sábado, 23 de novembro de 2013

A GRANDE DAMA [Ana González]

Quando acordei, depois de duas ou três horas de sono, a realidade parecia um pesadelo. Mas era verdade: ela fora embora deste mundo. Eu não poderia ficar mais tempo na cama, mesmo sabendo que a espera pela chegada de seu corpo seria longa. Minha mãe não desfrutaria da verde paisagem da serra que percorreria até sua última morada.

Olhei a roupa do armário com cuidado. O que vestir? Teria que ser algo escuro, de preferência. Não que eu respeitasse a questão do luto como há tempos se fazia: roupas discretas e reclusão. Isso mudou ao longo das décadas. Na verdade, o luto é principalmente dentro, na intimidade do ser. Assim seria.

Escolhi um conjunto preto de calça comprida e blazer. Fazia frio. Aquela bota de salto pequeno para o conforto dos pés. Não cabia outro adereço. Eu não ia a uma festa. Tratava-se de um ritual triste.

Olhei o espelho: está bom. Embora os olhos não desmintam a presença da morte, ela gostaria de me ver assim, tentando simplesmente ser elegante. Ela sempre me perguntava: “Já preparou a roupa para o jantar de aniversário?” Ou então, “Com que roupa você vai ao casamento?”.

Na verdade, essa sempre foi uma diferença entre muitas outras que nós tivemos que experimentar. Eu, distraída da vaidade, enquanto ela a tinha como elemento constituinte de sua natureza. Cabelos arrumados, pele tratada, unhas com seu desenho harmonioso em tom de goiaba. Mãos de quem não tinha que lavar louça, nem limpar casa. Ao longo da vida, tivera o privilégio de ser assessorada como uma rainha. Assim meu pai gostava de vê-la. E assim ela celebrava as comemorações de aniversário, de jantares ou festas para a família, ou nas situações de hospedagem na casa de campo em que recebia muita gente. Sempre se esmerou em eficiência, em seus movimentos pessoais ou acompanhando as andanças de meu pai.

Era uma linda mulher. A foto de quando ainda era jovem mostrava os cabelos escuros na altura dos ombros e o rosto com pouca pintura. A boca de lábios finos, bem delineada com um batom vermelho, o nariz reto e fino. Uma espanhola delicada. O meio corpo meio de lado, olhando por sobre os ombros. Uma posição de artista de cinema dos anos quarenta.

São muitas as lembranças e imagens que se misturam em minha cabeça cansada. As diferenças que vivêramos não têm significação neste momento. Mesmo os momentos de crise e de dor, de raiva e de exclusão. Tudo irrelevante. Depois, talvez eu possa fazer uma retrospectiva de nossa vida, em um quadro sem mentiras em que se coloquem nossas fraquezas e grandezas. Que eu possa revisitar, então, nossa história de forma generosa, oferecendo-me alguma verdade de nós mesmas.

Pudemos sobreviver aos desencontros. Aconteceu uma janela. Uma oportunidade de nos olharmos através do amor que chegara devagar como as ondas do mar escorregando mansinho pela areia. A massa pesada de água imensurável acabando em espumas brancas na praia. Algo findava e também chegava a um novo lugar. No branco da areia algo se alargava.

Ela foi envelhecendo. E também adoecendo. Enquanto seu desejo de viver não a abandonou, esteve carregando com altivez os anos de sua longa existência. Com saudável amor à vida. Essa talvez tenha sido a maior lição que recebi de sua presença. Amar-se e experimentar a vida com um respeito e intensidade inquebrantável e resistente. Sou muito feliz pela oportunidade de tê-la tido como exemplo, ainda que tal sensação me parecesse tão difícil em tempos atrás. Ela foi uma grande dama.

Hoje este ritual pode ser vivido em paz porque ele tem um significado especial. É com respeito e amor que a acompanho até sua nova casa. Ao final de seu tempo, a ordem se restabeleceu em nosso contato. Refez-se a hierarquia das funções familiares. Tendo-me colocado a seu lado, pude ser filha. Ser filha ao lado minha mãe. De minha velha e linda mãe.



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2 comentários:

Zoraya disse...

Ana, até na tristeza seus textos são poéticos. Que linda homenagem, à altura da Mãe belíssima que você teve: belíssima como se vê na foto; belíssima como se lê no texto.

Ana González disse...

Sim, Zoraya, belíssima também é a vida..rs... Obrigada pela presença e leitura. Bjss