terça-feira, 19 de novembro de 2013

AVALANCHE DE TÓPICOS TRANSVERSAIS >> Clara Braga

Ultimamente tenho lembrado muito das minhas aulas de filosofia da escola. Sempre achei muito interessante estudar filosofia no ensino médio, mas lembro de não gostar da forma como a aula era ministrada. O professor teve uma boa ideia, trabalhar tópicos transversais, mas queria esgotar a discussão sobre o tópico em uma aula de 50 minutos. E ainda assim não usava os 50 minutos todos para discussão. Para discutir tínhamos que fazer uma roda, então eram 10 minutos no início da aula para arrumar a sala, concentrar e começar a falar sobre liberdade, ou aborto, ou gravidez na adolescência, ou drogas, enfim, sempre assuntos polêmicos para adolescentes. Depois, tínhamos os 10 últimos minutos para arrumar a sala toda novamente antes de começar a outra aula. Ou seja, discussão mesmo eram 30 minutos. Quem esgota uma discussão sobre aborto em 30 minutos?

Pra ganhar a atenção dos alunos, o professor aproveitava para comentar alguns casos que apareciam nas novelas. Era só falar daquela menina de Malhação que tinha começado a fumar para o assunto fluir. Aí, conforme íamos ficando mais velhos, fingíamos que não gostávamos mais de Malhação e passávamos a discutir sobre o que era mostrado nas novelas das 20h. E nenhuma novela é melhor do que Amor à Vida para comprovar que novela pode sim tratar de assuntos transversais. Pode, inclusive, tentar tratar de todos eles ao mesmo tempo e quase queimar o HD do nosso cérebro.

Imagino que se meu antigo professor de filosofia ainda estiver lecionando para o ensino médio, esse deve ser o ano mais feliz da vida dele. Ele nunca deve ter tido tanta cena para mostrar e estimular um debate. Só para falar assim de cabeça, só nessa novela ele pode tratar sobre o bullyng contra as gordinhas, pode falar sobre relacionamentos homossexuais, pode falar sobre casais homossexuais que querem adotar uma criança, sobre relacionamento na terceira idade, sobre Judeus e Palestinos, sobre barriga de aluguel, sobre espiritismo, sobre a vida afetiva de pessoas com deficiência, sobre câncer de mama, enfim, esses foram os tópicos que eu consegui lembrar de cabeça e assistindo à novela de vez em quando, mas com certeza tem mais coisa.

Não acho ruim que a globo esteja se esforçando para atingir diversos - e põe diversos nisso - públicos. Mas assim como o meu professor, duvido que eles consigam esgotar tudo que podem falar sobre cada assunto. Cada tópico desses daria uma outra novela! E não adianta dizer que essa novela é puro entretenimento e que a intenção não é gerar debates, nenhuma novela que é puro entretenimento trata de tantas coisas assim ao mesmo tempo. O problema é que quando a gente começa a refletir sobre o fato do César tratar o Félix com abjeção, já temos que correr para a mãe Google e relembrar porque mesmo Judeus e Palestinos são rivais! A verdade é que quando a novela termina todo mundo dá graças à Deus e vai morto para a cama dormir, não tem cérebro que resista a tantas reflexões!


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