segunda-feira, 14 de novembro de 2016

MÁGUINO III >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 31/10/16 – Enquanto tentava convencer Pedrada a lhe conceder mais uma ligação para os Labac, Máguino lembrou da vida difícil como motorista, da demissão, do trabalho duro para recomeçar a vida e, claro, do convite dos ex-patrões, que lhe pareceu a redenção depois de tanto sofrimento. A voz do mensageiro soou como música nos ouvidos).

Sorriu lisonjeado. Primeiro porque não o esqueceram como chegou a pensar. E depois, teria o prazer de não aceitar de volta o emprego porque agora era empresário e os negócios iam muito bem, obrigado. Mas apressou-se em atender porque não se deixa pessoas tão distintas esperando.

Mas a alegria estava só começando. Indescritível a sensação de voltar àquele lugar, em que tantas vezes foi humilhado, vestindo roupas de marca, sapato engraxado e usando um relógio igualzinho ao do Dr. Simão
.
Cumprimentou benevolente o porteiro e os funcionários que ia encontrando pelos corredores até as salas da diretoria. Os antigos colegas o olhavam com quase reverência. Ele conseguiu. Bem que dizia, em meios aos esforços pra agradar os patrões, que aquela vida não era para ele. Aí estava. Voltava agora como amigo, como celebridade, respeitado pelos ex-colegas e festejado pelos donos. Mas o que o trazia ali?

- Café ou champagne? – perguntou o Dr. Simão, depois de falar da alegria de tê-lo de volta àquela casa, da sua lealdade no tempo de empregado e do sucesso que, ouviu dizer, Máguino experimentava nos seus negócios.

- Eu vou de champagne, – disse o Dr. Pedro – é tempo de comemoração!

- Queremos falar de negócios, Máguino, de sua participação num contrato nosso que, além de capitalizar sua empresa, ainda pode incluí-lo definitivamente no seleto clube dos bem-sucedidos – acrescentou o Dr. Simão.

- Dr. Simão, tenho me dedicado muito, mas meus negócios são ainda em pequena escala, não sei se estou à altura de...

- Sabemos nós, Máguino! Não escolhemos você à toa. Sobram interessados em participar de nossos empreendimentos, mas era uma questão de reconhecimento. Jamais esquecemos sua lealdade.

- Bem, eu fico lisonjeado, mas ...

- Não se preocupe, Máguino, já providenciamos tudo. Pode se dirigir agora mesmo para o Porto do Rio de Janeiro. Saiba que atrás de atrás de você tem uma estrutura eficiente.

Não houve de fato qualquer dificuldade. Máguino estranhou que os documentos estivessem todos em seu nome, já que conversou com os Labac há poucos minutos. Mas é assim mesmo o mundo informatizado, precisava se acostumar.

Assinou umas notas e foi pra casa, feliz por participar de negócios com aquela gente e pelo dinheiro que era muito bem-vindo. Dinheiro mesmo, estranhou, nem cheque nem depósito. O mundo, de vez em quando, corrigia umas injustiças.

                                                                             A PRISÃO

Sonhava Máguino em sua residência com novos negócios com os Labac quando a polícia federal chegou. Não ouviu direito a leitura do mandado, mas sabe que tinha receptação, contrabando, descaminho e outras coisas de que nunca ouviu falar.

Era um mal-entendido, tentou dizer, mas foi algemado e colocado na caçamba para desespero de Jacira e regozijo dos vizinhos invejosos - ou que tinham sido ludibriados na construção da birosca.

E aqui está o Máguino, sob a vigilância benevolente do Pedrada, tentando ligar para o Dr. Simão. Àquela altura o policial já desconfiava da possibilidade de aquela bondade render alguma coisa, mas gostava de ser bom às vezes e começava a sentir alguma pena do Máguino.

- Interrompa a reunião! É urgente! É caso de vida ou morte! – vociferava Máguino para a secretária do Dr. Simão.

- Mas o Dr. Pedro já falou com o senhor hoje. O que mais o senhor quer?

Percebendo que estava perdido, Máguino mudou de estratégia.
- Diga-lhes, então, que contarei a verdade: de quem é a mercadoria, quem me contratou, quem fez o transporte e com quem está a carga. Acho melhor me ajudarem a esclarecer logo essa situação!

O telefone foi desligado do outro lado da linha, a solidão desceu sobre o nosso empreendedor, e ele pensou na sua Jacira.


(Continua em 15 dias)


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Um comentário:

Zoraya disse...

Albir, pelo amor de Deus, não aguento mais esse suspense! Tá bom demais!