segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - V >> Albir José Inácio da Silva

Continuação de 6 de fevereiro:

(Tentando trabalhar, Bóssi sentiu crescer a angústia pela falta de notícias. Sua mente divagou pelos antecedentes não muito recomendáveis do pupilo e pelos acontecimentos dos últimos dias.)

Foi assim que Bóssi encontrou Neném há vinte anos, desprezado e ameaçado por toda Tarietá, sem estudo, sem trabalho, sem perspectivas. Mas Bóssi sempre tinha perspectivas para todos.

Neném tinha dezessete anos quando entrou para o time do Tarietense, em mais uma tentativa da mãe zelosa comprar para o filho alguma direção na vida. Bóssi costumava assistir os treinos do clube. Aquele garoto não jogava grande coisa, mas era aguerrido, catimbeiro e disponível. Passava o dia no clube em conspirações e intrigas. Bóssi viu potencial.

De início pediu alguns favores, tarefas simples que o moleque cumpriu com diligência. Neném foi se aproximando com interesse pelo clube e paixão pela camisa.

Entre os amigos da sociedade tarietense não faltaram críticas ao novo ajudante, nada se ouvia de bom sobre ele. Mas como ele não estava procurando um relações-públicas, não deu ouvidos. Em pouco tempo Neném já era o seu braço direito. Tarefas que antes não podia confiar a ninguém encontraram em Neném um despachante determinado e sem escrúpulos. Não que tenha se emendado. Nada mudou na essência. Foi adestrado, dirigido e protegido por Bóssi.

Não se pode dizer que o plano era de Neném - incapaz de elaborações mais complexas. Mas a verdade é que Bóssi tentava superar a derrota nas eleições, quando um inconformado Neném vaticinou:

- Algumas vitórias podem fazer muito mal à saúde.

Daí em diante foi com Bóssi. Essa era sua especialidade. Voltaram ao clube, tinham saído sem falar com ninguém depois da apuração. Cumprimentaram Araquém pela vitória, Bóssi entregou-lhe as chaves e marcou uma reunião para o dia seguinte, antes da posse, para tratarem da transição. O resto já conhecemos.
                                          
Apesar da preocupação de Bóssi com os faniquitos do pupilo, ele se saiu muito bem e desapareceu na estrada. Mas agora a falta de notícias já estava dando nos nervos. Onde se meteu aquele moleque?
                                                                  
                                                                         O ACIDENTE

Naquela manhã Neném pulou na garupa da moto com o coração aos pulos. Era disso que gostava, esse era o seu talento. Quase agradecia a Deus por terem perdido as eleições. E agora agradecia mesmo o sucesso do dia em breves orações acompanhadas pelo sinal da cruz.

Talvez com ciúmes pela traição de uma alma que já considerava sua e agora se desmanchava em preces, uma entidade vingativa trouxe para o asfalto limpo e brilhante, naquela manhã de sol, um paralelepípedo. Por que um paralelepípedo, se não os havia num raio de quilômetros? Não sei, mas há quem diga que isso reforça o caráter sobrenatural do acidente.

Desgovernada, a moto se precipitou pelo declive suave de um bananal à margem da estrada e os ocupantes foram arremessados para cima antes de caírem no chão. O chão pedregoso estava então coberto de folhas e caules de bananeiras da última colheita.

O piloto se examinou sem achar maiores estragos. Só escoriações e uma torção no tornozelo direito. Quando a tonteira passou, pôde ver Neném caído muitos metros abaixo. Usando um galho como muleta, ele mancou até lá.

Neném acordou. Firmou-se nos cotovelos e levantou a cabeça. O piloto pode ver o sangue que lhe escorria do nariz, descia pelo queixo e encharcava o peito.

- Neném, você tá bem?

Neném baixou os olhos para o sangue que pingava no chão e deu um grito:

- Ai, meu coração! – e desmaiou de novo.

O outro entendeu que era dor no peito, pensou em infarto, e viu que o companheiro estava perdendo muito sangue. Era grave, precisava de ajuda.  Neném levantou de novo a cabeça e suplicou:

- Um padre! Preciso me confessar! – disse, já num fio de voz, e apagou.


(Continua em 15 dias)


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Um comentário:

Zoraya disse...

"Talvez com ciúmes pela traição de uma alma que já considerava sua e agora se desmanchava em preces, uma entidade vingativa " MARAVILHOSO!. Beijos zangados por ter de esperar ainda outra quinzena!