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TRAVESSIA >> Carla Dias >>


Houve dia em que não saiu de casa. Calou-se até diante de si. Quis nem saber quem estava do outro lado da porta a cutucar campainha. Esqueceu-se de comer, beber, banhar. Permaneceu naquele mesmo lugar, durante horas.

Esvaziado de desejos e alegorias, varreu de si os ecos das palavras, que durante ávido tempo guardou naquele canto de si que nem tão bem conhecia. Sabia que ele existia, que evitava confrontá-lo. E então, assim, esvaziado, o tal canto se parece com uma cidade vazia.

Como único ser dessa cidade vazia, nesse dia ele se nega a assistir ao telejornal de todos os dias, de escorregar o corpo no sofá e provocar a sensação de conforto, enquanto observa o mundo ruir naquele lá fora. Ri de si ao compreender a proximidade dos eventos, não importa quantos mares se coloquem entre aqui e ali. Lá fora é sempre do outro lado da janela. Esse falseado conforto é uma forma covarde de se manter distante do que o incomoda.

Nesse dia em que não saiu de casa, depois de um vazio abissal ter tomado seu dentro, não recusou cada incômodo que o invadiu. Foi assim que chorou em vários tons e durações, gritou aflições e deleites. Espancou paredes e teve uma longa crise de riso. Foi uma sinfonia de emoções contradizendo aquela cidade vazia que o habitava há algumas horas. Foi uma repatriação do que importa.

O que importa já não se identifica com tudo o que importava antes desse dia. Despertou-se de si mesmo para a vida com o desapego às certezas. Elas não são mais soberanas, as regentes de sua jornada. Percebeu-se disponível para o entendimento com questões que evitava confrontar porque o tempo era curto, a paciência era rasa, o conhecimento de causa era parco.

De acordo com o que no momento o rege, a vida tem matizes, cheiros e cores, e até mesmo o horário comercial carece de pausas. Lá fora não acontece somente em telejornais. Amor não é sentimento nascido exclusivamente para embelezar canções. Sorrisos são rebeldes e nos escapam quando bem entendem. Dor tem a força de desarranjar nosso dentro, mesmo quando é a dor do outro. Jardins colaboram com o olhar. O olhar se espalha pelo mundo. Às vezes, é o olhar que capta. Em outros, é o coração, que mesmo sendo músculo, reina supremo na poesia como símbolo do sentimento.

Há dias em que o melhor é sair de si, dar uma volta por aí e voltar. Quem sabe, mais sábio.

Imagem © Jan Mankes

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Excelente conselho, Carla. Excelente.
Carla Dias disse…
Tentando segui-lo, Zoraya. Juro que estou...

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