sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A NINFA - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

A Ninfa - 1a parte - Após enganar a família, ele tomou posse do sítio do avô, a quem detestava, o único a perceber que ele, o neto, era um salafrário da pior qualidade. Sua intenção era destruir tudo o que o avô mais prezava e depois vender o resto. Ia começar derrubando as árvores. Só não o fizera ainda por causa dos pesadelos.

Pesadelos. Ele, que dificilmente sonhava, agora os tinha a noite inteira.

Eram multicoloridos, variados, e muito, muito realistas. Em todos aparecia uma mulher de cor lavanda e traços indefinidos. Em um dos sonhos, ela aparecia chorando, vertendo lágrimas azuis, agarrada aos joelhos dele, que derrubava uma árvore. No instante seguinte, viu-se afogado no meio do lago, as canas do brejo prendendo-o ao fundo. Acordou totalmente ensopado, o lençol pingando, água saindo pelo nariz. De outra feita, sonhou que a mulher lhe pedia algo, as mãos estendidas e súplices, enquanto ele marcava à faca as árvores que cortaria. De repente, seus pés afundaram no chão, e ele foi enterrado vivo. Acordou em sua cama, sufocado, as narinas cheias de terra, pequenos galhos e folhas, assim como seu corpo e a cama. A casa não tinha trancas; fosse ele sonâmbulo, os fenômenos estariam explicados. Mas não havia pegadas ou quaisquer sinais de que ele andara enquanto dormia. Não havia, portanto, uma explicação racional.

E na falta de explicações, o neto resolveu que no dia seguinte destruiria tudo o que pudesse e partiria. Depois venderia o que sobrasse.

A noite o encontrou acordado e alerta, cheio de estimulantes. A lua, encoberta, mal iluminava ao redor, mas ele vislumbrou um vulto que – teve certeza – era o da mulher em seus pesadelos. Ela corria de um lado para outro, como que perdida. Fora, fora daqui, sua louca!, gritou ele. A mulher correu para o lago e mergulhou – que morra afogada, pensou – e saiu na outra margem, ao lado do aspen, ao qual envolveu com braços e pernas até fundir-se nele. O neto levantou-se, sobressaltado. Alucinações não! Pegou a motosserra, o querosene, panos, caixa de fósforos. Ia acabar com aquela palhaçada agora mesmo, pra que esperar pela manhã?

Jogou o querosene no aspen, cujas folhas, de tanto tremer, começaram a cair, fazendo um som parecido com o lamurio abafado de uma criança com medo do escuro. Sempre que ele acendia um fósforo, um sopro vindo da noite o apagava. Chutou o tronco, com raiva e, se não estivesse tão perturbado, teria escutado, claramente, um gemido.

Pegou a motosserra e voltou-se para a velha árvore que lhe lembrava o avô. O mundo parou. Não se ouvia um único som, nada se movia e nem mesmo os cheiros da noite se espalhavam pelo ar parado. Somente as folhas do aspen ainda caíam, descoloridas de medo. Desencantou-se o momento ao som da motosserra e da madeira cortada, ruídos tão assustadores quanto os gritos de dentro do aspen e da sua própria garganta. Ele coloca as mãos no ventre, incrédulo e em choque. Como? Outro pesadelo? Efeito dos estimulantes? Ou aquele sangue todo escorrendo para fora de seu corpo, aquelas tripas escorregando para o chão, a dor quase insuportável eram reais?

O bosque, nesse momento, tomou-se de fúria. Insetos e bichos emitiam sons frenéticos, os peixes pulavam no lago com estardalhaço, um vento raivoso farfalhou ruidosamente as árvores e afastou as nuvens da lua, que, branca como uma lápide de cal, iluminou a cena.

Ele, deitado sobre uma poça de sangue espesso e escuro como os segredos dos pecadores, cercado por suas próprias entranhas. Ajoelhada ao seu lado, uma jovem nua, linda em sua estranheza - a pele em tons cambiantes de lavanda, os cabelos tais quais as folhas do aspen, as sobrancelhas feitas de líquen e olhos cor de bétula –, olhava-o friamente.

- Sou uma Hamadríade – disse ela, a voz soando como pequenos tímbalos tocados por asas de beija-flor – uma ninfa dos bosques. Moro naquele aspen que você tentou queimar – a voz dela amainou sua dor, mas ele não ousou se mexer, apavorado de o sangue se esvair mais depressa, de suas entranhas escaparem pelos dedos.

- O dever de uma Hamadríade, ela continuou, é zelar pelo bosque em que vive. Tentei te avisar para nos deixar em paz. Agora você terá de pagar por ter derrubado nossa árvore ancestral.

Ele se perguntava do que falava aquela mulher de lábios cor de terra, afinal, o bosque era dele. E o que fazia ela sentada ali? Não iria chamar por socorro?

- Não, o bosque não é seu. É meu. Seu avô me deu. E agora você me pertence. Você não precisa de socorro. Precisa de perdão. Que só vou dar quando a última folha da última árvore sobre a Terra cair.

Tentou se mexer, tinha que acordar, aquilo só podia ser mais um pesadelo, só podia, só podia... Sentiu-se enrijecendo e, olhando para seu corpo, gritou, agoniado e gorgolejante: estava se transformando em árvore, um tronco aberto, em decomposição, repleto de fungos e vermes que se mexiam e burburinhavam incessantemente – por isso não sentia mais dor! Suas pernas agora eram duas míseras raízes, mal entranhadas, expostas, frágeis. Sentiu seu pescoço endurecer... soltou um vagido rouco e desesperançado, o pesadelo não terminaria nunca? Já estava amanhecendo, era hora de acordar.

- Aprecie seu o último amanhecer como ser humano – borboleteou a voz da ninfa. Você viverá como um tronco. Apodrecerá lentamente, sentindo a eternidade passar, sem poder se mexer, falar, ver, ouvir. Terá a consciência de um homem, mas a existência de uma árvore. Condenado à solidão e à insaciedade, pois suas raízes nunca tirarão o suficiente da terra, tal qual Tântalo, em seu suplício.



Condenado a ter sua consciência presa em um tronco carcomido,
sentindo a eternidade passar. 
Ele bem tentou falar alguma coisa, mas sua boca emudeceu para sempre. Ainda pôde ouvir a ninfa cantarolando que cuidaria muito bem dele. Para sempre.











Foto: Pixabay


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5 comentários:

Anônimo disse...

Legal! Estou precisando de uma "Hamadríade" dessas, para fazer plantão na casa da minha mãe, visto que a "desgraçada da minha prima dos infernos" está matando todas as plantas que eram da minha tia e da minha mãe (já matou a roseira e agora quer matar a pitangueira e a amoreira), mandando poda-las indiscriminadamente, até a morte.
Adoraria ver ela vivar "roseira" no lugar da roseira da minha tia que ela matou! Apesar que se der flores, nem quero chegar perto para sentir o cheiro, hehehe...

Clarisse Amador disse...

Essa ninha tem que baixar na Amazônia!!!! E transformar o Trump num cipó broxa!!!! Rsrs

Ana Luzia disse...

Que ninguém brinque com o poder da Natureza!

bjos

Anônimo disse...

Nossa, terror ecológico total!!
Arrepiante!!

albir silva disse...

Zoraya, você sabe assustar. Ainda acabo com medo da própria sombra. Não há como espantar seus fantasmas, a gente nunca sabe onde eles vão estar.