Pular para o conteúdo principal

AVALANCHE DE TÓPICOS TRANSVERSAIS >> Clara Braga

Ultimamente tenho lembrado muito das minhas aulas de filosofia da escola. Sempre achei muito interessante estudar filosofia no ensino médio, mas lembro de não gostar da forma como a aula era ministrada. O professor teve uma boa ideia, trabalhar tópicos transversais, mas queria esgotar a discussão sobre o tópico em uma aula de 50 minutos. E ainda assim não usava os 50 minutos todos para discussão. Para discutir tínhamos que fazer uma roda, então eram 10 minutos no início da aula para arrumar a sala, concentrar e começar a falar sobre liberdade, ou aborto, ou gravidez na adolescência, ou drogas, enfim, sempre assuntos polêmicos para adolescentes. Depois, tínhamos os 10 últimos minutos para arrumar a sala toda novamente antes de começar a outra aula. Ou seja, discussão mesmo eram 30 minutos. Quem esgota uma discussão sobre aborto em 30 minutos?

Pra ganhar a atenção dos alunos, o professor aproveitava para comentar alguns casos que apareciam nas novelas. Era só falar daquela menina de Malhação que tinha começado a fumar para o assunto fluir. Aí, conforme íamos ficando mais velhos, fingíamos que não gostávamos mais de Malhação e passávamos a discutir sobre o que era mostrado nas novelas das 20h. E nenhuma novela é melhor do que Amor à Vida para comprovar que novela pode sim tratar de assuntos transversais. Pode, inclusive, tentar tratar de todos eles ao mesmo tempo e quase queimar o HD do nosso cérebro.

Imagino que se meu antigo professor de filosofia ainda estiver lecionando para o ensino médio, esse deve ser o ano mais feliz da vida dele. Ele nunca deve ter tido tanta cena para mostrar e estimular um debate. Só para falar assim de cabeça, só nessa novela ele pode tratar sobre o bullyng contra as gordinhas, pode falar sobre relacionamentos homossexuais, pode falar sobre casais homossexuais que querem adotar uma criança, sobre relacionamento na terceira idade, sobre Judeus e Palestinos, sobre barriga de aluguel, sobre espiritismo, sobre a vida afetiva de pessoas com deficiência, sobre câncer de mama, enfim, esses foram os tópicos que eu consegui lembrar de cabeça e assistindo à novela de vez em quando, mas com certeza tem mais coisa.

Não acho ruim que a globo esteja se esforçando para atingir diversos - e põe diversos nisso - públicos. Mas assim como o meu professor, duvido que eles consigam esgotar tudo que podem falar sobre cada assunto. Cada tópico desses daria uma outra novela! E não adianta dizer que essa novela é puro entretenimento e que a intenção não é gerar debates, nenhuma novela que é puro entretenimento trata de tantas coisas assim ao mesmo tempo. O problema é que quando a gente começa a refletir sobre o fato do César tratar o Félix com abjeção, já temos que correr para a mãe Google e relembrar porque mesmo Judeus e Palestinos são rivais! A verdade é que quando a novela termina todo mundo dá graças à Deus e vai morto para a cama dormir, não tem cérebro que resista a tantas reflexões!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …