domingo, 30 de junho de 2013

NÃO É SÓ POR VINTE CENTAVOS. NEM PELO QUILO DO FEIJÃO. >> Sílvia Tibo





Saí pra comprar feijão, apaixonada que sou pela especiaria. No sacolão mais próximo, me deparei com o pacotinho de um quilo por nove reais. Olhei feio pra vendedora, franzi a testa, torci o nariz. E saí, de mãos vazias, revoltada e assustada, como alguém que acabara de sofrer tentativa de furto. 

Disse a mim mesma que a culpa era do dono do negócio, que pretendia extorquir os moradores da região, aproveitando-se do fato de seu estabelecimento ser o único do gênero ali nas redondezas. Até então, a culpa era apenas do proprietário do sacolão, que, em poucos instantes, na minha mente, tornou-se um criminoso da pior espécie. 

Fôlego retomado, dirigi alguns metros até o próximo supermercado, um pouco mais longe de casa, certa de que ali os desejados grãozinhos marrons estariam sendo vendidos por um valor mais justo e razoável. Pra minha surpresa e decepção, o preço era exatamente o mesmo. E a vendedora, dessa vez, me desencorajou a andar até o terceiro mercadinho, dizendo que o aumento tinha sido geral. 

Pensei em ir num outro bairro, a fim de me certificar da veracidade daquela informação, mas o que eu gastaria em gasolina tornaria o produto ainda mais oneroso. Sem falar no tempo que seria perdido no percurso, já que o trânsito era infernal naquele horário. 

Voltei, então, pra casa, com o pacotinho de um quilo de feijão preto, um pouco menos caro que os grãozinhos marrons. Decidi que boicotaria o carioquinha e o jalo, meus preferidos, em sinal de protesto, até que os preços voltassem à normalidade. E assim o fiz. 

Em casa, ainda resmungando comigo mesma, liguei a televisão e as notícias eram idênticas às dos últimos dias. Imagens de milhares de pessoas por ruas do Brasil e do mundo, portando cartazes e bandeiras, com reivindicações diversas, dirigidas aos nossos governantes. E os repórteres, ao menos boa parte deles, repetindo a ladainha de que o movimento havia começado em razão do aumento de vinte centavos na passagem de ônibus na região metropolitana de São Paulo, mas que, agora, não tinha mais uma “causa específica”. 

Ora bolas. Que os protestos começaram na capital paulista, em razão do aumento de vinte centavos no transporte público, todo mundo sabe. Inclusive os abestados repórteres da maior emissora de televisão do país. Mas o que o governo finge não enxergar e a imprensa insiste em tentar camuflar é o fato de que os vinte centavos foram só a gota d’água que faltava pra fazer transbordar o balde de indignação e revolta que há tempos andava cheio, abarrotado por episódios de corrupção e mau uso do dinheiro público.    

Naquele final de tarde, o meu balde (assim como o dos moradores da cidade de São Paulo, na semana anterior) transbordou, logo que me deparei com o preço do pacotinho de feijão, que mais parecia "filet mignon".

Definitivamente, não é só por vinte centavos. Nem pelo quilo do feijão. E, ainda que fosse, tal fato não tornaria menos legítimas as manifestações populares que marcaram as últimas semanas no Brasil, a par, obviamente, dos atos de destruição praticados por delinquentes, que em nada se confundem com aqueles que, empunhando bandeiras e cartazes, dignaram-se a exigir o cumprimento de direitos básicos, assegurados constitucionalmente, mas ainda hoje não implementados de forma satisfatória. 

É, o balde precisava mesmo transbordar. O grito precisava ser exalado. O gigante tinha que acordar. Resta torcer para que, com a vitória da seleção brasileira na Copa das Confederações, ele não volte a hibernar, embalado pela falsa sensação de que, agora, depois de alguns gols, tudo vai bem. 


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quinta-feira, 27 de junho de 2013

SOBRE FAZER PARTE DE UMA NAÇÃO >> Mariana Scherma

Cada vez mais eu acho que as pessoas (sem generalizar, hein!) têm uma preguiça danada de pensar. Como se parar um pouco pra olhar pra dentro de si mesmas e do mundo fosse roubar tempo de... sei lá o quê.  Olhar ao redor e se sentir parte de uma nação não é das coisas mais simples, é sempre mais fácil esquecer em quem votou e pôr a culpa na corja de políticos. Mas aí vieram as manifestações e eu fiquei ainda mais na dúvida sobre esse questionamento em relação ao nosso mundo – ou só ao nosso Brasil mesmo.

Antes de mais nada: não, eu não sou contra a manifestação que encheu as ruas e deu fôlego a nossa democracia bebê, também não vou falar da falta de foco, afinal, não falta foco, o que sobra, na verdade, é problema. Educação precária, excesso de tarifa (cujo dinheiro vai pra onde mesmo?), saúde em colapso, transporte terrível (mas caro) e, na minha opinião, o principal: políticos que se esqueceram de que são representantes do povo e que só estão no Congresso pra resolver problemas próprios, pra ficarem ainda mais ricos – e isso desde que o Brasil é Brasil.

Aí parte dos manifestantes joga a culpa do colapso do nosso tempo na conta do PT e pede impeachment da Dilma. Oi? O que o impeachment resolve, minha gente? Nossos direitos de cidadãos têm sido precários há muito tempo, sem contar que as pessoas deveriam saber que a presidenta não tem todo esse poder onipresente, não. Boa parte dos manifestantes preguiçosos mostra suas placas de “fora, Dilma”, se orgulha de se dizer sem partido, fala muito, mas sem conteúdo coerente. Eu fico um pouco chateada com esse olhar superficial sobre a nossa política (mais uma vez, eu sei que não é a maioria), dando um jeito de parecer que é a Dilma o começo e o fim de todas as nossas mazelas. Essa preguiça de entender tudo o que acontece me deixa com vergonha alheia e não me representa em nenhum momento.

Nossos problemas começam na educação. Uma educação que não ensina ciência política, que não ensina você a enxergar mais fundo, que mal ensina você a interpretar um texto e, mesmo assim, o passa de ano. Talvez venha daí o sucesso das frases de efeito que pipocam no Facebook. Pra que ler um livro página por página se você pode abrir aspas e colocar meia dúzia de palavras da Clarice Lispector pra serem curtidas? E cá entre nós, a nossa educação anda deficitária faz tempo, não foi culpa do governo atual... Nossos problemas não começaram com a construção dos estádios da Copa de 2014. Nossa inimiga, a meu ver, não é a Copa. O Brasil poderia melhorar com a Copa, como aconteceu em países que receberam eventos desse porte. Poderia. Mas aí vem a corrupção, vêm os políticos preocupados em superfaturar e tudo se perde.

Não sei o rumo que todo esse movimento vai tomar, o que vai mudar... Só o tempo dirá quais os resultados que virão dele (a PEC 37 já foi pelo ralo, pelo menos). De um jeito ou de outro, todo mundo acordou mesmo e está se dando conta de que poderia viver num Brasil melhor, ninguém pode mais dizer que futebol é o circo do nosso pão e circo. Agora, falta questionar a culpa do governo atual, aprender como funciona o Congresso, pensar muito sobre as eleições do ano que vem, não endeusar nenhum político (e checar quem ele já apoiou e se já apoiou alguém do nível do Feliciano). Olhar para o nosso passado político é uma forma de evitar erros futuros. O problema é que nem todo mundo quer fazer isso, mais fácil achar um culpado só, pensar numa frase de efeito pra um cartaz e boa. Não é por esse caminho que vamos mudar o país. Afinal, política é das ciências mais complexas, não é simples de entender e deveria muito ser incluída nos currículos escolares. Se isso acontecesse, evitaria esse meu desabafo aqui.


