quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

UMA PAUSA DE MIL COMPASSOS>>Analu Faria

Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos


(Paulinho da Viola)

Onde sentar? No sofá? Macio demais, como a cama. Não dá, tem que ser disciplina, tem que ser um projeto de vida, não dá pra ser macio. Além do mais, vou me sentir relaxada demais, vou querer deitar, vou acabar dormindo. Quantas respirações profundas? Três, quatro? Quatro. Agora posso respirar normalmente? Ok, respirando normalmente. Como é mesmo? Rotulagem mental:  estou respirando, estou respirando estou respirando estou respirando estou respirando. Tá bom, chega, assim eu vou dormir ou ficar louca. Eu paguei a conta de luz? Paguei. Paguei? Ai, foi ontem. É, paguei. Opa, voltando. Prestando atenção na respiração. Ai, será que está certo? Tem que estar certo. É só respirar e prestar atenção. Inalando, exalando. Ok, é isso. Tá funcionando. Tá funcionando? Deve estar, e agora? Olhe para o silêncio. Que silêncio? Silêncio era o que pairava na casa depois que meus pais brigavam, quando eu era criança. Silêncio é o que pairou no quarto depois da primeira vez que transei. Silêncio é o que existe logo depois que meu despertador toca, às cinco da manhã. Silêncio é aquele minuto eterno nas homenagens que fazemos aos mortos. Isto não é silêncio. Bom, voltando. Inspira, expira. Talvez seja bom voltar a rotular: estou respirando. Respirando e pensando. Pensando à toa, no silêncio. Não consigo fazer silêncio, consigo pensar no silêncio. Será que consigo escrever sobre o silêncio? Novamente: voltando. Não, pera. Não tem uma música que fala de silêncio, aquela do Paulinho da Viola, que a Marisa Monte canta? Ai, é uma música meio triste, né? Será que o silêncio é triste? Será que algum dia, algum momento, aqui em casa, sentada de pernas cruzadas no tapete, só eu acordada, o gato dormindo, o mundo dormindo, vai haver silêncio? Voltando: estou respirando. Respirando e pensando, respirando e pensando, respirando e pensando sem pausa, sem pausa, sem pausa, sem compasso. 


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4 comentários:

Zoraya disse...

Amo essa música. Lindo texto, Analu

Anônimo disse...

Será q a arvore Aspen vai fazer ele morrer de algum medo? E a ninfa???

albir silva disse...

Muito bom, Analu!

Cassio disse...

Gostei muito deste gata.
Vc está cada dia melhor...