sexta-feira, 4 de novembro de 2016

SINAIS DESENCONTRADOS >> Zoraya Cesar

Não sou homem questionador. Aceito os acontecimentos conforme se sucedem e acho que espantar-se com os fatos é para os fracos.

Um eclipse lunar lunar deve ser uma coisa bonita.
Nós não saberíamos dizer, pois a tempestade
 obscureceu o céu. E derrubou telhados.
E provocou blecaute.
 E outras coisas
Tudo começou depois do eclipse lunar – que ninguém pôde ver por causa da tempestade que destelhou casas, derrubou postes, causou blecaute. Somente no dia seguinte pudemos avaliar os estragos e perceber que todos os gatos da vizinhança tinham sumido. Quando nos demos conta que até mesmo os de D. Crisálida, que viviam presos dentro de casa, desapareceram, criamos um acordo tácito de não tocar no assunto, não levar ao noticiário, nada. Até porque os gatos podiam ter sumido, mas os donos continuavam a ouvir seus miados e a encontrar cortinas rasgadas e sofás arranhados.

Não tenho gatos. E, como disse, aceito as coisas como são. Mas confesso que me surpreendi um pouco ao encontrar um bilhete pendurado no espelho do meu banheiro:

Querido, bom dia. Por favor, não se esqueça de trazer pão e leite quando voltar do trabalho.

Moro sozinho. Não tenho namorada. Não como pão e detesto leite. Mesmo assim, achei que seria rude ignorar pedido tão educado e, à noite, levei pão e leite para casa.

No dia seguinte, recebi, pelo correio, uma caixa endereçada a mim, contendo nove latas de tahine e um livro bilíngue de receitas árabes. Havia uma dedicatória no livro

عصديق، شكرا على كل شيء. العناق
وصولي بعد ظهر هذا اليوم
البشير

Tive uma certa dificuldade em traduzir do árabe, mas era algo como:  Amigo, obrigado por tudo. Chegamos essa tarde. Bashir.

Não conheço nenhum Bashir, não estava esperando ninguém e jamais tive contato com qualquer árabe, muito menos a quem houvesse prestado algum favor. Bashir, cujo nome significa “portador de boas novas”, é, certamente, pessoa educada, que agradece um favor supostamente prestado e ainda tem a consideração de avisar sua chegada com antecedência  Aprecio gente assim. Resolvi prestar-lhe uma homenagem e fiz algumas receitas. Ficaram saborosas.

No dia dos Pais recebi um cartão de Oneida, felicitando-me pelo dia, dizendo que me amava muito e que adorara o presente que lhe mandei de aniversário. Dessa vez, não tive como não estranhar, afinal, sou solteirão convicto, fiz vasectomia aos 20 anos e acho que saberia se tivesse uma filha, ainda mais com esse nome. Mas me alegrou saber que Oneida gostara do presente.

Nessa mesma noite, ao deitar, encontrei um bilhete na cama, no qual estava escrito, com letra cuidadosa e precisa:

Prezado Senhor, pedimos incontáveis desculpas pelos inconvenientes. Pode estar certo que estamos envidando todos os esforços para que a situação seja regularizada.

Achei realmente muito gentil da parte do missivista anônimo em tentar esclarecer as coisas.

Não obstante, nos dias seguintes continuei a receber correspondências endereçadas, nominalmente, a mim, mas que não me diziam respeito. Desejei sinceramente que os remetentes não estivessem encrencados por conta de seu engano. Eu nada podia fazer, não havia uma única pista de como encontrá-los e desfazer o engano.

Uma vez, quase saindo para o trabalho, um grande envelope negro foi passado debaixo de minha porta. Parecia terrível, e tive medo de abri-lo. Mas senti medo ainda maior ao pensar em não o fazer, e foi bom que tivesse encontrado coragem. Um personagem auto-intitulado Conde Sânge, dizia que, mais tarde, viria buscar o litro de sangue que eu lhe havia prometido, e pelo qual pagaria regiamente em Leus Romenos. Acrescentou que a oferta só valeria até o amanhecer. Tenho certeza que não fiz esse trato com ninguém, e, embora tivesse muita vontade de conhecer um conde, decidi que seria sensato não voltar para casa àquela noite.