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quarta-feira, 26 de junho de 2013

É PROIBIDO PIRAR >> Carla Dias >>

Ah, mas quê? Nem se apegue ao artefato verbo-vintage. Pirar ainda é uma das coisas que podem ser boas, se aplicada da maneira correta. E então você me diz que não há maneira correta de pirar, e eu concordo. Há apenas a escolha mais justa. Pirar é o tipo de coisa que pode ser boa, quando não pulamos a cerca do limite alheio, e agimos como se lá fosse o quintal da nossa casa.

Mas que isso! Não precisa torcer o nariz ao adjetivo desinibido que é o proibido! Mas também não me venha com clichês de doer olhos e ouvidos, como o proibido é mais gostoso, porque nunca acreditei nisso. Sem contar que mais gostoso é menos bacana (adjetivo-vintage) do que anda se falando em Saramandaia. Sou mais o bastantemente ótimo.

Porque é proibido pirar, meus caros, se a piração tem como alvo o que não deve sê-lo. Esqueçamos aquelas ideias que temos na sala de casa, num domingo chuvoso, quando falar sobre política significa descer o sarrafo no que desconhecemos, e em dois segundos, a conversa se mistura às gargalhadas provocadas pelas pegadinhas em programas de auditório. É preciso reciclar a lista de importâncias que trazemos na consciência.

Quando as exigências são coletivas, são dos cidadãos, é proibido pirar, senão se corre o risco de perder a oportunidade de se fazer a mudança necessária. É preciso conhecer, e muito bem, o que nos proíbe de alcançar o justo, o de direito. Só assim existirá a chance de se mudar o cenário.

Eu sei... Não posso enfiar a mão nessa cumbuca, que não fui para as ruas, não lutei com palavras ou empunhei bandeiras. Mas saibam que sou profundamente grata pela parte cidadã que me toca. E que me comporto da melhor forma possível para fazer a minha parte cidadã na rotina.

Talvez eu esteja completamente enganada. Talvez eu tenha usado a apresentação menos justa. É preciso pirar seria o ideal. Deixemos, então, o proibido para as o estacionar paralelo às guias rebaixadas, para a roubalheira, para a criminalidade. Vamos pirar nas ideias certas, e uma delas figura na minha bandeira oficial, que, aposto, é a da maioria: ensino.

Vamos aprender a aprender para ensinarmos decentemente. Vamos apostar no conhecimento como a ferramenta para que, futuramente, nossos líderes sejam capazes de compreender, em uma simples conversa, que não somos idiotas, e queremos assegurados nossos direitos de cidadão.

Piração? Contemplação...

Então, é melhor continuarmos seguindo.

carladias.com

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terça-feira, 25 de junho de 2013

SENDO CLICHÊ >> Clara Braga

Hoje eu vou ser clichê! Achei melhor avisar, já que não é todo mundo que gosta de ler textos que não necessariamente contam algo novo, mas diante de tantos manifestos, eu não queria ficar de fora do grande grupo de pessoas que tem algo a dizer sobre o assunto.

Percebi que algumas pessoas já estão irritadas com a quantidade de comentários, agora só se fala disso, parece que ninguém tem outro assunto. Mas convenhamos, não é uma delícia abrir o facebook e, ao invés de se deparar com uma enorme quantidade de comentários reclamando da segunda feira, ver uma enorme quantidade de comentários de pessoas que estão ansiosas por lutar por um Brasil melhor? Claro, existem aqueles que vão pela baderna, aqueles que vão sem saber direito porque estão indo, mas independente do motivo, há quanto tempo não se via tanta gente assim nas ruas reivindicando algo?

Outro dia fui almoçar no restaurante do meu trabalho e reparei que todas as pessoas das mesas ao redor discutiam sobre as manifestações e as medidas que a Dilma vem propondo. Tenho certeza que muitos jantares de família também têm sido acompanhados desse tópico. Não é surpreendente? Em época de copa das confederações e com uma novela das 20h bombando, o assunto principal entre todos é: política! Eu acho o máximo, e aproveitei até para aprimorar meus conhecimentos sobre o assunto, já que, como já afirmei várias vezes por aqui, sou uma negação quando o assunto é política!

Vem pra rua!! Esse é o lema, e como eu sou muito obediente, lá fui eu pras ruas de Brasília! Chegando próximo ao congresso, fiz o famoso sinal de vida para atravessar na faixa de pedestres, faixa essa que deixou Brasília famosa por ser um dos lugares onde de fato os carros costumam parar para você atravessar. Os carros de uma faixa pararam e, quando eu comecei a atravessar, lá vinha um carro em alta velocidade do outro lado e passou reto, como se ninguém estivesse atravessando. Dentro do carro havia alguns jovens, todos de branco, prontos para manifestarem e expressando na vestimenta que estavam ali pacificamente, contra violência. Mas parar na faixa ninguém quer né?

Já na manifestação, vi que alguns manifestantes jogavam bombinhas de São João não só na polícia como em outros manifestantes também, mas estavam prontos para xingar a polícia de covardes quando eles retrucavam com bombas de efeito moral, que convenhamos, de moral não tem nada, cada vez que jogavam uma deixavam as pessoas mais irritadas e prontas para um possível confronto.

Vi pessoas apoiando os manifestos, mas quando precisavam pegar seus carros para irem para casa e ficavam presas no trânsito, reclamavam e chamavam os manifestantes de vagabundos, baderneiros, ou até de povo desocupado, que não tinha nada mais importante para fazer da vida. Também detesto trânsito, mas quando é por uma boa causa a gente tem que entender.

Bom, enfim, atos como esses com certeza aconteceram aos montes, não vale a pena ficar citando atos ruins diante de vários importantes, mas o que eu queria mesmo com tudo isso era lembrar daquele trecho fantástico da música do Gabriel o Pensador: muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente, a gente muda o mundo na mudança da mente, e quando a mente muda a gente anda pra frente. Sei que é clichê, bem como eu avisei lá no início, mas verdade seja dita, não adianta querer mudar o Brasil sem mudar a si mesmo. Quer um Brasil com mais educação? Seja mais educado em seus pequenos atos, quer um Brasil com segurança? Cuide das pessoas ao seu redor, quer um Brasil que pense em um melhor futuro para sua população, que seja gentil e que dê oportunidades? Ajude as pessoas que estão próximas de você, dê a elas oportunidade de aprender com você, de errar com você e de crescer com você. E claro, vem pra rua! Ou até fique em casa, mas se informe e se mova!


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sexta-feira, 21 de junho de 2013

A SOMBRA >>Zoraya Cesar

Tudo começou poucos dias antes do casamento. Durante a madrugada, violentas batidas na porta acordaram Cristiano, que, ao espiar pelo olho mágico, nada viu que pudesse provocar tamanho barulho nem fazer a porta tremer de maneira tão forte. Intrigado, pediu para o porteiro subir e averiguar o que estava acontecendo, mas, estranhamente, o empregado nada viu nem ouviu. 

Cristiano voltou para a cama convencido de que se tratava de alguma brincadeira dos amigos, uma espécie de despedida de solteiro, já que ele não quisera fazer nada. Mal pegou no sono, e foi novamente acordado, dessa vez, por gritos altos e estranhos, mais pareciam uivos. Ele nem se deu ao trabalho de chamar o zelador; escancarou a porta, pronto para dar uma lição no engraçadinho, pronto para qualquer coisa, menos para aquilo: à soleira, estava a enorme sombra de um homem, que, ao abrir a boca vazia de dentes, exalou um odor tão fétido, que Cristiano quase desmaiou antes mesmo de fechar a porta com um estrondo. 

Mais uma vez, nem porteiro nem vizinhos viram ou ouviram qualquer coisa, e as câmeras de segurança nada registraram. Trancado em casa, acendeu todas as luzes, aterrorizado. Estaria ficando louco? Logo agora que finalmente conseguira se dar bem na vida?

