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NAQUELA SALA, EU ENTENDI. >> Carla Dias >>


O mundo entrou em colapso. Ele sabe, ele vê. Assiste a tudo, enquanto a vida segue. Como pode o mundo continuar a girar diante de tantas tragédias? Como pode sua mãe continuar a cozinhar almoço e jantar, sua irmã a se dedicar ao curso de violino, o pai a concluir trabalhos de marcenaria? Como pode sua namorada continuar a se perfumar para ir até ali, visitar amigos? E os amigos? Como pode esse grupo de pessoas tão esclarecidas continuar a sorrir e almejar alegrias?

O mundo entrou em colapso.

Ele vê tudo tão claramente, sem intervalos. Seu coração está aprisionado por essa realidade. É quase insuportável perceber que o padeiro continua a lidar com farinha e fermento, o empresário a detalhar estratégias, o professor a educar. Os dançarinos... Como podem continuar a rodopiar suas coreografias por aí?

Quer que as pessoas enxerguem o caos em que vivem. Não compreende como elas se levantam da cama e saem para as ruas e fazem o que vêm fazendo há tanto tempo. Ele aceita que não há rotina no caos. Por que os outros não aceitam? Por que gastam tempo falando sobre filmes e livros, discutindo desejos indiscretos e tecidos apropriados para vestidos de festa? Por que saem para passear com seus cachorros, trazem filhos ao mundo, cometem o amor deliberadamente?

Não há amor no caos.

O que sabe é que o mundo entrou em colapso. Sabe com essa certeza que derrubou sua teoria de que certezas são flexíveis. Porém, essa certeza é concreta, tem peso, é desmedida. Então, por que ignoram o óbvio e continuam a comprar casas pelo financiamento, a gastar pequenas fortunas para financiar ousadas jornadas? Por que insistem em ir ao cinema, frequentar restaurantes e palestras “de mudar tudo na gente”?

Senta-se diante da vida dessas pessoas e não consegue aceitar a indiferença delas em relação ao mundo que entrou em colapso. Qual a receita para se ignorar algo tão poderoso, que pontua um iminente fim? Seu tio lhe explicou o fim do mundo, certa vez. Disse que ele acabaria diante da indiferença, essa que é das armas mais poderosas para a execução de um fim.

Ele tentou e está consciente disso. Explicou que o mundo entrou em colapso a todos os conhecidos, durante eventos que prometiam outras coisas, como prazer e alegria. Quem pode pensar nisso quando está à beira do abismo? Discutiu fatos importantes, que endossavam sua certeza. A plateia não tem sido muito receptiva, distraindo-se com café fresco e comerciais da televisão.

Como não percebem? Há tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo. Elas comprovam o que ele diz: o mundo entrou em colapso. Política, economia, a violência. Como podem permanecer indiferentes à violência que se alastra por aí?

Senta-se em um sofá de canto, da grande sala de estar da casa de sua mãe. É dia de celebrar mais alguma coisa ou alguém e isso não faz sentido. Porém, tem sido filho presente, desde sempre, e aqui está. As pessoas conversam animadas, comem e bebem e o ignoram. Ninguém quer saber do que realmente importa. O mundo entrou em colapso e elas preferem se empanturrar e dar altas gargalhadas na conta de piadas tolas.

O avô se senta ao seu lado. Esse senhor que cheira à naftalina e perfume cítrico, de cabeça lisa e roupa amarrotada. Esse senhor de mãos trementes e óculos grandes demais para o rosto ossudo. Nunca foram íntimos, raras foram as conversas que tiveram. Ele não se lembra sobre o quê.

- Não entendo como conseguem...
- Nem eu, vô. O mundo por um fio e eles fazem festa...
- Sentem-se felizes tão fácil. E em um mundo que entrou em colapso.
- Pois é! Não deveriam se preocupar com isso?

O avô, com toda a dificuldade que a idade somada à uma saúde precária lhe oferece, ajeita-se no sofá para olhar melhor para o neto. O avô sorri e o neto se sente desconfortável. O avô segura a mão dele, e o neto se sente ainda mais desconfortável. O avô o encara, e ele não consegue desviar o olhar.

- Imagino como estaria o mundo se todos embarcassem nas mazelas dele com completa entrega. Pode imaginar? A vida pontuada pelo caos. Somente pelo caos. Preocupar-se e trabalhar para melhorar o mundo não é render-se ao pior dele. O que essas pessoas fazem é viver com o que têm, tirando da vida o melhor possível. E, acredite, festas de comemoração de sessenta anos de casados contam muito. Eu e sua avó assistimos à tantas infelicidades. Não teríamos sobrevivido até hoje, a essa comemoração, se tivéssemos nos dedicado ao pior do mundo... Ao pior do ser humano.  Ao pior de nós. Porque a indiferença à felicidade e ao prazer, às conquistas cotidianas e às grandes realizações, aos relacionamentos que a vida nos oferece, essa indiferença é letal. Essa indiferença mantém o mundo em colapso.

O avô se levanta, levando o tempo oferecido pela idade e pela saúde precária. Então, junta-se aos outros.

Ele pensa no mundo em colapso, mas dessa vez, também presta atenção às pessoas na sala de estar de sua mãe, e ao prazer que sentem por estarem ali. Seu tio tinha razão. Seu avô tinha razão. A indiferença é letal, porque aponta sempre para um único caminho, ceifa opções.

O mundo entrou em colapso. Ainda assim...

Imagem: Hope ©  George Frederic Watts

Comentários

Nahendi disse…
Que crônica maravilhosa!

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