segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MÁGUINO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 17/10/16 - Máguino foi preso num grande mal entendido e tentava, com telefonemas aos Labac, resolver a situação. Para tanto contou com a ajuda do rigoroso Pedrada que num gesto humanitário concedeu mais de uma ligação).

Salário atrasado, contas vencidas e mulher cobrando pensão, não custava arriscar. Trouxe o telefone.

Quem visse Máguino assim algemado na delegacia poderia supor que se tratava de um meliante qualquer. Mas ele estava longe disso. Aquela prisão era apenas um incidente do tipo que acontece na vida dos grandes homens e, longe de abatê-los, serve para ilustrar no futuro suas ricas e inspiradoras biografias.

                                                              O COMEÇO

Máguino bendisse a hora em que o destino o colocou como motorista na empresa dos Labac, empresários a quem admirava e defendia das más línguas. Foram anos vestindo a camisa, defendendo os patrões e aguentando o desprezo dos colegas que o enxergavam puxa-saco. E tudo terminou num “muito obrigado pelos seus serviços”.

Incontáveis vezes almoçou biscoito no carro enquanto aguardava os patrões terminarem o encontro de negócios em restaurantes cinco estrelas. E tudo terminava assim numa magra indenização trabalhista por todo o sangue, suor e uma boa parte de sua existência na terra.

Mas onde todos enxergariam uma tragédia, Máguino percebeu um começo. Não nascera mesmo para funções subalternas, humilhações, embora reconhecesse de bom grado a superioridade dos patrões. Não eram patrões à toa. Nada acontece à toa. Mesmo que não tenham sido eles, alguém, “em algum lugar no passado”- gostava de citações – trabalhou duro, gastou pouco e administrou bem, para que hoje fossem uma família poderosa. Não tinha inveja, tinha reverência.

Mas se eles chegaram, ele também podia. Não lhe faltava determinação. E foi assim, a partir de uma banquinha de doces que a mulher Jandira sempre manteve na frente do barraco, – e ele desdenhava dizendo que se dependessem do comércio dela morreriam de fome – que Máguino começou sua nova vida.

Precisava de Dinheiro, e o fgts não dava nem pro começo. Procurou amigos, parentes e conhecidos, propondo sociedade na birosca que estaria funcionando em trinta dias com retorno garantido dos investimentos. Vendeu com segurança suas ideias, e as pessoas juntaram economias, pensões, aposentadorias e salários, venderam bicicletas e atrasaram carnês. Seu Aristides, pedreiro desempregado, aceitou o trabalho na construção das paredes do que seria o estabelecimento, que antes mesmo de existir já tinha o nome pomposo de “Máguino Comércio de Tudo S/A” – chegou a escrever Ltda, mas não gostou.

Inaugurada, a loja foi um sucesso. Jacira se esfalfava no batente, primeiro carregando tijolos e cimento, vez que não havia servente e Seu Aristides não podia trabalhar sozinho. Depois acordava às quatro para preparar a comida que era servida no balcão e entregue nas quentinhas. Mas não reclamava, convencida que estava também do sucesso dos negócios.

Ele estava sempre na rua em contatos com fornecedores e clientes, e providências outras que só ele podia tomar. Devolveu com avareza parte dos empréstimos que tomara a título de investimento, mas sem as corespondentes vantagens. Reclamava de perdas, margem de lucro mínima, recessão econômica e vários motivos que fizeram as pessoas se arrependerem  e ficarem felizes quando recuperavam alguma coisa. Era assim o capitalismo, explicava Máguino, às vezes se ganha, às vezes se perde.

Tocava assim o seu negócio, dizendo à mulher que iam muito bem e que ela continuasse trabalhando, e dizendo aos outros que estava fraco o empreendimento para que não lhe cobrassem dividendos. E fazia isso vestindo roupas de marca, que comprava na mesma loja em que várias vezes levou os Labac. Comprou também um relógio igualzinho ao que usava o Dr. Simão. Não só merecia, como precisava estar vestido condignamente para seus novos desafios empresariais. Ou pensavam que ele ficaria sempre dono de birosca?

Pensava ele na expansão das atividades, quando chegou um mensageiro dos Labac.

Um mensageiro? Por que não um zap, um email, um telefonema? Ainda não entendia bem esse negócio de distinção, mas um mensageiro devia ser muito mais chique. Estava só começando nessa vida de classe média e o melhor que fazia era aprender com os de cima.

Sorriu lisonjeado. Primeiro porque não o esqueceram como chegou a pensar. E depois teria o prazer de não aceitar de volta o emprego porque agora era empresário e os negócios iam muito bem, obrigado. Mas apressou-se em atender porque não se deixa pessoas tão distintas esperando.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

EIS-ME ONDE, TEMPO? >> Paulo Meireles Barguil

Visão que arrebata.

Cheiro que extasia.
 
Voz que (des)congela.

Som que delicia.

Textura que inebria.


[Pedro e João correndo para o túmulo de Cristo - 1898. Eugene Burnand - 1850-1921]



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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

PAU QUE NASCE TORTO OBEDECE QUEM TEM JUÍZO >> Mariana Scherma

Esses dias, virei pra minha mãe e falei “enganei o bobo na casca do ovo”. Na hora parei e pensei “oi?”. De onde eu tirei essa frase de mil novecentos e sei lá quanto?! Como se engana um bobo na casca do ovo? Tira todo o conteúdo do ovo por um furinho e entrega o ovo vazio para a pessoa? Ou só entrega um ovo podre. Nesse caso, a gente entra na questão “por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento”. Existem violas com pão embolorado dentro? Por que justo viola para embalagem? Eu me divirto com esses ditados populares, mas, como jornalista, morro de medo deles por deixarem o texto pobre quando utilizados só pra encher as linhas necessárias. Ah, só pra constar: o Google me avisou que o ditado do ovo tem a ver com a princesa Isabel dizendo ser impossível manter um ovo em pé. E aí toda a corte foi tentar deixar o ovo em pé, até que um sujeito cozinhou ovo antes e conseguiu.

E quando você guarda um segredo às sete chaves? Eu tenho três ou quatro chaves e já me enrolo inteira com elas. Se tivesse sete chaves pra chegar em casa, bem provável que eu dormiria na rua, na calçada ou na portaria do prédio, com muita sorte. Esse ditado também tem a ver com os tesouros da família real portuguesa muito bem guardado, com várias chaves.

Dos ditados populares, alguns me fazer rir e, confesso, solto eles no dia a dia (menos nos meus textos pra não empobrecer, só se for pra fazer uma gracinha). “Onde a vaca vai, o boi vai atrás”, mamis dizia isso pra mim quando era criança e não saia do pé dela. Depois quando virei adolescente e, idem, não saia do pé dele. Adulta, quando estamos juntas, mesma coisa. Onde a vaca vai, a boizinha vai atrás. Adaptamos pra gente. Mamãe também é a rainha da frase pronta: “aquela fulana não caga e não desocupa a moita”. Amo esse com todas as minhas forças porque sempre imagino a fulana fazendo seu número dois na moita. Prisão de ventre é difícil.


Sobre dar segundas chances, Cumpadre Washington já sentenciou: “pau que nasce torto nunca se endireita”. Será? Não é ser muito fechado para as mudanças isso? Ou estaria ele apenas se referindo a um graveto. Até porque não tem como desentortar um. Bom sei lá, só acho mesmo que rir é o melhor remédio e não necessariamente quem ri por último ri melhor, porque rir sempre é bom. Por hoje é só, vou ficar aqui pensando na morte da bezerra (tadinha) e tentando desvendar que cor é cor de burro quando foge.


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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

SUJEITOS >> Carla Dias >>


Fosse acostumado ao mundo, colhendo histórias jogadas ao vento. Mesmo se fosse dos que se aprazem a ver tempo passar, com a paciência de quem entende silêncios. Será que se sentiria assim? Tão acuado diante do universo. Solfejando saudade do desconhecido, demorando o olhar no perder de vista.

Fosse capaz de praticar a vida, sem aprisioná-la em tantos segredos, o que seria de suas máscaras? Quantos atos teria sua existência? Como seguiria com seus inéditos desejos?

“Quem sou?” é pergunta que a resposta insiste em ignorar. Há quem floreie seus dramas com muitas versões de quem é, apenas para ocupar o silêncio que se segue, após tal questionamento. Ele não sabe viver de versões, ainda que seu eu, na necessidade de sobreviver aos infortúnios e confusões, disfarce-se recorrentemente, a fim de sobreviver aos delírios do destino.