Se a noite foi um tormento, o dia não foi melhor. Ele via a sombra segui-lo por todo lado, e seu cheiro pútrido causava-lhe náuseas insuportáveis. O pior era fingir convincentemente que seu comportamento estranho era excitação pela proximidade do casamento, principalmente para enganar o patrão, nada menos que o próprio pai da noiva. 

Ao chegar em casa, Cristiano tomou imediatamente um desses calmantes tarja preta. Todas as sombras do mundo podiam derrubar a porta, uivar como lobos enfurecidos, que ele não ouviria, tão profundo o sono causado pelo remédio.

Antes não dormisse. Os pesadelos começaram leves: num, a sombra o sufocava; noutro, arrancava seu coração pela boca; depois, amarrava Cristiano de cabeça para baixo e assava-o... e daí para pior. Ele urrava em seu sono, de puro terror, mas não conseguia acordar, por causa do sonífero. 

Quando o efeito passou, Cristiano despertou, arrasado. Sua cama estava imunda de suor e outros fluidos corporais, e ele jamais se sentiu tão apavorado. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas sabia que tinha de casar com Laura no dia seguinte ou estaria arruinado. Estava com quase 30 anos e não ficaria jovem para sempre. O que é fatal para um homem cujo principal talento consistia em seduzir, adular, trapacear. Foi assim que subiu na empresa e conquistou patrão e filha. Foi assim que convenceu Viviane, tão mais velha e esperta que ele, a sustentá-lo vários anos, só para largá-la cheia de dívidas na primeira oportunidade.  Afinal – esse era o seu lema -, ele não seria jovem para sempre.

O dia anterior ao casamento, Cristiano não saiu de casa, e quando a noite chegou, trazendo o medo junto com ela, Cristiano acendeu todas a luzes, ligou a televisão e o rádio ao mesmo tempo e tomou litros de café, álcool e energético para ficar acordado e evitar os horrendos pesadelos de novo. No entanto, à medida que o tempo passava, sem pesadelos, aparições, sombras, odores putrefatos, nada, Cristiano foi se acalmando. Depois de casar com a chata da Laura, pensou, eu procuro um psiquiatra.

Sem dormir, sem comer e cheio de estimulante nas veias, Cristiano amanheceu arrasado, mas feliz. Convencera-se de que tudo não passara de  fruto de sua imaginação, exaltada com o desenlace promissor de todos os seus planos e artimanhas. 

Foi durante o banho que ele reparou em sua pele, toda marcada por pequenas feridas vermelhas, pontinhos que exsudavam um líquido claro e um tanto viscoso. Deve ser reação àquela química toda que tomei ontem, pensou, vou marcar um dermatologista depois do casamento. E seguiu para a cerimônia civil. 

Os convidados não esconderam o espanto, o pai de Laura não deixou que ele se aproximasse e a noiva começou a chorar, dando gritos histéricos. Todos se afastaram, enojados. Sem nada entender, Cristiano olhou em volta e gritou, ao ver sua imagem num espelho do salão. As pequenas feridas vermelhas tinham se espalhado pelas mãos e rosto, não mais tão pequenas, e, agora abertas, deixavam escorrer livremente o líquido - já mais escuro e fedido -, dando a Cristiano uma aparência de morto em estado de putrefação. 

Casamento desfeito, sem amigos, sem emprego, sem nada, nem mesmo sua aparência sedutora, que tanto lhe valera todos aqueles anos. Nada mais lhe restara, nem mesmo Viviane, que sumira sem deixar vestígios.

Enquanto o mundo de Cristiano ruía, uma mulher, vestida de roxo e amargura, escondida num galpão, afastada de tudo e de todos, costurava um boneco de pano, cujo corpo estava todo perfurado por alfinetes e em cuja cabeça estava colada uma foto de Cristiano. De vez em quando, ela sussurrava estranhas palavras e passava o boneco pela chama de uma vela.

Viviane não era mulher de ser passada para trás e deixar por isso mesmo.



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quinta-feira, 20 de junho de 2013

ME DESCULPEM, MAS VOU FALAR DE AMOR >> Fernanda Pinho



Havíamos combinado de nos casar no mês de setembro, no Brasil. Imaginando que o processo era burocrático, três meses antes começamos a reunir a documentação necessária.  Mas fui muito modesta no que imaginei. A burocracia era muito maior que o esperado, já que ele não é brasileiro e tínhamos o agravante de não estarmos no Brasil. Foi então que alguém deu a ideia e acatamentos imediatamente: vamos ver como faz pra casar aqui no Chile. O plano era simples: se fosse um pouco menos complicado que no Brasil, faríamos um casamento chileno no civil e um casamento brasileiro na igreja. Tudo em setembro. Ainda era junho, tinha que dar tempo.

Se deu. Mais uma vez fomos surpreendidos pela burocracia. No caso, pela falta dela.  E assim começou a história de um casamento que só não foi o mais rápido que eu já vi porque existe Las Vegas (se bem que, eu não conheço ninguém que casou em Las Vegas, então o meu continua sendo o único casamento de supetão que eu já presenciei).

“Por favor, queremos informação sobre como faz pra casar aqui”.
“Preciso de um documento de identidade de cada um”.
“Mas a noiva não é chilena”.
“É a mesma coisa para chilenos e estrangeiros. Apenas um documento de identidade”.

Entregamos os documentos, meio assustados com a facilidade. Assustados por inteiro ficamos com o que veio depois.

“Ótimo, pode ser sábado?”
“Pode ser sábado...o que exatamente?”
“O casamento. Vocês não vieram marcar um casamento? A juíza pode ir na casa de vocês no sábado, pode ser?”
“É...pode”.

A gente se ama. A gente já dividia o mesmo teto mas, nem por isso, foi fácil dizer que podia. Esperávamos sair de lá com, no máximo, um casamento pré-agendado pra dali a três meses. E, vale dizer, até o casamento anteriormente marcado para setembro já estava sendo considerado um pouco precipitado pelas pessoas, digamos, um pouco mais planejadoras que nós.

Mas a gente havia acabado de dizer “sim”. Não O Sim definitivo, mas que “sim, podemos nos casar no sábado”. A gente se casaria de verdade, usaríamos alianças, mudaríamos nosso estado civil na hora de preencher formulários de toda ordem, organizaríamos em três ou quatro dias o que algumas pessoas levam anos organizando e, por fim, assinaríamos aquele documento como quem diz “olha aí, gente, é sério mesmo”.

Eu estava chocada por tudo isso, o que não significa dizer que eu estava exatamente pensado nisso. A verdade é que eu não estava formulando nenhum tipo de pensamento eloquente. Fiz o percurso todo de volta pra casa em silêncio pensando coisas como: “Vou casar. C-A-S-A-R. Sábado é o o meu casamento. C-A-S-A-M-E-N-T-O. Sábado. Eu. Casar. Noiva”.

Só recuperei a compostura mental quando tive que dar a notícia para minha família e o fato de eu ter que explicar me fez entender. “Oi, mãe, tudo bem? O que você vai fazer sábado?”. “Não sei, por que?”. “Porque eu e o Osvaldo vamos nos casar”. Vamos casar porque nos amamos, porque queremos ter nossa casa, começar nossa família, nossa vida, nossa história. Queremos dividir a cama, as contas, as alegrias e as tristezas. Porque queremos ter uma casa com decoração de guitarras e girafas e filhos para presentear com livros e aparatos tecnológicos. Porque queremos ficar juntos por todos os anos e queremos que todos sejam muitos.

E desses muitos, o primeiro já passou. Com o primeiro ano, passou também o choque inicial, o que nos deixa, hoje, muito mais leves e maduros para comemorar que naquele 23 de junho.  Por isso hoje, pelo menos hoje, resolvi deixar de falar de manifestações para fala de amor. Pelo menos hoje, vou esquecer os cartazes e fazer um cartão de coração. Pelo menos hoje, vou dar um tempo num acontecimento que pode mudar a história do meu país, para falar de um acontecimento que mudou minha vida e nada mais. Pelo menos hoje, quero apenas celebrar o ato mais revolucionário da minha vida: o casamento.


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quarta-feira, 19 de junho de 2013

AJUDANDO A ACONTECER >> Carla Dias >>

Há um bom tempo a minha noção sobre arte, artistas e apreciadores de tais, vem sofrendo algumas mudanças. A música e a literatura que mais me apetecem já não são na sua maioria os frequentadores das paradas de sucesso, das listas das mais-mais que pontuam o cenário do marketing ostensivo. Não que eu não deseje sucesso a todos, mas com o olhar da internet ficou muito mais fácil encontrar um punhado de gente fazendo coisas muito boas sem serem alcançados pelos holofotes.

Por incrível que pareça, apesar de o sucesso ser almejado, às vezes eles serem apanhados pela condição frágil de celebridades, a maioria dos artistas quer o que qualquer pessoa, detentora de dotes artísticos ou não, deseja: viver da sua profissão. Porém, o artista trabalha com algo que reflete diretamente no gosto alheio, sendo muito fácil, e infelizmente frequente, sua profissão ser qualificada como supérflua, mesmo um mundo sem a arte nos parecer inconcebível.

Nesse balaio - no qual se misturam os que batalham diariamente para não terem de abandonar o trabalho artístico, as celebridades inventadas, os criadores de obras efêmeras e descartáveis, os gênios das artes, os filósofos da poesia, da música, do cinema, da diversidade cultural que assola o planeta -, há também aqueles que, em um momento de lampejo criativo, compreendem qual caminho seguir para se manterem fieis as suas criações e a si mesmos.

A primeira vez que escutei falar sobre projeto colaborativo, foi bem antes da acessibilidade aos computadores, da internet. Foi em uma conversa informal entre um artista conhecido do grande público – que como muitos artistas da época, sofria com as mudanças da indústria fonográfica - e um dos seus parceiros de composição. Ele não tinha uma gravadora que bancasse seu disco, mas tinha pessoas que apreciavam sua música. Então, ele resolveu receber dessas pessoas, seus fãs, o pagamento antecipado, por um disco que ainda não havia sido gravado. Com esse dinheiro, ele bancou estúdio e confecção dos discos, e os fãs receberam o que desejavam.

Hoje em dia, a internet permite a qualquer um levantar apoio para financiar seus projetos, e em qualquer área. Porém, raramente o projeto se sustenta sem a rede de amigos, fãs, simpatizantes do autor dele. Através de recompensas, os autores permitem que seus colaboradores mergulhem mais fundo no projeto, até mesmo façam parte da realização ou criação dele. É uma relação mais próxima, que poucos conseguem manter com aqueles que apreciam. O próprio livro do Crônica do Dia, o Acaba Não, Mundo, é resultado de um projeto colaborativo.

Para aproveitar essa ferramenta do toma lá dá cá cultural, é preciso pesquisar e criar algo realmente interessante, caso o desejo seja o de ir além dos próprios contatos para a realização de um projeto. É preciso criatividade, bom gosto e abertura para que as recompensas sejam realmente atraentes. Em tempos de mega shows, receber um artista de quem gostamos para uma performance na sala de casa seria impagável, mas pode ser possível, por alguns reais, quando se trata de um projeto colaborativo.

Essa ferramenta faz pela cultura o que a Lei Rouanet deveria fazer, não andasse na contramão. Ela oferece a oportunidade para que projetos originais e criativos ganhem espaço.

Por indicação de um amigo, assisti ao vídeo da palestra de Amanda Palmer, cantora e compositora que aprendeu que saber pedir, ter consciência da razão pela qual seu pedido é atendido, faz grande diferença na vida e na obra de um artista que conta com o apoio de seus fãs para realizar seus projetos. Vale a pena assistir à palestra, que é curtinha, pouco mais de treze minutos, e muito esclarecedora.



E aproveitando o canal, apresento a vocês mais um projeto de um querido amigo e artista que admiro muito:  


Página da campanha de crowdfunding de Kleber Albuquerque:
www.mobilizefb.com/kleber.albuquerque



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domingo, 16 de junho de 2013

DE VOLTA! >> Sílvia Tibo


Engraçado como certos acontecimentos tem o poder de nos afastar da realidade por algum tempo. E interessantes também são os efeitos que essas escapulidas do mundo real são capazes de provocar em nós. 

É como se, por alguns instantes (que podem até durar dias, meses ou anos), nossos espíritos se desligassem dos corpinhos que os tornam visíveis e palpáveis. E assim, livres, leves e soltos, transitassem por um universo íntimo, perfeito e particular, criado por eles próprios, na tentativa de fugir da realidade que os machuca ou, simplesmente, no desejo de experimentar momentos de felicidade pura e plena. 

Quando minha mãe partiu, há alguns poucos anos, essas sensações me acompanharam por um bom tempo. Nas semanas seguintes à partida dela, lembro-me de ter ouvido alguns amigos e parentes dizerem-se impressionados com a suposta força com que eu vinha enfrentando aquela perda tão grande e recente. 

Depois de ouvi-los, eu lhes dirigia sempre um sorriso, ganhava deles um abraço... E me despedia repetindo (na tentativa de confortá-los, mas também a mim mesma) aquela história de que a cruz que nos é dada nunca é maior ou mais pesada do que aquela que podemos suportar. 

E na verdade, a par do vazio que então se abriu à minha frente, como uma espécie de buraco gigantesco e sombrio, que eu necessariamente teria que aprender a desbravar desde então, sem manual de instruções, audio guide ou coisa do tipo, o fato é que, dentro do possível e do razoável, os sentimentos que me acompanharam durante aqueles dias foram realmente de força, de esperança, de superação. De vontade de seguir em frente, apesar de tudo. Lá no fundo, era como se algo me dissesse que o buraco seria momentâneo, passageiro. Como se, dali a pouco, eu viesse a descobrir que tudo não havia passado de um grande pesadelo. 

É claro que, com o passar dos meses, as famigeradas fichinhas caíram. Aliás, despencaram. Assim, todas juntas, de uma só vez. E despencaram aqui, no meu colo, na minha cabeça, no meu coração. Era o fim das “férias da alma”. 

Desde então, não houve um só dia em que eu não tenha desejado novos instantes de “folga espiritual”. Folga da saudade. Folga do vazio. Folga da tristeza que vem da constatação de que o reencontro não está assim tão próximo como se imaginava. Folga da dor que necessariamente acompanha a partida de quem se ama. Retorno àquele universo encantado. Àquele mundinho onde os problemas se dissipam, as dores se escondem, a saudade se esvai. Porque lá, os buracos se preenchem facilmente. Com sorrisos, com presença, com reencontros, o que quase nunca acontece no mundo real.


De tanto desejar, não é que cheguei lá? De novo, me vi naquele universo encantado. Dessa vez, um mundo de flores, de linhas, de mimos, de cores. De corações de papel, de balões soltos no ar. Um mundo de amigos, de família, de gente querida. E de risadas gostosas, de abraços apertados, de beijos inesperados. E de música. E de dança. E de demonstrações de afeto, de palavras de amor, de gestos de carinho explícito e gratuito. 


É. O casamento me levou, sim, a momentos de alegria desmedida, de satisfação plena, de felicidade no sentido mais puro e desejado da palavra. A sensação foi de ter trilhado, de novo, por algumas horas, os belos caminhos percorridos noutros tempos. Aqueles em que a saudade, tímida, pouco ou quase nunca se mostrava, porque sequer havia espaço pra ela. Afinal, eram percursos realizados num mundo de presença, de amor, de contato. Um mundo sem buracos, sem vírgulas, sem espaços em branco. 

