terça-feira, 8 de novembro de 2016

GRAÇAS À INTOLERÂNCIA >> Clara Braga

De onde surgiu a tradição do primeiro pedaço do bolo? Aliás, o ato nem deveria ser chamado de tradição, mas sim dilema do primeiro pedaço do bolo. Se eu fosse fazer uma lista de momentos anuais embaraçosos quase inevitáveis, o momento do primeiro pedaço seria um dos primeiros da lista.

A ideia é que o primeiro pedaço vá para uma pessoa especial que esteve ao seu lado durante aquele ano, certo? Bom, não vejo como não dar o primeiro pedaço para meus pais. Mas só eles já são dois, então não resolve a questão do primeiro pedaço. Também não tem como escolher um e deixar o outro com o segundo pedaço, eles sempre são importantes em doses iguais, não tem como dizer que um é o segundo.

O dilema dos pais se expande para a família, não tem como escolher uma tia e não a outra, uma prima e não a outra, uma vó e não a outra, o irmão e não a cunhada. Enfim, nesse momento decidimos que família é família, eles estão acima da questão do primeiro pedaço, portanto, esquece família e faz a brincadeira do primeiro pedaço contando só com amigos.

Ops. Como escolher um amigo e não o outro? Cada um esteve presente em um momento, cada um teve a sua importância, cada um te remete a um momento especial diferente, não tem como dizer que um foi melhor que o outro. Até mesmo porque você não quer criar climão, então mesmo que você consiga escolher um momento mais especial com um amigo, você não vai querer causar discórdia entre eles.

Foi assim que eu resolvi o dilema do primeiro pedaço do bolo e criei minha própria tradição. Se família está fora da brincadeira e você preza pelo bem geral dos seus amigos, faça como eu: o primeiro pedaço do bolo é meu e de mais ninguém, quem quiser que vá até a mesa e se sirva.

Pode soar estranho, até um pouco egoísta talvez, mas nada mais justo do que me homenagear no dia do meu aniversário. E digo mais, ninguém deveria ter que começar o seu novo ano resolvendo um dilema, por isso mesmo que eu, ao invés de resolver um dilema, decidi começar meus últimos anos todos de uma forma bem doce: comendo o primeiro pedaço do meu bolo.

Tudo bem, até confesso que nesse último ano me deu vontade de dar o primeiro pedaço para uma pessoa especial, mas quando estava quase anunciando quem receberia o primeiro pedaço, lembrei que essa pessoa é tão especial que não poderia nem me fazer quebrar a minha tradição particular de comer o meu primeiro pedaço, ele é intolerante a lactose. 


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Um comentário:

Rafael Vespasiano disse...

Muito bom, Clara, dominando legal as crônicas em todas suas vertentes. esta aqui parece uma crônica-piada, mas é muito legal e reflexiva. parabéns mais uma vez