sábado, 25 de fevereiro de 2017

HAVIA UMA LISTA >> Sergio Geia



Havia tempos esperava receber uma pequena soma em dinheiro. Vou explicar. Outrora, quando eu ainda era um menino (pois sabe que me lembro de uma vez, um sábado de manhã, antes de fazer uma prova de datilografia para um concurso, mandei ver alguns copos de cerveja com amigos, de modo a relaxar os dedos? Pois é... coisa de menino), celebrei com a Prefeitura de Taubaté dois contratos de trabalho: um, regido pela CLT; outro, regido por estatuto próprio, dos servidores públicos.
Ao término do primeiro contrato, como é de direito, levantei de FGTS a infame quantia de alguns míseros cruzeiros, e que hoje deve corresponder a uns R$ 950,00, ou R$800,00, isso lá pelo ano de 1991.
Alguns anos atrás, veio a notícia de que o sindicato que defende os interesses dos servidores ajuizara com êxito uma ação contra a Caixa Econômica, defendendo a tese de que a correção do nosso pobre dinheirinho deu-se de forma irregular, com a aplicação de um índice menor em relação ao índice que deveria ser aplicado; assim, eu e mais alguns outros servidores na mesma situação, teríamos uma diferença a receber.
A notícia correu de boca em boca no Paço Municipal. Grande parte dos servidores estava incluída na referida ação, e receberia alguns haveres por conta da decisão judicial transitada em julgado, que reconheceu o direito desses humildes funcionários às diferenças de FGTS, diante dos erros cometidos pela entidade mantenedora dos depósitos do FGTS quanto às correções que deveriam incidir sobre os saldos das contas vinculadas. A coisa chegou a tal ponto que se comentava à boca pequena que o menor valor a receber aproximava-se de algo em torno de R$ 10.000,00, e que alguns sortudos poderiam receber até R$ 40.000,00, uma boa soma, você há de convir.
Levando-se em conta o tempo em que cada beneficiário levantou o seu FGTS, e, principalmente, a lentidão do Judiciário (posso lhe adiantar que muitos anos, ou, sendo um pouco mais preciso, mais de 20 anos se passaram), seria até razoável admitir a boa soma a receber, diante da aplicação dos agora corretos índices de correção, mais juros, e, sabe-se lá, quantas outras quireras, e que só um bom economista do sistema bancário poderia explicar.
Pois comecei a sonhar. Não um sonho abstrato, com coisas imateriais, como o sonho que tive outro dia. De repente, eu voava sobre montanhas e mar. Subia, descia, de vez em quando parava debaixo de um cajueiro, depois, refrescava-se mergulhando no mar. Sentia-me pleno, absolutamente livre e feliz. Quando me dei conta, vi montanhas, vi o mar, mas não estava absolutamente livre e feliz, pleno de tanta beleza, estava esmagado num avião prestes a aterrissar. Lembro-me que me aborreci muito ao acordar, me aborreci com a interrupção do sonho e com o caminho que ele tomou, me fazendo parar dentro de um avião.
Agora eu sonhava com um avião, muito embora não goste muito da sensação de fragilidade que me toma o corpo todas as vezes que me acho preso dentro de um. Mas só essa máquina voadora poderia me levar a conhecer, quem sabe, os jardins da Porciúncula, a igreja de São Damião; ou quem sabe, sendo mais materialista, visitar o Louvre, o Arco do Triunfo ou mesmo descer a Champs Élysées até a Place de la Concorde. Um passeiozinho pela ilha de Manhattan, uma noite em Beverly Hills...
Ah, e como é bom sonhar! E o sonho estava sendo sonhado quando a notícia de que boa parte dos servidores nada teria a receber começou a circular. Ninguém tinha uma explicação convincente a dar. Falava-se que a maioria já tinha levantado o FGTS. E ontem, após dar um telefonema para a Secretaria de Negócios Jurídicos da Prefeitura, fui informado de que meu nome não estava numa tal lista.
Pois havia uma lista, amigo, uma lista dos contemplados pelo dinheirinho a ser pago pela Caixa; pois nessa lista, a lista dos sonhos, não figurava o meu nome.
Chego a pensar que tudo não passou de falácias, e que ninguém, ninguém tinha a informação precisa do que acontecera na ação, nem mesmo nossos iluminados advogados; e, se alguém tinha tal informação, a preferência foi dificultar o acesso da gentalha.
Ilustração: www.marcellopepe.com


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2 comentários:

Zoraya disse...

que pena Sergio! mas ainda bem q tb seu nome nao estava na lista da odebrecht. Agora, no sério, só vc mesmo pra transformar um fato banal numa crônica dessas, plena e perfeita! beijos deslistados

sergio geia disse...

Ah, Zoraya, dessa eu escapei ahahahaha