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A OUTRA PARTE DO GRUPO >> Clara Braga

Lembro que na minha época de escola eu adorava fazer trabalho em grupo. Quando o professor falava: o trabalho deverá ser feito em grupos de "tantas" pessoas, meu olho brilhava.

Fazer trabalho em grupo era diversão na certa, significava que a gente tinha a desculpa perfeita para ir para a casa das amigas no fim de semana, brincar de ser spice girl, ouvir música, fofocar, nadar na piscina, fazer festa do pijama e, claro, em algum momento, fazer o trabalho.

Sempre achei melhor estar em grupo do que sozinha. Muito melhor sentar para estudar junto com outras pessoas do que sozinha na mesa do quarto, rezando para acabar logo a matéria e poder ir pra rua brincar!

Hoje em dia as ruas estão vazias e violentas e trabalho em grupo parece sinônimo de ameaça de morte, é quase uma nova técnica de tortura. Você fala que o trabalho é em grupo, já começa logo: mas sempre sobra a parte mais trabalhosa pra mim, ou: eu moro longe, não tenho como encontrar ninguém, ou até: tem certeza que não pode ser individual, eu faço até maior o trabalho se for necessário! 

As pessoas parecem estar desenvolvendo um pânico de estarem com outras pessoas, e ai buscam as piores soluções possíveis, cada um vai pro seu canto, faz sua parte e depois junta tudo.

O resultado não poderia ser diferente, trabalhos sem coerência, com as piores formatações possíveis, com fontes diferentes e alunos que nunca sabem a matéria completa, só parte dela. Mas o que importa é que elas ficaram no conforto de seus lares, na frente do computador, atualizando o facebook enquanto liam sobre o assunto da aula na Wikipedia e fingiam discutir sobre o tema nos grupos de whatsapp. Aliás, liam sobre parte do assunto da aula, afinal, a outra parte não é problema delas, é problema do resto do grupo.

Me pergunto que tipo de adultos serão esses seres, quando forem dividir casa com alguém irão varrer só metade da casa, fazer metade da cama e cozinhar metade do almoço, o resto do almoço é problema da outra parte do grupo.

Comentários

Parabéns, atualíssimo. a liquidez das nossas relações nas escolas e até nas universidades. 'prefiro sozinho(a)', normal ouvir isso no século xxi. antes discutíamos o trabalho, falo anos 90, em grupos de cinco ou seis pessoas, professores 'desesperados' para limitar o número de alunos por grupo, hoje cada um por si. mas sinto que essas ocupações podem ser um sinal de mudança, pode, é um feeling.... torço muito pela consciência cidadã da juventude tomar rumos melhores, e pode estar tomando desde os idos de 2013; dos adultos e políticos que estão no poder do brasil atualmente esqueçamos a maioria, infelizmente... . sua crônica é sucinta mas gera essas reflexões. parabéns, Clara, abç cordial. rafael vespasiano

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