CERVEJA QUENTE >> André Ferrer

Antes do Carnaval, a Quarta-feira de Cinzas. O boi da realidade é quem puxa o carro alegórico em 2017. Em nome da tradição, o brasileiro insiste. Procura esquecer. Nem pensa que a festa, talvez, não chegue a ser plena. Fareja o fracasso na maioria dos quesitos, mas não deixa de se fantasiar.

É fevereiro e essa gente bronzeada só faz dissimular a ansiedade. Todo mundo atingido naquilo que tem de mais valoroso. Nem mesmo as tardes prolongadas na orla excederão, este ano, ao festejo momesco. Em 2017, o Horário Brasileiro de Verão termina antes do Carnaval e, como tudo indica, é também quando termina o prazo para qualquer adiamento. Apesar de tudo, sustenta-se a tese de que nada suplanta a alegria. Nem mesmo a impossibilidade de adiar um pouco mais o início do ano.

Entre dois carnavais, construiu-se a civilização brasileira. Uma espécie de pele social que, de maneira precária, envolve um arcabouço constituído tão somente pelos dois instintos básicos do ser humano: alimentação e sexo. Feito de adiamentos, jeitinhos e conversa fiada, o couro da civilização brasileira parece, agora, enfrentar uma prova sem precedentes.

Com o grande provedor, que é o governo, desacreditado, a sensação é a de que as necessidades mais básicas, em breve, estarão ameaçadas. De fato, um episódio de cidade sitiada e saques à luz do dia, como o que assistimos direto de Vitória, Espírito Santo, reitera essa preocupação. Incapaz de se livrar do círculo vicioso dos improvisos e de resolver efetivamente os problemas da sociedade, o brasileiro, de repente, descobre-se numa situação-limite. Pior: às vésperas de um Carnaval particularmente avesso a adiamentos.

A vida de um povo como o nosso é orientada pelos instintos básicos. Trata-se de uma falsa civilização já que o aperfeiçoamento, requisito para a verdadeira civilização, é só aparente por aqui. No Brasil, existe um verniz de civilização. Ele é muito... mas muito, delicado. Tão frágil, que se rompe quando a cerveja não está gelada.

Comentários

Anônimo disse…
Rompe também quando não tem futebol, etc...
Zoraya disse…
'Fareja o fracasso na maioria dos quesitos, mas não deixa de se fantasiar.';
"Feito de adiamentos, jeitinhos e conversa fiada, o couro da civilização brasileira parece, agora, enfrentar uma prova sem precedentes."
Só pra destacar duas. Porque, André, sério, está fantástico!
Beijos de alma lavada

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