De volta à vida real, agradeço a todos os que, com suas boas energias, sua generosidade e seu envolvimento, tornaram possível a reconstrução desse mundinho de sorrisos, de flores, de sons e de cores, que andava distante, por vezes esquecido, mas que ressurgiu com a beleza de outros tempos. E que, a partir de agora, pretendo visitar com frequência. Através dos vídeos, das fotografias, dos detalhes contados pelos que estiveram ali presentes, em sintonia. E das muitas e doces lembranças que a mente e o coração, felizmente, foram capazes de registrar.



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sábado, 15 de junho de 2013

REPERTÓRIO EMOCIONAL [Ana González]

Eu estava sentada na primeira fileira de bancos, bem atrás do motorista. Pouca gente no ônibus. Um som de rádio tocava um som de música sertaneja. Não é comum esse som de rádio em ônibus. Nada que incomodasse.

O caminho conhecido seguia pela janela desenrolando a paisagem urbana e suas personagens. Apesar do dia de céu azul e poucas nuvens, o sol deitava sem muito entusiasmo, sua luz e calor. Naquele horário não havia trânsito. Era o meio de uma manhã no meio de uma semana morna. Tudo estava muito morno.

Mas, aos poucos, o repertório musical começou a aparecer mais do que eu desejaria. Percebi-me acompanhando as letras de tom emocional e subjetivo, de casos de amor: “Pra vc! Pra vc! ... pensei que nunca mais ia te ver!” “ ... bom estar apaixonado por vc! Só vc querer!“ Promessas de alegrias de amor em vozes masculinas intensas.

Incomodava de forma sutil. Me remexi no banco. Comecei a perceber coisas demais. Observava agora todos os movimentos do motorista e escutava sua conversa com o cobrador. Era uma intimidade fraterna. Era um assunto que já havia começado antes de eu entrar. Acredito que a música agradava a ambos.

Estava me sentindo agora só e desamparada, porque o caminho ainda estava ao meio. Na verdade, eu gostaria de poder fugir dali, agorinha mesmo.

Eis que no próximo ponto, o ônibus parou e pegou os passageiros que lá esperavam. Um rapaz forte e bem vestido de terno com gravata subiu e se acomodou perto da entrada, na escada assim que a porta da frente se fechou.

Ele começou uma conversa com o motorista, daquelas sem compromisso, sem nos alongarmos, sem assuntos relevantes. Aquela troca que faz o dia mais contentinho. Daqueles diálogos que são espécie de amostra de cidadania entre pessoas que suportam bem o cotidiano e estão de bem com a vida. Pelo menos naquele dia, naquela hora. Simplesmente irritante.

Então eu ouvi uma frase: “Sabia que essa música faz diferença no ônibus? Boa demais.“, falou ele para o motorista. O som do rádio era motivo de afinidade celebrada!

Cheguei quase ao desespero. Um desconsolo. Tocaiada num canto de mim mesma, com uma infinidade de pensamentos a brigar. Não tenho nada contra qualquer tipo de música sertaneja. Mesmo não sendo minha favorita, gosto muito de Almir Sater e de Renato Teixeira. Inezita Barroso e Rolando Boldrin fazem um trabalho primoroso no cuidado de nossas raízes. Por que então este som agora me incomodava tanto? E eles não paravam de falar.

No fundo, eu me cobrava postura ética ou coisa parecida. Sim, a diversidade existe. Eu tentava uma conversa comigo mesma. A mente se enchera de caminhos insuspeitados, nada mornos, tornando o dia multicolorido. Juntava pensamentos e emoções em uma série pouco organizada.

Finalmente, desci no local de meu destino. Olhei em volta e respirei. Silêncio de ouro. Passarinhos na árvore à minha frente. E, então comecei a rir alto, sem esconder de ninguém uma descontração que na verdade era meio torta. Debochava de mim mesma. Estava literalmente cansada por uma situação emocional sem lógica alguma. Não fui dona de mim mesma e me deixei levar por uma ocorrência totalmente irrelevante, por motivações instintivas e talvez inconscientes.

Bem, arre. Pude repensar a situação da música do rádio, fechando a questão sem muitas delongas. Alívio, sem culpa nenhuma. Sem dar espaço para repertório emocional. Não, essa música que tocava no rádio não cabe no meu mundo. Da próxima vez, se isso acontecer de novo, estarei pronta para trocar de banco ou descer do ônibus se for impossível suportar aquele ou qualquer outro gênero de música que esteja no meu padrão de preferência. Ponto final nesse des-concerto indesejado.

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quinta-feira, 13 de junho de 2013

DÁ PRA GUARDAR NO POTINHO? >> Mariana Scherma

Eu estava esperando o ônibus seguir viagem quando entrou um cara mudo e deixou sua mulher e sua bebezinha no banco. Ele gesticulou muito, beijou a mulher e a nenê com o maior amor do mundo e foi embora. As duas estavam no banco à minha frente e eu fui admirando a menininha. Veja bem, não sou dessas que passaram na fila do instinto maternal, nunca carreguei um bebê na vida por medo de ele começar a chorar pra sempre e nunca passei a mão em barriga de mulher grávida porque acho intromissão demais (pobres grávidas, que ganham carinhos de estranhos e ainda têm que sorrir constrangidas só porque estão barrigudinhas...). Já pensou se esse hábito acontecesse também com homens bebedores de cerveja?

Mas aquela bebezinha chamou minha atenção. Ela sorria demais pra mim e é isso que mais gosto nas crianças: esse sorriso ingênuo e sincero pra uma pessoa que nunca viram antes ou mesmo para o apoio de braço da poltrona do ônibus. Pureza e fofurice em estado bruto. De repente, ela pegou minha mão e apertava, dizia “dada” com eloquência. A mãe da fofura olhou pra trás e eu elogiei sua filhota, foi quando ela me fez sinal e descobri que, assim como o marido, ela também era muda.

Aquilo me emocionou de um jeito diferente. Os pais eram mudos, a filha, uma menininha tagarela falando “dada” e “mama” loucamente. Fiquei pensando como deve ser difícil criar uma filha nessa situação. Criança apronta, como eles vão falar “para”, “sai de cima do sofá”, “só ganha sobremesa se comer o brócolis” e essas coisas de pai e mãe? Ensinar o que é certo e errado é das tarefas que mais tiram o sono dos pais (eu imagino que seja, porque não tenho filhos)... E se você não pode falar e, às vezes, berrar? É claro, a bebê vai crescer falando português e a linguagem dos sinais, aí tudo fica fácil, mas e antes disso?

O que mais me emocionou nessa viagem foi ver a menina inquieta, falando, se remexendo sem parar e, com um abraço e um beijo da mãe, ela já se acalmava. Mágica pura entre mãe e filha. Foi desses momentos que me fizeram questionar tudo o que sempre falei e defendi: “não quero ter filhos, o mundo é ingrato. É muita responsabilidade criar uma criança”. Pra essa mulher no ônibus, seria ainda mais difícil ter e criar uma pessoinha. Mas ela teve. E estava se saindo muito bem na criação, pelo menos durante os quilômetros que dividimos no mesmo ônibus.

Meus olhos já tinham juntado uma poça de lágrimas só de presenciar aquela cena, principalmente quando me lembrei do pouco que sei de Libras e disse à mulher que a filha dela era linda. Ela me sorriu em agradecimento, mas quem tinha que agradecer era eu. Essa poderia ser dessas histórias que deixam a gente comovida e tudo mais, mas a cena terminou com risos. A mulher apontou para o bumbum da nenê e fez sinal de que estava cheirando ruim... A fofura tinha enchido a fralda e, pra entender isso, não é preciso falar português nem Libras ou ouvir, basta respirar bem fundo.

