufocar o desejo de escrever é como prender a própria respiração, é impossível, é suicídio. Adorei seu texto, fiquei grato por me levar para um sonho.
Zoraya Cesar disse…
Ana, pode sonhar à vontade. As letras formarão palavras e as palavras derramarão os sonhos no papel. Vc já faz isso.
Anônimo disse…
Mais um texto lindão, Ana. Fiquei pensando aqui nas nossas mãos, mas também nos ouvidos, nariz, olhos… muitas das histórias começam ali, né?
Nadia Coldebella disse…
Sempre digo, as palavras já existem. Elas pulam da gente e grudam no papel.
(Agora, vc pode me ensinar, in off, a descobrir se esse risco existe na palma da minha mão?)
Albir disse…
Siga a sua aventura! Com qualquer das mãos, está dando certo!

Postagens mais visitadas