domingo, 3 de novembro de 2013

A MENINA DOS MAPAS >> Whisner Fraga

Quando criança, eu gostava de símbolos. Se colocarmos na balança, acho que ainda gosto. A diferença é que, naquela época, eu levava essa coisa a sério. Hoje, nem tanto. Então, estava eu na sala do Colégio Polivalente e a aula estava chata o bastante para que eu não conseguisse me concentrar no que a professora dizia. Comecei a rabiscar desenhos com as iniciais do meu nome, até que cheguei a algo bem interessante. Aí, a minha colega do lado, cujo nome não me recordo agora, mas que estudava mapas astrais e derivados, brincou: e aí, criando uma marca para o seu gado?

De fato, o que eu havia bolado se parecia com um ferrete, o que, honestamente me deixou chateado. Eu já havia visto um boi sendo marcado e o negócio todo não foi nada engraçado, a começar pelo cheiro de carne assada e a terminar pelo mugido sentido e pelo levantar de pernas que me pareceu, para ficar no mínimo, dolorido. Ademais, eu sabia que, mesmo que viesse a ser rico algum dia (fato que eu achava pouco provável), não lidaria com esse tipo de negócio. Abandonei o que parecia ser um dom mais ou menos sólido, para voltar às trivialidades matemáticas que a “tia” desfiava no quadro.

Como desistisse do sonho de produzir meus próprios símbolos, que certamente influenciariam gerações, parti para a ignorância. Assim, havia uma brincadeira corrente à época e que consistia em se colocar a mão em cima de uma folha em branco e, com uma caneta, contorná-la. Desenhada a palma no papel, a preenchíamos com imagens daquilo que curtíamos. A da minha amiga, a mesma que desdenhou do símbolo que criara com as iniciais de meu nome, trazia uns coqueiros (julguei que ela queria estar em uma praia), um anel (evidente, o sonho matrimonial de toda garota da época), um bolo (aniversário? Festa de casamento?) e alguns outros desenhos que escaparam da minha memória.

Ainda estava magoado, é evidente, de modo que não me fiz de rogado: comecei a pintar vaquinhas por toda aquela mão, até que não se pudesse ver nada que não fosse ruminante. Aproveitei a ida de minha colega de classe ao banheiro para realizar tal proeza. É evidente que ela não gostou nada. Eu me assustei um pouco com a reação exacerbada (ela chegou a puxar meus cabelos), mas não pude me conter: arrematei a obra com o símbolo que criara dias antes.

A amizade, naqueles dias, talvez fosse algo mais duradouro do que é hoje, de modo que, em poucos dias eu estava lá, pedindo desculpas. Nunca tive problema com isso, o que considero uma das minhas principais virtudes. Quando reconheço um erro que cometi, reconheço logo e peço que me perdoem. Alguns veem nisso uma fraqueza, fazer o quê?, não podemos agradar todo mundo. Ouço por aí que nem Cristo conseguiu, de forma que, convenhamos, é tempo perdido tentar.

Ao longo desses trinta anos, revi pouca gente daquela sexta série. Seria bom se o colégio organizasse, de alguma maneira, um encontro entre ex-alunos. Quando acessava o Orkut, cheguei a fazer parte de uma comunidade dedicada àqueles que fizeram parte da comunidade da escola Antônio de Souza Martins, mais conhecida como Polivalente. Enviei algumas mensagens, mas ninguém me respondeu, o que achei uma pena. Eu gostaria muito de me reunir com meus ex-colegas, para ter a oportunidade de me desculpar, outra vez mais, com aquela menina dócil e inteligente.

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2 comentários:

Renan Tobias disse...

Parabéns. Gostei bastante. Realmente, atitudes costumeiras (e até saudáveis), como as postas, perdem-se, como folhas ao vento, com o avanço da idade.

whisner disse...

Renan, devemos cultivar a lembrança e dar o exemplo. Grato pela leitura.