Depois dessa, ainda acho que criar uma criança é a maior aventura e responsabilidade do universo. Ainda acho que não é pra mim... Mas admiro todas as mães que fazem a vida ter esses momentos que nos fazem querer guardar no potinho. A vida é difícil e tão linda, tudo ao mesmo tempo.


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

APAIXONAMENTO >> Carla Dias >>

Apaixonou-se por ela, antes mesmo de conhecê-la, como no poema de Vinícius de Moraes: “eu te peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”.  Apaixonou-se por todas as qualidades que lhe atraiam, pela certeza de que eles coexistiam com os defeitos, que era para condimentar a pessoa construída por isso e aquilo, encontrando o equilíbrio onde?

Por algum tempo, foi nos pés da acrobata.

Seu olhar fora atraído pela capacidade dela de equilibrar-se graciosamente sobre uma linha. Depois, pela sua habilidade em jogar-se ao ar, agarrando-se com destreza em trapézios. Sem contar que era impossível desviar o olhar enquanto ela dançava. Tudo nela fluía belamente, seus gestos eram como fragmentos de uma coreografia de sutilezas. Porém, bastou algum tempo de convivência para que ele compreendesse que uma bela figura nem sempre abriga uma boa pessoa.

Por algum tempo, sentiu-se traído pela vida, desapontado consigo por ter acreditado que seus olhos realmente haviam alcançado a essência da acrobata, mas que alcançaram mesmo a sua capacidade de matar a fome da alma com uma graciosidade interpretada.

Para um capturador de imagens, um colecionador de fascínios, o coração partido dói de uma maneira muito mais profunda. Os amigos o acham dramático demais, que é uma bobagem sofrer por ter sido enganado pelo olhar. Mas para ele, o olhar não é apenas um fisgador de atrativos. Seu olhar já mergulhou em miséria, já marejou de tristeza, já colecionou momentos que não podem ser repetidos. O olhar que lhe cabe não é oriundo de uma criação moldada aos atributos cuspidos pelas capas de revistas de moda. O seu olhar é um compartilhador de cenas capazes de contar uma história, como aquela que surrupiou anteontem, que tinha a cidade como cenário, o sol se (im)pondo à carcaça de um prédio em construção.

 Apaixonou-se por ela aos poucos, como se o amor fosse tecido pelo destino desprovido de pressa. Até reconhecer esse amor, trafegou pelas paixões provisórias, enamorou-se por possibilidades de dar certo, arranhou as paredes frias do desapontamento. E o tempo, que não se preocupa com quanto tempo se leva para se reconhecer o amor, beijou-lhe as faces, levou-o adiante, até onde a memória passa a ser menos acessada, porque é preciso viver o agora.

Apaixonou-se por ela em um passado de sonhos viris e desbravadores, quando quase tudo era possível. Hoje, experiente nos desmandos e nas importâncias, sacudido pela vida de tantas formas, o olhar ainda capaz de contar histórias, reconhece tal amor nesse agora mesmo, quando o olhar dela acarinha o horizonte, e se trança ao dele bem mais adiante.

Não faz ideia de há quanto tempo ela está ali, sentada ao seu lado, pertencendo ao seu momento. Não a esperava em banco de parque, e sim em algum cenário e momento retumbantes. Mas ela sorri, e aquele sorriso é um pelo qual ele se apaixonou sem ainda tê-lo recebido. E assim, silenciosamente, depois de tantos desmandos na sua busca pelo amor, ele a reconhece, como se reconhecesse uma companhia constante. E compreende que ali o seu olhar encontrará a sua própria história. E ele a contará.

Imagem: Ale Frata - alefrata.com.br



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terça-feira, 11 de junho de 2013

FICA A DICA >> Clara Braga

Eis que chega mais um dia dos namorados!! Ahhh, o amor está no ar! Mesmo você não tendo um namorado ou namorada, é difícil ficar indiferente a esse dia, afinal, jornais noticiam, programas falam sobre formas de surpreender seu parceiro ou parceira, vitrines dos shoppings sugerem diversos presentes e no seu trabalho ou sala de aula, alguém vai receber um buquê de flores.

Ninguém gosta de confessar certas coisas, mas vai dizer que não bate aquela invejinha quando alguém do seu trabalho é surpreendido com flores ou caixa de bombom? Só não dá inveja quando é carro de som, ai sim você respira aliviado por não ter sido com você! Ninguém merece carro de som...

Ano passado o dia dos namorados caiu em uma terça-feira, e lá estava eu escrevendo minha crônica e desejando um feliz dia dos namorados para todos, independente de terem ou não um namorado! Lembro que eu comentei da quantidade de críticas que eu li sobre o dia no facebook, diferente desse ano, que ainda não vi nenhum comentário sobre, só não sei se não vi os comentários porque eu tenho entrado muito menos no facebook ou se porque as pessoas que não tem namorado ou namorada resolveram encarar esse dia como um outro qualquer e não criticar.

Lembro-me também que depois de ler minha crônica, um colega meu veio conversar comigo e dizer que era fácil para mim, que tenho namorado, não reclamar da data, o difícil é ser solteiro nesse dia! E é por isso que esse ano, um dia antes do dia dos namorados, eu venho aqui dar uma dica para aquelas pessoas que, assim como esse colega meu, ficam um pouco cabisbaixos na data!

Essa dica eu recebi de uma professora que me deu aula no ensino fundamental. Ela era professora de inglês e, no dia dos namorados, contou para a gente que nos EUA o dia dos namorados é comemorado em fevereiro, é o tal do valentine's day. Só que o valentine para eles não é apenas namorado ou namorada, mas sim uma pessoa por quem você tenha muito carinho, uma pessoa que você goste muito. Depois de explicar isso, ela entregou um papel em forma de coração e falou para a gente escrever uma cartinha para uma pessoa que faça diferença na nossa vida, independente de ser ou não nosso namorado ou namorada.

Achei muito legal a atitude, até porque eu não tinha namorado, mas mandei um bilhetinho e recebi um outro de uma amiga, diminuindo a tal invejinha que sentimos daqueles que naturalmente já receberiam um. Então a dica é essa, se você está triste com a aproximação da data, já pense em uma pessoa querida e faça seu cartão, quem sabe você não recebe um de volta? Fazer com que a data seja especial só depende de nós! Feliz dia dos namorados a todos!


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segunda-feira, 10 de junho de 2013

MILHARES DE PUTOS >> André Ferrer

Ainda que premida entre a espuma de um fone e o tímpano, a música é livre, alforriada dos esforços mentais do ouvinte. O texto, no entanto, carece da prisão dos olhos e do labor cerebral. Essa diferença cruel - e tão capaz de transformar livros em recantos indevassáveis - tem me incomodado. Quisera que o conteúdo dos livros vagabundeasse no ar como a música!

A ideia - vai - nem é tão absurda assim. Este mundo está cheio de gente crédula. Na internet, por exemplo. Textos, fotos e vídeos sobre conspirações. Todo aquele material a respeito de experiências metafísicas e abdutivas. Os iluminati. O G12. O projeto HAARP. Enfim. Por que o meu desejo seria tão absurdo?!

Há muita esperança nas facilidades tecnológicas eu sei. Mas não é o meu caso. Para mim está bom como está. Enquanto nenhum ET aparece aqui na minha rua, o melhor a fazer é lamentar tanta credulidade e preguiça mental. Evidentemente, também é preciso rir - e muito - diante do vaudeville.

Para mim, como está, ficaria. Venço qualquer barreira para ler um livro até a última página. Sou, na verdade, impaciente com os outros. Penso em quem me incomoda todos os dias porque não lê. Ora, como não posso me livrar deles, eu gostaria que se livrassem eles da preguiça. Imagino-os lendo muito e com variedade. Imagino-os dotados de bom senso, educação e cultura.