De outra feita, ao sair do banho, recebi um SMS de número privado me instruindo para que usasse uma gravata estampada com melancias e calçasse sapatos roxos. Era isso ou meu primo Krung não voltaria para casa. Não tenho, claro, nem nunca tive, qualquer primo, mas, como, ao abrir o armário, deparei-me com a gravata e os sapatos descritos, achei prudente usá-los. Em algum lugar do mundo, tive a certeza, Krung voltaria para casa. E isso aqueceu meu coração.

Alguns dias depois, ao preparar meu desjejum, encontrei, na caixa de cereais, um bilhete, escrito em papel de arroz azul, com a mesma letra bonita da mensagem que encontrei em minha cama havia algumas noites:


Prezado Senhor, nem sabemos como nos desculpar pelos erros cometidos e pelos problemas que lhe causamos. A tempestade conjugada com o eclipse misturaram diversos canais de comunicação, mas fique certo que essas inconveniências não mais o aborrecerão. Afiançamos que tudo já foi esclarecido junto aos fornecedores e demais clientes.

Achei simpática a mensagem e fiquei feliz em saber que tudo voltaria ao normal, que ninguém saíra prejudicado com aquela confusão. Fiquei mais feliz ainda em ver, horas depois, que todos os gatos voltaram a seus lares.

Declaro, aqui e agora, que, durante os dias seguintes, não encontrei bilhetes na minha cama ou na caixa de cereais, e nenhum pacote foi-me enviado. Só chegavam correspondências cujos remetentes eu conhecia e cujo conteúdo fazia sentido. Admito que todas as mensagens, avisos, SMS que recebi depois que tudo voltou ao normal eram, realmente, para mim.  Inclusive um recado que Tia Magritte deixou na minha caixa postal hoje, ao final da tarde:

Querido afilhado, chego hoje à noite pra te buscar. Esteja pronto, não podemos nos atrasar.

Minha tia Magritte está morta há nove anos. Em todo caso, tendo em vista que tudo voltara ao normal, e que o recado era, realmente, para mim, pus a melhor roupa que encontrei, deitei no sofá e esperei.






foto: Pixabay

Esse conto foi inspirado a partir de um exercício de escrita criativa. A tarefa seria emular um conto. Escolhi um sem nome de Neil Gaiman, cuja referência era apenas 'conto de maio'. Confesso que o resultado ficou muito aquém do que eu gostaria, mas, confesso, também, que foi enormemente divertido escrevê-lo.



Partilhar

8 comentários:

Ana Luzia disse...

Jura mesmo que o resultado ficou aquém do que vc esperava? Eu simplesmente amei!

bjo

Marcio disse...

Zoraya, seu controle sobre o desfecho de seus textos é admirável.
Você consegue prender a atenção do leitor até o fim, quando então premia o seu público com surpresas realmente desconcertantes.

Clarisse Amador disse...

Querida, genial, foi dos contos que mais AMEI!!! Ideia sensacional.

Anônimo disse...

Affe!!! Adorei, surpreendeu!

Anônimo disse...

Acho que foi tão divertido de ler quanto de escrever, possivelmente. Como sempre, tive vontade de rir em alguns trechos e embora eu tenha pensado "que horror" quando li o final, a reação seguinte foi "kkkkk".... Você sempre consegue essa mistura de sensações. Ótimo conto. Bjsssss

albir silva disse...

Já tinha me acostumado com fantasmas raivosos e mal-educados. Mas os seus tinham de ser simpáticos, corteses e bem-humorados. Só pra gente ficar com medo de abrir mensagens e envelopes.

Fenelon das Neves Milhomem disse...

Querida Zoraya, uma excelente noite/dia/manhã (vida, se não nos contactarmos novamente). Estou escrevendo, vejam só, um comentário, em um blog que encontrei aleatoriamente nesse espaço gigantesco e infinito chamado internet.
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pelo belíssimo texto e congratular pelo bom humor e concisão nas suas frases.
Não sei se escreves por hoby ou se possui o devido retorno que merece em suas narrativas, mas gostaria de lhe desejar tudo de bom e que continue a escrever.

Zoraya disse...

Pessoal, muito obrigada, vocês sempre gentis. Fenelon, mil agradecimentos por suas palavras carinhosas. Amém para todos nós!