É sujeito simples, com emprego honesto, carteira assinada, aluguel em dia. Não lhe falta comida, tampouco diversão. Gosta das gargalhadas que, mesmo diante de tragédias, invadem os recintos. Aprecia a maneira como a felicidade se impõe em dias de comiseração, evitando que a tristeza impregne a existência de outros sujeitos como ele, compreende? Os sujeitos que outros sujeitos chamam “aqueles que veem a vida passar”.

É fato que nunca foi de escolhas radicais. Leva uma vida simples, porque é sujeito simples, e não vê nada de ruim nisso. Conhece sujeitos que se reconheceram mais do que realmente eram e deram de amargar não terem alcançado um objetivo que de fato nunca desejaram. Engoliram mandamentos extraídos de livros de autoajuda e se esbaldaram em palestras motivacionais. Abraçaram rótulos e adotaram metas impossíveis de alcançar.

Entristeceram por não terem se tornado quem nem mesmo queriam ser. Não há nada mais perigoso para uma pessoa do que ela não reconhecer que, mesmo que ela faça tudo para chegar lá, se lá não for o seu lugar, nada feito. Se lá é onde ela não deseja realmente estar, danou-se.

Porém, é sujeito que pensa muito a respeito de tudo. Há certa complexidade em sua simplicidade. Agora, por exemplo, enquanto lida com seu trabalho de sujeito simples, pensa a respeito do que vem ruminando há algum tempo.

Fosse capaz de fazer as malas e cair no mundo, aonde iria? Qual seria o gosto que o conduziria? Pela comida, pela bebida, pelas paisagens? Pelo deslumbramento diante do desconhecido – idioma e cultura –, ou pela necessidade dele?

Em tempos de tecnologia de ponta, ele faz anotações, tem agenda de telefones e endereços, liga para as pessoas. Não é relutância em se entregar à facilidade da comunicação ou à conexão instantânea. Trata-se somente do jeito dele de lidar com as ferramentas oferecidas. Ele gosta de escrever à mão, de folhear páginas em busca de informações necessárias, de escutar a voz do outro, assim, de imediato.

Um sujeito que trabalha na mesma empresa, e há mais tempo que ele, vive a interromper seus pensamentos com comentários salutares sobre manter-se vivo. Veja bem, ele é sujeito simples no trato com a vida, mas isso não significa que seu desejo seja levá-la de forma asséptica, evitando problemas e, claro, experiências.

Evitando a vida.

Sujeito simples que é, fosse acostumado ao mundo, deixaria de se deslumbrar com ele. O que o mantém envolvido pela simplicidade é o respeito que tem pelo o que é oferecido. Movimenta-se de acordo com as experiências que o tocam. Não as evita, mesmo quando agridoces. Mesmo quando elas o ferem.  Questiona-se sobre quem é nesse mundo, mas esse é questionamento que dura até a próxima prosa com um vizinho que encontra na rua, porque esse singelo acontecimento o mudará de alguma forma, então, quem ele é terá se tornado outra coisa; outro alguém.

Sorri para o sujeito a declamar lista de antissépticos naturais, enquanto dividem a cozinha a beberem café de horas atrás.

Fosse capaz de fazer as malas, iria. Acontece que, no momento, permanecer onde está faz todo sentido.

Imagem © Emygdio de Barros

carladias.com

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terça-feira, 25 de outubro de 2016

A TELA BRANCA >> Clara Braga

Esse fim de semana tive um momento muito agradável ao assistir Mário Prata e seu filho Antônio Prata em um bate papo sobre suas crônicas, suas inspirações e os casos pelos quais os dois passaram juntos e separados na Bienal do Livro que está tendo em Brasília.

No momento em que a platéia começou a fazer perguntas, um rapaz questionou os dois sobre o chamado pânico da tela branca, se eles já tinham passado por isso e como resolviam o fato do cronista parecer estar sempre devendo uma crônica, sempre correndo atrás do seu próximo texto.

Muito bem humorados, os dois disseram que não existe no mundo um cronista que não tenha passado por esse pânico, assim como não existe um cronista que não tenha escrito sobre o fato de não saber o que escrever. Isso me deu um alívio e uma angústia ao mesmo tempo, logo pensei: minha vida de cronista ainda é muito curta pra eu já ter tirado essa carta da minha manga, eles usaram esse artifício depois de anos e anos de trabalho, tendo que escrever semanalmente para mais de um jornal, como eu fui me desfazer desse artifício tão cedo? E enquanto eu refletia eles citavam as histórias que conheciam:

Rubem Braga já tinha passado aperto. Luís Fernando Veríssimo com certeza teve no mínimo dois momentos de pânico. Millôr Fernandez já escreveu sobre não saber o que escrever, se você jogar no google deve até encontrar algo. Fernando Sabino parece ter uma história engraçada sobre já ter até pedido emprestado um texto a um outro cronista por não saber o que escrever na sua próxima coluna pro jornal e seu prazo iria expirar em questão de horas. Se todos esses, além dos próprios Mário e Antônio Prata, passaram por isso, podemos concluir que Carlos Drummond, Machado de Assis e Clarice Lispector, por exemplo, também tiveram seus momentos difíceis.

Vai dizer que ler esses nomes todos e poder imaginar uma gotinha de suor descendo pela testa de cada um deles enquanto encaram uma tela ou uma folha em branco não faz você se sentir melhor?

O alívio é fato, o problema é que mesmo não estando mais nervosa, a tela do computador continua branca e eu não conheço nenhum deles bem o suficiente para ligar e pedir uma crônica emprestada!
  


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sábado, 22 de outubro de 2016

A MULHER DAS BANANAS >> Sergio Geia

 
 

Há uma mulher fazendo ginástica; utiliza-se, vez ou outra, desses aparelhos primários instalados pela Prefeitura nas praças da cidade, pra receber especialmente a velha guarda, mas que não discriminam ninguém, principalmente quem queira cuidar da saúde. Enquanto movimenta as pernas cansadas com melodiosa suavidade, come bananas; vejo que o ímpeto de comer bananas é mais forte do que o ímpeto de mover as pernas; tem mais vigor nos músculos mandibulares que trabalham avidamente triturando bananas, do que nos músculos das pernas.
Os cabelos são brancos como guardanapos, fofos como algodão; a epiderme do rosto possui vincos, o olhar meigo esconde o viver de uma vida duradoura. Mesmo longeva na experiência do continuar, e mais cansada do que em outros tempos, ela se dedica com imenso gosto à tarefa diária de fazer exercícios, ao pedalar, à troca constante de aparelhos, ao sorriso com ledice, ao comer de bananas.  
A imagem é doce e me traz a vívida lembrança de minha avó, saudosa Lourença (ou Lourenza, ou Laurença; avó de muitos netos e múltiplos nomes), que ficava horas no muro de sua casa, na Professor Moreira, olhando a saída da gurizada do Colégio Municipal; muitos que ali passavam brincavam com ela, ou diziam “oi, vó, como está a senhora?”, demonstrando sincera preocupação, ou ficavam conversando, trocando algumas palavrinhas, ou a beijavam com carinho.
O quadro que temos até aqui, estimado leitor, esse quadro doce e meigo, é bom e me acolhe com pureza nessa manhã escura; pois espero que o acolha também. No entanto, ele se encerra com essa lembrança macia de minha avó. Se gostou dele, se as imagens lhe fizeram bem, como fizeram a mim, se lhe trouxe aquela calma gostosa de sentir, penso que deva parar por aqui; fique com esse pedaço de doçura, com essa calmaria, e busque agora outra distração, pois o que está por vir, talvez não lhe desperte a mesma qualidade de sentimento.
Sempre termino as atividades com exercícios leves, fazendo-os debaixo de uma árvore generosa que penso se tratar de um pau-brasil, nas proximidades da aparelhagem rústica de que lhe falei há pouco. Pois outro dia, enquanto alongava os braços, esticando-os verticalmente na direção de um estupendo céu primaveril, eis que fui surpreendido pelo arremesso de um estranho objeto amarelo que caiu dentro uma pequena caixa de concreto, por onde passa uma velha fiação, ao pé da grande árvore.
Confesso que fiquei contrariado com desnecessário e estúpido gesto, e vi, com o passar das semanas, que a comedora de bananas tinha o horrendo hábito de atirar as cascas ao relento, na tosca caixa, esquecendo-se de que na praça existem cestos de lixo. Outro dia, porém, me veio à mente uma ideia, feliz ideia, que, de chofre, considerei-a excelente.
Como não gosto de confusão, resolvi simplesmente instalar-me na frente da caixa, usando o espaço para me esticar e, ao mesmo tempo, impedir o voo das cascas de bananas, conduta que teve resultado pra lá de exitoso. Achei que havia resolvido a situação: chego para alongar e, se a vejo triturando bananas, coloco-me à frente da pequena caixa; quando ela vê o indivíduo em seu raio de ação se alongando, ela para um instante o exercício, abandona o aparelho e se dirige calmamente até a lixeira; ponto para o Geia.
Acontece que dia desses, o Geia foi surpreendido no braço por um peteleco grudento; olhou pra trás e viu a mulher com a cara mais amarela que a banana; não resistiu:
“Ora bolas; mas por que a senhora não joga essa coisa no lixo?”
Desconcertada, ela respondeu:
“Mas é lixo”.
Retrucou:
“Isso aqui? Lixo? Não! De jeito nenhum! Lá” — e apontou; “olha lá quantas lixeiras”.
A coisa ficou por isso mesmo; ela não disse mais nada, eu segui o meu caminho. Por sorte, na semana seguinte, a caixa apareceu tampada, e ela, se exercitando sem bananas. Deve ter pensado: “Aquele grosseirão deve ser da Prefeitura; mandou tapar a caixa”. Se pensou, fico feliz, embora nada tenha a ver com o negócio. Mas, se perguntar, vou ratificar: “Sim, sim, mandei fechar”, com a absoluta autoridade de um mandatário supremo.
 


