sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O JOGO >> Zoraya Cesar

A cidade estava cheia. Turistas de diversos lugares vieram apreciar a beleza outonal que a fizera famosa e também acompanhar as últimas etapas do torneio de xadrez que a movimentava desde algumas semanas. O dia estava cinzento e um tanto nublado, embaçando a claridade da tarde que caía lentamente, trazendo consigo uma aragem fria e úmida, prenúncio certo de que a temperatura iria abaixar dali para noite.

Ainda bem que viera agasalhado, pensou ele. Devia estar chegando aos 30, aquela idade em que os homens ainda são jovens o bastante para serem audazes, e já maduros o suficiente para serem cautelosos. Era quase bonito, os cabelos pretos, o porte atlético, o ar juvenil. Apenas os olhos eram um pouco estranhos, opacos, e estavam em constante movimento. No mais, não tinha qualquer característica singular, passava despercebido; e não chamar a atenção sobre si mesmo era muito importante em seu ofício.

Caminhando em direção a uma mulher de longos cabelos louros desmazelados, encostada na amurada do lago, o homem divagava, fechando o zíper de seu casaco. Mais uma da espécie Feminae horribilis; porque sempre me colocam para trabalhar com mulheres que parecem hippies da década de 60 que esqueceram de tomar banho? Seguia com esses pensamentos, aplicando um dos métodos de relaxamento que lhe ensinaram no segundo ano do curso. Seus movimentos eram casuais e despreocupados, totalmente naturais. Diminuiu o passo ao chegar mais perto da moça, encostou-se na amurada e despendeu alguns segundos para admirar a paisagem, lembrando de seu professor, que dizia serem os ocidentais muito apressados. Aproveitem, dizia durante as aulas, para apreciar o entorno enquanto reconhecem o terreno, de que adianta percorrer o mundo sem admirar sua beleza? E sorria, fazendo aparecer tantas rugas ao redor de seus pequenos olhos amendoados que sua face redonda mais parecia um pergaminho velho e molhado.

Dirigiu à mulher uma frase banal, à qual ela respondeu com a senha correta. Num átimo, cessaram as divagações, toda sua concentração estava focada na tarefa a ser realizada. As técnicas tinham funcionado. E ele sabia que, enquanto seguisse os procedimentos, maiores suas chances de viver, e, um dia, sair do trabalho de campo para também dar aulas, como o velho professor chinês, mestre dos assassinos.

O casal começou a conversar, animados, sorridentes, ele brincando com os cabelos dela, dando instruções simples e checando se ela tinha entendido o que deveria fazer. Ninguém podia ouvi-los, mas quem os visse poderia jurar, de pés juntos, que eram amigos de longa data, quase namorados, passeando inocentemente. A maioria de nós, pelo menos, pensaria isso.

A poucos passos de distância, vários turistas escolhiam suvenires no quiosque em frente, entre eles um homem de meia idade, que parecia indeciso entre comprar um ímã de geladeira ou um pôster da cidade. Misturado à pequena multidão barulhenta, ele notou que a mulher parecia muito tensa, o sorriso forçado, mais parecendo um esgar; e que seu parceiro, embora carinhoso, olhava para tudo ao redor, sem se fixar nela. O olhar do rapaz parou por alguns breves e quase imperceptíveis instantes no homem, que, imediatamente, comentou algo com uma turista ao seu lado que a fez rir. Os olhos continuaram seu percurso, e o homem sentiu um frio na espinha. Aquele um, pensou, pelo jeito de andar e proceder, era bastante perigoso. A Agência costumava treiná-los desde cedo e os professores não brincavam em serviço. Vai ver ele até recebeu aulas do lendário professor chinês.

E a moça? Seria novata ou inocente útil? Inocente útil, concluiu. Assassinato não era para calouros, eles não arriscariam um agente em treinamento. Assim que ela cumprisse o acordado – o que teriam prometido dessa vez? Dinheiro? Tirar a família da uma vila pobre dominada pelas milícias de traficantes? Drogas? Uma carreira na Agência? – ela sofreria algum tipo de acidente fatal. Uma peça descartável, como os peões do jogo de xadrez.

Enquanto comprava algumas bugigangas, o homem pensava na ironia da situação. É senso comum que enxadristas são pessoas calmas, alheias às vicissitudes do mundo, concentrados unicamente nas jogadas que os levariam à vitória. Ledo engano. O xadrez é um jogo de guerra, e seus combatentes são seres ferozes, cuja vaidade pode levá-los a extremos de conduta. O mundo do xadrez profissional era tão violento quanto o mundo empresarial, e espionagem, sabotagens, guerra psicológica, tudo era válido para ganhar o troféu da vitória, a admiração do público, a inveja dos demais jogadores. E o prêmio em dinheiro. Tudo era válido. Até morte por encomenda.

O rapaz falou mais algumas coisas com a mulher e partiu lentamente, as mãos nos bolsos da calça, sem que ninguém mais lhe prestasse atenção. Profissional.

O homem tinha poucos segundos para decidir a quem seguiria. Considerou a periculosidade do jovem, que, possivelmente, já o notara ali no quiosque. Considerou que a moça era o elo mais fraco do esquema e que deveria saber pouca coisa de interesse. Mas, ainda assim, peões fazem parte do jogo, pensou.

Além de treinar assassinos, meu professor preferido escolhia alguns poucos alunos e lhes dava, graciosamente, aulas de estratégia – para seu prazer intelectual, dizia. Eu também tive aulas com o velho Chang, o Excelente, meu rapaz, e tenho muitos anos mais de experiência que você.

E seguiu a mulher. 


Partilhar

7 comentários:

Mauro disse...

Gostei, queria que tivesse continuação... mas fiquei um pouco confuso com as trocas de ponto de vista no meio do texto.

Anônimo disse...

Gostei da ideia de espionagem e morte entre jogadores de xadrez. Tem cada coisa nesse mundo!

Cecilia Radetic disse...

Zo, gostei muuuuito. Xadrez é um jogo de estratégia, e morte...
Perfeito, até a escolha.

cecilia

Anônimo disse...

Também quero continuação, esses finais pós-modernos me angustiam. Boa jogada a sua. M.do S.

aretuza disse...

continuação já!!!

Edgar Campanate disse...

Fantástico! Continue.

Anônimo disse...

Xadrez e morte têm tudo a ver,e espionagem tá na moda.