Mas a tecnologia, pelo menos neste mundo, ainda não resolveu tal estorvo. Quem sabe em outros mundos haja uma plataforma ideal para a literatura. Algo que seja tão penetrante como a mais frívola das músicas terráqueas. Algo capaz de exterminar a preguiça mental e a credulidade prestes a dominar este mundo.

Quem sabe essa tecnologia seja conhecida por uma daquelas quatro espécies alienígenas que, segundo Hellyer, vivem completamente ocultas entre nós! Hellyer, sim, Paul Hellyer. Curiosamente, um ex-ministro da Defesa do Canadá que, agora, escreve livros para completar a renda. Livros a respeito das relações entre os extraterrestres e os homens mais poderosos do nosso planeta.

Aliás, quanto ganha um ex-ministro naquele país? Li outro dia que os políticos ganham muito pouco em lugares megacivilizados como a Suécia. Deve ser pouco, também, no Canadá. E ainda menos no caso de ministros aposentados. Ora, para um deles ter se tornado uma mistura de literato chapa-branca e Eric Von Däniken!

Hellyer é um sujeito de sorte. Vive em um mundo crédulo. Só que Hellyer não traz muitas novidades ufológicas. Quando fala, dá voltas em torno da velha dobradinha EUA-Pentágono-Conspiração. O que há de mais novo é que se trata de um ex-estadista. Mais ou menos como se o Sarney aposentasse (amém!) e começasse a escrever sobre a vida sexual dos botos maranhenses. “Mais ou menos”, é necessário frisar, pois no Brasil, ex-ministro escreve por diletantismo. Não precisa de um só puto mensal de editora porque recebe milhares de putos de aposentadoria.




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domingo, 9 de junho de 2013

O ESCRITÓRIO >> Whisner Fraga

De algumas histórias, apreendemos somente a metade ou menos ainda, apenas flashes, trechos que nos interessam. Perdemos a noção do resto, não temos ideia de onde queriam chegar com a narrativa. A trama está truncada em nossa cabeça. Tenho um arsenal de excertos em minha memória e ora o utilizo em alguns contos, ora o abandono, esperando um roteiro em que se encaixe. Vários destes episódios tiveram origem nas rodas familiares, nas noites de domingos modorrentos em que visitávamos meu avô ou em um fio de conversa que os adultos deixavam escapar até nossos ouvidos. Uma dessas passagens, sem início e sem fim, narro a seguir.

Meu pai, como tantos outros de sua geração, começou a trabalhar cedo. A família pobre precisava dos cobres a mais que levava para o lar: deixava o dízimo no chapéu de meu avô todo início de mês. Assim, unia o útil ao agradável: ia fugindo da escola chata e amealhando os trocados para o cinema e para as paqueras do final de semana. Isso quando tinha seus quinze, dezesseis anos, embora eu desconfie que tenha começado na labuta um pouco antes. Nessa época, fazia o papel de office boy em um escritório de contabilidade.

Havia três secretárias. Uma delas lindíssima, outra, que não era de se jogar fora e a terceira, que ficaria para titia. Dois moleques, meu pai um deles, sonhavam com uma bicicleta enquanto corriam aos bancos da cidade, a pagar contas e a enfrentar filas. Sempre se encontravam no extinto Bemge para matar um pouco do tempo, porque ninguém era de ferro nem mesmo naquela época. Bebiam um refrigerante quando era início de mês, pois ainda podiam se dar ao luxo e falavam sobre as meninas do escritório.

Pois bem, eles eram, como de resto todo adolescente é, peraltas. Combinaram de ficar um pouco depois do expediente, naquele dia, para uma ação inadiável. Havia um único banheiro em todo o primeiro andar do prédio e era utilizado por todos os funcionários. A parte de trás dava para um terreno vazio, tomado pelo mato e pelo lixo que a vizinhança depositava por lá. Por algum conluio entre um péssimo arquiteto e um construtor pão-duro, o vaso ficava bem em frente ao terreno, de modo que os meninos concluíram que um buraco naquela parede lhes forneceria um bom ângulo para espreitar as secretárias. Aquele dia furaram a parede e testaram o ângulo de visão. A coisa ficara melhor do que a encomenda.

No outro dia, foram à feira e trouxeram, para surpresa de toda a repartição, três duzias de laranja. Foi uma festa. Eles se desculparam, não, não queriam chupar não, já haviam feito isso nas barraquinhas. Podiam se esbaldar. E se retiraram, dali a pouco, para o quintal ao lado. Foi uma festa, evidentemente. Se pudessem descolar uma câmera fotográfica, teriam registrado o momento. Aliás, os momentos, porque o banheiro ficou movimentado naquele dia.

Eu sei que houve uma esperta que desconfiou daquele buraco e viu algum olho frenético por trás da parede, mas não sei os detalhes. Parece que foram demitidos, o que não era nenhum drama, pois emprego como aquele havia aos montes na cidade. Mas não sei, posso estar especulando, misturando essa história com outra, inventando, concluindo. Não sei mesmo. Mas que essa parte de descobrirem a cor das calcinhas das meninas foi um sucesso, ah, foi sim.

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

CONDOMÍNIO >> Zoraya Cesar

Engraçado como seres civilizados podem se transformar em monstros irracionais quando se trata de reunião de condomínio. Engraçado, também, como estes seres, que chegam quase às vias de fato contra o vizinho, no dia seguinte estão conversando amigavelmente sobre o futebol, a carestia, o tempo lá fora.

O que não é engraçado são os pensamentos escondidos atrás de toda essa fachada. Porque, terminada a reunião, há mágoas que não se apagam junto com as luzes. A verdade, Leitores Amigos, é que todos temos duas caras, e você pode até conhecer a sua própria face oculta, mas nunca imagina que a do vizinho pode ser ainda mais feia.  

D. Julinha iria morrer sem entender por que pessoas – algumas – tão inteligentes votavam seguidamente em D. Glória para síndica. A mulher era uma imprestável, o condomínio estava sempre no vermelho e não havia taxa extra que desse jeito. No entanto, como ela era um tanto quanto rude, muitos achavam que ela tinha pulso forte para levar o condomínio adiante. Levar abaixo, isso sim, resmungava muito internamente D. Julinha, pois tais considerações pouco abonadoras a doce e respeitável velhinha do 8º andar guardava-as para si mesma, discretíssima que era.  

Eu disse que D. Julinha iria morrer sem entender? Talvez, um dia. Mas certamente depois de D. Glória, que foi encontrada pelo faxineiro, às 6 horas da manhã, morta, dura e roxa, caída nos degraus da escada. 

Imediatamente, afazeres importantíssimos e inadiáveis cederam lugar a tantas especulações, conversas e sussurros que, antes mesmo de a polícia chegar, o condomínio inteiro concluíra que D. Gloria andara abusando do malte escocês novamente. 

Malte escocês ou bourbon francês, de qualquer maneira a polícia era obrigada a investigar a morte. E na autopsia descobriram traços de rohypnol, droga que faz parte do coquetel boa noite cinderela. O quê? Como? Então D. Gloria misturava álcool com remédios? Ninguém do prédio podia acreditar na hipótese de assassinato, pois isso implicaria o envolvimento de algum vizinho, e todos ali se conheciam, eram todas pessoas boas... Mas a polícia – que conhece bem os seres humanos - não se prende a essas sutilezas, e sabe que as pessoas matam, em geral, por dinheiro ou para garantir alguma vantagem pessoal. Dinheiro não era, pois D. Gloria não tinha parentes a quem deixar sua herança. 

Então, pensou a polícia, a quem interessaria a morte da síndica?

D. Julinha servia chá com bolo ao investigador, enquanto conversavam O policial soubera ser ela a pessoa mais respeitada do prédio, e, com jeitinho de neto carente, acabou por fazer a discreta senhora revelar alguns detalhes deveras interessantes. 