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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A MOÇA NA VARANDA >> Zoraya Cesar

Cristof era poeta. Era romântico. Era solitário. 

Morava numa área pobre e mal afamada. Vivia de bicos, enquanto esperava, cada vez mais em vão, que suas poesias arcadianas fizessem sucesso. Seu maior desespero, porém, era nunca ter vivido uma verdadeira e trágica história de amor. Um poeta, acreditava, que não estivesse prestes a cair do abismo da paixão não era digno desse nome.

Uma fina lua crescente aparecia, ainda menina, em seu primeiro dia de céu. As três horas da manhã chegavam silenciosas como o defunto em seu caixão, e  Cristof se perdia na escura alameda dos desesperançados, recostado à janela do quarto da pensão barata em que vivia.

Ouviu, então, um suspiro fundo, vindo das profundezas de uma caverna de amores desfeitos. Sentiu arrepios, como se asas de aves agourentas roçassem sua pele. Um cheiro enjoativo de rosas pisadas invadiu seus poros, entorpeceu seus sentidos e atraiu-o irresistivelmente para a janela do prédio em frente, de onde viera o som.

Ela era linda, delicada e branca
como uma porcelana biscuit
Linda além das palavras do poeta era a dona do suspiro. Sua tez branca e delicada de biscuit contrastava com longos, pesados e lisos cabelos negros. Parecia frágil e amedrontada. Cristof não conseguiu desviar os olhos e, sem nem mesmo atinar para o que estava acontecendo, mergulhou de paixão. E assim ficaram, ambos silentes, até que, pouco antes do amanhecer, ela sorriu e, fechando a janela, desapareceu. 

Assim que as primeiras luzes da manhã saíram a passear, Cristof foi até o prédio de sua amada, no qual nunca prestara atenção. Era tão velho e degradado quanto os da vizinhança; parecia abandonado, e a portaria estava lacrada.  

Frustrado, voltou à pensão. Havia um envelope vermelho, cheirando a terra revolvida, em seu escaninho. Ao pegá-lo, sentiu ímpetos de rasgá-lo sem ler e sair correndo para longe, para sempre. Mas, no átimo de instante seguinte seu coração apaixonado de poeta calou a voz de sua alma. Ele abriu a carta e leu, sôfrego: 

“Amado. Ainda não sei o seu nome, mas sei que você é meu amor, o herói que vai mudar meu terrível destino. Te espero às 3 da manhã. Não pergunte nada ou nunca mais me verá. Explicarei tudo na hora certa. 
Sua para sempre, Lenore.”

Lá no fundo, sua alma tentou falar algo importante, mas a ideia de viver uma paixão envolta em mistério e perigo subjugou-a e ela se calou.

Ele foi ao encontro. A portaria estava aberta. Na meia escuridão que recendia a velas queimadas, nem o silêncio ouvia os pés de Cristof subindo as escadas rangentes. A porta do apartamento que procurava escancarava-se, deixando à mostra uma sala limpa e parcamente mobiliada. E, ao centro, Lenore, de pé, nua, a esperá-lo. Sem trocar palavras, se amaram até quase o amanhecer.

E assim se repetiu durante seis noites. Embora feliz, Cristof sentia-se adoentado e febril. Não dormia, escrevendo alucinados poemas de amor. Não comia, sonhando acordado com sua amada. Na manhã do sétimo dia, recebeu outra carta:

“Amado, se estiver disposto a tudo para me libertar, hoje eu conto a verdade. Saiba que, se vier, seu caminho é sem volta. Minha vida está em suas mãos. 
Para sempre, Lenore.”

As horas desse dia passaram como que correndo da morte. Cristof chegou à madrugada excitado e exausto. Suas pernas pesavam ao subirem as escadas, mas seu coração estava firme no desejo de salvar sua amada. 

- Você veio! Meu amor! Jura que vai me salvar? De livre e espontânea vontade fará tudo por mim?

A voz de Lenore estava trêmula; os olhos, súplices.

Cristof ajoelhou-se e gritou sim, sim, mil vezes sim, faço tudo por você. Era seu grande momento: poeta e herói.

Obrigada, querido, sussurou Lenore, e levantou um Cristof aturdido com a força de mulher tão miúda. Ela o beijou na boca num tal crescendo de voracidade, que Cristof, assustado, tentou se desvencilhar, mas em vão. Sentia-se cada vez mais fraco, sua energia, percebeu, sendo sugada pelo beijo de Lenore. Ela o largou e seu corpo, já quase sem vida, caiu como uma desconjuntada boneca de trapos.

Cristof não entendia. O apartamento, subitamente, tinha se transformado numa pocilga empoeirada, coberta de mofo e fezes de ratos que ali perambulavam. Não havia móveis, as paredes estavam rachadas. Se tivesse forças, teria gritado de horror. O rosto de Lenore virara uma máscara enrugada cheia de veias negras, e sua pele, antes branco-leite, estava escamosa, gosmenta, fétida. Alucinação?

- Não querido, não é alucinação – disse Lenore (ou quem fosse), lendo seus pensamentos - É a morte. Quando vocês, humanos, morrem, veem as coisas como realmente são. 

Em breve outras criaturas se alimentariam dos restos do corpo de Cristof. Ela não tinha mais nada a ver com isso. Conseguira seu intento, encontrar quem se dispusesse a salvá-la por amor. Trapaceara, claro, mas isso é o que se espera de um demônio.  

Por mais sete dias, durante a lua cheia, o demônio poderia sair do apartamento e passear entre mortais em um corpo encarnado, com sua falsa aparência. Seduziria, mataria, colocaria a perder algumas almas para entregá-las a seu mestre. E, com sorte, faria com que outro tolo caísse nas armadilhas da paixão e, desavisadamente, trocasse a própria vida pela dela.

Lenore saiu, uma linda mulher de pelo branco-leite, longos cabelos negros e delicada como um bicuit.
O diabo não vem de capa vermelha ou chifres pontudos.
Ele se vem como tudo aquilo que você sempre desejou




Foto: pinterest




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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

É JUNTO OU SEPARADO? >> Analu Faria

Ontem, ouvi uma professora doutora  (esses títulos são com letra maiúscula?) confessar que, mesmo com a extensa formação em Letras, não sabia se "sanguessuga" era junto ou separado (essas aspas estão certas?). Contou a história de quando haviam perguntado a ela, como se a coitada fosse um VOLP* ou um dicionário ambulante: "Sanguessuga tem hífen? É separado? Como escreve?"e, diante da resposta: "Não sei", teve que ouvir: "Noooossa mas você é doutoooora em Letras...". 

A professora acabou dizendo que não estava nem aí com isso. Nunca, nunquinha na vida havia precisado ("tinha precisado" não é melhor aqui?) escrever a palavra "sanguessuga" e não se lembrava  de como se escrevia. Não era obrigada.

Eu me senti menos E.T. (será que eu deveria escrever isso por extenso?). Sendo formada em Direito, muita gente me pergunta coisas como: "Qual é o prazo para eu pedir de volta os documentos que deixei lá na imobiliária, daquele meu contrato de aluguel antigo?", "Meu vizinho está construindo um muro maior que o meu, isso pode?" "Roubar doce de criança, assim, de brincadeira, é crime? E se a criança for da minha família?" e sinceramente... eu não sei. Fico com cara de tacho, achando que deveria saber. 

Assim como fiz Direito, também faço uma pós em Letras e reviso textos. Eu não sei se existe cara de tacho suficiente para eu ter, se eu tiver (ai, repeti o verbo!) que saber de todas as leis do Brasil (quiçá do mundo) e todas as palavras (ou as mais comuns) do dicionário e, ainda, todas as regras da gramática padrão (tem hífen isso?). Aliás, nem esse texto eu tô sabendo escrever direito. Acho que vou dormir. Nisso eu sou mestre: já pratico há muito tempo.


*Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

UMA HISTÓRIA QUALQUER >> Carla Dias >>


Norma chegou ao mundo há muitas décadas. Não é das que têm problemas com a idade, mas isso não significa que distribui a informação a troco de nada. Já não bastam as várias vezes em que a burocracia a faz praticamente gritar sua data de nascimento?

- O que disse senhora?
- ... de mil e novecentos e...
- Entendi nada, minha senhora. Pode repetir, de preferência mais alto?
- 2 de julho de 1935.

O que realmente a aflige não é ter oitenta e um anos de idade. É quando isso é declamado em público, em um ambiente com uma quantidade considerável de desconhecidos. Há sempre entre eles alguém que vai desejar se achegar:

- Nossa, mas a senhora está ótima pra idade que tem.
- Quanta sabedoria deve ter acumulado, hein?
- Tenho certeza de que já viu muita coisa nessa vida.
- Seus filhos devem estar orgulhosos de a senhora sair sozinha.

O tempo lhe ofereceu, além de momentos inesquecíveis, para o bem e para o mal, uma artrose de teimosia sem fim. Andar se tornou desconfortável, o que nunca foi motivo para ela abandonar as caminhadas pelo jardim de sua casa, aquele lugar que sempre a faz se sentir mais feliz.

Quanto à autonomia para andar por aí sozinha, essa ela ganhou da solidão mesmo. Nasceu filha única, de família minguada. Não se casou, não teve filhos. Amigos ela tem, mas não é das pessoas mais sociáveis. Assim, vive a dar o cano nas colegas de Chá de Domingo. Essa distância que mantém das pessoas é exatamente o que a mantém desacompanhada em salas de espera. Até aqui, tem se saído bem.

Gosta de piano, desde criança. Os pais não a deixaram estudar música, mas isso não atrapalhou sua paixão e a tornou uma boa ouvinte. Que o digam seus companheiros, Jobim, Mozart e Evans. Aliás, eles detestam televisão. Às vezes, ela quer distrair a cabeça com alguma novela, mas os gatos pulam em seu colo, reclamam o tempo todo, até que, sem condições de acompanhar a trama, ela desliga a tevê e se rende ao desejo deles. Coloca um disco para tocar e senta-se em sua cadeira de balanço, um livro para adoçar o tempo.

Pronto... Jobim, Mozart e Evans se acalmam aos seus pés.

Sua casa está em um ponto muito interessante para o mercado imobiliário. É a casa onde nasceu, cresceu e sabe que irá morrer. Já recusou ofertas tentadoras para vender o lugar. Tentadoras para as colegas de yoga. Ela nunca pensou em aceitar proposta que fosse. Sua história vive com ela nessa casa. Dela sairá somente quando o que lhe restar for o silêncio absoluto. O corpo inerte.

Essa relutância lhe rendeu um grande problema. Um dos interessados alegou que ela estava com problemas sérios de saúde, que sua cabeça estava bagunçada, assim não podia cuidar de si. Por causa dessa conversa fiada no interesse dele pelo terreno, casada à alegação de que ela está velha, Norma tem de fazer acompanhamento com uma psicóloga, a pessoa que se tornou responsável por - uma vez por semana - confirmar se ela é capaz de continuar a levar a vida nos seus termos.

- Como foi a semana, Norma?
- ...
- Você sabe que tem de falar comigo, né?
- ...
- E a saúde?

Norma a deixa falar por ela. Juliana gosta da companhia dela, apesar de seu silêncio. Aos poucos, ficou comum a psicóloga contar mais sobre si. Não tardou até que Norma lhe desse alguns conselhos, porque se há algo que a vida oferece ao atento contemplador é sabedoria. Ela sempre foi atenta à vida.

Norma teve de trocar de psicóloga. Juliana foi definitiva em sua afirmação: se você não conversar e mostrar que está bem, você pode perder sua liberdade. Assim, Norma conta uns causos ao novo psicólogo, um senhor muito simpático, que usa um perfume agradável. Claro que ela conta causos inventados, porque não quer sua intimidade exposta a quem não escolheu se revelar. Causos que a mostrem sã e capaz de fazer suas escolhas. Às vezes, pega alguns emprestados de livros que já leu.

Juliana a visita toda semana. Elas conversam, tomam chá e algo mais forte, no final da tarde. Elas escutam música, enquanto Jobim, Mozart e Evans se revezam aos seus pés. Eles gostam de Juliana. Norma gosta de Juliana.

Sua vida tem sido um emaranhado de acontecimentos contrastantes. Foi feliz por muitas vezes, o que gerou uma série exemplar de boas lembranças que ela adora revisitar. Às vezes, pega-se gargalhando baixinho, como se alguém pudesse escutar esse som sair dela. A tristeza a acometeu com mais frequência do que a felicidade, mas isso ela entende. Ser feliz é trabalhoso. Às vezes, desiste-se de sê-lo no meio da jornada.

Ela contabiliza muitas desistências.

Amou, claro. Mas não teve a sorte de ser amada de volta, o que provavelmente geraria uma história interessante de se contar, até mesmo uma família. Não foi amor da brevidade. Foram décadas sentindo o coração despedaçar-se diariamente. Também não foi amor da distância, que o moço se casou com sua vizinha. Norma passou muito tempo presenciando a felicidade deles, mas nunca desejou que ela acabasse. O amor dela por ele era tanto, que ela preferia vê-lo feliz a ele correr o risco de ser infeliz ao lado dela.

Juliana diz um não choroso, mas depois diz sim, porque sabe que é importante para Norma, que, aliás, está feliz por não ter sido a falta de lucidez o seu algoz. A clareza de sua mente foi resultado de um espírito capaz de perceber as nuances da sua existência, de perseverar nas gentilezas, de esbaldar-se na constatação de que as imperfeições também definem caráter de forma positiva. Não se arrepende da vida que teve, pois viveu cada momento, ele sendo ou não o que ela desejava.

Norma assina o documento e assim Juliana se torna sua herdeira de história: casa, discos e gatos. Nessa noite, ela se sente tranquila como nunca se sentira.

Deita-se em sua cama, pensando que não há o que lhe aflija no momento. A sensação é tão boa, invoca lembranças tão antigas. Há essa saudade imensa de um abraço que se reconhece, como aquele que seus pais lhe davam, várias vezes durante o dia e, muito mais demorado, antes de dormir.

Adormece. Então, silêncio absoluto. Corpo inerte.

Imagem © Albert von Keller

carladias.com



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terça-feira, 18 de outubro de 2016

PELO SÁBADO QUE PASSOU >> Clara Braga

Um dia ele reclamou, disse que não aguentava mais se apegar às pessoas e se decepcionar com elas. As pessoas nunca respondiam positivamente às suas expectativas. Ao mesmo tempo que reclamava, sentia um alívio, tinha achado a solução para o próprio problema: nunca mais iria esperar nada de ninguém, dessa forma não teria como se decepcionar. Ali estava a solução, parecendo tão simples quanto ligar e desligar uma luz. Apego mode on, apego mode off e vamos ser feliz.

Já o outro foi bem direto. Não queria um relacionamento sério, por isso só sairia com a mesma pessoa no máximo três vezes, sendo que um encontro nunca poderia ser na mesma semana do outro. Essas regras pareciam básicas para o não apego. Quem não se apega não se relaciona intimamente, logo ele estava no caminho certo.

Ela ouvia e concordava, queria apenas um P.A., alguém para estar ali no momento certo, resolver os problemas íntimos e ir embora o mais rápido possível.

Não acompanhei de perto o desenrolar da história de cada um, só sei que dois desses três já estão namorando. E então eu me pergunto, e lá existe um jeito de não se apegar, não se envolver com as pessoas? Como você pode saber sobre alguém, se interessar por aquela pessoa, conviver e não se apegar? Caso alguém de fato descubra essa poção mágica, faço um apelo, ensine a fórmula a todos os professores, a profissão seria muito mais fácil se existisse essa história de não se apegar.

Por isso, aproveito essa semana que tivemos o Dia dos Professores para fazer um apelo. Alunos, não nos contem sobre aquele problema que tiveram em casa e depois sumam, nós nos preocupamos com o desenrolar da história. Não chorem em sala e digam que não foi nada, isso dá uma dor no coração! Não deixem de nos avisar quando passarem no vestibular, quando arrumarem um estágio ou um emprego novo, a conquista de vocês é também a conquista do nosso trabalho, estamos sempre interessados em saber. E o mais importante: nunca, jamais, se formem e nos deixem sem notícias. Estamos constantemente imaginando o que foi feito de vocês.

