sábado, 11 de fevereiro de 2017

ENTÃO CHEGOU A TECNOLOGIA... >> Sergio Geia



Pode ser um saudosismo bobo, mas tenho saudades do tempo em que se ouvia o futebol pelo rádio. Às vezes, era apenas chiado; às vezes, o chiado se misturava com a narração; às vezes, a estação sumia; sem mais nem menos, voltava, e o jogo parecia tão disputado, mas tão emocionante, repleto de lances espetaculares, que tudo que queríamos no dia seguinte era assistir aos melhores momentos na televisão.
Lembro-me de um Palmeiras e Santos; no gol do Santos havia um uruguaio chamado Rodolfo Rodrigues, um goleiro extraordinário; o Palmeiras tinha um centroavante chamado Reinaldo Xavier, que havia jogado no Taubaté, e que hoje, pelo que sei, vive por aqui. O Santos ganhava, e faltando poucos minutos para o fim da partida, Reinaldo fez um gol espetacular, por cobertura, em cima do quase perfeito Rodolfo Rodrigues. Um gol maravilhoso, que se tornava maior na voz comovente do narrador José Silvério. A torcida gritava: “Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei! Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei!, e o Geia vibrava de alegria.
Outra lembrança doce que me chega agora era aquele sinalzinho do plantão do rádio informando a ocorrência de gol em outra partida. Você lá, concentrado no jogo do seu time, e o sinalzinho tocava; logo, o plantonista avisava que seu maior rival havia levado um gol; era tudo muito divertido e muito eletrizante.
Hoje todos os jogos são transmitidos pela televisão. Isso é uma coisa esplêndida, mas sepultou a fantasia, a mágica. Trata-se do mesmo fenômeno que ocorre quando a telona faz apequenar tudo o que você constrói de lugares, vilarejos, personagens e situações daquele romance lido.
Agora, que fique claro: em absoluto falo mal da tecnologia. Ao contrário, o avanço tecnológico, principalmente a chegada da internet, trouxe muita coisa boa pra muita gente. Lembro que ainda engatinhava no plano do Direito e se quisesse ter acesso a uma boa jurisprudência, tinha que fazer assinatura. Hoje, está tudo aí, disponível, à farta, de graça.
Esse deus representou uma verdadeira revolução na dimensão do conhecimento humano. Ele democratizou o acesso ao conhecimento. Somente quem viveu numa época em que não havia a internet tem condições de dimensionar o nível de transformação e de reprodução do conhecimento humano que ela representou...
Mas eis que tinha começado a escrever essas coisas havia dias (deixei-as lá, cozinhando), quando fui surpreendido nessa manhã por uma história interessantíssima contada pelo Milton Neves, no jornal “Pulo do Gato”, da Rádio Bandeirantes, que veio bem a calhar.
Eram histórias sobre os radioescutas. Esses jovens (normalmente eram jovens), durante a transmissão de uma partida, ficavam ouvindo os outros jogos da rodada; saindo gol ou ocorrendo algo importante, eles avisavam ao Milton, que, responsável pelo plantão esportivo da rádio, informava no ar. Com a internet, essa figura do radioescuta desapareceu. Eram dez ou doze, apertados, enfileirados, com fone de ouvido, cada um numa estação. Num sábado, José Silvério narrava Palmeiras e Guarani, e Milton, com sua equipe, acompanhava os outros quatro jogos da loteria esportiva, dentre eles, Flamengo e Madureira. Um radioescuta, estreante, de 17 anos, ouvia a rádio Globo, e tão logo começou o jogo, anunciou: “Gol do Madureira”. Milton deu a informação no ar, para susto do narrador. Alguns minutos depois: “Novo gol do Madureira”; o narrador levou outro susto e começou a se irritar (a chance de o Madureira fazer um gol no Flamengo dos anos 80 era remotíssima). Em seguida, o radioescuta levantou o braço: “Gol do Madureira”. Depois de Milton anunciar esse terceiro gol, o Silvério, inconformado, o chamou na técnica para a confirmação do resultado (o narrador não acreditava). Minutos depois de voltar ao estúdio o radioescuta não titubeou: “Gol do Madureira”. Foi quando Milton resolveu checar a informação, e aí a surpresa: “Placar Brahma Chopp no Maracanã informa: Campeonato Carioca de... Aspirantes”. Milton, envergonhado, tentou consertar o imbróglio, mas piorou a coisa dizendo no ar: “Atenção, Silvério: o árbitro no Maracanã acabou de anular os quatro gols do Madureira; o jogo não começou; vai começar daqui a uma hora...”.
Então chegou a tecnologia e tudo mudou... 
Ilustração: www.idocod.com.br


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2 comentários:

Zoraya disse...

A tecnologia mudou tudo mesmo, Sergio, e de maneiras que, acho, nossa geração só vai entender quando tudo tiver mudado de novo...

sergio geia disse...


E numa velocidade...