quinta-feira, 24 de novembro de 2016

COMER PRA LEMBRAR >> Mariana Scherma

Era pra ser um almoço rápido e trabalhado no carboidrato: legumes, arroz e purê de batata. Mas foi só dar a primeira garfada que me transportei para o fim da década de 80, criança com pouquíssima memória dessa fase, mas com a memória boa pra comida. Minha mãe sempre fazia purê eu comia com arroz. Repetia. “Tripetia”. O que deveria ser um almoço normalzinho em um dia qualquer da semana fez o maior carinho na alma e me encheu de uma felicidade boba, mas necessária. Na verdade nenhuma felicidade é boba. São esses momentinhos de felicidade boba que enchem o pote da vida. Sorte a minha notar esses detalhes.

Amo comer. Amo um pratão de arroz e feijão bem temperados porque, ah, o cheiro de feijão é muito o cheiro da casa da minha mãe na hora do almoço. Amo o aroma da cebola e do alho sendo refogados porque esse é o cheiro do arroz e, quando o arroz vai para a panela, é porque está chegando a hora de almoçar. Precisa dizer que essa é minha hora preferida? Minha mãe sempre deixa o arroz por último porque a gente gosta mesmo é de “arroz da hora”. A comida da minha mãe é da hora, isso sim.

A única coisa que minha mãe não fazia era café. Eu, com uns cinco anos ou menos, não sei, comecei a fazer minha mãe me levar na vó Ana pra tomar café. Ah, o cheiro do café da vó... Minha mãe cansou de me levar todo dia e começou a fazer café em casa, a vó já foi para outra dimensão, mas ainda hoje, quando raramente passo na rua em que ela morou, sinto cheiro de café. E chego em casa querendo café.

Na estrada, a caminho da casa dos meus pais, tem uma fábrica de suco de laranja. O cheiro nesse pedaço de mundo tem o mesmo cheiro do bolo de laranja da mami. Obviamente que eu respiro bem fundo e engulo um pedaço desse ar. Tô chegando em casa e o apetite vai abrindo. Aliás, meu apetite cansa de comer fora e, em dado momento, o estômago grita: COMIDA CASEIRA. Depois desse apelo, vem o COMIDA DA MÃE.


Mais do que amar comer, eu amo as lembranças que um alimento feito com carinho me desperta. Talvez por isso eu tenha um pouco de pânico de praças de alimentação: muito cheiro misturado, pouca lembrança. Até porque eu como pra lembrar, diferente dos que comem pra viver ou vivem pra comer. Beijo, mãe. Essa é toda pra você.


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Um comentário:

Nahendi disse...

Bela crônica! A comida da minha mãe e da minha avó também têm um cheirinho e um gosto especiais!