É, apesar de ser uma profissão difícil, assim como muitas outras, os professores não são máquinas, são antes de tudo humanos, têm coração, e merecem todo o respeito do mundo.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MÁGUINO >> Albir José Inácio da Silva

O primeiro telefonema não foi difícil porque era previsto em lei. E Máguino encheu-se de dignidade:

— Senhor! O meu constitucional telefonema, por obséquio!

Sempre achou que os adjetivos devem preceder os substantivos, como no inglês, porque fica mais distinto. E, apesar da angústia , distinção ele ainda mantinha.

Demorou muito, mas veio o telefone e um detetive para fiscalizar-lhe a comunicação. Máguino não tinha o que esconder e foi logo cobrando providências, com intimidade e firmeza próprias de um orgulhoso acadêmico de direito:

— Pedro, venha rápido! Esclarece logo isto, que tá ficando desagradável!

Mas depois de alguns minutos já implorava:

— Dr. Pedro, o senhor disse que era meu amigo! Faz alguma coisa, o senhor conhece tanta gente importante. Se quiser, com um telefonema resolve isso. Diga-lhes de quem é a mercadoria, mostre os documentos.

Há duas horas tinha sido tirado do seio da família, algemado, sob o olhar divertido dos vizinhos invejosos do seu sucesso e rápida ascensão social.

Ao contrário de muitos emergentes que buscam esconder o passado, Máguino contava com orgulho a sua história. Seus planos futuros incluem até ministrar sessões de coaching para inspiração de novos empreendedores. Vinha de baixo, como costumava dizer, mas nunca se conformou com a sorte. A demissão do emprego de muitos anos foi a sacudidela que  precisava para começar as mudanças, e ele não refugou.

Mas, agora, aquele contratempo.

A prisão foi um susto, mas surpresa mesmo era o comportamento do Dr. Pedro Labac. Nem parecia aquela pessoa com quem tinha contratado dias atrás, e de quem tinha ouvido coisas amáveis sobre a sua competência e espírito empreendedor. Logo o Dr. Pedro, que cumprimentava os empregados e tomava cafezinho no refeitório como se fosse uma pessoa comum. Foi uma decepção. Mas o Dr. Simão, o outro irmão e sócio, não lhe ia faltar numa hora dessas.

Sempre gostou mais do Dr. Simão Labac, via naquela sisudez uma dignidade rara. Ao contrário do irmão, ele se mantinha superior, mas nunca o viu maltratar ninguém. Tinha mais postura de chefe. Máguino sempre achou que nos momentos difíceis, de crise, ele era mais atuante. Por mais que ele parecesse ignorar os subalternos, na verdade só mantinha a distância necessária à disciplina e à hierarquia. Ele saberia lidar com aquele mal entendido.

Era simples — tinha ligado para a pessoa errada.

— O senhor já fez a sua constitucional ligação! — ironizou o policial.

— Autoridade, por favor, me escute! O nervosismo me fez ligar pra pessoa errada. Conceda-me a gentileza de mais um telefonema. É só o que eu preciso pra resolver esta confusão. Sou um cidadão de bem, tenho amigos influentes. Se o senhor me ajudar, eu saberei ser reconhecido e generoso.

O policial valorizava, não dizia sim nem não. Máguino se esmerava, dramatizando o drama mesmo com algum prejuízo da verossimilhança. Falou de pobrezas e humilhações, de determinação e conquistas e do sucesso, que poderia ser de todos mas só alguns se esforçam o suficiente.

Nos trinta anos de polícia, o Inspetor Pedrada aprendeu uma coisa: não acreditar em presos, colegas, delegados, secretários de segurança e governadores. Nem amigos e parentes. Nem estranhos. No resto podia confiar, afirmava, embora reconhecesse alguma falha lógica na sua “filosofia”.

Aquele sujeitinho com cara de pobre usava sim camisa e relógio caros, que ele sabia reconhecer porque tinha bom gosto, embora não os comprasse por motivos óbvios. O preso também usava termos jurídicos e expressões metidas a besta, mas daí até ser uma pessoa distinta ia uma distância muito grande. Por outro lado, acostumado a lidar com a bandidagem, sabia que, às vezes, de onde não se espera é que vem.

Salário atrasado, contas vencidas e mulher cobrando pensão, não custava nada arriscar. Trouxe o telefone.


(Continua em 15 dias)


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domingo, 16 de outubro de 2016

TRAGA SEU PRÓPRIO LIVRO, O JOGO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Jogos normalmente criam um ambiente à parte em que os jogadores interagem por alguns minutos ou algumas horas. Mas e quando um jogo pede que os jogadores tragam seus ambientes para a mesa? É o caso do jogo "Traga seu próprio livro" em que cada jogador é convidado a trazer um livro de sua preferência para jogar com ele.

As regras são simples... Cada um com seu livro, todos sentam em círculo. No centro, uma pilha de cartas com assuntos. A cada rodada, uma pessoa será o selecionador. O selecionador pega uma carta e lê o assunto: por exemplo, "Título de um romance de mistério" ou "Um slogan político" ou "Uma frase num biscoito da sorte chinês". Todos, menos o selecionador, começam então a procurar, no livro que trouxeram, um trecho que possa corresponder àquele assunto. Quando um dos jogadores consegue achar algo, avisa a todos. E o selecionador começa a marcar um minuto num relógio ou ampulheta. É o tempo que os demais jogadores têm para terminar de encontrar seu próprio trecho relacionado àquele assunto. Quando o tempo acaba, cada jogador lê seu trecho e o selecionador indica seu trecho favorito, entregando a carta do assunto para o jogador que leu aquele trecho. A carta vale 1 ponto. Começa então uma nova rodada, com o jogador à esquerda do selecionador atual assumindo a função. Cada vez que um jogador ganha três cartas, os jogadores trocam de livro, passando o que têm em mãos para o jogador à esquerda. Vence o jogador que ganhar quatro cartas primeiro. E existem algumas variações dessas regras, que podem ser encontradas no site oficial do jogo.

Esta semana, durante uma aula em uma disciplina chamada "Espaços-tempos e composição humana", experimentamos o jogo numa turma de 30 alunos de Pedagogia. Foram cinco mesas simultâneas, misturando livros dos mais variados gêneros, estilos e tamanhos. Eu adaptei os assuntos das cartas para o tema da disciplina. Eis algumas perguntas e respostas...

"Dona Escola e Seu Currículo se casaram e tiveram um(a) filho(a). Como se chama a criança?"
— Óbvio.
— Boa Sorte.
— Aquelas Pessoas Que Já Eram Obrigadas.
— Amor Que Se Arrisca.
— Criador.

"Qual o lema educacional desta escola? [Imagem de uma escola, diferente para cada mesa de jogo]"
— O êxito atingido pela cooperação.
— Faça o melhor, faremos o resto.
— Os dias aqui duram um minuto.
— Sois belas, mas vazias.
— Eu te ordeno que te sentes.

Entre frases graciosas e reflexivas, rimos e pensamos, fazendo o ambiente original de nossos livros falar de outros assuntos que, a princípio, não tinham conexão.

Então fica a dica lúdico-literária: junte sua turma, levem seus livros, definam seus próprios assuntos e divirtam-se lendo.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CRIANÇA >> Paulo Meireles Barguil


Então, trouxeram-lhe algumas crianças, 
para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas. 
Os discípulos, contudo, os repreendiam. 
Mas Jesus lhes ordenou: 
“Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, 
pois o Reino dos céus pertence aos 
que se tornam semelhantes a elas."
Mateus 19, 13-14

Entre aromas e espinhos, ela cresce.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela brinca.

Entre pedras e abraços, ela floresce.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela sobrevive.

Entre medos e tristezas, ela definha.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela agoniza.

Entre coragens e alegrias, ela ressurge.

Naquele momento os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: 
“Quem é o maior no Reino dos céus?”. 
E Jesus, chamando uma criança, 
colocou-a no meio deles. E disse: 
“Com toda a certeza vos afirmo que, 
se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, 
de modo algum entrareis no Reino dos céus. 
Portanto, todo aquele que se tornar humilde, 
como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus."
Mateus 18, 1-4


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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

BILHÕES >> Carla Dias >>


É assim o mundo. Bilhões de pessoas. Raramente, a maioria está na mesma página do livro da vida. Assim, nascem guerras e grandes ideias. Despertam os menestréis, os sábios, os artistas, os cientistas, os revolucionários... E os genocidas. Ganha espaço o que há de pior, mas também o que se baseia no amor, mas não naquele amor para emplacar comercial de televisão. Amor.

