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COMIDA, AMOR E PAVOR >> Mariana Scherma

Sempre amei comida. Primeiro, porque é gostoso, mata a fome e deixa a gente feliz. Segundo, porque quando é bem-feita, desperta sensações e lembranças que estavam em uma gaveta da memória fechada há tempos. Eu volto a ser criança com cheiro de brigadeiro, só acordo de verdade com o aroma de café e me sinto protegida de qualquer coisa ruim quando o cheiro do feijão da minha mãe invade meu espaço. Isso é poder pra caramba.

Mas agora ando meio broxada (a palavra é feia, mas nenhuma reflete melhor meu estado de espírito) com esse excesso de blogs e matérias em revistas de beleza ensinando jeitos e jeitos de acelerar o metabolismo, o que não comer jamais, dicas pra fazer um detox, quantos trinta litros de água você precisa por dia... Por mais que ame comida, na hora de comer, vou com moderação e alterno as gordices com minhas frutinhas, meus biscoitinhos integrais e meu prato GG de salada (se bobear, até mais amados que um brigadeiro), porque, afinal, adoro comida, mas gosto muito de mim também. Só que sempre fui assim, fui educada desse jeito, nunca precisei de uma blogueira que ama postar suas pernas torneadas no Instagram me dizer o que é certo e o que errado. E também nunca precisei sair redes sociais a fora divulgando isso.

Essa onda fitness me apavora. Bastou uma fulana avisar que toma água com vinagre pra todas aceitarem essa dica como se fosse natural. Nunca soube do poder científico disso. Comida é uma coisa linda, comida não deveria causar pânico na gente, comida é puro amor – não tem nada de maligna. Dá um pouco de dó das pessoas que vivem contando calorias, aliás, como é desagradável gente que faz conta das calorias em voz alta na mesa com os outros – e porque vivem sob uma autoimposição surreal de calorias/dia, acha que você também é assim e olham torto para o seu apetite. O mais irônico é que esses que vivem de dieta são os que mais falam de comida, principalmente de chocolate, pizza e coisas fritas, como se o prazer de falar substituísse a delícia que é comer. Uma verdade: não substituí. Jamais.

Nesse momento em que viver de maçã e chá verde é o que há de descolado, agradeço por ter sido criada pelos meus pais, que gostam de tudo e cozinham tudo. Eu como todos os vegetais do mundo, arroz, feijão, frutas variadas... Até língua de boi eu como. E gosto. Não tenho chatice com alimentação, tenho uma relação de carinho e prazer toda vez que sento pra tomar café, almoçar e jantar. E ao mesmo tempo que acho ridículo ficar divulgando a meio mundo as poucas calorias que você ingere num dia, tenho profunda pena de quem faz isso. Essas pessoas nunca vão ser felizes após um almoço de domingo em família. Será possível alguém ser feliz de fato sem um prato de arroz e feijão ou qualquer outra comidinha caseira, exalando aquele aroma mágico de carinho?

Ser saudável, ok. O problema é vender essa alimentação saudável 28 horas num dia. Tratar a farinha branca, o glúten e a carne vermelha como os maiores vilões do universo. Divulgar o vegetarianismo como a salvação dos nossos dias. Fazer com que o carboidrato simples seja crucificado em praça pública. Será mesmo?! Deram um fim ao equilíbrio? Só vale ser radical agora? Fico cada vez mais com a impressão de que muita gente anda infeliz dentro do próprio corpo, querendo virar uma versão photoshopada de si mesmo. Vai ver os zumbis da realidade são os fitness-enlouquecidos, que olham tudo ao redor com olhos de fome infinita...

Comentários

Zoraya disse…
Excelente, Mariana, devia ser divulgado amplamente, o pessoal anda muito fissurado com a aparência e se esvai na infelicidade. Gostei da frase com os zumbis, ficou bem legal.
silvia tibo disse…
Concordo plenamente, Mariana!
Nada como o cheirinho do feijão no fogo, do pão de queijo no tabuleiro, do bolo cremoso de fubá!
Dá pra levar uma vida saudável sem radicalismos, né?
Parabéns pelo texto!
Beijo

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