- Pois é, meu filho, na noite em que Gloria morreu, que Deus a tenha, estivemos eu e ela no apartamento de D. Aurélia, para jogar uma biribinha, você sabe, jogo de velhas – e riu. Aurélia é muito gentil, serviu uns licorezinhos de jenipapo para a falecida, e um chazinho para mim. Eu não bebo...

Amaciada em seu ego de doceira, D. Julinha abriu a guarda e inocentemente discorreu sobre a relação das três senhoras, em como eram amigas, apesar de Aurélia ter inveja de Glória, pois sempre tentara se eleger síndica, mas o máximo que chegava era a subsíndica. 

- Eu mesma me candidatei, uma vez, mas a Gloria era imbatível – confessou ente golinhos de chá. 

O inspetor mal conteve a excitação, até que enfim uma pista! O que aconteceu depois, D. Julinha, perguntou, comendo mais um pedaço do bolo. 

- Depois do jogo eu fui logo embora, mas as duas ainda ficaram mais um pouco.

Alguns dias depois, D. Aurélia foi presa, acusada de homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe (assumir o lugar da morta como síndica) e meios vis (drogar a vítima e friamente jogá-la escada abaixo). A mais forte prova dessa tese foi o frasco, encontrado escondido no banheiro da suspeita, contendo resquícios da mesma substância química encontrada no corpo da vítima. De nada adiantou os advogados proclamarem o absurdo do evento, nem d. Aurélia gritar sua inocência dia e noite.  

A síndica, morta; a subsíndica, presa. Uma assembléia de emergência foi convocada para uma nova eleição. D. Julinha queria muito ver se ela não seria escolhida. Se não fosse... bem, o novo síndico que se cuidasse. 

Pois fora tão fácil esperar o momento certo, durante o encontro das três na casa de Aurélia, aproveitar um instante de distração da anfitriã para entrar rápida e despercebidamente no banheiro, e esconder a droga. Sair mais cedo e esperar a síndica no corredor, forjando um encontro casual, e convidando-a para mais uma bebidinha, a cretina nunca resistia a um convite desses, quanto mais de graça. Servir-lhe um bom malte escocês - comprado especialmente para quando a ocasião propícia se manifestasse -, misturado com a droga, esperar o efeito e simplesmente levar a aturdida Gloria para as escadas e empurrá-la. Quebrar o pescoço e morrer era quase certo, cheia de osteoporose como era aquela velha chata. E se não morresse logo, ela, D. Julinha, teria dado uma ajuda extra. 

Afinal, não tinha sido enfermeira a vida inteira antes de se aposentar e a melhor aluna de química da faculdade à toa. Sabia muito bem como misturar as substâncias certas para causar o efeito desejado.

A vitória pertencia aos que sabem esperar, comemorava, bebendo seu chazinho de flor de laranjeira, fazendo um brinde especial à polícia, que caíra tão facilmente em sua artimanha.



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quinta-feira, 6 de junho de 2013

NÃO ACORDE O DRAGÃO >> Fernanda Pinho



Quando eu era criança, um dos meus brinquedos preferidos era um jogo de tabuleiro chamado Não Acorde o Dragão. O jogo consistia em fazer com que quatro pinguins completassem um circuito, carregando seus ovos em cima da cabeça. O problema é que no meio do circuito havia um dragão e, em determinado momento, ele acordava, rugia e fazia toda a estrutura tremer, derrubando pinguim com ovo e tudo.  A estratégia do jogo era, portanto, evitar que o dragão se despertasse.

Com certeza faz mais de vinte anos que eu brinquei com esse jogo pela última vez, mas tenho pensando nele com certa frequência. Sobretudo naqueles momentos em que constato desanimada que o mundo parece estar infestado de dragões.  Fiquei estarrecida quando li a notícia do senhor que matou os vizinhos e depois se matou por causa dos barulhos emitidos no apartamento de cima. Esse caso foi notícia porque o crime aconteceu em um condomínio de luxo mas, infelizmente, não é uma situação isolada. Definitivamente, a tolerância deu seus últimos suspiros e morreu.

Eu moro em apartamento (sempre no famigerado primeiro andar) há quase 15 anos e sei como é: vizinho é uma encrenca e tem hora que dá uma vontade louca de, sei lá, pegar um cabo de vassoura e dar uma cutucada no teto. Mas matar duas pessoas e deixar uma menina de um ano órfã de pai e mãe? Não, isso não tá certo. Enquanto a gente protesta a alta no preço de tomate, a vida passa a não valer nada e ninguém se  dá conta.

A vida, o respeito, a empatia. Não acho que dragão seja só quem mata. É o pai que não se abre e faz o filho tremer nas bases quando precisa ter uma conversa com ele, é o chefe tirano que acha que hierarquia te dá o direito de humilhar os outros, é a namorada que nunca está satisfeita e se mantém a espreita esperando a oportunidade de explodir. Sou eu. É você. Gente do bem que na hora do estresse dá uma rajada de metralhadora em quem só queria ajudar.

E do que é que a tolerância morreu? Eu tenho um palpite: sufocada pela falta de tempo. Não temos tempo para parar e resolver nossas pequenas causas, nossos pequenos atritos externos e conflitos internos. Deixamos acumular e na hora que pinga a gota d´água, cuspimos fogo no primeiro que tem a infelicidade de estar na mira.


Falo por mim que, na maioria das vezes que explodo, percebo tardiamente que não foi só por aquele motivo usado como escape. Mas por tantos outros que deixei passar. Minha metade dragão,  vem tentando resolver a vida em prestações, sem deixar acumular. Enquanto isso, minha metade pinguim anda acuada, medindo as palavras e as consequências, caminhando como se estivesse pisando em granadas (porque pisar em ovos é coisa dos tempos que em ainda existia alguma tolerância).

Imagem: sxc.hu


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quarta-feira, 5 de junho de 2013

ATENCIOSAMENTE, >> Carla Dias >>


Na correria do diariamente, do esquecimento como objeto abstrato deflagrador de desopilação, da alquimia das músicas diversas sendo tocadas em inúmeros iPods, da facilidade de passar por, sem despreguiçar a atenção a fim de contemplar diferença. E das tantas palavras engolidas em nome do silêncio, esse herói mal compreendido, que nasceu para pausas, para assanhar nuances, não para calar a coragem de se conjugar verbos com o som que sai de nós, nem sempre educado, nem sempre correto.

Em meio a essa selva dos sentidos, é possível se compreender que olhares são bichos que correm em liberdade, ainda que eles se façam de polidos. Nem sempre contam a melhor versão da imagem que alcançam, quase nunca são justos. Às vezes, precisam de tempo para alcançar a essência do que não sabe ser sem a necessidade de se cavar fundo para compreender. Só que também marejam fácil, de facilidade poética e entremeada em importâncias.

O que mais confunde a humanidade do ser humano, que veste a desumanização porque sim, é ele acreditar que tudo se resume ao se desligar do que não lhe cabe. Só que emoções não são desligadas aos passos dos interruptores, respeito não é roupa de festa, vida não caminha contando quilometragem. Sendo assim, bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e com licença, ao contrário do que muitos pensam, ainda são válidos e operam milagres. Gentilezas podem mudar a maré da existência de muitos, e para melhor. Conectar-se ainda é a melhor forma de se compreender a importância de ser indivíduo.

E chá quente em noite de frio e insônia equivale a um abraço.

Atenciosamente é mais que palavra para se despedir em tom amigável, em cartas comerciais. Pode nos levar a concluir contemplação, porque somente assim, com a atenção em flor, podemos reconhecer fascínios. 

Sem mais, atenciosamente embarco no universo das amabilidades.

Amém ou até mais.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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