Aprendemos muito, quando nos dispomos a isso. Nós, parte dos bilhões. Há quem coloque bilhões de dinheiros no bolso por conta de uma grande ideia, ou uma ótima lábia. Ainda assim, e amém a isso, não existe quem coloque os bilhões que somos, de uma só vez, no bolso, e a troco do que seja. Isso não significa que não tentem. Diariamente, encontra-se uma forma – fórmula? – de nos manter em um mesmo plano, como se fôssemos bibelôs de colecionador austero. Somos mantidos o mais silentes e ignorantes possível – não se iluda, que seus gritos não estão sendo ouvidos, e as palavras escritas em CAIXA ALTA espantam leitores. Somos úteis quando servis, dóceis, ainda que – e principalmente por – nossa humanidade seja castrada no processo.

Quando nos rebelamos, somos reduzidos às estatísticas, definidos pelo o que não tivemos oportunidade de conquistar, celebrados como estorvo, reunidos em um barracão de termos técnicos – de acordo com o tema recorrente – para o abate. Então, nomeiam-nos “efeito colateral”, ou em termos ditos – erroneamente – poéticos: sacrífico em nome de um bem maior.

Que bem pode ser maior do que a consciência de que somos bilhões, e de que convivermos no mesmo planeta, apesar das nossas diferenças, é uma das coisas mais difíceis e belas dessa vida?

Nós sabemos disso. Nós vivemos isso, e ainda assim, alguns tentam se tornar o dono do mundo. O dono de nós, os bilhões.  

Porém, é assim o mundo. Somos bilhões. Somos parte dessa roda que gira lá com seus mistérios. Não devemos nos esquecer disso, porque acontece. Às vezes nos fechamos em nossos próprios universos e temos a sensação de que somente essa parte do mundo é ele todo. Melhor manter o diálogo para equilibrar as diferenças de pensamento, mesmo cientes de que nem sempre isso será fácil.

A grande sacada está em aceitar que somos bilhões no planeta. Somos mais de duzentos milhões, somente no nosso país. Não há como ser adepto do absolutismo em um mundo onde somos um em bilhões. Lembre-se disso a cada vez que esbravejar “tenho absoluta certeza de que...” ao precisar defender seu ponto de vista. Fazê-lo é de direito e necessário, mas não daquele jeito que não dá espaço ao outro para dizer “acho que não é bem assim...”, e até mesmo mostrar que muitas certezas são bem maleáveis, e que nem sempre é assim.

Então, olhando para o mundo, pensando nessa condição, eu me sinto extasiada com a diversidade de quem divide espaço com bilhões. Diversidade de ideias, de crenças, de culturas, de percepções. Não importa se estou na sala de casa, sozinha. Jamais deixarei de ser uma entre bilhões. Você será sempre um entre bilhões.

Bilhões.

Lembre-se disso sempre que se sentir compelido a se comportar como dono do mundo. Como senhor absoluto da verdade. É que pessoas gritando suas verdades, construídas para unificar o que nasceu para ser plural, não dizem muito, apenas conseguem que suas palavras ecoem em espaços vazios. Precisamos valorizar o fato de que podemos defender as nossas ideologias, conquistamos esse direito, então, devemos respeitá-lo. Porque há entre nós, bilhões de nós, aqueles que ainda não podem fazê-lo.

Imagem © Jozz. Ilustração para capa do livro Estopim, de Carla Dias.



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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

QUEM VIVER, SOFRERÁ >> André Ferrer

Publicidade da Ford (1984)
Outro dia, revelei o desejo de comprar um Escort XR3 conversível. Entre os presentes, que acharam graça naquilo (não, eles riram), estava o meu pai. Seu conselho foi que eu comprasse, também, uma caixa de ferramentas e um bom sortimento de peças (não, ele disse, com todas as letras, que eu ficaria na estrada mais cedo ou mais tarde). Desafiado (sim, eles gargalharam), tomei o exemplo do Fusca e levantei a ideia de que um retorno do XR3 não constituía nenhum disparate. Sim, eu compraria o carro mais cobiçado pelos rapazes da minha geração.

1984 foi o ano das Olimpíadas de Los Angeles e do movimento Diretas Já. Michael Jackson, pela primeira vez, era chamado de Rei do Pop. Airton Senna, garoto propaganda do novo esportivo da Ford (sim, o Escort XR3), estreava nos Grandes Prêmios da Fórmula 1. Em todo o país, as rádios tocavam os enervantes “hits” do grupo Menudo. Eu tinha 11 anos.

Curiosamente, a nostalgia pode ser a grande arma do mercado. Crises econômicas já foram vencidas graças a um tipo de “marketing” preciso e refinado. São estratégias focadas nos indivíduos com maior poder de compra e maior... memória afetiva. Em 2015, por exemplo, nunca se vendeu tantos itens da franquia Star Wars para... cinquentões.

No meu caso, enquanto essa marca não chega, deparo-me cada vez mais com produtos milimetricamente pensados e deliberadamente envoltos naquela aura dos 1980. Referências à época da minha infância pipocam a todo instante. Onipresentes, elas incomodam. Para mim, suas piscadelas têm o mesmo efeito opressivo do “tic-tac” do relógio. Trata-se de um bombardeio e, raramente (como no surto que relatei no primeiro parágrafo), o estímulo é interno e espontâneo. Deste modo, a irritação supera o desejo. Caçoadas ficam minúsculas perto da grande e opressora melancolia.

Fotograma de
Stranger Things (2016)
“Stranger Things”, a famigerada série da Netflix, causou-me isso. Para quem não conhece, trata-se de uma série de terror cheia de referências “oitentistas”. Seus produtores e roteiristas calcularam tais referências de modo a criar um produto atraente para os pais, que viveram os anos de 1980 (e pagam a mensalidade da Netflix), e os filhos, criadores de algo tão geracional quanto o nosso rolê na lanchonete: a maratona de séries.


A nostalgia não é boa coisa para os mais velhos. Pode ser um barato para os mais novos que não viveram e só têm... saudades de coisas lidas e ouvidas. Quanto a nós, o melhor é lembrar com moderação.


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sábado, 8 de outubro de 2016

CLEUSA >> Sergio Geia

Silencioso como uma igreja, invisível como a alma humana, assim é o meu telefone. Às vezes até esqueço que tenho um. Não passo o número para ninguém; quando me pedem para que conste em algum formulário, preciso consultar a agenda. Na verdade, confesso que o instalei meio a contragosto. Não queria um telefone aqui em casa; sucumbi, contudo, à conversa de uma boa vendedora.
Quando liguei, minha intenção era fazer a assinatura de internet e televisão; nada mais. Ocorre que se incluísse no pacote o telefone, a assinatura sairia mais barata. Perguntei duas vezes à garota do outro lado da linha se era isso mesmo que eu tinha entendido: que se incluísse mais um produto na compra, a conta ficaria menor; se, ao contrário, resolvesse não adquirir a linha, pagaria mais. Ela, rindo da minha inocência de camponês, repetiu bem doce que sim: “Isso mesmo, seu Sergio! Um combo! Compensa!”. Se compensa, não sei. Só sei que aceitei o tal combo, e por isso, por esse excelente negócio, estou agora a escrever lamúrias.
Lembro-me que no passado comprar uma linha telefônica era privilégio de poucos. Havia fila, enormes dificuldades, uma burocracia indecorosa; eram anos esperando, e o preço, salgado. Ladinos possuíam linhas, alugavam, o telefone constava da declaração do imposto de renda, tinha valor patrimonial, podia ser penhorado pelo meirinho em caso de dívidas.
Mas enfim, fui até uma loja e comprei um aparelho; de todos os modelos disponíveis, comprei o mais barato. Mesmo sem ter a intenção de utilizar a linha, a moça me disse que deveria ter um quando da visita do técnico.
Voltei pra casa com a sensação de estar cometendo um grave erro, de estar dando abrigo a um inimigo; de que o meu sossego, esse estado sublime do espírito, pudesse estar com os dias contados. Infelizmente, uma sensação que se confirmou na semana passada, quando esse energúmeno não parou de tocar.
Sou homem de poucos amigos. No entanto, julgo que mesmo que se os tivesse aos montes, o telefone ainda assim tocaria pouco. Não há mais tempo para as amizades. A vida corrida, o trabalho em excesso, a família, as atividades curriculares sugam de tal forma a energia humana, que os amigos ficaram para segundo plano. Quando muito, se encontram num bar, uma ou duas vezes ao ano, jogam conversa fora, falam do passado.
De modo que estranhei outro dia, um sábado, o telefone tocar: era de uma operadora de telefonia querendo falar com a Cleusa. Disse muito educadamente que aqui não morava nenhuma Cleusa, que não conhecia nenhuma Cleusa, e que meu telefone era novo, que não podia ter nenhuma Cleusa vinculada a ele. O jovem do outro lado da linha, também bastante educado, pediu desculpas pelo incômodo e desligou.
Dez minutos depois, o telefone voltava a gritar. Atendi, bastante contrariado, e uma moça do outro lado da linha queria falar com a Cleusa. Expliquei outra vez que aqui não tinha nenhuma Cleusa, ainda conseguindo manter a calma, fruto talvez de sessões diárias de meditação transcendental que me determinei a fazer; ressaltei que era a segunda vez que ligavam em menos de vinte minutos; que eu já tinha dito que aqui não existia nenhuma Cleusa, que eles anotassem a informação em algum lugar e não ligassem mais.
Almocei uma quentinha que pedi aqui perto, no Alemão, e no meio do cochilo pós-almoço, eis que me ligam pela terceira vez. Não vou reproduzir ipsis litteris o que disse ao homem da operadora; digo-lhe apenas que pedi a ele que arrumasse uma caneta, uma simples caneta (ele ficou sem entender) e com ela fizesse o que tinha de ser feito: que pegasse o formulário e riscasse o meu número da frente dessa tal de Cleusa. Será que não são capazes de promover uma simples atualização de dados!?
Para o senhor ter uma ideia, o telefone tocou no sábado mais quatorze vezes; não atendi. No domingo, nove. Na semana seguinte, outras quinze, de modo que ando meio desacorçoado com tudo isso, com essa operadora incompetente, incapaz de atualizar um simples dado, e, claro, com essa tal de Cleusa.
Ô Cleusa, mas afinal, quem és tu? O que fizestes para esses que a procuram? Ou: o que não fizestes? E o que eu, um pobre cidadão, honesto, solitário, que vive de escrever crônicas, o que eu fiz à sua pessoa para merecer tamanho castigo, esse endemoninhado que destrói a minha santa paz? Ô Cleusa, seja você quem for, se me lê, dê um jeito nisso, ora bolas! Manifeste-se! Resolva! Depois de quase meio século de existência, graças ao seu descuido, agora ando eu sendo tachado de falacioso!? Talvez pensem que você seja minha parenta, que estou a escondê-la, ou minha mulher, quem sabe?
Olhe só... Pois é, amável leitor, não exagero não. Veja: agora, agorinha mesmo, neste exato momento em que estou terminando de desabafar com o senhor essa minha desesperança, o telefone está aqui a tocar. Tocando, tocando... Ô Cleusa...
“Alô. Sim. Quer falar com quem, amigo? Com a Cleusa? Ah, sim, pois não, é ela!”
 

