AINDA ESTOU AQUI >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
Quem cresceu na Guerra Fria, tinha um cronômetro no tapete da sala, mas aquela concepção de Apocalipse era equivocada. Se algo aconteceu de catastrófico, deu-se numa “virtualidade” capaz de deixar Deleuze boquiaberto. Enfim, o mundo no qual eu nasci foi destruído — não tenho dúvida —, mas com promessas homeopáticas de bombas jamais detonadas.
Há quem diga que o mundo ficou melhor (muitos, na verdade), mas eu discordo. Meu POV nunca saiu do Day Before, aquele tempo naturalmente fresco, quando, felizmente, os meninos do Crowded House não paravam de tocar no rádio e havia um “card” novo em cada chocolate Surpresa. Cavalo não era zebra. Quebra-cabeça, indiscutivelmente, era quebra-cabeça e, de fato, cada peça tinha o seu devido lugar no jogo.
Quando nasceu, o Day After mostrou-se um eterno convescote de chinelinhos brancos, alto-falantes JBL e óculos da Oakley. Um horror (para dizer o mínimo).
Entre 1996 e 2010, senti que tudo havia acabado porque, antes, a galera brigava por mulher (e, se fosse uma galera feminina, brigava por homem). Simples
assim. A convivência dispensava explicações atrás de explicações — “disclaimers” como dizem hoje em dia.
O mundo mudou. Agora, ele é o reino da justificativa. Está feito.
Sem justificativa, quero culpar deliberadamente aqueles que nunca leram a Coleção Vaga-lume inteirinha do Éramos Seis ao Spharion. Tenho esse direito. Sou aporrinhado sem trégua pela nostalgia e pelo despeito. Discorda?
Ora! Basta ficar dois milésimos de segundo ao meu lado para saber que tenho esse direito. É perceptível. No meu pós-Armagedom, esses pensamentos reincidem e ficam evidentes no comportamento que adoto. Quer um exemplo?
Sábado, abri o Instagram no meio do desjejum e foi um leilão de miniaturas Matchbox que apareceu primeiro. O Stingray preto, Lesney, 1977, estava lá. Uma fortuna, balbuciei.
— Aos nove anos, alguém roubou o meu Corvette Stingray. Você acredita? Um primo, eu desconfio.
Sem pensar, a minha esposa irrompeu:
— Vou abrir um OnlyFans.
Puro sarcasmo dela. Refutei:
— Querida, o meu mundo já era, mas eu ainda estou aqui.



Comentários
Não fique triste, o pato Donald Trapo já está reconstruindo a desgraça e fazendo o mundo ficar pior do que era, o passado está de volta e trouxe o atraso como companheiro. E também não fique triste por seu card. Meu próprio irmão me furtou o "Epluribus Funk", o disco da moeda do Grand Funk Railroad. onde tinha aquela canção genial, "People let`s stop the war".