Ilustração: pt.depositphotos.com


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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

MINHA VIDA COM AMELINHA - PARTE II - Zoraya Cesar


Amelinha fazia o diabo com minha vida. Resolvi mandá-la para casa, o Inferno, que era seu lugar. Embora eu não acredite nessas coisas.

Talvez Amelinha sobrevivesse ao próprio desleixo por muitos anos ainda. Eu é que não aguentaria. Por isso resolvi comprar-lhe uma passagem de ida sem volta dessa vida para outra melhor (se você acredita nisso. Eu, não), inoculando ricina em seus cigarros.

Acho que fui muito corajoso. Afinal, a polícia poderia juntar H2 com O e meus planos irem por água abaixo. Ser preso por assassinato não era meu objetivo. Ver-me livre daquele estrupício, sim. Era isso ou enlouquecer. Acabaria fazendo alguma besteira. Como atirá-la pela janela. Quebrar-lhe a cabeça. Algo assim. (Não foi falta de vontade. Mas sou homem controlado).

Tudo deu certo, no entanto. Não herdei grandes fortunas, apenas uma módica pensão. Meu comportamento após o enterro foi absolutamente low profile. Amelinha não se cuidava e tinha saúde comprometida. Acho que isso tudo contribuiu para afastar suspeitas constrangedoras. Fui deixado em paz. 

Paz. 

Faria qualquer coisa – como realmente fiz – para ficar em paz. (Em paz e com o suficiente para me sustentar e ao meu laboratório. Não sou homem gastador).

Amelinha me perturbava dia e noite, fazendo escândalos, interrompendo meus trabalhos, exigindo sexo, me humilhando e me fazendo de capacho. Só porque sou pobre e tímido. Ela dizia que, por me sustentar, minha vida lhe pertenceria por toda eternidade. Não acredito nessas coisas. Por isso matei-a sem maiores constrangimentos. Nem menores, pra dizer a verdade.

Por mim, Amelinha nunca descansaria em paz, e seu mentor, o Diabo, a atormentaria até o fim dos tempos. Uma pena, mesmo, que essas coisas não existam. 

Reorganizei minha vida. Demiti o molecote que me foi impingido e recontratei D. Lea para me ajudar – online, apenas - nas pesquisas. Queria ficar sozinho. Que me esquecessem! Ficaria entocado em meu laboratório até terminar minha tese – na qual trabalhava exaustivamente. Só então ressurgiria, vitorioso, aclamado, no mundo acadêmico. 

Foram quarenta dias de felicidade até eu começar a sentir como se Amelinha estivesse presente; como se ela fosse irromper a qualquer momento no meu laboratório; como se ouvisse sua voz gritando em meu ouvido. Minhas mãos estavam constantemente trêmulas e eu não conseguia raciocinar. Tinha taquicardia e sobressaltos inexplicáveis. Ao deitar, sentia seu bafo de cachorro morto e poderia jurar que, uma noite, ouvi a cama gemer sob o peso de seu corpo obeso. Poderia jurar, mas não juro, pois não acredito nessas coisas.

Concluí que estava traumatizado. Resolvi tomar calmantes. Funcionou. Por alguns dias.

Pois quem não ficaria nervoso ao encontrar o maço de cigarros que matou sua esposa - um deles, aceso - sobre a mesa?

(O mesmo mata-rato fumado por Amelinha, aquela amante do Demo). 

Eu não fumo. Não tenho cigarros em casa. Não recebo visitas. 

Para piorar, um cheiro nauseabundo, uma mistura de arroto e café velho empesteava a casa, e nem meu asséptico laboratório escapou. O odor me lembrava do gosto da boca de Amelinha, que eu era obrigado a beijar naquelas noites horrendas de sexo.

Tudo na vida tem explicação. E eu pretendia solucionar aquele mistério ensandecedor, que se repetia a cada manhã, em diferentes pontos da casa. Os calmantes não estavam mais surtindo efeito, eu continuava inquieto e doentio. Inútil, portanto, como pesquisador. Minha paz tinha se esvanecido como fumaça ao vento.

Depois de alguns dias nessas condições insanas, injetei-me estimulantes, deixei todas as luzes acesas e passei a noite insone, percorrendo a casa, a ver se flagrava o momento em que o maço e os cigarros apareceriam. 

Amanheceu sem que nada acontecesse. Concluí que Amelinha dera a chave da casa para que alguém a invadisse durante a noite e lá deixasse o maldito cigarro e aspergisse a nefasta substância mal-cheirosa. Parte de seu plano macabro de jamais me deixar em paz. Naturalmente, a tal pessoa viu as luzes acesas e desistiu de entrar. Tudo tem uma explicação lógica. 

Aliviado, fui tomar banho, para relaxar e voltar ao laboratório. Tinha muito tempo a resgatar, meus estudos estavam por demais atrasados. 

Quando voltei à sala, lá estava o cigarro aceso, a fumaça subindo, o odor pestilento mais forte que nunca.

Surtei. Sim, confesso que surtei. Gritei, quebrei coisas, bati a cabeça na parede, me arranhei todo com as unhas. O que queriam que fizesse? Sou um pobre químico, ordeiro e metódico. Ver minha vida de pernas para o ar novamente, depois de anos preso num inferno, foi demais para mim. Para qualquer um, aposto. 

Aquela desgraçada não me deixava em paz quando em vida, por que o faria em morta? Mas eu faria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para não sentir sua presença maligna, nem seu cheiro pútrido - que impregnava até as minhas roupas, meus cabelos, tudo -, para ter minha paz de volta.

E só via uma maneira de me ver livre de Amelinha para sempre. 

Peguei a cartela de cigarros, fumei-os, um por um. 
Mataria Amelinha de novo, no inferno, se preciso fosse. 
Faria qualquer coisa para ficar em paz. Para sempre.
Não tinha dúvidas que estavam repletos de ricina. Mas, para garantir, injetei um pouco mais. Quando descobrirem meu corpo, já estarei em paz.

No vazio para onde vamos depois da morte, espero encontrar sossego. Se encontrar Amelinha, mato-a de novo. Farei qualquer coisa, nessa e na outra vida para me livrar dela. Se é que existe isso.  













imagem: http://www.spyderonlines.com/wallpapers/cool-smoke-wallpaper.html



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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ME ENGANA, QUE EU GOSTO >> Analu Faria

Segundo o Cal Lightman, do seriado 'Lie to me" (em português acho que ficou"Engana-me se puder"), polígrafos não funcionam. Ainda assim, ouvi falar que uma empresa aérea que atuava no Brasil usava a máquina para detectar mentiras de seus candidatos a funcionários.

A razão pela qual Dr. Lightman - um personagem fictício delicioso (debochado, desafiador, sarcástico) - desabona o polígrafo é simples e largamente conhecida, não só na ficção: o equipamento detecta se a pessoa analisada está tensa ou nervosa, mas não por quê. Não é fascinante, isso? Damos às máquinas o poder de saber uma coisa e achamos isso o máximo, mas não as ensinamos a analisar a origem daquilo que ela "sabe". (Bem, isso está mudando um tanto, com coisas como o deep learning, mas, para fins desta humilde crônica, vamos deixar essas coisas high tech de lado). Aí usamos o julgamento de uma máquina, sem qualquer contextualização, como base para algo tão importante quanto a aprovação em um processo seletivo de emprego.

Que sorte a nossa não sermos máquinas! Que bom saber que julgamos sabendo o contexto, pesando as circunstâncias, analisando a origem dos fatos! Que bom não sermos algoritmos! Que bom não cruzarmos um dado aqui e outro ali e acharmos que sabemos tudo sobre algo... ou alguém!

Que beleza as máquinas não entenderem sarcasmo!



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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ATÉ MAIS VER >> Carla Dias >>


Ao Endric, alguém que valeu a pena conhecer

Há coisas que eu não lhe contei. Por exemplo, eu e minha mãe falávamos secretamente sobre você. Bastava surgir seu nome na conversa, e as nossas falas eram as mesmas, não por falta de criatividade, mas por reconhecimento à verdade.

- Mas esse menino, mãe...
- É mesmo...
- Fico feliz de eles serem tão amigos.
- E também... Ele é um menino muito bom.
- É sim...
- O irmão também...
- Sim!

Apreciávamos que o neto de minha mãe, meu sobrinho, tivesse um amigo como você e os outros desse seleto grupo de irmão e primos e primas. Um pequeno grupo de pessoas muito bacanas.

Sabe, eu cresci com sua mãe, sua tia e seus tios. Somos primos, mas também somos irmãos, que é nisso que dá frequentar o mesmo quintal durante a infância, e aprender a perdoar os puxões de cabelo, palavrões e chutes nas canelas.

Sua avó, minha tia, cansou de fazer coalhada para mim, quando eu os visitava e você ainda era um molequinho. Quando não coalhada, manjar. As horas sentadas à mesa, café sempre presente, conversas sobre quem fomos, quem nos tornamos e questionamento sobre aonde iremos parar, bem, isso nós herdamos da nossa família predominantemente feminina. Praticamente tudo se resolvia à mesa, com altas doses de café. Muito disso se estende aos dias de hoje.

As mulheres dessa família são complicadas, dramáticas, mas completamente apaixonadas pelos seus filhos.

Sua mãe, sua tia e eu somos amigas-irmãs. Construímos esse afeto desde o início de nós. Por isso mesmo, os filhos delas, assim como os dos primos, eu considero meus sobrinhos.

Não deu tempo de lhe contar que morro de medo de pombas, porque elas adoram voar em minha direção. Acho sempre que uma delas vai me arrancar um olho. E não é medo de sustinho, não. Falta-me o ar quando estou diante de pombas. Eu travo.

Aposto que você se divertiria com isso.

E nem contei - porque em um dia você estava trabalhando, no outro trabalhando e no outro eu me esqueci - que finalmente fiz uma tatuagem. Depois daquele bate-papo sobre as suas, achei que você gostaria de saber. Eu gostaria de lhe mostrar, porque ficou mesmo bonita, e me traz sim a memória das árvores que viviam aí no fundo do quintal, onde hoje vivem casas e mais casas. Traz-me a lembrança da música da chuva e do vento passando por elas. E doeu muito fazê-la. Mas eu estava acompanhada de uma grande amiga, dessas que, assim como você, faz bem aos seus, quem me deu a tatuagem de presente de aniversário adiantado – sete meses adiantado! –, e ainda bem que o tatuador era agradável aos olhos.

Eu sei que a vida lhe deu alguns fardos para carregar, e os ditos não eram nada leves. E você, tão jovem, seguiu com espírito elevado, sendo amigo e companheiro de muitos, e um pai para sua filha que alguns filhos por aí gostariam de ter. Eu o admiro profundamente por isso. Eu nunca disse, porque eu sou dessas. Eu não digo, escrevo. E se tiver algum membro da minha família lendo esse texto, que fique claro e não se confunda com arrogância: sou péssima em dizer. Eu escrevo.

Não posso negar que você deixou as coisas meio complicadas por aqui. Nunca liguei para você, mas seu número de telefone está na minha agenda de contatos. Vai ficar lá. Mas o que realmente pesa é a ideia de silêncio. Eu adoro silêncio, sou completamente a favor do silêncio, eu diria que necessito de silêncio. Só que não dos que não podem ser quebrados.

Outra coisa... Abraço. Eu me lembro dos abraços demorados que eu lhe dava, e ainda tinha a cara de pau de comentar algo que costuma fazer adulto recebedor de abraço se envergonhar: eu o peguei no colo. Você nem ligava, sorria e ficava lá, disponível para o abraço por quanto tempo fosse. Seu irmão também é assim, seus primos são assim. Nasceram nessa família em que as mulheres abraçam e se perdem nesses abraços e protegem em abraço.

Mas sabe o quê? Eu o peguei no colo. Cada abraço que lhe dei, quando ficou impossível pegá-lo no colo, foi como acalentá-lo novamente. Não há nada que eu respeite mais nesse processo de experiência e passagem de tempo do que observar uma pessoa se transformar. Foi uma experiência muito especial vê-lo se transformar em um homem de alma gentil, pronto para o trabalho, com bom humor, pai dedicado e com uma tendência absurda a cometer gentilezas.

Obrigada.

Sei que, neste momento, é a dor que impera, entre aqueles que o amam. O que fazer com o tempo que parou, com a ausência das palavras ditas e do som das gargalhadas? O que fazer com um futuro sem você nele?

Eu sei: é a vida. Sim, é clichê, mas eu acredito na importância de alguns deles. É a vida, temos de lidar com a sua ausência, o seu silêncio, a sua passagem curta por esse mundo. É a vida, mas nem por isso é tarefa fácil.

Tenho de lhe contar que observei a todos no dia da sua despedida. E em meio a tanta tristeza, percebi que você foi a alegria na vida de muitos. Em tempos confusos como este, a clareza do benquerer o outro é de uma lindeza indecorosa. Foi triste vê-lo partir. Foi lindo ver como você é amado. Foi triste vê-lo partir. Foi lindo ver como aquelas pessoas, familiares e amigos, têm verdadeira admiração por você. Eu me incluo nessa turma.

Sua passagem por esse mundo foi admirável.

Dizem que acabamos nos apegando somente ao que é bom de uma pessoa quando ela se vai. Não nesse caso. Você não é perfeito – também me esqueci de lhe contar que não acredito em perfeição –, o que significa que é humano. Você é um dos meus seres humanos preferidos.

Sempre o achei, como diria alguns das antigas, um boa-praça. E apesar da tristeza que a sua ausência inspira, devo dizer a você o que disse a sua mãe, enfiada em um daqueles abraços sem fim, mas dessa vez acompanhado por um engasgo: não, você não perdeu seu menino. Você teve o privilégio de tê-lo em sua vida por quase vinte e cinco anos.

Sabe o tempo? Ele toma outras proporções, de acordo com o olhar que lançamos a ele.

Também quero dizer que sim...

Sentirei imensamente sua falta, mesmo não tendo lhe contado mais algumas coisas com as quais, tenho certeza, você se divertiria. Naquela mesa de café, lá da sua casa, com minhas primas-irmãs e tia, sua avó, os primos-irmãos e a leva de primos que amo como amo meus sobrinhos, lembraremos de você como a pessoa que ficou no nosso coração e de lá jamais partirá. Uma pessoa que vale a pena conhecer e amar.

Sentirei falta de acalentá-lo em um abraço. De ser acalentada por você.


Eu avisei... Eu não sei dizer. Eu escrevo.

Sei que a foto não é atual ou está nítida. Não está nítida, porque fui eu quem a tirou, sempre fui péssima com fotografias. Gosto da ideia de ele olhar em minha direção, e de que, nessa época, eu ainda conseguia pegá-lo no colo.




Imagem: El somriure de les ales flamejants © Joan Miró



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